segunda-feira, 16 de julho de 2018

A Lenda do Santo Bebedor (La Leggenda del Santo Bevitore) 1988

Um vagabundo, exilado em Paris e assombrado por um passado criminoso, não vê saída para a sua situação, até que, quase milagrosamente, recebe 200 francos de um estranho rico, cujo único pedido é que, quando puder pagar, devolva o dinheiro a uma capela em honra de Santa Teresa. Um homem de honra, mas com vontade fraca, aproveita a hipótese de voltar para um mundo do qual já era um estranho, encontrando trabalho, a companhia de mulheres, jantando em restaurantes e dormindo em boas camas. Mas, tais luxos, entretanto, distraem-no da sua obrigação...
Esta adaptação de Ermanno Olmi sobre uma obra de Joseph Roth, é fiel e encantadora, filmado com uma simplicidade que está próxima do livro original. Na pele do ex-vagabundo Rutger Hauer tem uma interpretação que mistura o orgulho, a dignidade, e a vulnerabilidade da personagem, enquanto Olmi evita o realismo prosaico na sua evocação de Paris, vista aqui como uma cidade estranhamente atemporal e universal. O filme tem a ressonância e a inocência de uma parábola, com os seus elementos religiosos amplamente subordinados a uma história que é contada com o mínimo de diálogo e barulho explicativo. O porquê do filme ser tão difícil é complicado de definir, talvez seja porque Olmi tenha tanta certeza do seu toque gentil e generoso que não sente necessidade de exagerar.
Ganhou o Leão de Ouro no Festival de Veneza, em 1988.

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domingo, 15 de julho de 2018

Cammina Cammina (Cammina Cammina) 1983

Quando Mel, um sacerdote astrónomo, descobre uma nova estrela no céu, interpreta a sua chegada como a vinda de um rei salvador que trará justiça e bondade à terra. Um grupo de peregrinos reúne-se para começar uma jornada para lhe prestar homenagem. Este grupo inclui ricos e pobres, jovens e velhos, soldados e camponeses, e uma mulher em decadência. Esta jornada através do deserto, ao longo das costas oceânicas, sobre as montanhas e através das florestas, é difícil, e muitos voltam para trás. 
No seu primeiro filme desde "A Árvore dos Tamancos"  Ermanno Olmi cria uma rica e fascimante parábola dos reis Magos. Embora "Cammina Cammina" seja baseado nos relatos bíblicos do conto, também incorpora elementos temáticos de outras fontes. O filme, cujos personagens são interpretados por actores não profissionais, tem uma simplicidade e um ambiente que faz lembrar "O Evangelho Segundo São Mateus", de Pasolini.
Tem havido relativamente poucos filmes sobre a natividade, e quase todos os que foram feitos contam sempre a história sob a perspectiva de Maria e José. "Cammina, Cammina" é em muitos aspectos o filme perfeito sobre o assunto, porque concentra-se em tudo à volta de Maria e José, e na mais longa e perfeita viagem feita pelos homens sábios. Ao fazê-lo, examina a história da natividade em geral, bem como a idéia da peregrinação com muito mais profundidade. 
Legendas em inglês.

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sexta-feira, 13 de julho de 2018

A Árvore dos Tamancos (L'albero Degli Zoccoli) 1978

"Nesta recriação elegíaca das vidas dos camponeses da Lombardia, Ermanno Olmi proporciona um antídoto contra a angústia dos seus anteriores retratos da Itália contemporânea. Várias histórias emergem de pormenores do trabalho dos camponeses e da vida comunitária: o namoro e boda de um casal de um casal jovem e modesto; um pai cortando a árvore do proprietário rural para fazer uns sapatos para o filho e ir à escola; um velho adubando tomates com estrume de galinha para eles amadurecerem mais cedo. A iluminação suave, aparentemente quase toda de fontes "naturais" e, acima de tudo, a banda sonora precisa e discreta dá-nos a sensação de assistir a uma realidade quase sem sombra de intermediários. A brevidade dos planos é uma declaração directorial, não nos deixando envolver, por muito tempo, numa actividade ou num ponto de vista e permitindo ao filme expandir-se, placidamente, em múltiplas direcções.
Numa sequência privilegiada, uma mulher reza enquanto caminha, enche uma garrafa de vinho num regato e vemo-la finalmente, em silhueta, à porta de uma igreja. É aqui, talvez (ou na utilização de Bach em diversas alturas do filme), que um espectador desdenhoso poderia acusas Olmi de esteticismo. Mas tal crítica perderia o ponto de vista do realizador sobre o papel positivo da fé religiosa na vida dos camponeses. O seu tratamento discreto deste tema faz de "A Árvore dos Tamancos" o mais tocante e apaixonante filme sobre a religião. 
O efeito de acumulação emotiva de "A Árvore dos Tamancos" está perto de "I Fidanzati", uma obra-prima anterior de Olmi, situada num mundo industrial, alienante e contemporâneo, e demonstra como são inúteis palavras como "humanismo" (muitas vezes invocado como referência ao cineasta) quando se tenta explicá-lo. A combinação de profunda incerteza e fervente idealismo no fim de "I Fidanzati" é extremamente comovedora. Também é assim que ficamos com o fim de "A Árvore dos Tamancos", francamente pessimista, e pode ser isso que, em primeiro lugar, marca o trabalho de Olmi, com a sua dor e urgência."
*Texto de Chris Fujiwara  

