sexta-feira, 16 de novembro de 2018

Une Simple Histoire (Une Simple Histoire) 1959

Uma mulher mais velha olha por uma janela e vê uma mulher mais nova a dormir num campo próximo com a sua filha pequena. A mulher mais velha convida as duas para o seu apartamento, e a mãe pensa nos últimos dias da sua vida, ouvimos a sua narração enquanto vemos o filme, e por vezes assistimos aos eventos que ela descreve. Nada particularmente terrível aconteceu, a sua história ainda tem um ou dois bons samaritanos, incluindo a mulher que tomou conta dela. Mais do que o tédio no dia a dia, que compõe a narrativa, tem uma melancolia inesquecível. Como o título indica, o filme é um conto simples, e é precisamente isso que o torna tão poderoso, e tão impossível de destilar as suas causas específicas da situação da mulher.
Em voz off uma história muito simples e comovente é contada. Aproximando-se do realismo poético da Nouvelle Vague no que diz respeito a estética, esta pequena obra-prima em 16 mm, com baixo contraste para acentuar o lado negro da "cidade da luz", contando uma história muito triste. É gratificante andar pelas ruas de Paris daquela época, logicamente com luz natural, e quase sem dinheiro para fazer o filme. Abordando Bresson em termos das posturas filosóficas do cinema, e com música de Bach como fundo, música linda em tom menor, uma raridade filmica e pura poesia.
Nascido na Tunísia, Marcel Hanoun produziu um corpo de trabalho totalmente individual, em grande parte financiado fora de qualquer rede de produção convencional. O seu trabalho foi ocasionalmente elogiado na língua inglesa. Em 1970 Jonas Mekas escreveu: "Não duvido que Marcel Hanoun seja o cineasta francês mais importante desde Bresson". O filme que ele tinha acabado de ver tinha sido este "Une simple histoire".
Filme escolhido pelo Daniel Ramos.

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quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Animal Farm (Animal Farm) 1954

Os animais moradores da Granja do Solar, cansados dos maus tratos diários, rebelam-se contra o dono do local, o bêbado Sr. Jones. Depois de o expulsarem, os bichos organizam-se e instauram novas regras, formando uma comunidade democrática, livre do domínio dos humanos. Os inteligentes porcos, no entanto, depressa tratam de impor as suas ideias e um novo reinado do terror começa a ganhar forma.
Filme de animação dirigido por Joy Batchelor e John Halas para o livro Animal Farm do brilhante escritor George Orwell nos conta mais sobre a nossa sociedade do que sobre nossos animais. 
O nosso convidado que escolheu o filme, escreveu o seguinte texto sobre esta obra: "A acção situa-se numa realidade distópica, longe dos antropomorfismos maniqueístas característicos de alguns filmes de animação. É a primeira adaptação da obra de George Orwell e caracteriza-se por uma visão cruel, trágica, onde a morte e o horror estão presentes. Só a consciência do poder totalitarista e da união poderá libertar os oprimidos e conduzi-los a um futuro mais esperançoso".
Filme escolhido pelo Alexandre Batista. 

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terça-feira, 13 de novembro de 2018

Adivinha Quem Vem Jantar (Guess Who's Coming to Dinner) 1967

Joanna (Katherine Houghton), a bela filha de um editor liberal, Matthew Drayton (Spencer Tracy) , e a sua esposa aristocrata (Katherine Hepburn), regressa a casa com o novo namorado Joh Prentice (Sidney Poitier), um ilustre médico negro. Cristina aceita a decisão da filha de se casar com John, mas o pai está chocado com esta união inter-racial; bem como os pais do médico. Para acertar as coisas, ambas as famílias devem sentar-se frente a frente e examinar os seus níveis de intolerância.
Apesar de muitos considerarem "Guess Who's Coming to Dinner?" como um filme datado, penso que é injusto ser considerado como tal. Talvez tivesse mais peso na altura em que estreou do que agora, mas o fanatismo era muito mais alarmante naquela altura do que agora, e ele ainda existe. Além disso há outros tipos de relações que são tão tabus hoje como as interaciais de então, então os temas podem ser facilmente traduzidos desta forma: se duas pessoas se apaixonam e estão dispostas a sacrificar tudo, o que as mantém separadas?
"Guess Who's Coming to Dinner?" conseguiu 10 nomeações para os Óscares, conquistando dois (Hepburn e o argumento), mas não foi considerado uma obra de arte na altura da estreia, tendo sido reavaliado mais tarde quando Hollywood começou finalmente a abordas as questões interaciais de uma forma mais significativa. Ironicamente Poitier foi esquecido nas nomeações, neste filme, talvez porque os nomeadores estavam divididos entre considerá-lo um actor principal ou secundário, e em vez disso nomearam Spencer Tracy para melhor actor, numa nomeação póstuma, já que Tracy tinha falecido no mês de Junho anterior.
É um filme bastante sólido, onde as interpretações são a peça central do filme, transformando o que poderia ter sido um filme obscuro em algo com maior substância. Ao principio pode parecer como uma peça filmada, mas com um elenco tão favorável acaba por ser um filme bastante acima da média, e um óptimo trabalho de realização de Stanley Kramer.
Filme escolhido pelo Peter Gunn. 

