terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Falcons (Fálkar) 2002



Simon, um homem com um passado misterioso regressa à Islândia com a intenção de acabar a sua vida. Antes de conseguir completar a tarefa conhece uma jovem mulher chamada Dúa, que ele acredita que pode ser a sua filha. Quando ela arranja problemas com a polícia, Simon esquece o seu desejo de morrer, e decide ajudá-la. Juntos fogem para a cidade de Hamburgo, e levam com eles aquela que é a melhor exportação dos Vikings, o falcão islandês, que pretendem contrabandear...
Para quem viu "Kes", de Ken Loach, o simbolismo da ave de rapina capturada é imediatamente significativo - a representação de um espírito livre que pretende elevar-se acima da pobreza das suas circunstâncias - mas enquanto este simbolismo pode não ser original, é bem sucedido na caracterização de Dúa. Caso não a consigam identificar com a ave, Simon refere-se a Dúa como uma "ave estranha".
"Falcons" é um "road movie" minimalista desenhado num tom sedutor, mesmo quando o sentimos estranho e artificial.  Fridriksson trabalha no já reconhecido estilo islandês - luzes e cores fortes, personagens idiossincráticos, e sequências tanto com longos silêncios como diálogos desconexos.
Contracenando lado a lado estão Keith Carradine e Margrét Vilhjálmsdóttir, que já a tínhamos visto como protagonista de "O Riso da Gaivota". Estes dois personagens encontram conforto na presença um do outro. Estão ambos ligados e descobrindo verdades sobre eles próprios que ignoraram nos seus passados. Fridriksson permite que eles se desenvolvam organicamente na tela. É uma odisseia envolvente, que nos surpreende continuamente, é tão original que nunca sabemos para onde vai a seguir.  
Legendas em inglês, nas partes faladas em islandês.

Link
Imdb

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

O Mar (Hafið) 2002



Um velho patriarca, desafiando a modernização, recusa-se a vender um negócio de pesca que ele próprio fundou, e como resultado causa enormes conflitos no seio da sua família. Sendo um homem rico, junta os seus herdeiros para discutir o futuro do negócio da família. Mas ao fazer isto, desencadeia uma tempestade de abuso sexual reprimido, suspeitas persistentes, rivalidades entre irmãos, e paixões incestuosas. Vai ser uma dura batalha entre o passado e o futuro, que culmina numa noite explosiva de raiva.
Shakespeare viaja até à Islândia para visitar uma particular família odiosa. "The Sea" é muito mais uma comédia de humor negro do que uma tragédia, este segundo filme de Baltasar Kormakur (depois de "101 Reykjavík"), deita um olhar em como um homem de família consegue dividir a sua família, mesmo que cheio de boas intenções, ao querer dividir o seu império.
O implacável frio islandês estabelece o cenário para um família que está unida por laços de sangue, mas não por amor. À medida que vamos conhecendo os personagens vamo-nos deparando com grandes doses de raiva, incesto, ciúmes, e uma batalha pela modernização de um negócio de família.
A história desta família está longe de ser amável. O pai está agora casado com a irmã da sua falecida esposa. Uma história de abuso e humilhação emerge rapidamente neste clima cinzento. A desolação na aldeia é paralela ao desespero que impera no seio da família, e que explode numa raiva (literalmente) ardente.
A paisagem exótica de gelo, neve e montanhas contrasta com a vulgaridade dos personagens. O talento de Kormakur reside em criar um ambiente opressivo, sem passar por cima destes personagens. Há momentos de humor suficientes para manter o ritmo do filme, ao mesmo tempo que pulamos para aquele canto esquecido do mundo, onde se vai passar a acção.

