domingo, 19 de abril de 2015

Consciência de Classe e Luta

Anda um espectro pelo My Two Thousand Movies…

Há uma tendência balofa de se considerar os humanos que vivem neste tempo histórico mais especiais que os seus antepassados. Mas não somos seres de excepção, apenas vivemos agora e não antes. A história de toda a sociedade até aqui – pelo menos desde a invenção da escrita – é a história da luta de classes, e assim continua a ser. Homem livre e escravo, patrício e plebeu, barão e servo, isto é, opressores e oprimidos, estiveram ininterruptamente em conflito, transformando no confronto a sociedade até a revolucionarem, e dessa nova ordem social germinaram novas classes sociais, chegando a humanidade até ao modo de produção social que hoje vivemos. Quer gostemos ou não de aceitar a ideia, o nosso tempo não é uma excepção histórica e continua a ser constituído por diferentes classes sociais e em mútua oposição. 

A nossa época, a época da burguesia, classe que – outrora progressista - ao tornar-se predominante fez desaparecer o velho feudalismo, pariu das suas entranhas o seu próprio coveiro: o proletariado. Esta nova classe social que se confronta naturalmente com o seu criador, quando se tornar ela própria na classe predominante, será a obreira da futura sociedade humana, feita à sua imagem e semelhança.

Contudo, a nossa sociedade, mantida sob o poder predominante da agora conservadora burguesia, tem uma necessidade fundamental: o lucro. Dessa sua suprema busca pela maximização das taxas de lucro, algo profundamente conservador contamina quase tudo o que existe, o Cinema incluído. Não é por acaso que os filmes que mais frequentemente passam nas TVs e salas de cinema são os que são. O entretenimento pelo entretenimento predomina. A superficialidade segura o status quo. A arte e tudo aquilo que obriga a reflexão soa-nos imediatamente a algo diferente e precioso.

O My Two Thousand Movies é uma criação da sociedade burguesa, só possível graças à frenética evolução da técnica que o capitalismo permitiu à humanidade, nomeadamente as novas tecnologias relativamente à reprodução da arte e a sua distribuição, mas é também, e sobretudo, parte do coveiro desta sociedade que lhe permitiu poder existir e um suave cheiro a novo mundo. Pois o M2TM é, pela difusão da memória cinematográfica que promove, parte daquilo que consideramos e sentimos como diferente e precioso.

No confronto entre a burguesia e o proletariado, refina-se tanto a opressão como a resistência, os trabalhadores aprendem, matura-se a luta. O M2TM com este ciclo, querendo ou não, tenha ou não consciência disso, é resultado dessa mesma maturação e toma partido claro pelo proletariado, ou não fosse essa a classe social do Chico, da minha, e da esmagadora maioria dos seus fãs. Ou não fosse esse o partido que se toma aquando da reflexão e maturação feita a partir da vida, nomeadamente com a fruição de uma arte tão completa como é a dos filmes, e que o M2TM nos proporciona. Este ciclo - Consciência de Classe e Luta - que terá lugar nos próximos dias, festejando o 25 de Abril e o 1º de Maio, é o corolário de tudo isto.

A luta pela distribuição e fruição da cultura no qual o M2TM participa e que o torna precioso, está directamente ligado à luta proletária. Do outro lado da barricada a burguesia responde com a capitalização das limitações ao acesso à arte. Toda a superstrutura, desde as leis, a polícia, os média, que hoje estando maioritariamente na mão da classe dominante, pelo capital monopolista, levantam de forma mais ou menos aberta uma caçada a quem ameace a capitalização do acesso às artes e, exemplo disso, foi o apagão ao M1TM. É assim a luta de classes: tenhamos ou não consciência dela, ela encontra-se directa ou indirectamente em todas as nossas pequenas e grandes acções do dia-a-dia.