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quarta-feira, 11 de julho de 2018

Un Certo Giorno (Un Certo Giorno) 1968

Um executivo de meia idade (Giovanna Ceresa) questiona os seus valores quando recebe uma promoção. Ele assume a posição de topo quando o seu chefe tem um ataque cardíaco e outro homem faleceu num acidente de aviação. Ele tem um caso com uma colega de trabalho (Lidia Fuortes) até se aperceber que o seu trabalho e dinheiro não são tão importantes como eram antes. A sua boa fortuna provém da infelicidade dos outros, à medida que tenta fortalecer laços de amizade com amigos e familiares.
Ermanno Olmi, que também escreveu o argumento, queria fazer uma declaração de como certos indivíduos, mesmo sendo honestos, se desviavam para outros caminhos não tão importantes na vida. Apesar do protagonista ser um bom homem, algumas partes do seu passado vêem à tona quando ele tem de enfrentar a morte por causa de um acidente bizarro que ele próprio causa.
A melhor parte do filme é mesmo Brunetto Del Vita, um actor desconhecido para nós, e que só entrou em dois filmes no cinema. Depois daqui, só o veríamos em "A Vontade de um General", dois anos mais tarde, um filme de Francesco Rossi. Um desempenho muito rico e cheio de nuances. O restante elenco também feito de estreantes, que não foram vistos em mais papéis no cinema.
O director de fotografia Lamberto Caimi capta as cenas invernais de forma a aproveitar melhor o filme. A partitura musical original é de Gino Negri. Ermanno Olmi dirige no seu estilo habitual, prestando muito atenção na história, e nas consequências que teve num homem numa encruzilhada da sua vida.
Legendas em Inglês.

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terça-feira, 10 de julho de 2018

La Cotta (La Cotta) 1967

Andrea (Luciano Piergiovanni) pode ser um estudante milanês de apenas 15 anos de idade, mas gosta de se ver como um homem do mundo, principalmente no que se refere a romance. "Todos os homens têm a sua técnica de apanhar raparigas", explica ele. "Alguns fingem indiferença, outros parecem apaixonados. Alguns agem de uma forma dura, mas a maioria são tristes, ninguém sabe porquê, mas apaixonarem-se fá-los ficar tristes e mal-humorados. A minha técnica é muito pouco usada, mas talvez a mais eficaz. É usar ideias e autocontrole. Eu falo, falo, até que elas ficam totalmente confusas, e o truque está feito."  Depois de conhecer uma nova rapariga de nome Jeanine, Andrea fica logo intrigado. Fica a saber pelos amigos que ela vem para Milão para viver com a avó depois de sofrer uma desilusão amorosa em Paris, a sua cidade natal. 
Média metragem realizada por Ermanno Olmi para televisão, que traduzido à letra seria "A Paixão", que é o que Andrea sente no primeiro momento que conhece a jovem. Atrás da história inteligente existem alguns elementos documentaristas que são extremamente reveladores da carreira do realizador. Por um lado, a tecnologia progrediu claramente desde o final dos anos sessenta, mas a natureza adolescente permanece uma constante no filme. 
A Itália estava então a viver um boom económico sem precedentes, caracterizado pela transição da agricultura para a industrialização, e é com este pano de fundo que Andrea apresenta a sua "abordagem industrial" para engatar raparigas. Ao contrário dos outros, que agem de uma forma emocional ou desinteressada, e perdem tempo em longos períodos de namoro, o seu método é muito mais eficiente, mais de acordo com a mudança dos tempos que se estava a viver.
A banda sonora com a alegre música de Rock ‘n’ Roll dos anos sessenta encaixa-se perfeitamente nesta doce mistura de inocência adolescente e paixão insensata. Legendas em inglês.