Link
Imdb

domingo, 25 de janeiro de 2015

O Riso da Gaivota (Mávahlátur) 2001



Interior Islandês no pós-guerra, por volta de 1950. Freyja que era uma adolescente gordinha, regressa da América, agora uma viúva com uma cintura de 20 polegadas, sete malas de vestidos, e uma lista de quem a tratou mal em adolescente. Ela vai morar com um tio e uma tia socialistas, e encontrar um novo marido não está na sua agenda. A ordem social e Freyja são mais complicadas do que parecem à primeira vista. Divisão de classes, laços de família, orgulho, o início da puberdade, são alguns dos temas que vamos lidar.
"O Riso da Gaivota" é um filme dirigido e escrito por Ágúst Guðmundsson ("The Dance"-1998), baseado num livro escrito por Kristin Marja Baldursdóttir, com o mesmo nome. Dos realizadores que veremos neste ciclo, Guðmundsson é dos poucos que já tinha carreira anterior a 1991, em especial no território da televisão, sendo ele autor da série "Áramótaskaup". O filme começa como uma típica comédia/drama, mas pelo final demonstra o seu lado mais sombrio, com a sua heroína a revelar-se uma mulher fatal, e o filme a deslocar-se para o território do "film noir". O filme pode ser visto com um complexo estudo de uma personagem, neste caso uma mulher amargurada com o passado, a preparar uma conspiração contra os homens que a fizeram sofrer no passado.
A história é nos contada pelos olhos de Agga, uma jovem menina que espia Freyja, e vai contar tudo a quem a quiser ouvir. O seu maior confidente é Magnus, um policia decente que parece estar atraído por Freyja mas nunca avança para ela. Agga diverte-o quando lhe diz que pensa que Freyja matou o seu marido na América.
Sempre enigmática, mesmo para Agga que segue todos os seus passos, Freyja revela que a sua maior esperança é encontrar um homem rico e casar com ele. Na antiga mitologia nórdica Freyja era a deusa do amor, e as acções desta personagem são reminiscentes da heroína das sagas islandesas.
Legendado em inglês.

Link
Imdb

Angels of the Universe (Englar Alheimsins) 2000



Páll é um jovem e sensível artista. Depois de ser abandonado pela namorada, Dagny, desencadeia uma enorme descida para a loucura. Seguimo-lo na inevitável descida para a perdição: primeiro em casa com os pais, até ao momento em que não conseguem mais lidar com ele, e depois numa instituição mental.

"Sendo comummente apelidado como a versão islandesa do célebre One Flew Over the Cuckoo’s Nest, este filme de 2000 surpreendeu-me muito. Em primeiro lugar, o desempenho dos actores é digno de ser relembrado, especialmente no que concerne ao homem que interpreta o papel principal, Ingvar E. Sigurðsson. As suas expressões foram muito bem trabalhadas e construídas, assim como os maneirismos retratados, em tudo típicos de um doente esquizofrénico. O olhar deste actor, perdido no vácuo, bem como a sua expressão violenta e, por vezes, alheia à realidade, esteve sempre muito presente em todas as cenas.
O que mais me fascinou neste filme, para além da história, foi a dinâmica e o impacto espelhado nos diálogos. Inicialmente somos confrontados com uma personagem feliz, apaixonada e capaz de fazer tudo pela pessoa amada. Todas as suas palavras são poesia, os elementos da natureza utilizados como belas metáforas, possibilidades inimagináveis, a vida toda à frente do seu sorriso. Após a separação, e já no contexto da doença mental de Páll, surgem as reflexões mais profundas, acompanhadas sempre pelo cigarro (elemento, a meu ver, demasiado presente em todas as cenas. Poucos foram os momentos em que não se viu esse objecto fumegante suspenso nos dedos dos actores).
Existem pérolas magníficas, que deixam o espectador a pensar e a reflectir. Exemplo disso é o diálogo entre Páll e Óli, travado no corredor do hospital psiquiátrico:
Páll: When I was a boy, the patients went around in uniforms that looked like canvas bags.Óli: They changed that ages ago. The policy now is to make hospitals look as much like ordinary homes as possible.Páll: Why do you think that is?Óli: Because ordinary homes have become so much like hospitals.
Quanto à banda sonora (o motivo, aliás, que me fez ver este filme), é, na minha opinião, bastante boa. Quase etérea, com alguns laivos de uma loucura contida, proporciona a envolvência necessária para que o espectador viva todas as cenas da melhor forma possível. Correndo o risco de ser um pouco parcial neste aspecto, o tema final – “Bíum Bíum Bambaló” - é lindíssimo, sendo da autoria da banda Sigur Rós.
Englar Alheimsins tornou-se num filme especial para mim devido à sua capacidade de me fazer pensar e reflectir em vários assuntos, nomeadamente numa questão que há muito me fascina. Depois de o ver, penso que é inevitável que o espectador se questione acerca da dicotomia entre a realidade e o sonho, a lucidez e a loucura, a doença e a sanidade mental. Até que ponto podemos nós afirmar que a sociedade na qual estamos inseridos é uma sociedade sã, dita normal e cujos padrões devem ser seguidos? Como podemos afirmar que esta sociedade é “normal” quando vemos pessoas a roubar, maltratar e atacar pessoas? Não serão esses indivíduos ditos loucos? Como podemos afirmar que esta sociedade é normal quando assistimos a violência gratuita, ataques terroristas? Afinal de contas, o que separa estes dois conceitos tantas vezes tão próximos, sanidade e insanidade? Será que existe uma barreira que é destruída em algum momento da vida de um homem e que o faz ser um louco, um doente mental?
É pelo olhar atento e algo desiludido de um homem perdido que assistimos a todas estas questões. Porque, afinal de contas, o que é ser louco? O que é ser doido? O que são doentes mentais?
A personagem principal responde: são anjos. Anjos do Universo.
E é nessa resposta que se encontra a beleza deste filme."
Texto tirado daqui 
Legendas em inglês.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