Pois é! O proletariado é a classe progressista do nosso tempo histórico. É a classe social que tem na sua génese o potencial de negar a sociedade da burguesia – o capitalismo – e construir o futuro. Como sujeito histórico tem uma hercúlea luta pela frente contra a burguesia. O choque é inerente a ambas, sem fuga possível. Ora, imaginem como seria se tivéssemos todos consciência da posição e do papel histórico que temos como proletários! Não foi por acaso que Bento de Jesus Caraça escreveu, entre outros pontos, que um homem culto é aquele que «tem consciência da sua posição no cosmos e, em particular, na sociedade a que pertence». O My Two Thousand Movies não podia festejar melhor o 25 de Abril e o Primeiro de Maio, desafiando desta forma os seus fãs a reflectir por via cinematográfica a sua condição e posição no cosmos, em particular, na sociedade em que vivemos.

O desafio começa amanhã: Ciclo Consciência de Classe e Luta!

sábado, 18 de abril de 2015

Nuvens Dispersas (Midaregumo) 1967



Yumiko, a jovem esposa de um funcionário do Governo, está grávida pela primeira vez. Ela e Hiroshi, o marido, planeiam mudar-se para os Estados Unidos, mas os planos são destruídos quando, poucos dias antes da viagem, ele é atropelado por um carro e morre.
No julgamento, o motorista envolvido no acidente é inocentado e liberto da obrigação de pagar qualquer tipo de indenização à viúva, mas para se livrar do peso da culpa que massacra a consciência, resolve ajudá-la com uma quantia mensal. A partir de um acontecimento trágico as duas almas unem-se nesse pacto involuntário, criado, de um lado pelo instinto de sobrevivência e do outro pela tentativa de redenção.
O último filme de Mikio Naruse interpreta-se como a última melancólica dança (com um sombrio tango a acompanhar), de uma noite de folia, agora ténue, agora oscilando entre a linha ténue que separa a embriaguez da sobriedade. É o equivalente cinematográfico a uma ressaca, embora a névoa inebriante que o filme transmite é parte do seu charme, muito em sincronia com a fotografia a cores, profundamente saturada, que constantemente ameaça (especialmente durante uma sequência temporal alargada), para derramar sobre as suas fronteiras uma espécie de libertação emocional..
 É um drama vividamente composto, que descreve dois dos temas preferidos do realizador: o infortúnio e o desejo. Além de ser o seu último filme também é um dos seus melhores, e um dos seus poucos filmes a cores. Num diálogo ao longo do filme, ouve-se: “From the youngest age I have thought that the world we live in betrays us; this thought still remains with me". São como se fossem palavras do próprio realizador, da convicção da sua carreira, o mistério, a tragédia, com que ele define a vida humana.

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quinta-feira, 16 de abril de 2015

Yearning (Midareru) 1964

 Tendo ficado viúva durante a guerra após apenas 6 meses de casamento, Reiko quase reconstrói sozinha a loja de bebidas da família do marido, após ter sido bombardeada. Dezoito anos depois, a sua loja e outros pequenos negócios estão a perder concorrência para um novo supermercado no final da rua. Como se isso não fosse suficiente, Reiko precisa de se esquivar das cunhadas que desejam se livrar dela, casando-a, além de tomar conta do violento cunhado mais novo, Koji.
O título em inglês do filme, "Yearning" é um engano, concentrando-se na imagem de um melodrama romântico, que embora presente de alguma forma, está longe de ser a preocupação principal do filme. "Midareru" significa algo como "desordem", e, de facto, os franceses e os italianos têm um título mais apropriado, Tourments e Tormento (tormento, angústia, dor ou sofrimento), que se aproxima mais do sentimento central do filme. Tal como acontece em muitos filmes de Naruse, a mudança social é um ponto importante, neste caso a chegada dos supermercados modernos com o seu efeito inevitável de atirar mercearias locais para fora do negócio.
Tal como a grande maioria da obra do realizador, também este filme teve pouca divulgação fora do país, mas ainda valeu à actriz principal, Hideko Takamine, um prémio de melhor actriz no festival de Locarno. O filme nunca teve estreia comercial nem em Portugal nem no Brasil.