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segunda-feira, 12 de novembro de 2018

A Senhora Parker e o Círculo do Vício (Mrs. Parker and the Vicious Circle) 1994

Em 1937, a viver em Hollywood, Dorothy Parker (Jennifer Jason Leigh) relembra os tempos em que pertencia ao grupo Algonquin Round Table, formado por amigos escritores na Nova York dos anos 20. Entre festas, romances e amizades com os escritores, Dorothy passa pelo alcoolismo, comportamento auto-destrutivo e tentativa de suicídio. 
Entre um elenco de luxo, que inclui estrelas como Campbell Scott, Mathew Brotherick, Peter Gallagher, Jennifer Beals, Martha Plimpton, Lili Taylor, Gwyneth Paltrow, entre tantos outros, destaca-se uma Jennifer Jason Leigh, perfeita como Parker, desde os seus padrões de discurso nasal até há sua capacidade física e mental para a crueldade, Leigh capta todas as falhas e fraquezas de uma personagem cínica, espirituosa, e apesar do seu brilho, antipática. Alan Rudolph dirige com o seu habitual talento improvisatório  e uma tendência ao elipticismo. Robert Altman, principal fonte de inspiração do realizador, é o produtor, recusando-se a apressar-se para produzir um filme biográfico literário, bem diferente do que qualquer outro.
Como sempre, é uma peça brilhantemente recriada por Rudolph, com a criação de um período passado maravilhosamente evocado pelo design sensual de produção de  Francois Seguin, com a banda sonora de Mark Isham a ser uma das suas melhores, e uma fotografia ressonante de Jan Kiesser que realmente atrai os espectadores de volta para os anos 20 e 30.
Legendas em Inglês.
Filme escolhido pelo Robson Seixas.

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domingo, 11 de novembro de 2018

Eles Não Usam Black-Tie (Eles Não Usam Black-Tie) 1981

Em plena ditadura militar, Tião (Carlos Alberto Riccelli) descobre que sua namorada, Maria (Bete Mendes), está esperando um filho e decide se casar com ela. Ambos trabalhavam na mesma fábrica, juntamente com o seu pai Otávio (Gianfrancesco Guarnieri), um militante sindical, outrora foi preso pela ditadura militar, pois lutava pela melhoria dos direitos trabalhistas para a classe.
Porém, todos os trabalhadores sindicais entram em greve no país. Com medo de perder o emprego e não poder sustentar a mulher e o filho, ele fura a greve, contrariando seu pai e sua namorada, que ficam furiosos com a sua decisão.
Gianfrancesco escreveu Eles não usam Black-tie para o Teatro de Arena em 1958, quando tinha apenas 21 anos de idade. Vinte e três anos depois, Hiszman adaptou o roteiro para o cinema, arrebanhando importantes prêmios nacionais e internacionais, inclusive o Leão de Ouro do Festival de Veneza, em 1981.
O filme foi um marco no cinema político neo-realista nacional. Hiszman gostava de abordar temas relativos à pobreza, que retratavam a realidade do Brasil. O elenco monstruoso é composto por Carlos Alberto Riccelli, Bete Mendes, o próprio Gianfrancesco Guarnieri, a grande Fernanda Montenegro, que é destaque no filme da primeira cena em que aparece até a última, Milton Gonçalves, Francisco Milani, dentre outros. 
O filme não se refere apenas à realidade do país na época. Fala do posicionamento de cada um referente às dificuldades da vida. Há aqueles que cruzam os braços e se conformam com as dificuldades impostas pelos mais altos da cadeia e aqueles que lutam pelos seus direitos de melhoria, pela sua liberdade. 
As cenas do filme, como as últimas em que Fernanda Montenegro e Gianfrancesco estão na cozinha catando feijão e a que os trabalhadores caminham pelas ruas com o corpo de Milton Gonçalves em um caixão, são tão marcantes e talvez eu não tenha visto cenas mais poderosas que essas em nada ao que se diz cinema nacional. * Texto de Fernanda Kalaoun.
Filme escolhido pelo Marc NT