O Mundo Musical da Islândia

O dia de hoje, vai ser exclusivamente dedicado à música alternativa que se faz na Islândia. The Sugarcubes, Bjork, Sigur Rós são os primeiros nomes que vêm à memória. Mas há muito mais, como podem ver por estes três documentários.


Backyard (Backyard) 2010
Árni Rúnar decidiu improvisar e criar o seu próprio mini-festival enquanto o resto da cidade de Reykjavik celebra a anual noite da cultura. O alinhamento inclui algumas das mais excitantes bandas islandesas da actualidade: Múm, Hjaltalín, Borkó, Sing Fang Bous, Reykjavik!, Retro Stepson, e os FM Belfast. Árni Sveinsson e a sua câmara capturam a atitude "do it yourself" de Rúnar, a mesma atitude que fez da música underground ser tão bem sucedida. O festival é realizado no quintal de Árni Rúnar, e a única coisa que os pode impedir é a chuva forte. Mas o fim do verão tem muitas nuances, e o sol regressa ao recinto, que se transforma numa festa muito maior do que se esperava.

Link
Imdb

Screaming Masterpiece (Gargandi Snilld) 2005
Documentário escrito e realizado por Ari Alexander e Ergis Magnússon sobre a cena musical islandesa, tentando explicar a razão porque este país tem uma serie de talentos tão ricos e habilidosos.
O filme em si mostra perfomances ao vivo e entrevistas a alguns dos maiores nomes musicais islandeses, incluindo Bjork, Sigur Rós, Slowblow, múm, Ghostigital, Quarashi, Singapore Sling, entre muitos outros, com o frio cenário islandês como background.
Segundo Bjork, desde que o país se tornou independente em 1944 que tentam descobrir o significado do que é ser irlandês. Screaming Masterpiece mostra um dos aspectos da cultura irlandesa em debate, a procura pela definição da identidade nacional através da expressão musical.

Link
Legendas 
Imdb


Heima (Heima) 2007
No verão de 2006 os Sigur Rós regressaram a casa para tocar uma série de concertos gratuitos, sem aviso prévio para o povo Islandês. Este filme documenta essa já lendária tour, com reflexões íntimas sobre a banda, e uma mão cheia de novas perfomances acústicas. O filme é realizado pelo canadiano Dean DeBlois, que realizou também filmes de animação como "Lilo & Stich" ou "How to Train Your Dragon". 


 Link
Imdb

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

101 Reykjavík (101 Reykjavík) 2000



Hlynur (Hilmir Snaer Gudnason) é o slacker para acabar com todos os slackers. 30 anos de idade, ainda a viver com a mãe, desempregado, o nosso anti-herói está prestes a mudar a sua vida com a chegada de uma bela professora de flamenco (Victoria Abril), que se vem a descobrir que é lésbica.
Embora a natureza da vida islandesa desempenhe um papel importante na estreia como realizador de Baltasar Kormakur (vimo-lo como protagonista de "A Ilha do Diabo"), esta é uma história que poderia ocorrer em qualquer país do mundo livre. Os filmes de slackers americanos são as primeiras influências que nós vêm à idéia, e de facto "101 Reykjavik" vai ali buscar muito conteúdo.
Não há romance, apesar de ser um filme sobre as relações entre homem e mulher, e o protagonista não é uma pessoa particularmente simpática. Existem motivações secundárias neste filme, que sugerem outros motivos ainda mais escuros: como numa sequência em que um jovem Hlynur fecha a porta a um pai bêbado, e sobe para cima da cama da mãe, que lhe vira as costas.
"101 Reykjavik" apresenta um retrato realista do que é a vida noutros sitios. Pelo menos duas coisas fazem valer a pena este filme: a cena de abertura, e a banda sonora. Esta tem a espectacular colaboração do ícone da música punk Einar Orn, membro dos The Sugarcubes, onde também pertenceu Bjork, e ainda do músico dos Blur, Damon Albarn. Mas toda a banda sonora vale a pena.
Foi dos filmes islandeses a conseguir mais sucesso, na virada do século. Passou em vários festivais, como Bogota, Buenos Aires, Chicago, Locarno, Tbilissi, entre outros.

