domingo, 20 de abril de 2014

Jerry Lewis

No cinema, pode dizer-se que Jerry Lewis é o último dos grandes comediantes americanos, o herdeiro dos mestres do burlesco: Chaplin, Keaton, Harold Lloyd, juntamos-lhe a anarquia dos irmãos Marx e o espírito destrutivo e a paródia do Bucha e do Estica.
Começou a carreira em pequenos espectáculos musicais, e em 1946 forma parelha com Dean Martin, parelha essa que rapidamente se torna um sucesso num casino de Atlantic City, passando depressa para um contrato com a Paramont. Durante vários anos Lewis fez uma série de comédias musicais com Martin, que apesar de trabalhar como dupla, era Lewis acabava por ser o coadjuvante do outro actor. Esta dupla seria desfeita em meados da década de 50.
Seria já na década de sessenta que Jerry se afirmaria em toda a plenitude do seu  talento, assumindo a direcção dos seus próprios filmes. O primeiro é uma obra prima do burlesco, quase mudo, quase uma espécie de colagem de situações absurdas, "Jerry no Grande Hotel". A partir daqui a sua obra constitui uma espantosa sátira ao "american way of life", e ás suas fobias e manias: "O Homem das Mulheres", "As Noites Loucas do Dr. Jerryll", "Jerry 8 3/4", "O Charlatão", etc.
Este nosso pequeno ciclo vai reincidir sobre esta melhor fase da carreira de Lewis, toda entre os anos de 1960 e 1964. Aqui ficam os filmes que poderão ver durante a semana:

Segunda: Jerry no Grande Hotel (The Bellboy, 1960)

Terça: Cinderelo dos Pés Grandes (Cinderfella, 1960)

Quarta: O Homem das Mulheres (The Ladies Man, 1961)

Quinta: As Noites Loucas do Dr. Jerryll (The Nutty Professor. 1963)

Sexta: Jerry 8 3/4 (The Patsy, 1964)


Infelizmente a carreira de Lewis é quase desconhecida para as gerações mais recentes, mas pelo menos os mais velhos lembrar-se-ão de ver os seus filmes nas matinés de Domingo, ou nas lotações esgotadas da RTP. Este ciclo vai servir como um recordar para alguns, e provavelmente, como algo novo para outros.
Nas décadas de 60 e 70, Lewis tinha um culto de seguidores na Europa, especialmente entre os críticos franceses. História que pode ser recordada aqui.
A partir de segunda cá estaremos para o primeiro filme. Até já.

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Grupo no facebook

Para quem quiser seguir o My Two Thousand Movies mais de perto, existe agora um grupo no facebook. Por lá poderão saber em antecipação ciclos que irão passar no blog, participar em discussões sobre os filmes, pedir filmes que não se encontram no blog, e disfrutar de outros que também não se lá encontram.

Podem aderir ao grupo, aqui.

Estação Seca (Daratt) 2006



Alguns anos depois da guerra civil que devastou o Chade, as noticias chegam através da rádio: foi decretada uma amnistia geral a todos os acusados de crimes de guerra. Já passou bastante tempo, mas as velhas feridas não foram curadas, e o velho Gumar oferece uma arma ao neto para este se vingar do homem que matou o seu pai, e seu próprio filho. O neto, Atim, parte em busca do homem, e vem a descobrir que ele é uma pessoa mais complicada do que esperava... Será que vai conseguir executar a vingança?
Traduzido literalmente "Daratt" quer dizer "estação seca", e este é um filme seco em comprimento, e em palavras. O homem que é suposto ser morto tem os seus próprios ferimentos de guerra e os seus fantasmas. Só consegue falar através de um aparelho mecânico, e o nosso rapaz acaba por se afeiçoar ao homem que tem de matar. Mas "Daratt" é muito mais do que uma festa para os sentidos, é uma história de vingança e coragem. No seu terceiro filme Mahamat-Saleh Haroun examina como é a vida para as pessoas atingidas pelas consequências da guerra civil do Chade, que tiraram a vida a mais de 40 mil pessoas. É uma história que está muito próxima do realizador, uma vez que ele fugiu para escapar à guerra deixando para trás a família e todos que amava, e muitos deles foram mortos na guerra.
Ao retratar as consequências da guerra o filme tem muitas coisas importantes a dizer, para as pessoas que passaram por conflitos por todo o mundo. Ao observarmos as suas paisagens desoladas e pálidas, e grandes espaços vazios, o Chade é um local visivelmente assombrado, onde muitas pessoas têm alguma deficiência grave, vivendo em consequência da violência do passado. Mas também é um lugar onde os mais novos jogam futebol pela rua despreocupados, lembrando que à uma geração que o sofrimento acabou e que existe uma esperança para o futuro.
Ganhou cinco prémios no festival de Veneza de 2007, entre os quais o prémio especial do júri.