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sábado, 10 de novembro de 2018

Brevemente...

Todos sabemos que no Natal se esperam coisas que tenham a ver com o espírito natalício...
Mas também sabemos que o My Two Thousand Movies não é um sitio como os outros...


sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Cronicamente Inviável (Cronicamente Inviável) 2000

"Um Brasil caótico e hipócrita é o retrato pintado por Sérgio Bianchi em “Cronicamente inviável”. Um Brasil nojento em que ninguém se salva de sua culpa, onde as relações de opressor e oprimido estão expostas a toda prova tendo como ponto de interseção o restaurante de Luiz (Cecil Thiré). 
 Seis personagens centralizam o filme. Luiz é um homem refinado que acredita na civilidade e nas boas maneiras como forma de se resolverem os problemas. Amanda (Dira Paes) é a gerente de seu restaurante, uma mulher de origem pobre que incorpora a ética e os costumes burgueses. Adam (Dan Stulbach) é um sulista descendente de poloneses que vai trabalhar como garçom no restaurante. Maria Alice (Betty Goffman) é uma mulher de classe média alta que se compadece com as injustiças sociais. Seu marido Carlos (Daniel Dantas) é um economista que acredita na racionalidade e no pragmatismo do capitalismo. Por fim, Alfredo (Umberto Magnani) é um pesquisador que viaja pelo Brasil procurando compreender e refletir as relações de dominação e opressão. 
 O que mais gostaria de chamar a atenção com relação ao filme são as reflexões em off dos personagens recheado de diversas frases e idéias mais facilmente encontradas em livros do que ditas em cinema. “A felicidade é uma perfeita forma de dominação autoritária” reflete Alfredo ao analisar o torpor da população baiana que, mesmo se submetendo à intensa exploração de sua força de trabalho, comandada por uma burguesia que combina o velho coronelismo com a neotecnocracia, é “dominada” por uma boa caixa de som que toque o hit do momento. Contudo, essa indústria cultural será seccionada por classe. Existe a micareta com o trio elétrico, desfrutado por turistas estrangeiros e pela juventude abastada do Sudeste e a “pipoca”, lugar em que milhares de festeiros se espremem e se acotovelam com o intuito de também “curtir” o som e ainda apanham da Polícia e dos seguranças contratados para protegerem a propriedade territorial privada."
Podem ler mais aqui.
Filme escolhido pelo Otacilio Ramos Jr.

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quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Mangue Negro (Mangue Negro) 2008