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domingo, 8 de julho de 2018

I Fidanzati (I Fidanzati ) 1963

Um jovem rapaz, abandona a noiva e muda de cidade em busca de um trabalho que lhe proporcione melhores condições de vida. Fica durante 18 meses a morar e trabalhar na Sicília. A solidão e a melancolia da sua nova vida levantam-lhe questões existenciais sobre o amor.
Ermanno Olmi pega no cliché de que uma relação à distância sempre falha e transforma as pessoas, e explora como o amor floresce quando os seus amantes são separados pelo trabalho, o filme é uma exploração da solidão e das relações de longa distância, onde um casal tem de lidar consigo mesmo, e com o amor pelo outro.
A acumulação de detalhes é lenta e deliberada, lentamente empurrando o protagonista para a percepção de quão profundamente ele sente a falta da noiva, e quanto valoriza a sua relação. A partir de certa altura o casal começa a trocar cartas que são lidas em voz alta na narração. Esta súbita abertura de comunicação aberta e sincera tem um contraste com o resto do filme, quieto e reservado. E apesar do romantismo dessa relação centrar e da beleza das imagens de Olmi, o filme também serve como uma crítica marxista à alienação do trabalho, das pressões económicas que levam os trabalhadores a arrancar das suas casas e das duas famílias em busca de recursos cada vez mais escassos. Como a maioria dos grandes filmes políticos, "I Fidanzati" situa a sua política no campo pessoal, nos dramas da separação e do amor, que guiam o casal central. 
Nomeado para Cannes, ganhou o prémio OCIC, mas a concorrência para a Palma de Ouro era enorme. O principal prémio foi para "O Leopardo", de Visconti. 

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sábado, 7 de julho de 2018

O Emprego (Il Posto) 1961

Domenico (Sandro Panseri) é um jovem, recém-formado, que pretende um trabalho para a vida no sector administrativo de uma grande empresa. Antonieta (Loredana Detto) é uma jovem que pretende entrar no ramo administrativo assim como Domenico. Depois de um longo processo selectivo, invasivo, eles conseguem dois cargos dentro da empresa. No entanto, o cargo do jovem é diferente do que esperava, trabalhando como mensageiro. 
Um dos filmes italianos mais invulgares referente ao período entre final dos anos cinquenta, e inicio dos anos sessenta, da forma como nos oferece múltiplas perspectivas sobre o mesmo evento, o "boom" económico depois da recuperação do pós-guerra. Onde os realizadores franceses da Nouvelle Vague criaram o seu próprio universo único, o cinema italiano parecia uma série de luas a circular em volta de um mesmo planeta.  De todos os realizadores deste período, poucos tinham tanta alma como Olmi, cuja segunda longa-metragem introduziu algo de novo no cinema mundial: uma sensação de intimidade entre realizador e personagens, que superava qualquer coisa no cinema neorealista. Nos anos seguintes, "Il Posto" teria  um efeito profundo em realizadores tão distintos como Wu Nien-jen, Abbas Kiarostami, ou Martin Scorsese (há mais do que uma citação visual a "Il Posto" em "Raging Bull"), admitido pelos próprios realizadores, e se o filme não atingiu o estatudo de culto como "L’Avventura" ou "La Dolce Vita", foi provavelmente por causa da sua intimidade.
Olmi filmava quase sempre pessoas na extremidade inferior da escala económica, pessoas que levavam vidas não espectaculares, e ele tratava sempre dos detalhes dessas vidas de uma forma muito cuidadosa. Olmi identificava-se com Domenico, o jovem herói deste filme, um jovem que pretendia um emprego para assegurar o seu futuro. A narrativa é ajustada ao tumulto interno do jovem, à sua curiosidade a ao seu desejo humano, como dois pedaços de madeira unidos por um carpinteiro experiente.
O filme estreou no Festival de Veneza de 1961, onde não ganhou o grande prémio, mas levou três outros prémios para casa. Não seria de admirar, já que neste ano também concurriam "O Último Ano em Marienbad" de Alain Resnais, "Yojimbo" de Akira Kurosawa, e filmes de Rossellini, De Sica, Wajda, entre outros.