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Yesterday (Yesterday) 2004



Uma história de uma doente com Sida, na África do Sul do século 21 é contada neste trabalho maduro e maravilhosamente simples que apresenta uma personagem heróica em luta contra a inevitabilidade, mas fá-lo de um modo que evita o sentimentalismo habitual. Yesterday (Leleti Khumbalo) é uma mulher muito doente, a quem o médico diz que ela deve libertar a raiva, o que ela não consegue com a sua saúde em constante declínio. Esta é a viagem de uma mulher numa aldeia Zulu, mãe de uma criança de cinco anos de idade.
Um ano antes de "Tsotsi" se tornar no primeiro filme da África do Sul ganhar um Óscar para filme em língua estrangeira, esta obra de Darrell Roodt conseguiu a primeira nomeação, além de ter sido nomeado para muitos outros prémios. "Tsotsi" era uma história urbana, muito violenta, focada nos adolescentes rebeldes do sexo feminino, "Yesterday" passava-se numa pequena aldeia, que se presume ser a terra natal dos Bantu, onde vivem apenas mulheres e crianças, e foi o primeiro filme sul-africano totalmente produzido na linguagem Zulu.
É um filme que transmite uma grande força espiritual, em contraste com as magnificas paisagens que cercam as duras condições de vida dos seus habitantes. Roodt captura a realidade social dos sul africanos, cujo ponto de vista ocidental gira em torno da crítica social e da consciência. O realizador transmite de forma confiável as dificuldades das mulheres sul africanas, aqui representadas na personagem de Yesterday. Aqui neste local as mulheres tomam o lugar de marido e esposa, uma vez que os homens partem para as cidades na busca de trabalho, procurando dinheiro que ajude a manter a economia da família. É neste contexto que Roodt destaca os pontos de vista sociais, económicos e religiosos característicos das sociedades africanas, para que os espectadores possam entender os factores relacionados com o desenvolvimento de doenças, como a Sida.
Uma palavra muito especial para a fotografia, que aproveita do melhor modo a beleza das paisagens sul africanas.

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quarta-feira, 16 de abril de 2014

Moolaadé (Moolaadé) 2004



A história gira em torno de Collé (Coulibaly), a do meio de três mulheres, numa vila isolada do Burkina Faso. Ela já não cai nas graças dos restantes habitantes por ter deixado a sua filha (Traoré), saltar o ritual da purificação da excisão do clitóris, um ritual (tortura) habitual em África, e que pode levar as adolescentes à morte, como agora também deu guarida a quatro jovens que pretendem fugir a este mesmo ritual invocando a moolaadé (uma protecção sagrada invocada por uma corda colorida). Mas os líderes da aldeia estão fartos da rebelião de Collé, e pressionam o marido para que ela retire a protecção, nem que para isso tenha de chicoteá-la. 
Chamado "o pai do cinema africano", o senegalês Ousmane Sembène tinha 81 anos quando fez este filme, uma obra que tem tanto de elegante como de incendiária. A questão da mutilação genital feminina é complexa. A prática desta tortura é antiga, mas apesar da insistência dos mais velhos na aldeia, não é obrigatória. Ironicamente, o colonialismo europeu em África reforçou o impulso pela autoridade masculina, que procurou contrariar as bases matriarcais de uma parte considerável da história e mitologia africana. A humilhação que os homens africanos sofriam na altura do colonialismo requereram a dominação das mulheres, para retirarem uma certa compensação psíquica. A prática da circuncisão feminina era vista com uma defesa contra a influência ocidental, que por sua vez, era vista como uma ameaça à cultura tradicional africana. Sembène enfatiza este ponto no filme, quando na aldeia são confiscados e queimados todos os rádios das mulheres. 
A mensagem transmitida é que algumas tradições devem mudar, e que nenhuma comunidade pode impedir a modernização, ou o seu povo ficará ignorante para sempre. É uma declaração forte para o povo africano, mesmo já no século 21, e um caminho que deve ser seguido. Como um todo "Moolaadé" é fantástico, e surpreendentemente envolvente, um grande exemplo de cinema africano e uma declaração dos verdadeiros problemas que envolvem a independência africana. Filme muito premiado, que saíu vencedor do prémio Un Certain Regard Award em Cannes, na edição de 2004. Era o último filme de Ousmane Sembène, que morreria três anos depois em Dakar.