Certo dia, numa comunidade de pescadores tão pobre como fora do tempo, a natureza resolve mostrar o seu lado macabro. Do manguezal de onde sai o mísero sustento emergem zombies canibais. Ninguém sabe o que causa a “contaminação”. O que interessa é fugir e sobreviver para fugir de novo. A cada mordida, pais, amigos e irmãos transformam-se em criaturas abomináveis. Diante de um horror que não recua nem com a claridade do dia, que não poupa sequer peixes e crustáceos, um sobrevivente relutante e amedrontado descobre-se hábil com o machado e péssimo na hora de se declarar para a morena que faz o seu coração bater.
"As vantagens de se produzir um filme de terror no Brasil são grandes. Mesmo que a história não seja digna, o interesse dos críticos, dos acadêmicos e dos cinéfilos é aguçado por conta da lacuna deste gênero na história do cinema brasileiro. Temos o legado de Zé do Caixão, indiscutivelmente um lutador que hoje é visto como parte integrante do cânone, mas que no passado era tratado com desleixo. Condado Macabro, em 2015, apresentou uma versão bem brasileira do gênero slasher e não decepcionou.
 Mangue Negro, lançado muito antes, em 2008, também “inaugurou” os filmes com a temática “zumbi” por aqui. O resultado não é uma obra-prima, mas é no mínimo curioso. Como dito anteriormente, o fato de não termos este tipo de produção como algo constante torna a obra objeto de curiosidade e culto. Dirigido por Rodrigo Aragão, a produção aborda uma contaminação num mangue no interior do Espírito Santo, um dos estados menos favorecidos como espaço fílmico nos registros da nossa cinematografia. 
A tal contaminação se espalha rapidamente e transforma os pescadores da humilde comunidade em monstros devoradores de carne humana. Apresentado no formato que lembra esquetes, haja vista a sequência de diferentes linhas narrativas que se encontram mais adiante, o foco central do roteiro é o amor do carinhoso Luís (Walderrama dos Santos), dedicado cotidianamente a doce Raquel (Kikka de Oliveira). Ele constantemente tenta se declarar, mas as suas investidas descem por água abaixo, ganhando projeção apenas quando o apocalipse zumbi se instala e assumindo a postura do herói ao estilo Ash, de Evil Dead, Luís precisa tomar o comando da situação e tentar salvar a si e a sua amada."
Texto de Leonardo Campos. Podem ler mais, aqui.
Filme escolhido pelo Sandro Gomes. 

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terça-feira, 6 de novembro de 2018

Os Diabos (The Devils) 1971

Na cidade francesa de Loudun, em 1604, as freiras num mosteiro começam a agir como se estivessem possuídas por demónios. A intervenção da Inquisição leva a consequências sangrentas. Passado durante o violento regime católico que tomava conta da França no passado século XVII, parte da suposta possessão de uma madre-superiora (Redgrave no papel de Sister Jeanne) cujas fantasias sexuais com o mais proeminente padre da localidade de Loudon (Urbain Grandier, interpretado por um surpreendente Oliver Reed) resulta num dos mais sangrentos episódios daquela época.
Vaga interpretação de um evento histórico infame na França do século XVII baseia-se numa adaptação do livro de Aldous Huxley, "The Devils of Loudun," e numa peça onde John Whiting se baseou no mesmo livro. É Ken Russell na sua melhor excessividade visual, e pior dramaticidade. Esta versão de Russell é diabolicamente engraçada como filme camp, muito valiosa em termos visuais graças aos cenários de Derek Jarman, aqui alguns anos antes de se tornar num realizador de créditos firmados.
O status de gigante esquecido tem perseguido Russell ao longo dos anos. Para cada realizador que ele inspira, para cada filme que presta homenagem aos seus conceitos esotéricos parece ter ficado ainda mais esquecido. Ao longo das décadas de sessenta e setenta a sua reputação de bad boy do cinema britânico era rivalizada apenas pelos grandes filmes que realizava, clássicos pós-modernos como "Women in Love", "The Music Lovers" ou a sua adaptação dos The Who, "Tommy". Hoje é uma influência importante entre muitos, excepto entre os mais eruditos cinéfilos. "The Devils" é considerado uma das suas maiores obras nos tempos correntes, mas difícil de ser visualizado
Filme escolhido pelo Alexandre Mourão.

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sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Godspeed You! Black Emperor (Goddo Supiido Yuu! Burakku Emparaa) 1976

A década de setenta no Japão viu o aparecimento de gangues de motociclistas, que despertaram o interesse dos mídia. O filme segue um membro do gang  "Black Emperors", e a sua interacção com os pais depois de se meter em problemas com a polícia. 
O cinema japonês das décadas 60 e 70 do século passado pode ser caracterizado pela abundância de filmes locais que abordavam a juventude daquela época. Nagisa Oshima, Seijun Suzuki começaram a ver a enorme lacuna que estava a ser criada por uma sociedade japonesa que se estava a modernizar rapidamente. Os mais velhos que tinham passado pelas tragédias e pelas dificuldades do pós-guerra não conseguiam entender a liberdade que mantinham as novas gerações de japoneses. Como a distância era óbvia, era natural que os filhos se separassem dos pais e se juntassem em grupos. "Godspeed You! Black Emperor", de Mitsuo Yanagimachi, era um documentário que seguia um grupo de motociclistas e tentava pintar um quadro claro e real sobre quem era esse grupo de jovens alienados e porquê e como se estavam a revoltar.
O grupo de motociclistas do nosso interesse chama-se Black Emperors, e gostam de passear à volta de Shinjuku com as suas motos barulhentas, carregando armas e procurando brigas com outros gangs, ou até mesmo com a polícia. Yanagimachi mostra um membro a ser aceite no gang, com os restantes membros a apresentarem-se, orgulhosamente declarando que são mendigos, desistentes da escola ou desempregados. Não é uma imagem bonita, jovens japoneses pintando as paredes da cidade com a suástica, provavelmente não sabendo o que o símbolo significa, raspam as sobrancelhas, e incomodam os seus pais com acusações de mau comportamento. 
Legendas em inglês. 
Filme escolhido pelo André Mendes. 