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quinta-feira, 5 de julho de 2018

Il Tempo si è Fermato (Il Tempo si è Fermato) 1959

No alto dos Alpes Italianos uma represa está a ser construída. As condições são demasiado adversas para se trabalhar no Inverno, quando a única equipa presente é uma dupla de guardas: Salvetti (Paolo Guadrubbi) e Venerocolo (Natale Rossi). Salvetti é obrigado a tirar umas férias quando a sua esposa dá à luz, e o seu substituto é Roberto (Roberto Seveso), um jovem estudante universitário com a esperança que o isolamento lhe sirva para estudar para um próximo exame. No início existe uma tensão entre os dois, mas a ligação vai-se tornando cada vez mais forte, principalmente depois de uma tempestade...
Primeira longa metragem de Ermanno Olmi, embora a câmara não fosse novidade para ele. Durante oito anos vinha a dirigir uma série de curtas metragens, e não muito tempo depois realizaria dois filmes muito aclamados. 
O que é mais atraente nesta sua primeira longa, é a restrição que Olmi mostra. Nunca subestima as diferenças entre os dois homens, eleva a relação entre os dois para um nível que parece autêntico, de modo que nunca precisa de dar grandes saltos na história para a levar a um bom porto. Acreditamos plenamente em casa fase deste relacionamento e o resultado é uma excelente obra sobre a amizade, com uma espécie de relação entre pai e filho em desenvolvimento. 
Rossi e Seveso têm duas óptimas interpretações, e infelizmente este é o único filme em que poderão vê-las. Rossi nunca mais entrou noutro filme, e Seveso só teria um pequeno papel num filme chamado "Il Terrorista", alguns anos mais tarde. Seveso dedicaria o resto da sua carreira a ser operador de câmara, colaborando em "I Fidanzati" de Olmi.

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quarta-feira, 4 de julho de 2018

Ermanno Olmi - O Último Adeus

No passado dia 5 de Maio o Céu ganhou mais uma estrelinha, e nós perdemos um dos poucos cineastas italianos resistentes, desde a década de sessenta.
Ermanno Olmi frequentou uma escola de Ciências, e tirou vários cursos de interpretação na Academia de Artes Dramáticas de Milão. Aprendeu sobre cinema quando trabalhava na Edisonvolta, uma grande companhia eléctrica de Milão. Ali dirigiu mais de 40 curtas-metragens e documentários informativos sobre a empresa, entre 1952 e 1961. A sua primeira longa-metragem chamava-se "Il Tempo si è Fermato", uma análise sobre a relação entre dois guardas que são obrigados a passar o tempo juntos. O sucesso deste filme levou-o à formação da 22 December S.p.A., uma produtora co-fundada por Olmi que distribuiu o seu primeiro filme comercial, "Il Posto", uma história melancólica sobre o isolamento de um jovem, logo seguido por "I Fidanzati" (1962), sobre as dificuldades de um jovem casal milanês durante um trabalho temporário na Sicília.
Depois voltou-se para temas como o catolicismo e a estrutura das classes, que dominaram o seu trabalho até à década de 90. É estranho que tão poucos realizadores italianos sejam considerados religiosos, pelo menos no sentido em que os seus filmes tenham incluídos sinais da sua fé. Entre as poucas excepções estão Rossellini, de um modo mais complexo Pier Paolo Pasolini, e de forma mais enfática Ermanno Olmi.  
A sacralidade da vida, a dignidade do trabalho e a busca do homem pelos valores espirituais mais elevados são temas que coloram profundamente a sua obra. É impossível olhar para os seus filmes sem levar em conta o seu cristianismo.
Nos próximos dias vamos fazer uma passagem, algo rápida, pois incluirá 12 filmes, da carreira deste grande realizador. Serão poucos filmes, mas os suficientes para terem um contacto mais aprofundado com a obra do realizador. Espero que gostem.

domingo, 1 de julho de 2018

Alfie (Alfie) 1966

Alfie (Michael Caine) é um conquistador de mulheres charmoso que vive em Londres. Tem várias aventuras amorosas, para acrescentar mais mulheres para sua "coleção". Ele usa-as, sem qualquer tipo de censura e salta de cama em cama sem nenhum remorso. No entanto, Alfie não é tão despreocupado ou indiferente como tenta passar para as pessoas. Tentando ser livre como um pássaro, ele ignora quem realmente o ama e o seu filho acaba por ser criado por outro homem. Chega a um ponto em que começa a questionar a sua vida.
O filme que catapultou Michael Caine para o estrelato e cimentou a sua imagem de playboy, dando-lhe um dos slogans mais duradouros, tanto que chamou a sua autobiografia de "What's It All About?".O papel do mulherengo Alfie Elkins encaixou como uma luva no actor de 33 anos, valendo-lhe a sua primeria nomeação para os Óscares, que acabaria por perder para Paul Scofield em "A Man For All Seasons". 
Adaptado do livro de Bill Naughton, o filme de Lewis Gilbert abriu novos caminhos no assunto da exploração do sexo do cinema, intercalando as conquistas sexuais do anti-herói com confissões francas e espirituosas transmitidas directamente para a câmara. 
Outro dos pontos fortes do filme é a interpretação de Denholm Elliott como um abortista clandestino, que segue a linha ténue entre glorificar a amoralidade de Alfie e castigá-lo pelo seu sexismo. 