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terça-feira, 15 de abril de 2014

À Espera da Felicidade (Heremakono) 2002



Um pedaço da vida de Nouadhibou, uma pequena cidade costeira da Mauritânia onde o deserto do Sahara se encontra com o Oceano Atlântico, e onde muitos viajantes esperam passaporte para a terra prometida. É aqui que o jovem Abdallah (Mohamed) chega para passar algum tempo com a mãe (Ahmeda), antes de viajar para a Europa. Ele não fala o dialecto local, então apenas observa as pessoas à sua volta. Vamos conhecer um jovem órfão chamado Khatra (Kader), um jovem aprendiz de um electricista (Abeid), que ensina Abdallah a falar o dialecto local enquanto ilumina as casas da vizinhança.  Também vamos conhecer a sedutora vizinha de Abdallah (Diakite), e outro jovem (Dabo) que parece pronunciar o destino reservado a Abdallah.
 Abderrahmane Sissako, uma das grandes esperanças do cinema africano deste milénio, nascido na Mauritânia, a reportar o conflicto entre a modernização ocidental e as tradições locais africanas baseando-se na sua própria experiência, no exilo. Tudo é observado num estilo muito minimalista, com imagens surpreendentes e um ritmo bastante suave, que muitas vezes chega ao ponto de apenas capturar os ritmos da vida, num mundo onde todos esperam apenas a próxima etapa. Temas fortes ecoam no filme do início ao fim, principalmente relativos à tradição e à cultura assim como o custo emocional de saír de casa para um futuro incerto. 
O filme como um todo está cheio de simbolismos que nós ocidentais provavelmente podemos não entender, mas mostra-nos a arte de um local profundamente significativo. No festival de Cannes ganhou o prémio Un Certain Regard, e o prémio de cineasta estrangeiro do ano. 

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segunda-feira, 14 de abril de 2014

Ali Zaoua, Prince de la Rue (Ali Zaoua, Prince de la Rue) 2000



Passado na Casablanca dos tempos modernos, o filme começa com quatro adolescentes sem lar, que se separaram de um gang das ruas, e vivem no porto da cidade. Ali Zaoua é o mais estranho do quarteto, um jovem obcecado que fala insistentemente em viajar para uma ilha distante iluminada por dois sóis. O antigo gang dos quatro jovens localiza-os, e como pena de terem abandonado atiram-lhes pedras. Uma das pedras mata Ali, o que leva os seus amigos a tentarem deixar o corpo dele num porão vazio de um prédio. Subitamente os jovens têm uma dramática mudança, e decidem dar ao falecido um funeral digno de um príncipe. O resto do filme centra-se na tentativa dos restantes três amigos em darem um funeral apropriado a Ali.
Nascido e criado em Paris, Nabil Yaouch, cujo pai é marroquino, terra que ele voltou várias vezes, para fazer este seu segundo filme. É um melodrama sobre os "chemkaras", crianças das ruas, e com ele o realizador ganhou uma série de prémios por esse mundo fora. Yaouch envolve-nos na vida destas três crianças, limitando os papéis de altutos apenas a três personagens. Nos melhores momentos mostra-nos a inocência que estes jovens partilham, apesar de serem foragidos de um gang das ruas, e ao mesmo tempo captura os sonhos de crianças numa série de alucinações onde desenhos em jiz ganham vida.
São claras as influências de vários filmes, como "Los Olvidados", de Buñuel, ou "Pichote" de Hector Babenco, mas o tema seria melhor explorado num filme que sairia dois anos depois, "Cidade de Deus".
Feito com orçamento bastante elevado para um filme africano, acabaria por correr o mundo, e tornou-se em um dos primeiros sucessos do cinema africano deste novo milénio. Nunca chegou a estrear em Portugal, mas no Brasil chama-se "As Ruas de Casablanca".

