domingo, 15 de setembro de 2019

Quem Programa Sou Eu: Os Cineastas e a Televisão, por João Palhares

O João Palhares é um velho amigo do M2TM. Blogger desde 2007, autor do Cine Resort, co-fundador do Cineclube de Braga, Lucky Star, em conjunto com o José Oliveira, podem ler a entrevista aqui, e também já colaborador dos Thousand Movies no passado. Lembro-me de uma participação num 5x5 e no ciclo de aniveersário, por exemplo. E foi assim, com todo o gosto, que lhe enderecei este convite, com o tema por si escolhido a ser "Os Cineastas e a Televisão".
Para começar, vamos passar a palavra ao João, que fez todos os textos dos filmes que poderão ver aqui nos próximos dias. Os filmes, e não só, a partir de amanhã:



"Custa ler meia volta que é neste momento que se vive a época de ouro da televisão, e que haja muita surpresa e elogio a “atitudes progressistas” sempre que um realizador de cinema trabalha num episódio duma série ou num especial Netflix, como nos últimos anos fizeram Quentin Tarantino, James Gray, Martin Scorsese, Christian Petzold, M. Night Shyamalan, David Lynch ou David Fincher, quando nos anos 40, 50 e 60, foi um laboratório privilegiado para actores, escritores e realizadores, onde podiam trabalhar regularmente e quase ensaiar, como faz um músico, antes de um novo filme; bem como trabalhar, simplesmente, quando Hollywood não tinha nada para eles, e fazer belíssimos trabalhos. Foi durante estes anos, afinal, que se fizeram séries como “Screen Directors Playhouse”, “The Twilight Zone”, “Playhouse 90”, “Wagon Train”, “Alfred Hitchcock Presents”, “The Rifleman”, “Alcoa Premiere” ou “The Westerner”, por exemplo. E para a televisão, trabalharam Anthony Mann, Budd Boetticher, Don Siegel, Blake Edwards, Robert Aldrich, Nicholas Ray, Otto Preminger, Orson Welles, Alfred Hitchcock, Leo McCarey, Frank Borzage, Jacques Tourneur, John Ford, Allan Dwan, Ida Lupino, Frank Capra, Robert Siodmak, Ingmar Bergman, Edward Ludwig, Vittorio Cottafavi, Otar Iosseliani, John Cassavetes, Roberto Rossellini, Joseph H. Lewis, Samuel Fuller, Jean Renoir, Nagisa Ôshima, Helmut Käutner, Alexandre Astruc, Manuel Mur Oti, Jerry Lewis, Éric Rohmer, Abel Gance, Hang-Jürgen Syberberg, Ermanno Olmi, Rainer Werner Fassbinder, Luigi Comencini, Vittorio De Seta, Sergio Sollima, Jean-Luc Godard, Paul Newman, Chris Marker, Pedro Costa, entre muitos outros realizadores que começaram no cinema, alguns durante a altura do mudo. 
Podia ser só isto e já estávamos muitíssimo bem servidos, com centenas de horas para nos pormos a par de filmografias com interlúdios televisivos ou continuadas exclusivamente (ou quase) no pequeno ecrã (pense-se no resgate das carreiras de Jacques Tourneur, John Brahm, Ida Lupino, Mitchell Leisen, Vittorio Cottafavi ou Sergio Sollima) mas também foi na televisão que tiveram os seus primeiros trabalhos Sidney Lumet, Arthur Penn, Robert Altman, John Frankenheimer, Sam Peckinpah, Richard C. Sarafian, Robert Mulligan, Daniel Petrie, William Friedkin, Bob Rafelson, Larry Cohen, John Boorman, Stuart Rosenberg, Sydney Pollack, entre muitos outros, antes de tomarem o cinema de assalto nos anos 60 e 70. Nos primeiros anos de existência, como era terreno virgem e explorado por produtores independentes que ainda não controlavam as operações com punhos de ferro nem exigiam grandes formatações ou limites aos programas além dos da duração, podia-se experimentar quase de tudo em televisão. Nestas condições – a que se pode ainda acrescentar o facto de se ter podido fazer fosse o que fosse, durante uns tempos, sem pensar em horários para crianças e para adultos (não havia ainda controlo de idades) – não era de admirar que se reunisse um grupo muitíssimo variado de talentos, do teatro ao cinema, que ia aprendendo a conjugar-se e a completar-se para criar algo diferente. 