Link
Imdb

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

A Ilha do Diabo (Djöflaeyjan) 1996



"Djoflaeyjan" acontece em Reykjavik, nos anos que sucedem a Segunda Guerra Mundial. O exército de ocupação britânico e americano deixou os seus bunkers para trás, que se tornam a casa de centenas de pessoas da classe mais baixa, que se encontravam sem casa durante este período. O filme conta-nos a história da luta, e da vida durante aqueles tempos, de um grupo de pessoas.
Desde 1996 que Fredrik Thor Fridriksson tinha deixado de ser o segredo mais bem guardado da Islândia. "Cold Fever" tinha já incluído alguns diálogos em inglês, um elenco internacional, que incluía a então raínha do cinema independente Lili Taylor, cenários espectaculares, e uma mistura eficiente de comédia e drama, para mostrar ao mundo que a Islândia, apesar de ser dito que tinha mais ovelhas do que pessoas, também tinha indústria de cinema. "A Ilha do Diabo" era uma viagem no tempo até à terra natal do realizador.
"A Ilha do Diabo" enfatiza um dos recorrentes temas abordados por este realizador: a forte influência da cultura americana na sociedade islandesa. Através de uma viagem ao passado, Fridriksson mostra-nos que as coisas não eram muito diferentes no pós-guerra, quando os americanos tinham abandonado a base militar em Camp Thule.
Ao longo da sua carreira, Fridriksson nunca foi crítico sobre a americanização do seu país, embora se possa ver este "A Ilha do Diabo" como uma reversão na tendência do realizador, porque pode-se ver mais pontos negativos do que positivos. O filme também reflecte as experiências do realizador na juventude, já que ele nasceu em 1953, mesmo na altura em que a acção se passa.
O tom escuro do filme está espalhado por todo o lado, alternando entre a comédia negra e o drama sombrio, e poderia ser aborrecido se Fridriksson não fosse tão habilidoso. O melhor de tudo é que ele consegue manter o filme relativamente imprevisível, e consegue fazê-lo não centrando o filme numa só personagem. Mantém a acção voltada para a família, para o meio ambiente, e as condições nas quais eles vivem. Fica claro que a melhor forma de sobreviver é manterem-se unidos.
Legendado em inglês, é um filme bastante raro.

Link
Imdb

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Cold Fever (Á Köldum Klaka) 1995



"Cold Fever" conta-nos a história da viagem espiritual de um jovem japonês de negócios natural de Tóquio, Atsushi Hirati, que desiste de umas férias memoráveis no Hawai para prestar tributo aos seus falecidos pais, que faleceram num rio isolado na Islândia, anos atrás. De acordo com os costumes japoneses os seus espíritos devem ser reconfortados e alimentados para que possam viver em paz.
A resistência e a paciência de Hirati são postas à prova numa difícil viagem por toda a ilha, num velho Citroen. Ao longo do caminho ele encontra uma mulher obcecada por funerais, um casal de perigosos americanos, uma menina espírita cujos gritos devastam icebergs. Hirati vai também encontrar um homem que tem o que ele precisa para cumprir as obrigações familiares.
No final não é a meditação sobre o tempo e a morte que nos ficam na mente, mas sim o seu aspecto de "diário de viagem". A neve está em todo lado, e em todas as suas variações. Durante o dia são quilómetros de quietude, nada mais do que o branco congelado. Mas, à luz da lua tudo muda de côr.
Escrito e realizado por Fridrik Thor Fridriksson, "Cold Fever" é um filme fascinante, especialmente para quem quiser conhecer as belezas paisagísticas da Islândia. Lembra-nos que as experiências mais gratificantes da vida muitas vezes não são planeadas, e podem ter pouco a ver com o lazer. Tal como diz o protagonista no final: "Sometimes a journey can take you to a place that's not on any map."
Lili Taylor e Fisher Stevens aparecem creditados no filme em segundo e terceiro lugar, mas na realidade têm apenas pequenos papéis.
Ganhou o prémio principal no Festróia de 1996.