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domingo, 13 de abril de 2014

O Cinema Africano do Século XXI

"Os cinemas africanos contemporâneos assumem hoje o papel que a literatura africana tinha nos anos 60. Hoje estão a emergir de África novos posicionamentos críticos e novas linguagens cinematográficas, muitas vezes em competição ou mesmo em conflito umas com as outras, cuja visibilidade tem sido posta em causa visão monolítica e politicamente correcta da definição de cinema africano veiculada pelas casas pelas casas de cultura e pelos festivais do Ocidente.
O que é fascinante neste novo cinema de África é a capacidade dos seus cineastas em dar voz aos africanos, de forma a poderem comunicar para além das suas fronteiras nacionais e com públicos de outras esferas" (Manthia Diawara e Lydie Diakhaté)

O cinema africano a partir do novo milénio deu mesmo um grande salto, começou a marcar presença nos festivais de cinema mais importantes do mundo, inclusivé algumas nomeações para Óscares, e a chegar mais facilmente a públicos ocidentais.
Esta semana vamos conhecer um pouco deste cinema. De uma extensa lista que fiz primeiramente, escolhi estes, talvez porque dão uma visão melhor de África, de um mundo que não conhecemos, mas que está alí ao virar da esquina. Espero que gostem de selecção, os filmes que escolhi são os seguintes:

Segunda: Ali Zaoua, Prince de la Rue (2000), de Nabil Yaouch
Terça: Heremakono (2002), de Abderrahmane Sissako
Quarta: Moolaadé (2004), de Ousmane Sembene 
Quinta: Yesterday (2004), de Darrell  Roodt
Sexta: Daratt (2006), de Mahamat-Saleh Haroun

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Comapanheiros (Vamos a Matar, Compañeros) 1970



Durante a revolução mexicana, um traficante de armas sueco chamado Yodlaf Peterson (Franco Nero) procura o general Mongo Alvarez. O general é um oportunista e traiçoeiro, interessado apenas no conteúdo de um cofre, que contém "a riqueza da revolução". O único que pode abrir o cofre é o professor Xanthos, um pacifista aprisionado no Forte Yuma. O sueco oferece-se para libertar o professor, mas como o general não confia nele envia o tenente El Vasco (Tomas Milian) para o acompanhar. Juntos conseguem libertar Xanthos, mas entra em cena um velho conhecido do sueco, John (Jack Palance, outra vez), que está pago para matar o pacificador.

O último dos grandes westerns de Corbucci, é por vezes considerado uma sequela ou remake de (Il Mercenario). Também é um "Zapata Western", usa a mesma estrutura, e até partilha o mesmo protagonista e o mesmo vilão. A única alteração, e aqui o filme ficou a ganhar, foi da substituição do revolucionário mexicano, de Tony Musante por Tomas Milian. Nascido em Cuba, mas já emigrado em Itália há alguns anos, Milian já tinha algum historial nos Zapata Westerns. Já o tínhamos visto em "The Big Gundown", "Se sei vivo Spara", "Tepepa", ou nos filmes de Sérgio Sollima, e preparava-se para se dedicar ao Poliziotteschi, mas Milian foi um habitual no cinema de género italiano nos anos 70. A sua presença em palco era electrizante, e roubava o protagonismo a qualquer outro actor. Dizia-se que ele era tão hiperactivo na rodagem dos filmes, que era muito difícil controlá-lo, o que por vezes obrigava a mudanças no argumento. 
Por causa de Milian, este acaba por ser o western mais bem-humurado de Corbucci, mas não o melhor, embora apareça constantemente em listas dos 10 mais deste sub-género. É talvez um pouco superior a "Il Mercenario". "Companeros" era também um dos últimos grandes spaghetti, que a partir dos anos 70 começaram a ficar saturados, e repetitivos. Aos poucos, actores e realizadores mudavam-se para os famosos policiais, que continuavam a ser westerns, mas urbanos. Começavam a aparecer os filmes de Trinitá, que era uma última tentativa de recuperar o género, mas era tarde demais.
"Companheiros" é, sobretudo, uma aventura de acção, e apesar de fazer transparecer os ideias do professor, tem uma contagem de corpos impressionante, mas é um filme muito mais leve do que "Django" ou "O Grande Silêncio". Destaque-se, uma vez mais, a banda sonora de Ennio Morricone, que insistia em fazer bandas sonoras bem diferentes das que fazia para Sérgio Leone. E ainda bem.