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sábado, 30 de junho de 2018

Georgy Girl (Georgy Girl) 1966

Georgina, ou Georgy, tem 22 anos e não se adapta às mudanças que acontecem na cidade de Londres durante a década de 60. Aos olhos de Georgy os novos costumes ferem a moral, o que certamente reflecte o olhar daqueles mais apegados e nacionalistas. Georgy em nada se encaixa, o cabelo, as roupas, a sua forma de andar e de se expressar reflectem o passado, enquanto todos os outros personagens, bem à frente, não cessam em repreendê-la.
"Hey there, Georgy girl. Swinging down the street so fancy-free. Nobody you meet could ever see the loneliness there inside you." O tema título, cantado pelos The Seekers, um hit musical na altura, diz em poucas palavras toda a história amargurada de "Georgy Girl". O realizador Silvio Narizzano, encaixa o filme no período da Swinging London, em pleno período da Revolução Sexual.É baseado numa obra de Margaret Forster, que co-escreveu o argumento com Peter Nichols. É mais um filme considerado ousado na altura do seu lançamento nas salas de cinema, mas é um pouco ultrapassado considerando os padrões actuais. 
O impacto foi tal que conseguiu quatro nomeações para os Óscars, uma das quais para a protagonista Lynn Redgrave, e outra para James Mason, com Redgrave a conseguir também um Globo de Ouro. No elenco destacam-se ainda Alan Bates e Charlotte Rampling num dos primeiros filmes em que aparece creditada.

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Morgan - Um Caso para Tratamento (Morgan: A Suitable Case for Treatment) 1966

Morgan Delt é um artista falido da extrema esquerda, um irresponsável cujos pais comunistas possuem uma loja no mercado de Londres. Ele também é agressivo, e um sonhador confesso, obcecado por Karl Marx, gorilas, e incapaz de impedir a sua esposa de se envolver com o seu ex-melhor amigo. Usa o seu rico mundo de fantasia como refúgio da realidade externa, onde o seu comportamento não convencional irá provocar o divórcio com a sua esposa, e problemas com a polícia.
Karel Reisz dirige esta comédia de humor negro passada em Londres, ainda hoje visto como um filme de culto da década de sessenta. É baseado numa peça para televisão de David Mercer, chamada "A Suitable Case for Treatment". Mercer era um dramaturgo de grande intelecto que fez muito para moldar os dramas da década de sessenta na TV britânica. Don Taylor era um seu frequente colaborador e considerava-o como o primeiro grande dramaturgo inglês a surgir da televisão. O seu trabalho tinha universalidade, e lidava com sérios problemas intelectuais, filosóficos e políticos. 
O filme explorava um tema que era familiar para Mercer, e que o realizador Paul Madden chamou de "alienação social disfarçada de loucura".O filme era inovador na forma como na forma como representava os pensamentos e fantasias de Morgan, e o seu comportamento excêntrico.
Como era habitual nos filmes britânicos deste período, contava com grandes interpretações da dupla central de protagonistas, David Warner e Vanessa Redgrave. Esta ganhou o prémio de melhor actriz em Cannes e foi nomeada para o Óscar de Melhor Actriz. Neste ano aconteceu uma coisa curiosa: pela primeira vez estavam nomeados para o Óscar de Melhor Actriz duas irmãs, Vanessa Redgrave por este filme, e Lynn Redgrave pela sua prestação em "Georgy Girl", que também será visto neste ciclo.

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quarta-feira, 27 de junho de 2018

Lições de Sedução (The Knack ...and How to Get It) 1965

Estamos em Inglaterra. Ano de 1965 depois de Cristo os tempos estão a mudar: são os mods e os rockers. No dia que Nancy descia do comboio em Londres, de mala na mão, disposta a encontrar alojamento no Albergue YWCA, Colin decide estar farto de que a "revolução sexual" lhe passe ao lado. Colin decide pedir ajuda ao seu amigo Tolen para que lhe ensine a encontrar o "Knack", e assim poder ter êxito com as mulheres. Quando Colin, com a ajuda do seu inquilino Tom, vai comprar uma cama maior do que a do seu amigo Tolen, tudo se vai complicar. Colin voltará a sentir-se inseguro, ciumento e impotente perante Toten, enquanto Nancy se debate entre a atracção e a rejeição.
Entre os seus dois sucessos com os Beatles, "A Hard Day’s Night" e "Help!", Richard Lester realizou esta farsa sexual, baseada numa obra de Ann Jellicoe, de 1962. O seu charme actual vem do facto de ser um filme que trás de volta o sopro dos anos sessenta para o público actual, tal como tem sido visto neste ciclo. Apesar de congelado no tempo, ainda é um filme que encanta e diverte, valendo, sobretudo, pela prestação feminina de Rita Tushingham, que já tínhamos visto neste ciclo em "A Taste of Honey" e "Girl With Green Eyes". 
O impacto na altura que estreou foi bastante grande, tendo sido um sucesso de público e critica. Venceu, com alguma surpresa, a Palma de Ouro do Festival de Cannes.