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quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Boy Eating the Bird's Food (To Agori Troei to Fagito tou Poulio) 2002

Um rapaz de Atenas está sem trabalho, dinheiro, ou qualquer coisa para comer. Incapaz de conseguir um emprego na sua área preferida, como cantor, um num call center, o nosso rapaz vive sozinho no seu apartamento, com contas a acumular, e sem meios de sustento ou apoio. Depois de ser despejado recorre a medidas cada vez mais desesperadas para se manter vivo. Só se preocupa com o seu canário, com quem partilha todos os alimentos e água que tem.
O espectro da actual crise económica grega acentua-se nesta impressionante primeira obra, que vê o realismo e a alegoria lado a lado. "Boy Eating the Bird's Food" é um filme por vezes difícil e intenso,  com o realizador Ektoras Lygizos a utilizar a câmara na mão para acompanhar três dias na vida do protagonista. É um filme que comunica em elipses, dando-nos apenas pedaços de informações sobre o porquê do rapaz estar a viver como está. Ideias sobre a dignidade, masculinidade e orgulho estão a ser discutidas aqui, fando tanto sobre a situação grega como da situação em particular do rapaz.
No centro de toda a situação está Yannis Papadopoulos, como personagem protagonista, com uma interpretação quase sem palavras, cheia de desespero e loucura mal disfarçada. Em cada cena, a intimidade do seu retrato (incluindo uma cena de masturbação gráfica) é quase desconfortável, mas decididamente surpreendente.
Embora o filme não seja perfeito, na sua imperfeição, existe também algo de crú e belo, e o nome de Ektoras Lygizos é um nome para seguir no futuro. Por enquanto aguarda-se com expectativa a sua segunda obra.
Filme escolhido pelo Carlos Pereira.

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terça-feira, 30 de outubro de 2018

Sita Sings the Blues (Sita Sings the Blues) 2008

O filme é sobre Sita, a deusa hindu do épico "The Ramayana" que acompanha Lord Rama num exílio de 14 anos numa floresta. Sita é raptada por Ravana, o governante de Lanka. O filme conta a história de Sita com Rama, ao mesmo tempo que conta a história biográfica da relação da realizadora com o marido.
Parte autobiografia, parte mitologia, parte musical...uma fusão de elementos surpreendentemente originais que fazem desejar que hajam mais filmes como este. Nina Paley apresenta a dissolução do seu casamento depois do marido aceitar um emprego na Índia. Ela transporta isso do conto hindu de Ramayana, no qual Sita permanece firme na sua devoção a Rama, apesar do tratamento insensível que tem em troca. A história é ainda mais envolvida por canções da década de 20 cantadas por Annette Hanshaw, em sequências musicais que ilustram a história de Sita. Não existem factos exactamente paralelos entre os fios narrativos da vida real de Paley e as aventuras de Sita, mas a dor é a mesma. E no processo Paley também demonstra como podemos usar a nossa dor para criar mais arte.
Também é um testemunho glorioso do mundo da animação, especialmente da animação por computador. Paley utiliza a tecnologia como uma ferramenta para criar estilos muito diferentes, cada um agradável e/ou encantador e/ou deslumbrante à sua maneira. O filme também inclui um intervalo de 2:30 minutos no qual os personagens se movimentam e obtêm comida, e os sons da audiência são ouvidos. As cortinas abrem após o intervalo para uma dança fabulosa coreografada com uma fantástica música indiana.
Filme escolhido pela Vanessa S. Dias.