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quinta-feira, 10 de abril de 2014

O Grande Silêncio (Il Grande Silenzio) 1968



Silencio (Jean-Louis Trintignant) é um pistoleiro mudo com um grande senso de justiça. É contratado por uma viúva cujo marido foi assassinado, para se vingar do pistoleiro Loco (Klaus Kinski), um dos caçadores de recompensas que foi contratado para caçar os sem abrigo nos arredores de Snow Hill. Um novo sherife (Frank Wolff), e o juiz local, vão tornar as coisas um pouco complicadas.
Existe um grande culto à volta deste filme, que vai muito para lá de um normal spaghetti western. Apesar de "Django" ser o mais conhecido dos westerns de Corbucci, este é o mais bem cotado entre os críticos, aparecendo em muitas listas bem no meio dos filmes de Leone. Provavelmente é mesmo o melhor spaghetti para lá dos de Leone.
A intenção de Corbucci era ter novamente Nero no papel principal, mas diz-se que como alguns dos produtores eram franceses, foi imposto o actor Jean-Louis Trintignant para ficar com o papel principal. Trintignant não sabia uma única palavra de italiano, então acabou por surgir a idéia de ter um protagonista mudo. O nome de Grande Silencio vem assim da incapacidade do protagonista de conseguir falar, para além de também ser um grande pistoleiro.
Por vezes chamado de "o western da neve", a acção passa-se no Utah, perto do final do século 19. Foras da lei encontraram um sitio para se esconder nas montanhas, mas têm de descer à cidade para conseguir alimentos. Snow Hill tornou-se num antro para caçadores de recompensas, que assassinam os foragidos a sangue frio, sem misericórdia, para apenas conseguirem a recompensa. Tal como a maioria dos westerns que Corbucci fez, este era um filme político, um filme sobre os ricos a pagarem à escumalha para matar os pobres. Os foras da lei são homens que têm de roubar para comer, e apenas são procurados porque o rico banqueiro local paga uma fortuna pelas suas cabeças. Corbucci já se tinha debruçado no tema da inutilidade de um homem para mudar o mundo, que era normalmente personificado na figura de um anti-cristão. Essa idéia está bem presente neste filme, mas para se aperceberem disso terão de ver o final, um dos mais duros e revoltantes de sempre, não estou a exagerar considerando toda a história do cinema.
Alguns pontos altos do filme, a enorme interpretação de Klaus Kinski, completamente lunático como vilão, superior até ao protagonista, e, claro, a grande banda sonora de Ennio Morricone. Um dos maiores spaghetti de sempre.

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quarta-feira, 9 de abril de 2014