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terça-feira, 26 de junho de 2018

Darling (Darling) 1965

Julie Christie interpreta o papel de Diana Scott , a jovem modelo ambiciosa e sedutora a quem todos chamam "Darling". Depois do divórcio, Diana vai em busca da fama e do sucesso, mas rapidamente se apercebe de que a melhor maneira de ascender socialmente é seduzindo homens ricos e poderosos. Embarca então numa série de aventuras amorosas para manipular o seu caminho até ao topo. Dirk Bogarde é Robert Gold, o jornalista de televisão que abandona a família para ir viver com ela. Robert integra Diana na alta sociedade, mas a realidade é ligeiramente diferente do que ela estava à espera.
Sátira social de John Schlesinger, escrita por Frederic Raphael, e com um ambiente tipicamente anos 60, aponta para o problema da alienação do jet set e os valores ocidentais corruptos. O filme é baseado na idéia de um disc jockey da rádio chamado Godfrey Winn, que entregou um rascunho de dez páginas a Schlesinger sobre uma modelo de luxo que ele conhecia e cometeu suicídio. Por sua vez o realizador entregou o rascunho a Raphael, que tratou de passar a história para um argumento. 
Julie Christie, no seu primeiro papel de protagonista, ganhou o Óscar de Melhor Actriz, e foi catapultada para a fama internacional, mostrando o seu talento, mesmo numa personagem considerada lixo, como a sua Darling. John Schlesinger mantem-se sintonizado com os tempos de mudança, além de descrever um estilo de vida amoral de uma forma imprudente e realista. 
Na altura em que estreou foi sobrevalorizado, mas actualmente encontra-se um pouco datado.

domingo, 24 de junho de 2018

A Rapariga dos Olhos Verdes (Girl with Green Eyes) 1964

Kate Brady (Rita Tushingham) e Baba Brennan (Lynn Redgrave) são amigas de longa data, desde a escola, que se mudam para Dublin para escapar ao tédio e provincialismo da sua pequena cidade. Baba é bonita, extrovertida, cuja abordagem mais despreocupada da vida energiza Kate, a mais reservada. Somos introduzidos ao ambiente social da Dublin da década de 60, que passa rapidamente pela vida de Kate e Baba. Kate é estudante, Baba trabalha numa mercearia. Pela vida destas duas jovens vai cruzar um homem, Eugene Gaillard (Peter Finch).
Filme de estreia de Desmond Davis, um nome que já estava ligado a este movimento de cinema realista inglês, como operador de câmara, tendo colaborado em filmes como "A Taste of Honey", "The Loneliness of Long Distance Runner", ou "Tom Jones". Davis filma Dublin, e, brevemente, Londres, com um olhar amoroso pelos detalhes e pela vida nas ruas. O que se passa nas ruas é reflectido na tela. Enquanto Redgrave é a mais vistosa, Tushingham mostra uma audácia corajosa que demonstra porque o par é amigo. 
O cinema livre britânico tendia a enfatizar as mulheres como seres emocionais cujas rebeliões, em contraste com os Angry Young Men, que precisavam necessariamente de ser românticas. Alguns anos mais tarde, Lindsay Anderson estendeu este papel feminino para incluir uma mulher como rebelde armada em "If..."
Este é dos filmes menos conhecidos desta Nova Vaga Britânica, mas vale a pena o visionamento. 

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sexta-feira, 22 de junho de 2018