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sexta-feira, 26 de outubro de 2018

Blissfully Yours (Sud Sanaeha) 2002

Para a sua segunda longa-metragem, "Blissfully Yours", Apichatpong Weerasethakul criou uma representação delicada e impressionista de uma tarde perguiçosa de Verão dividida entre Min (Min Oo), um birmanês que cruzou ilegalmente a fronteira para a Tailândia à procura de trabalho, a sua namorada Roong (Kanokporn Tongaram), uma mulher mais velha que Roong contratou para ajudar Min. O filme é descomprimido a um grau extremo: praticamente nada acontece na sua duração de duas horas, já que as tarefas rotineiras e os longos momentos de êxtase são capturados e explorados pelas suas nuances emocionais e sensuais.
"Blissfully Yours", uma descrição onírica da realidade de várias pessoas comuns, é um pouco menos bizarro em termos de cenário, do que estrutura e edição. Numa altura em que o cinema tailandês girava mais em torno de melodramas passados nas linhas das fábricas, era animador ver realizadores como  Weerasethakul ou Pen-ek Ratanaruang (do hipnotizante "Last Life In The Universe") tentarem trabalhar fora da caixa. Weerasethakul criou a produtora Kick The Machine para ajudar os jovens realizadores tailandeses a realizarem os seus projectos. O realizador disse que pretendia fazer um "filme sobre um desastre emocional", e conseguimos perceber porquê. O desconfortável triângulo amoroso torna-se mais óbvio quando as duas nulheres entram em conflito por pequenas coisas. 
Enquanto que o seu primeiro filme, "Mysterious Object at Noon" era um modelo para o cinema "no budget", e a preto e branco, "Blissfully Yours" explode com cores e luxúria, levando o realizador a inúmeros festivais no ocidente, incluindo o Festival de Cannes, onde ganhou o prémio Un Certain Regard, um dos mais importantes do certame.
Filme escolhido pelo Paulo Alexandre Mota.

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quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Yi-Yi (Yi-Yi) 2000

"O filme mais acessível de Edward Yang e provavelmente o melhor desde "Guling Jie Shaoniam Ska Ren Shijian", esta película do ano 2000 acompanha três gerações de uma família contemporãnea de Taiwan, de um casamento até a um funeral e, embora dure três horas, momento algum parece vão.
Trabalhando uma vez mais com actores amadores, Yang arranca um desempenho notável a Wu Nien-Jen  - ele próprio um importante argumentista e realizador - como N.J., um sócio de meia idade de uma empresa de informática em declínio, que espera formar uma parceria com um desenhador de jogos japonês, e que tem um encontro secreto em Tóquio com uma mulher (Su-Yun Ko) que abandonou trinta anos atrás. Outros personagens importantes em "Yi Yi" incluem o filho de oito anos do herói (Jonathan Chang), a filha adolescente (Kelly Lee), a mulher espiritualmente traumatizada (Elaine Jin), a sogra comatosa (Ru-Yun Tang) e o cunhado endividado (Hsi--Sheng Chen). O filho - um prodígio cómico e frio chamado - Yang-Yang  - tem mania de fotografar aquilo que as pessoas não vêem, por exemplo, a parte de trás das próprias cabeças, porque, para ele, é a parte da realidade que falta.O rapaz parece ser o porta voz de Yang, a quem parece não faltar nada quando entrelaça pontos de vistas divergentes e comoventes refrões emocionais, criando um dos mais ricos retratos da família do cinema moderno." 
Texto de Jonathan Rosenbaum
Venceu o prémio de Melhor Realizador em Cannes, com o Melhor Filme a fugir para "Dancer in the Dark".
Filme escolhido pelo Bruno Villar.

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segunda-feira, 22 de outubro de 2018