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quarta-feira, 15 de abril de 2015

Quando Uma Mulher Sobe as Escadas (Onna ga Kaidan wo Agaru Toki) 1960



Mikio Naruse tem tido bastante reconhecimento nos últimos anos, depois de uma longa vida nas sombras dos realizadores mais famosos internacionalmente e auteurs reconhecidos como Ozu e Kurosawa. O seu estilo não é tão reconhecível ou ele é pronunciado como algum desses realizadores, e a sua tendência para o material temático de "retratos de mulheres" provavelmente também contribuiu, infelizmente, para a falta de seriedade a respeito do seu trabalho. No seu caminho, contudo, ele acabou por ser tão diferente e digno de atenção como os colegas mais conhecidos. "Quando Uma Mulher Sobe as Escadas" parece trazer uma mudança para Naruse. Por um lado, no final dos anos 50, ele expandiu a sua obra para o formato widescreen, fazendo pleno uso da tela comprida e estreita para algumas composições muito interessantes. Este filme também usa uma iluminação muito mais expressiva, e as muitas cenas de interiores em ainda lembram os tempos do film noir, graças a uma iluminação dinâmica e ao uso das sombras. O efeito é reforçado pela banda-sonora jazzy.
Mas estes são toques principalmente cosméticos, e de certa forma a partida dos filmes anteriores não é tão drástica como pode parecer. Na história da viúva Keiko Yashiro (a bonita Hideko Takamine), uma mulher empregada como bar hostess, o filme partilha o mesmo território temático que Naruse foi continuamente desenvolvendo. As condições, oportunidades e pensamentos das mulheres no Japão do pós-guerra foram uma fonte contínua de material para ele, e este filme, como os outros, usa o meio do distrito de Ginza para sondar levemente sobre as condições sociais que as opções do limite das mulheres em vida. Há pouco comentário social evidente no filme, mas é quase impossível ver a sua narrativa como algo além de uma condenação do tratamento das mulheres. Naruse apresenta uma sociedade em que as mulheres são forçadas pelas circunstâncias, muitas vezes com maridos impostos, em que devem rebaixar-se para sobreviver, e, de seguida, são julgadas severamente por esses mesmos homens.
O filme é passado no Japão do pós-guerra , no distrito de Ginza, onde as mulheres solteiras tinham duas opções: ou trabalhar num bar, sendo pagas para andar com homens bêbados, ou abrir um bar próprio. Keiko, a popular "mama" num desses bares, observa as colegas mais jovens, sairem para outros empregos, atraindo todos os seus clientes. Keiko ainda é bonita, mas está a ficar cada vez mais velha, e a sugestão é que chegou a hora de ela abrir o seu próprio bar. O problema é que, para arrecadar dinheiro, ela tem que explorar até os seus mais ricos clientes masculinos. Quando o filme começa, ela sobe as escadas até ao bar, explicando na narração o quanto ela despreza esta vida. Naruse pinta Keiko como a tradicional mulher, no meio de um Japão modernizado, cercado por bebidas, luzes e homens que adoram mulheres. O seu estilo não é muito diferente ao de Ozu, mas o foco de Naruse é mais específico. Em Quando Uma Mulher Sobe as Escadas, Naruse debruça-se mais sobre a captura do realismo psicológico da mulher, em vez das dinâmicas familiares de Ozu.Numa última análise, Keiko está sozinha, com todas as probabilidades contra ela, mas ela continua a tentar. Continua subindo as escadas.