Os Quatro Cabeleiras do Após-Calypso (A Hard Day´s Night) 1964

"Famosamente descrito por uma Village Voice sobre-excitada como o "Citizen Kane dos filmes Jukebox" , a comédia de Richard Lester de 1964, com os Beatles e a sua música como estrelas, pode não ser precisamente isso (embora seja mais divertida), mas mudou para sempre a forma dos filmes de música pop. Com um guião da autoria do escritor de Liverpool Alan Owen, repleto de um humor vivíssimo e de uma ambiência de realismo social, e traços das influências britânicas surrealistas de Lester (ele já trabalhara com os ídolos cómicos dos anos 50 dos Beatles, os Goons), "Os Quatro Cabeleiras do Após-Calypso" acompanha um dia na vida de um grupo teen de sucesso, e transforma-o em algo de emocionante. A câmara segue os Beatles - que representam uma reconhecível versão deles próprios - durante um dia típico: são perseguidos pelos fãs, driblam perguntas idiotas da imprensa e, finalmente, actuam a sério. Lester deu aos quatro membros da banda o suficiente para se ocuparem, em especial Ringo Starr, cuja cena tocante num canal de barcos com um rapazito é acentuada pelo facto do cantor estar com uma ressaca monumental.
Lennon, McCartney, Harrison e Starr surgem como rapazes estimáveis, ligeiramente rebeldes e inteligentes, que, na tradição dos dramas realistas do norte de Inglaterra, são terra-a-terra, despretensiosos e com  inclinação para ver através da falsidade dos outros ("combati na guerra por tipos como você" diz um velho de cartola a Starr, que replica "aposto que lamenta ter vencido"). A constante rejeição de quase tudo - produtores de TV, publicitários, autoridade em geral - podia ter envelhecido mal senão fosse contrastada com a força e glamour da banda. A combinação funcionou exactamente como se pretendia: uma explosão de propaganda não só para os Beatles, mas também para a então muito valorizada geração "mais jovem". Embora "Os Quatro Cabeleiras do Após-Calypso" não seja directamente responsável pela invenção da contracultura, nem pela expulsão da velha  Hollywood ou o fim da guerra do Vietname, foi visto, absorvido e reverenciado como um viveiro de futuro talento artistíco, particularmente nos Estados Unidos, onde uma geração mais jovem achou o filme libertador. E as canções são o máximo."
Texto de K.K.

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quinta-feira, 21 de junho de 2018

Jogador Profissional (This Sporting Life) 1963

No início dos anos sessenta, no Norte de Inglaterra, Frank Machin é mesquinho, forte e ambicioso o suficiente para se tornar numa estrela da equipa de rugby da equipa local, dirigida por Weaver.  Machin hospeda-se em casa de Mrs Hammond, cujo marido foi morto num acidente, mas a sua natureza impulsiva, e a sua raiva natural, impedem-no de se aproximar dela como gostaria. Fica cada vez mais frustrado com a situação, e isso não o ajuda na paixão que começa a sentir pela Mrs Weaver.
"This Sporting Life" (1963) era mais um filme directamente ligado à Nova Vaga Inglesa. De certa forma era um dos últimos, embora a influência prosseguiria ainda por mais alguns filmes, assim como este ciclo também continuará. Embora os seus métodos e estilos permanecessem influentes, a sua falha nas bilheteiras significaria que os produtores não estavam mais dispostos a investir o seu dinheiro em temas mais corajosos e realistas. O público queria escapismo novamente.
Era fácil de perceber porque é que este "This Sporting Life" não foi um sucesso comercial. Ao contrário dos filmes anteriores da nova vaga, mais curtos e vigorosos, este tem mais de duas horas de duração. Onde "Saturday Night and Sunday Morning" e "A Taste of Honey" lidavam com questões difíceis e pintavam uma imagem corajosa de Inglaterra, oferecendo alguma esperança, "This Sporting Life" era um filme filme frio e totalmente implacável. 
Isto não quer dizer, de forma nenhuma, que este filme tenha sido um fracasso, mas tem o olhar mais inflexível sobre a miséria da condição humana que o cinema britânico já conseguiu. Por vezes o ritmo, a estética expressionista e a obsessão com o trauma emocional, fazem-no parecer mais com a filmografia sueca de Ingmar Bergman do que, propriamente, o realismo social britânico.
Na altura que o filme estreou o realizador Lindsay Anderson disse que o filme não devia ser visto como um filme "da classe trabalhadora do norte do país", embora as frustrações da classe fossem a base de como os personagens por vezes se comportam. Pelo contrário, é sobre a impossibilidade de felicidade e a incapacidade das pessoas de se comunicarem umas com as outras. Richard Harris e Rachel Roberts eram os protagonistas, com ambos a conseguirem uma nomeação para os Óscares.

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terça-feira, 19 de junho de 2018