The World of Kanako (Kawaki) 2014

O pai de Kanako, ex-investigador que não mantém contacto com ela, é informado do seu desaparecimento, e vai, quase literalmente, até ao inferno para tentar encontrá-la. Nesse caminho, descobre que a sua filha "exemplar" não era exactamente o que ele pensava.
Superficialmente esta história parece muito familiar: um homem partido que embarca numa árdua busca para vingar o seu coração. É uma reminiscência de outros títulos mais proeminentes no género chamado "Asian Extreme", um género pilotado por realizadores aclamados como Takashi Miike ("Audition", "13 Assassins") e Park Chan-Wook, que fez o género explodir no exterior com o êxito "Oldboy", em 2003. Este novo filme do japonês provocador Nakashima Tetsuya ("Confessions", "Kamikaze Girls") é uma obra não apenas cheia de acenos ao filme seminal de Chan-Wook, sobre um homem emocionalmente destruído a recolher as peças do seu passado, mas também faz referências a obras como "The Searchers", na sua consideração fordiana à imprudente raiva patriarcal. Enquanto possui alguns elementos no enredo que o ligam a "Confessions", abandona os seus formalismos por algo mais espontâneo, chegando a integrar alguns pontos com anime.
Tetsuya Nakashima desenvolve aqui um mundo marcado pela extrema violência, emocional e física, pontuada por momentos de exuberância. "Matsuko", "Confessions" e "The World of Kanako" foram todos adaptados de livros de autores diferentes, há um fascínio contínuo por jovens raparigas adolescentes, e pelo estranho mundo fechado que elas habitam. E apesar de algumas cenas de acção elegantemente encenadas, a grande atracção do filme acaba por ser o actor principal, Kôji Yakusho.
Filme escolhido pelo Diogo Barbosa.

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domingo, 21 de outubro de 2018

Uma Questão de Confiança (Trust) 1990

Maria é uma rapariga de 16 anos. No dia em que anuncia aos pais que está grávida e pretende desistir do liceu, o pai morre instantaneamente de ataque cardíaco, o namorado acaba com ela e a mãe expulsa-a de casa. Perdida e sozinha, Maria começa a vaguear pelas ruas em busca de um sítio para ficar. É então que encontra Matthew, um técnico informático, também ele um fugitivo aos abusos constantes do seu autoritário pai. Depois de uma primeira tentativa de ficarem em casa de Matthew, acabam por se mudar para casa de Maria, onde vivem a sua mãe e Peg, a irmã mais velha. À medida que os dias passam e as aventuras se sucedem, entre Maria e Matthew vai-se sedimentando uma relação de confiança, admiração e respeito mútuos. Maria chama-lhe amor.
Hal Hartley escreve e realiza o seu segundo filme, o sucessor do bastante prometedor "The Unbelievable Truth", também este um drama em tons de comédia negra, que regressa à mesma localização suburbana de Long Island, para mais uma vez se aprofundar na vida familiar disfuncional da classe trabalhadora e da classe média. É sobre a relação inimaginável entre dois desajustados de diferentes tendências, Adrienne Shelly como uma estudante do ensino médio grávida, e Martin Donovan um electricista intelectualmente talentoso e graduado. 
O filme combina a sagacidade da assinatura de Hartley com romance à mistura. Faz comentários irónicos sobre a respeitabilidade da classe média e oferece uma visão mais realista, porém mais sombria, sobre questões como o abuso dos pais e o assédio sexual. Também abraça questões controversas como o aborto. É um filme anti-convencional, não adequado para todos os gostos, mas orgulha-se em captar o verdadeiro sabor dos adolescentes rebeldes de "Rebel Without A Cause", de Nicholas Ray.
Filme escolhido pela Catarina Pires.

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sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Werckmeister Harmóniák (Werckmeister Harmóniák) 2000

Numa cidade provinciana da Hungria faz muito frio, mas não neve. Neste frio desnorteado centenas de pessoas estão para das em redor da tenda do Circo, que fica na rua principal, para ver, como resultado desta espera, a carcaça empalhada de uma baleia verdadeira. As pessoas chegam de todos os lados, das cidades vizinhas, e mesmo dos lugares mais distantes do país, atrás desta criatura, como uma multidão sem rosto. Este corrente estado de coisas perturba a ordem da cidade, e algumas personagens tentam aproveitar-se da situação. A tensão cresce o suficiente para libertar emoções destrutivas...
O realizador húngaro  Béla Tarr realiza aqui uma fábula estranha mas espantosamente maravilhosa, que parece ser uma alegoria, mesmo que o realizador diga que não é. Pode ser vista como uma história sombria de terror cósmico, inquietante e não facilmente interpretado, pois fala da ordem harmónica das coisas perturbadoras, e do caos que se torna a ordem do dia. 
"Werckmeister Harmonies" é baseado num livro de 1989 (o ano em que o socialismo de estado terminou na Hungria), chamado ''The Melancholy of Resistance'' de László Krasznahorkai. Tarr, em conjunto com a sua esposa e montadora Agnes Hranitzky são fieis ao espírito do filme, embora o filme seja muito diferente em termos de estrutura,  incluindo um chocante take de oito minutos de duração, sem diálogos, que não estava no livro. 
A velocidade relativamente lenta e o preto e branco criam um clima visual chocante, que amplia a inquietação apocalíptica que é desencadeada quando o circo chega à cidade. Além disso, todos parecem comunicar através da telepatia e não da fala, o que aumenta mais a sensação única de hipnotizar e arrepiar que o filme tem. 
Filmes escolhido pelo Luis Baía.