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terça-feira, 14 de abril de 2015

Flowing (Nagareru) 1956

Otsuta (Izuzu Yamada) está à frente de uma casa da casa de gueishas Tsuta, em Tóquio. O negócio está cheio de dívidas, e a sua filha Katsuyo (Hideko Takamine) não vê qualquer futuro nos últimos dias do negócio das gueishas. Mas Otsuta não vai desistir. A história começa quando chega a esta casa uma nova empregada de nome Oharu (Kinuyo Tanaka), e vai retratar os dias da vida desta profissão quando não estão a entreter os clientes.
Mais uma obra de Mikio Naruse que pode ser considerada um "filme de mulheres". Naruse era bastante conhecido por abordar temas que lidavam com questões femininas, sempre com interpretações bastante fortes, mas aqui em "Nagareru" ele aborda um conjunto mais amplo de problemas enfrentados pelas mulheres no ambiente do pós-guerra. Embora voltado para os problemas de várias mulheres que trabalham numa casa de geishas, o filme examina cada personagem feminina ao mais pequeno detalhe, enquanto manobra para o lado qualquer presença masculina (há várias personagens masculinas, mas são todas menores e irrelevantes). Mas poderão estas mulheres sobreviver sem homens como companheiros e ajudantes? O negócio das gueishas está a começar a entrar em decadência, a história passa-se numa altura em que a prostituição era considerada ilegal no Japão, cada uma das mulheres está sem homem por diferentes razões, e as suas opções parecem um pouco distantes entre si.
O que o faz o filme resultar é toda esta interacção entre as personagens femininas, e mais informação adicional de cada uma destas personagens vem ao de cima, e pequenos detalhes são adicionados a cada personagem de forma a fazer progredir a caracterização individual das personagens. Assim, cada actriz é maravilhosa, em especial Isuzu Yamada que tem a maior gama de emoções (mãe preocupada, mulher de negócios, irmã mais nova) e interpreta cada um destes estados de uma forma muito subtil. Para interpretarem as gueishas , as actrizes passaram algum tempo com as gueishas reais em que a escritora Aya Koda se baseou para a sua história, para recolherem alguns maneirismos para desenvolverem durante as actividades típicas que iriam praticar (dançar, cantar, ou tocar shamisen).

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segunda-feira, 13 de abril de 2015

Nuvens Flutuantes (Ukigumo) 1955

Um flashback para o primeiro encontro entre Yukiko Koda (Hideko Takamine, a habitual protagonista de Naruse), e Kengo Tomioka (Masayuki Mori), numa área rural ocupada pelos japoneses na Indochina, durante a Segunda Guerra Mundial, pouco depois de Yukiko aparecer na casa de Tokyo de Tomioka que ele divide com a sua velha e doente esposa Kuniko (Chieko Nakakita). Yukiko sabia que ele era casado desde o início, mas ela acredita que ele a vai receber de regresso ao Japão, e cumprir a promessa de se divorciar da esposa, para casar com ela. Mas quando a guerra acaba e eles são repatriados de volta para o Japão, Yukiko descobre que ele não vai deixar a mulher, nem reacender a paixão que começou numa terra estrangeira.
Há uma linha muito ténue entre o amor e a paixão, e as normas culturais são talvez o factor mais decisivo. No ocidente, os ex-amantes que não concordam em ser abandonados e perseguem os/as seus ex-pares, têm um rótulo - stalkers. Na altura que este filme saíu, a obsessão pelo amor não correspondido não era visto como algo tão sinistro, tanto no Ocidente como no Oriente. Na verdade, era a base para muitas histórias de amor satisfatórias, incluindo clássicos como "Jezebel", "Gone With the Wind" ou "Wuthering Heights". Naruse, um homem que viveu uma vida bastante infeliz, e cujo prolongado afastamento da mulher, a actriz Sachiko Chiba, o levou ao divórcio,  dá-nos um olhar, principalmente sentimental, e mesmo invejoso, sobre o amor. No entanto, nenhum caso de amor começa com tristeza, e o olhar melancólico de Naruse no princípio deste caso é a flor a lutar pela luz, num campo cheio de ervas daninhas.
O papel da mulher na sociedade é muito mais complexo aqui, um dos filmes mais aclamados de Naruse. Passado num ambiente de pós-guerra, Naruse contrasta o exotismo idealizado do inicio de uma relação com as suas turbulentas consequências, contrastando com a dura realidade da derrota do Japão na Guerra. Como também pode ser visto em alguns filmes de Ozu, são as mulheres que são vistas como sendo mais pragmáticas quando se lida com as realidades práticas da vida quotidiana, enquanto os homens chafurdam na derrota e na vergonha. Naruse é muito mais convincente do que Ozu, neste neo-realismo melancólico.