Tom Jones, Romântico e Aventureiro (Tom Jones) 1963

No século XVIII, uma criança abandonada é criada por um nobre inglês. Quando adulto, Tom Jones torna-se um playboy e mulherengo, mas quando o seu tutor morre ele apaixona-se por Sophie, e vê-se obrigado a mudar o seu comportamento.
Um dos grandes sucessos de bilheteira dos anos sessenta, e vencedor de quatro Óscares da Academia (incluindo melhor filme e melhor realizador), foi financiado por dinheiro americano, cortesia da United Artists, numa tentativa de aproveitar o sucesso desta vaga de filmes ingleses. Afasta-se um pouco dos outros filmes da série, na verdade até tem pouco a ver, mas inclui muita gente que estava ligado a este movimento. Desde o realizador, Tony Richardson, o que mais havia contribuído até então, o argumentista John Osborne, o director de fotografia Walter Lassally ("The Loneliness of a..."), ou o actor Albert Finney.
Tony Richardson dirige esta fantasia histórica como uma alegre brincadeira passada em Somerset e Londres do século 18, com muitas cenas a serem filmadas no Oeste do país. Richardson usa algumas técnicas da recente Nouvelle Vague que incluem movimentos de câmara em stop motion, jump cuts, e até alguns olhares ocasionais para a audiência.  John Osborne, que também ganhou um Óscar pelo argumento, consegue passar para filme 1000 páginas de um romance clássico de Henry Fielding, e consegue preservar o espírito do livro, mantendo-o como uma comédia irreverente, embora esteja muito distante do conteúdo da história original. 
Uma grande interpretação de Albert Finney, bem acompanhado por um elenco de luxo: Susannah York, Diane Cilento, Hugh Griffith, Edith Evans, Joyce Redman, David Warner, Lynn Redgrave, entre outros. Conseguiu a proeza de ter cinco actores nomeados para Óscares, coisa que poucos filmes conseguiram até hoje, embora não tenha vencido nenhum. 

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segunda-feira, 18 de junho de 2018

O Jovem Mentiroso (Billy Liar) 1963

Desgastado pela sua própria vida, mas aterrorizado para procurar uma melhor, William Fisher personifica a passividade da geração do pós-guerra, confusa pela riqueza de oportunidades que foi negada aos seus pais. Liz é uma jovem de espírito livre, radiante e ansiosa por descobrir o que o mundo lhe tem para oferecer. A vida destes dois jovens vai-se cruzar, e para William é pegar ou largar.
"Billy Liar" é provavelmente o filme mais divertido desta "nova vaga". Na verdade, é o único que podemos dizer que está próximo de uma comédia, e como uma boa comédia há uma oferta interessante de piadas que permitem que o público leve em consideração verdades difíceis, e idéias complexas que podiam ser mais intragáveis num trabalho dramático.
Baseado num livro de Keith Waterhouse, e numa peça subsequente de Willis Hall, "Billy Liar" tem a estrutura de uma comédia clássica de TV. Em 1963 "Galton and Simpson's Steptoe and Son" (BBC, 1962-74) foi um grande sucesso na televisão britânica, e tinha alguns paralelos com este segundo filme de John Schlesinger. Tal como Harold Steptoe, Billy era um fantasiasta disposto a transcender a sua vida quotidiana, mas incapaz, realmente, de a deixar na realidade, preferindo chafurdar no conforto da sua vida de fantasia.
O filme é maravilhosamente interpretado, principalmente por Tom Courtney (de "The Loneliness...")com a sua mistura de boas intenções, imaturidade e inteligência, a conseguir ser genuinamente engraçado. A pungência de Billy, o perdedor, é contrastada pela bela, irresistível e imaginativa Liz, interpretada por Julie Christie, com uma das suas personagens mais devastadoras. Dois anos depois Christie voltaria a trabalhar cim Schlesinger noutro filme desta "nova vaga", no qual venceria o único Óscar da sua carreia.

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domingo, 17 de junho de 2018

Um Modo de Amar (A Kind of Loving) 1962

Alan Bates é Vic Brown, um jovem desenhador numa fábrica que ama Ingrid Rothwell (June Ritchie).Certa noite em que a mãe da jovem não está em casa eles fazem amor. A partir daí, Vic não quer saber dela até que Ingrid lhe dá a notícia de que está grávida. Acabam por se casar e passam a viver com a mãe dela que não gosta de Vic.
Primeira obra de John Schlesinger, adapatado de um best seller de Stan Barstow. O argumento pode levar a supor que é quase uma paródia a um filme da "new wave britânica",  com o seu cenário do norte do país, jovens adolescentes grávidas obcecadas com televisões e bandas, mas na verdade é um trabalho muito subtil, explorando a forma como as pessoas têm de negociar o que querem através de uma série de compromissos e escolhas difíceis.A história da relação de Vic e Ingrid oferece uma visão complexa do amor e do sexo num momento de mudança. 
Existem tensões entre desejo, responsabilidade e aceitação social, que não são facilmente resolvidas. Embora o clima moral que o filme descreve tenha mudado consideravelmente, "A Kind of Loving" continua a ser um filme interessante e compensador, que ousa aceitar que não há necessariamente respostas fáceis para as perguntas que ele apresenta. O filme é também interessante como uma ilustração de novas afluências e aspirações da classe trabalhadora. 

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