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terça-feira, 16 de outubro de 2018

O Grande Engarrafamento (L'ingorgo) 1979

Um tremendo congestionamento atingiu o anel da auto-estrada de Roma. O maior engarrafamento já visto perdura pro mais de 36 horas. As pessoas bloqueadas nos seus carros reagem normalmente no início, mas com o passar do tempo começamos a ser testemunhas de alguns dramas pessoais, reacções histéricas e muito mais. Todos os episódios estão ligados como um enredo. Os carros e os seus donos são um microcosmos de histórias para um universo maior.
Um dos filmes cómicos negros de Luigi Comencini, feito por episódios com numerosas estrelas: Alberto Sordi, Annie Girardot, Fernando Rey, Marcello Mastroianni, Steffania Sandrelli, Ugo Tognazzi, Gérard Depardieu, Miou-Miou, e apresenta um gigante engarrafamento que serve de metáfora para a desorganização política de Itália, a indisciplina, e o caos social. Enquanto o industrial interpretado por Sordi se porta cinicamente as coisas funcionam melhor em Moscovo porque as linhas de tráfico estão sempre abertas. Cada personagem do filme se porta mal, e a última imagem do filme é uma longa linha de carros imóveis a irem, como a Itália, para lado nenhum.
É uma das últimas chamadas "commedia all'italiana", e também é um dos últimos filmes decentes de Luigi Comencini, que tinha-se destacado neste género nos últimos 20 anos.
Legendas em inglês.
Filme escolhido pelo João Ricardo Oliveira.

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segunda-feira, 15 de outubro de 2018

O Companheiro (The Dresser) 1983

Durante a 2ª Guerra Mundial vive um idoso (Albert Finney), mas famoso actor shakespeariano, que agora está frustrado, senil e à beira de uma crise nervosa. É conhecido pelo elenco e equipa apenas como "Sir" e continua com a sua temporada pelos teatros britânicos com um grupo de velhos actores, que ficaram isentos do serviço militar. Sir exerce uma tirânica liderança na companhia, que começa a desmoronar em virtude da sua idade e do seu estado de saúde. Ele conta com Norman (Tom Courtenay), o seu camareiro, um homossexual infinitamente fiel que tem uma dedicação tão extrema que até é irritadiça. Neste momento estão a encenar "Rei Lear" e Norman inclina-se às exigências por vezes absurdas do seu patrão, cuida da sua saúde e procura lembrá-lo do papel que está a encenar...
Peter Yates realiza esta competente, descontraída e teatral adaptação de uma premiada peça da Broadway de Ronald Harwood. O seu ponto mais forte é sem dúvida a interpretação, com ambos os protagonistas, Albert Finney e Tom Courtenay a serem nomeados para o Óscar, com a actriz Eileen Atkins a tentar, e quase conseguir, roubar o filme. 
Yates captura o ambiente levemente decadente da Grâ-Bertanha dos tempos da guerra, e evoca a sensação de dedicação dos pequenos actores, mesmo quando eles se queixam e reclamam. Sir, o personagem de Finney, baseado no actor Donald Wolfitt, de quem o argumentista Ronald Harwood supostamente foi camareiro, possui um domínio tirânico sobre toda a sua companhia, apesar de estar cheio de inseguranças que o transformam repetidamente de um egoísta de voz alta, num homem fraco a gaguejar, e agarra a nossa simpatia aos poucos, e é aqui que o poderoso desempenho de Finney brilha, transformando uma personagem estereotipado num ser humano real atormentado por todos os medos. Courteney acompanha o seu desempenho, que pela forma como ele habita o seu personagem, parece ter sido feito à sua medida.
Filme escolhido pelo Pedro Fiuza.

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