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domingo, 12 de abril de 2015

Sound of the Mountain (Yama no Oto) 1954

"Yama no Oto" retrata a decadência da família tradicional. Uma mulher (Setsuko Hara) descobre que o seu marido a está a trair com outra mulher; o pai deste, por gostar muito da nora, volta-se contra o filho, e passa a fazer tudo para salvar o casamento dos dois, interferindo à sua vontade.
Adaptado de um livro do vencedor de um prémio Nobel, Yasunari Kawabata, "The Sound of the Mountain" é declaradamente do filme preferido de Naruse, entre a sua obra, e até certo ponto, é fácil de perceber porquê. Um trabalho de texturas e perspectivas envolventes, com cenários e exteriores projectados para se parecerem com a própria casa e vizinhança de Kawabata, o filme revisita, e com mais confiança, os temas já explorados no filme do "regresso" de Naruse, "Meshi" (o primeiro deste ciclo), com o qual partilha até alguns actores. É também uma história de amor platónico de uma extrema precisão psicológica, que nos oferece com profundo detalhe uma comovente relação complexa, entre um homem mais velho e uma mulher mais nova.
Para quem cresceu a ver filmes ocidentais é fascinante ver como foi tratada a matéria deste filme, com temas tão difíceis, por exemplo para uma Hollywood dos anos 50, como o adultério, o divórcio e o aborto. O tema do aborto era completamente tabu nos filmes ocidentais dos anos 50, e quando era abordado era sempre com muita bagagem política e emocional. Neste filme de Naruse todos estes temas são abordados com bastante naturalidade.
"Yama no Oto" é um dos melhores exemplos do género preferido de Naruse, o "shomin-geki (filmes sobre o quotidiano das pessoas normais).

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Lightning (Inazuma) 1952



A história de Kiyoko, uma jovem mulher que conseguiu com sucesso fazer uma ruptura com a sua família disfuncional, que lhe tentava arranjar por força com casamento com um homem que ela rejeitara. Ela encontra-se num apartamento e quando se senta a uma janela vê um raio que parece cristalizar a ruptura que fez com o passado.
"Inazuma" é essencialmente uma "soap opera" de grande qualidade. Contada principalmente a partir do ponto de vista de Kiyoko, a filha mais nova, de 23 anos, a história diz respeito a uma velha mulher que tinha quatro filhas, todas filhas de pais diferentes. O ser humano é uma espécie falível, e por vezes dá vontade de pegar em algumas personagens e sacudi-las, e gritar-lhes para pararem de serem estúpidas, tal como acontece aqui.
O termo americanizado "woman's picture" tambem vem à mente, já que os personagens mais fortes são todos mulheres (recorrente na obra de Naruse). É um filme maravilhoso em todos os sentidos, a realização e as interpretações são de primeira classe, com os personagens a serem bastante credíveis, provavelmente parecidos com muitas pessoas que conhecemos do nosso dia a dia.
Foi uma das várias adaptações que Naruse fez da obra da escritora Fumiko Hayashi, na altura a mais popular escritora japonesa, e que tinha falecido no ano anterior à saída deste filme. A protagonista é Hideko Takamine, uma actriz regular nos filmes de Naruse.