Link  
Legendas
Imdb

domingo, 18 de janeiro de 2015

God Bless Iceland (Guð Blessi Ísland) 2009



A crise financeira poucas vezes atingiu o núcleo de um país tão gravemente como aconteceu com a pequena Islândia: um país que nos últimos anos vinha a ser uma das nações mais prósperas no mundo, e de repente torna-se uma metáfora para a crise global e uma prova para a incontrolabilidadeda fúria capitalista.
Nos últimos meses era mostrado ao mundo uma série de quadros dramáticos: manifestantes indignados no centro de Reykjavik, exigindo a demissão de dirigentes de bancos e do governo, assim como eleições antecipadas para Maio de 2009.
Este documentário conta a história da crise financeira na Islândia, mergulhando nos confrontos diários e muito reais da calamidade, que prejudicou não só a economia da Islândia como a identidade desta pequena nação.
Helgi Felixson, o realizador, filma os protestos e as respostas que o povo ía dando ao facto do país viver num estado de bancarrota, e filma também os grandes tubarões da sociedade.
É um documentário muito raro, que muitos políticos preferem que não seja visto. 

Link
Imdb

sábado, 17 de janeiro de 2015

Filhos da Natureza (Börn Náttúrunnar) 1991



Thorgeir (Gísli Halldórsson) é um velho camponês que vende as suas ovelhas e a terra para se mudar para o apartamento da filha, em Reykjavik, onde ela vive com a restante família. As coisas não correm conforme o planeado, e Thorgeir vê-se obrigado a ir viver para um lar. Lá ele encontra uma paixão de infância, Stella (Sigridur Hagalín), que depois de se queixar o quão mal ela se sente naquela casa de repouso, decidem os dois fugir para a terra natal, onde pretendem viver o resto dos seus dias.
Quando o casal deixa o congestionamento da cidade e entra na deslumbrante beleza do interior da Islândia, com os seus fiordes, a paisagem inóspita que eles atravessam torna-se irresistível, e o filme passa a mover-se no território da fábula. Na sua simplicidade, o filme diz de uma forma alegre que o casal precisa de viver os seus últimos dias em liberdade, e não dependente dos outros. É um filme de uma beleza sublime, chamando a atenção pela forma como o mundo moderno perdeu algo tão importante como a sensação para a natureza.
Realizador e argumentista, Fridrik Thór Fridriksson estava aqui em quase estreia cinematográfica, e contava com um belíssimo trabalho atrás das câmeras de Ari Kristinsson. Nascido na Islândia em 1954, Fridrik Thór Fridriksson começou a sua carreira nos anos 80, na área documental, tendo feito também dois filmes para a TV. "Children of Nature" era a sua segunda longa-metragem, depois de White Whales (1987). Fridriksson usa um ritmo lento, estilo minimalista, que é o ideal para o assunto que é aqui abordado.
Foi o primeiro filme da Islândia a receber real reconhecimento internacionalmente, ao conseguir a primeira nomeação para um Óscar para aquele país. A concorrência nesse ano era forte, e contava com filmes de Zhang Yimou, Jan Sverák, ou do famoso director de fotografia Sven Nykvist, mas acabaria por ir parar às mãos do italiano Gabriele Salvatores. Mesmo assim colocou a filmografia da Islândia no mapa, ela que era quase invisível aos olhos internacionais. Nos anos seguintes muitos filmes saíram para fora do país, e conseguiram sucesso além fronteiras, como iremos ver neste ciclo.
No Brasil estreou no festival do Rio em 1991, e em Portugal foi exibido no Féstroia de 1992. Também ganhou o prémio de melhor compositor nos European Film Awards.

Link
Imdb

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Cinema Islandês Contemporâneo