Pistoleiro Profissional (Il Mercenario) 1968



Durante a revolução mexicana, Sergei Kowalsky (o polaco) é contratado para transportar um carregamento de prata para uma mina no Texas, onde descobre que Paco Roman e os seus trabalhadores tomaram o controle da situação. Depois de trocar de lado, o pistoleiro vê-se a ajudar o líder mexicano a meter as suas idéias revolucionárias em prática, mas o seu fervor idealista é colocado à prova quando ele se vê na situação de meter as mãos numa fortuna.
"Il Mercenário" é um dos mais importantes de uma família de sub-spaghetti que se chamava "Westens Zapata". Estes westerns tinham diversos pontos em comum: eram filmes passados durante a revolução mexicana, normalmente tínhamos um líder rebelde que teria de ser ensinado pelo protagonista. Um vilão ocidental ruim como as cobras. Eram filmes muito mais políticos do que os restantes westerns do período, e por vezes afastavam-se bastante dos spaghetti normais. Sergio Corbucci ficaria como um dos mais importantes realizadores deste sub-género, não só por causa deste, mas também por causa de "Companheiros", dois dos mais importantes "zapatas", ao lado de "A Bullet for the General", e "Giù la Testa", o último western de Sergio Leone. Os westerns de Sergio Sollima também são muitas vezes comparados ao Zapata, como é o caso de "Faccia a Faccia", "La Resa dei Conti" ou "Run, Man Run".
Corbucci voltava a reunir-se com Franco Nero, que havia imortalizado em "Django", e os dois ainda voltariam a trabalhar juntos em "Companheiros". Dois filmes muito parecidos em conteúdo, com a única variante de que "Companheiros" é um filme com muito maior sentido de humor.
Com Franco Nero a brilhar no papel de mercenário, o filme destacava-se também pela presença de Tony Musante, no papel de revolucionário mexicano. Infelizmente foi o seu único spaghetti, enquanto que os vilões de serviço eram desempenhados por Eduardo Fajardo e Jack Palance, cada vez mais habituado a este tipo de papel (quem se lembra dele em "Shane"?).
 Mas, apesar do cenário da revolução, o contexto político era apenas uma pequena parte do filme como um todo. Em primeiro lugar, é um filme de acção, e é aqui que Corbucci é muito bom. Dentro do movimento do spaghetti western, ninguém fazia filmes de acção como ele, das guerras nos campos de batalha aos combates homem a homem (como o derradeiro duelo entre Musante e Palance). Ao contrário de outros filmes, Corbucci também se conteve bastante na violência, o que torna este filme bastante acessível. Inesquecível era a banda sonora de Ennio Morricone.


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terça-feira, 8 de abril de 2014

Navajo Joe (Navajo Joe) 1966



Um gang de bandidos impiedosos liderados por Duncan (Aldo Sambrell), massacra índios pacíficos para lhes retirar e vender os seus escalpos. Uma das mulheres que eles assassinam é companheira de um índio Navajo chamado Joe (Burt Reynolds), que rapidamente se mete a caminho para obter a vingança. Quando é dito a Duncan e ao seu pequeno exército que os escalpos já não valem nada, ele faz um pacto com o sinistro Dr. Chester Lynne (Pierre Cressoy) para roubar uma larga quantia em dinheiro que está a ser transportada por comboio. Mas Joe persegue este bando.
Burt Reynolds era um jovem desconhecido no mundo do cinema, protagonista da série "Gunsmoke", quando participou neste filme. Diz a lenda que ele pensava que vinha para a Europa para participar num Western de Sergio Leone, e lhe seriam dadas as mesmas possibilidades que foram dadas a Clint Eastwood, poucos anos antes. As coisas não correram conforme ele esperava, e foi parar nas mãos de outro Sérgio, Corbucci. Reynolds viria mais tarde a considerar este filme o pior da sua carreira, o que é um exagero, e mostra que ele não tem a noção dos filmes que fez.
"Navajo Joe" era o filme que sucedia ao grande êxito de "Django". "Django" vira a luz do dia em Abril, e "Navajo Joe" sucedera-o em Novembro. Longe de ser dos melhores filmes do realizador, ainda assim era uma obra interessante, onde mais uma vez se nota o uso de uma violência excessiva. O tema do western centrado no índio era bastante popular nos westerns europeus na fase pré-spaghetti, como acontecia com a série de filmes alemães "Winnetou" e a maioria dos westerns italianos produzidos antes de 1963. Mas "Navajo Joe" era um filme diferente destes, era uma obra centrada no tema da vingança, ao contrário dos outros filmes com índios deste período.
Produzido por Dino de Laurentiis, que tinha fixado a idéia num índio herói em quem Corbucci não estava interessado, o filme tem pouco a dizer sobre os nativos americanos. Era a primeira colaboração entre Corbucci e Morricone, que se iria repetir diversas vezes neste território, com o seu ponto alto em "O Grande Silêncio". Morricone teve o cuidado de trabalhar de maneira diferente nos filmes de Leone e Corbucci, para que os filmes fossem bem diferenciados. A música-título seria um grande êxito neste ano de 1966.

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