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quinta-feira, 9 de abril de 2015

A Mãe (Okaasan) 1952

A história da família Fukuhara, ligeiramente empobrecida, a lutar para se restabelecer no pós-guerra do Japão. O cenário é o do início dos anos 50, mas o legado da guerra ainda paira fortemente no ar. No decorrer do filme um personagem é repatriado da Manchúria, outro é libertado de um campo de prisioneiros soviético, e os Fukuhara sofrem com a perca do negócio da lavandaria, perdida durante a guerra. A mãe, Masako é a força central do filme, interpretada pela inimitável Kinuyo Tanaka, uma actriz muito dedicada, e cheia de recursos, numa personagem cheia de perseverança, apesar de todas as vicissitudes que se abatem sobre ela, e que, ficamos convencidos no final, lhe continuarão a acontecer no futuro.
A viver com ela no início do filme, temos o marido Ryosuke, reduzido a um trabalho de guarda numa fábrica, enquanto o resto da família luta para recuperar o negócio da lavandaria. O adoentado filho Susumu, tendo adoecido por uma prolongada exposição ao pó,  vai ser enviado para um sanatório, enquanto a irmã mais velha, Toshiko, é a narradora intermitente, uma jovem forçada a abandonar os estudos numa escola de costura para ajudar a família nas finanças. Ainda temos a jovem filha, Chako, e o igualmente jovem primo, Tetsuo.
Mikio Naruse apresenta um retrato resignado e pungente sobre a luta humana e o sacrifício dos mais velhos, sobrepondo com a inocência e o optimismo da juventude, com a austeridade da vida no Japão do pós-guerra, refletindo-se a erosão gradual da esperança, em prol da mudança e da incerteza: os festivais da cidade coincidem com episódios de mudança e incerteza na família. Desde a cena de abertura, acompanhada pela voice-over de Toshiko, com Masako a limpar a casa afeituosamente, Naruse transmite a imagem discreta e agridoce do seu arquetipo, a heroína resiliente - um retrato sentimental, contudo gracioso e reverente, de uma mulher envelhecida a lutar interminavelmente contra o fardo pesado da pobreza, mágoa, desilusão, e sonhos não realizados. 

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quarta-feira, 8 de abril de 2015

Almoço (Meshi) 1951

 Em muitos dos seus filmes de sucesso, Naruse apresentava pessoas vulgares, vivendo o seu dia a dia. Em "Meshi" o realizador dá aos seus personagens a difícil tarefa de viver num meio onde se vive com uma atmosfera pungente, desvanecida de amor. Passado pouco depois do fim da segunda guerra mundial, é um filme entre um casamento em crise de um assalariado Matsunosuke (Ken Uehara) e a sua esposa Michiyo (Setsuko Hara), e centra-se na crise emocional vivida pela esposa, doméstica. O tédio da sua vida doméstica, consumida por tarefas repetitivas, como limpar, cozinhar, é colocado em foco pela visita da sobrinha de Matsunosuke, Satoko (Yukiko Shimazaki). A chegada de Satoko, e a quantidade de atenção que Matsunosuke lhe dedica, leva a uma situação de maior desenconto por parte de Michiyo, que começa a questionar o seu futuro.
Nas mãos de Naruse, esta adaptação de um romance inacabado de Fumiko Hayashi oferece-nos uma excelente visão sobre a vida de casado, desde a rotina habitual do dia a dia, à esperança quotidiana de um amanhã melhor, que pode ou não manter essas relações vivas. As mulheres são a preocupação central dos filmes de Naruse, e por isso os papéis centrais são sempre desempenhados por elas. As audiências dos filmes de Naruse eram, sobretudo, mulheres, assim como os seus filmes eram, na maioria, adaptados de obras de mulheres escritoras. Neste caso, a escritora era Fumiko Hayashi, que teria cinco obras adaptadas para o cinema, por Naruse.
O filme teve distribuição em Portugal, onde ficou conhecido com o nome "Almoço". Foi muito melhor traduzido no Brasil, onde obteve um nome com muito maior sentido: "Vida de Casado".