A história do cinema na Islândia, vai até ao inicio do século XX, mais propriamente a 1903, quando um filme foi mostrado pela primeira vez. A partir do ano seguinte, começaram a ser exibidas sessões regulares.  O mais antigo filme preservado na Islândia é de 1906, um documentário de 3 minutos realizado por Dane Alfred Lind. Em 1919 Gunnar Sommerfeldt realizou uma adaptação do autor islandês Gunnar Gunnarsson, de  "The Story of the Borg Family" que é considerada a primeira longa-metragem a ser realizada na Islândia.
Foram muito poucos os filmes islandeses realizados no período do cinema mudo, e eram basicamente documentários. O primeiro filme falado apenas surgiu em 1948, chamado "Milli fjalls og fjöru", (Between Mountain and Shore").
Até 1979 não houve muita regularidade no cinema da Islândia. Alguns filmes dignos de nota foram "Girl Gogo" de Erik Balling, ou "Murder Story", de Reynir Oddsson, um thriller Chabrolesco.
1979 marcaria o inicio da produção regular de filmes, o mesmo ano em que o Iceland Film Fund, agora chamado de Iceland Film Centre, começou a operar e a financiar o cinema naquele país. Desde então grande parte dos fundos do cinema islandês vem do exterior, uma vez que a Islândia é um país muito atractivo tanto a nível paisagístico como a nível de cultura. A Alemanha torna-se o principal aliado exteriormente, e as co-produções com dinheiro de fora tornam-se cada vez mais frequentes neste país. A maior parte dos filmes islandeses lidavam com histórias contemporâneas, com muito pouco sentido político. Na maior parte das vezes havia muitos contrastes entre a vida urbana e o modo de vida rural, mas mais recentemente a ênfase mudou para o modo de vida urbano.
Nos anos anos 80, os únicos filmes islandeses a saírem para fora do país foram os filmes de vikings de Hrafn Gunnlaugsson, que gozaram de algum sucesso exteriormente.
Mas chegamos ao ano Zero. Ano zero do cinema islandês, e ano zero aqui do nosso ciclo. "Children of Nature" (Börn Náttúrunnar), realizado por Friðrik Þór Friðriksson, conseguiu uma nomeação para o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1992. Acabou por perder o prémio para "Mediterrâneo" de Gabriele Salvatores, mas chamou a atenção tanto para o nome do realizador, como para a cinematografia do país.
A partir daqui, um número muito maior de filmes islandeses começaram a chegar a audiências internacionais, e a participar em festivais de cinema. Aqui em Portugal os filmes islandeses fazem parte, todos os anos, da programação do Festroia, tendo inclusivé ganho este festival duas vezes. Aliás, a Islândia é um dos países mais vezes vencedor do Festroia.  Desde então o cinema islandês pode ser definido pela diversidade, sobretudo pelo contraste entre a Islândia tradicional e moderna, entre o passado e o presente.
Este ciclo, que irá ter a duração de três semanas, e perto de 30 filmes, vai pegar a filmografia da Islândia em 1991, altura em que foi produzido "Children of Nature", e vai vai acompanhá-la até aos dias de hoje. Como devem calcular, alguns destes filmes são bastante raros, e só os consegui com legendas em inglês, mas mesmo assim temos um número considerável de filmes legendados em português.
Um bom ciclo para todos, e até já.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Contra Todos os Riscos (Classe Tous Risques) 1960



Um criminoso refugiado tenta voltar clandestinamente para a França, acompanhado da família e do seu parceiro. Nesse percurso as coisas saem para fora de controle e ele vê que os seus amigos não são tão amigos como pensava, tendo de contar apenas com a lealdade de um estranho.
Baseado num romance de José Giovanni, escrito pouco tempo depois do autor saír da cadeia, "Classe tous risques" tem um início dinâmico, com a fuga de Davos (Lino Ventura) de Milão com uma terrífica sequência de acção, utilizando vários meios de transporte para culminar no desembarque na costa francesa na calada da noite. Mas quando o pior acontece, Davos descobre que se deve voltar para os seus antigos parceiros no crime.  Os seus "amigos" de Paris agora vivem uma vida bastante respeitável, seguros apenas porque ele ficou com as culpas, que terminaram no seu exílio. Mas agora, anos depois, eles estão com reservas em pagar as suas dívidas, e em vez de o fazerem pessoalmente, mandam um homem de confiança (interpretado por um terrífico Jean-Paul Belmondo), para pegar Davos no sul de França, e trazê-lo de volta a Paris.
"Classe Tous Risques" é um filme tenso, um original filme de gangsters contado com simplicidade e um franqueza convincente, exposto com um toque de neorelismo. Mas também há questões mais profundas em jogo, com Sautet a explorar os conflitos entre lealdade e família, e o código de honra entre os ladrões. O resultado é um tour de force, completado por uma banda sonora de Georges Delerue, e uma bela fotografia de Ghislain Cloquet.
Sendo um dos primeiros filmes do francês Claude Sautet, que se tornaria num realizador respeitado, acabaria por despercebido, eclipsado pelo outro filme de Belmondo que estreava no mesmo ano "À Bout de Souffle". O facto da Nouvelle Vague estar a florescer neste momento também não ajudou muito, nem este nem outros noirs ou policiers que se faziam na altura. Ainda assim é um filme que vale a pena recordar.

Link
Imdb