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terça-feira, 7 de abril de 2015

Mikio Naruse



Apesar de ser pouco conhecido no Oeste, Mikio Naruse foi um dos mais prolíficos realizadores japoneses no século vinte, realizando, ao todo, quase noventa filmes.
Embora as suas primeiras obras, pré-segunda guerra mundial, como "Wife, be Like a Rose (1935), fossem mais experimentais e visualmente dinâmicas, os seus melhores filmes foram produzidos durante a década de 50, a época de ouro para o cinema japonês. Muitos podem ser descritos como shomin-geki - dramas trágicos sobre a classe operária - que muitas vezes se focavam numa mulher protagonista com a trama desdobrada numa saga familiar. Este foi um dos muitos factores que levaram alguns comentadores e críticos a compararem-no com um dos seus contemporâneos, Yasujiro Ozu. Mas, apesar de haver muitos paralelismos entre Tokyo Story (1953), de Ozu, e The Sound of the Mountain (1954), de Naruse, era perfeitamente claro, que tanto como Ozu como Naruse, como os seus contemporâneos do cinema clássico, estavam a trabalhar dentro de uma nação em fluxo.
No pós-guerra do Japão, a tradição e a modernidade estavam a batalhar pela supremacia, e os filmes retratados transmitiam a tensão do dia a dia, em cada cidade e lugar, e na unidade no seio de cada família. Tanto Ozu como Naruse renderam-se a esta transição cultural numa rica palete de metáforas visuais, onde a tradição e a modernidade, assim como os cenários, poderiam ser usados para refletir o conflito de valores entre as gerações mais novas e as gerações mais velhas, e entre maridos e esposas. Nos filmes de Naruse o resultado era por vezes obscuro e deprimente, talvez ecoando as dificuldades da sua própria origem. Toda junta, a sua obra, perfaz um legado muito importante na história do cinema.
Neste ciclo não vou fazer uma revisão da carreira completa do realizador, vou debruçar-me apenas nesta fase de ouro do cinema de Naruse, que coincide com a fase de ouro do cinema japonês. Iremos ver 8 filmes, já a partir de quinta-feira.

Quarta: Almoço (Meshi) 1951

Quinta: A Mãe (Okaasan) 1952

Sexta: Lightning (Inazuma) 1952

Domingo: Sound of the Mountain (Yama no Oto) 1954

Segunda: Nuvens Flutuantes (Ukigumo) 1955

Terça: Flowing (Nagareru) 1956

Quarta: Quando Uma Mulher Sobe as Escadas (Onna ga Kaidan wo Agaru Toki) 1960

Quinta: Yearning (Midareru) 1964

Sexta: Nuvens Dispersas (Midaregumo) 1967

Espero que gostem do ciclo.Todos os filmes serão apresentados com legendas em português.

sábado, 4 de abril de 2015

Manoel de Oliveira (1908 - 2015)

- Douro, Faina Fluvial (1931) Link
- Famalicão (1941) Link
- Aniki-Bóbó (1942) Link 
- O Pintor e a Cidade (1956) Link
- Acto da Primavera (1963) Link
- As Pinturas do Meu Irmão Júlio (1965) Link
- Benilde ou a Virgem Mãe (1975) Link
- Amor de Perdição (1978) Parte 1 - Parte 2 - Parte 3 - Parte 4 - Parte 5 - Parte 6
- Francisca (1981) Link
- Le Soulier de Satin (1985) Link
 - Mon Cas (1986) Link (Sem legendas)
- Os Canibais (1988) Link
- Non, ou a Vã Glória de Mandar (1990) Link
- A Divina Comédia (1991) Link
- O Dia do Desespero (1992) Link
- Vale Abraão (1993) Link
- A Caixa (1994) Link
- O Convento (1995) Link
- Party (1996) Link (sem legendas)
- Viagem ao Principio do Mundo (1997) Link
- Inquietude (1998) Link
- A Carta (1999) Link Legenda em inglês
- Palavra e Utopia (2000) Link
- Vou Para Casa (2001) Link
- Porto da Minha Infância (2001) Link
- Um Filme Falado (2003) Link  Legendas
- O Quinto Império (2004) Em Breve
- Espelho Mágico (2005) Link
- Belle Tojours (2006) Link
- Cristóvão Colombo - O Enigma (2007) - Link

Este post irá auto destruir-se dentro de alguns dias.