"Havia aquele sentido de energia, ali”, disse Robert Mulligan em entrevista ao Film Journal International, “acho que todos os tipos da televisão o tinham. A frase de Paul Newman sobre Sidney (Lumet) – de que realiza como se estivesse estacionado em segunda fila – acho que nos descreve a todos. Eu gosto de trabalhar rápido. Gosto de ensaios, montes deles. Quanto mais ensaios um actor tem, mais seguro se torna. Não acredito em actores que se poupam para a luz vermelha. Quero experimentar a interpretação para que se saiba se a cena funciona. Se um actor é como um mergulhador a saltar de uma prancha de mergulho, não quero que ele me diga que consegue fazer o salto mas não o vamos ensaiar. Eu digo que se consegue mergulhar melhor quando se sabe para onde se vai. O argumento com que confronto esse tipo de actores é: E as surpresas que podem acontecer quando se sabe para onde se vai? O que é que pode acontecer numa cena além do que é bem comum e óbvio? Eu acho que todos os realizadores de que estivemos a falar tiveram o mesmo sentido de preparação, a capacidade para se sentarem com um actor e o ouvirem a falar sobre o que quer fazer. Mas não falemos demais. Vamo-nos levantar e fazê-lo." 
Também Clint Eastwood, que começou a realizar no início dos anos 70 (o seu primeiro trabalho é uma curta documental chamada The Beguiled: The Storyteller, debruçada sobre o processo criativo de Don Siegel, o seu grande mentor e colaborador destes anos (1968-79), durante a rodagem de The Beguiled), passou pela televisão como actor, apesar de ter começado a carreira de cinema nos estúdios da Universal, quando era conhecida por Universal-International e lá trabalhavam realizadores como Raoul Walsh, Douglas Sirk, Budd Boetticher, Jack Arnold, George Sherman ou o próprio Siegel. Em “Rawhide”, série em que interpretava Rowdy, o segundo capataz de um grupo de vaqueiros, trabalhou com Jack Arnold (com quem já tinha trabalhado em Revenge of the Creature e Tarantula), e com Stuart Heisler, Robert D. Webb ou Gerd Oswald, realizadores de cinema já veteranos e experientes que se refugiavam na televisão ora por não arranjarem trabalho nos grandes ou pequenos estúdios ora simplesmente para manterem um certo ritmo de trabalho - para ensaiar o ofício. Lembrando palavras de Eastwood à Rolling Stone, “é como aquela história do grande trompetista clássico que, um dia, encontraram a tocar numa orquestra de basebol, em Wrigley Field. Alguém o reconheceu e perguntou, ‘Meu Deus, maestro, o que é que o maior trompetista clássico do mundo está a fazer numa banda de basebol?’. Ele respondeu, ‘Tem de se tocar todos os dias’. Em “Rawhide”, pude tocar todos os dias. Ensinou-me a reagir e acompanhar, a inventar e a levar as coisas para a frente.” 
O interesse dos grandes cineastas pelo meio novo da televisão foi muito bem resumido por Jean Renoir, em conversa com André Bazin e Roberto Rossellini no final dos anos 50. “Todas as artes”, diz ele, “as artes industriais (e, afinal de contas, o cinema é uma arte industrial) foram grandes no começo e depois degradaram-se com a perfeição. Há pouco falei dos tapetes de Arrás, mas é evidente que o mesmo vale para a cerâmica. Há uns anos também eu trabalhei com a cerâmica, tentei reencontrar a antiga simplicidade técnica, e reencontrei-a, mas artificialmente; e foi essa a razão pela qual me dediquei a uma profissão que era verdadeiramente primitiva: o cinema, no seu início. O meu primitivismo na cerâmica era um primitivismo artificial, porque eu recusava-me a utilizar os aperfeiçoamentos da técnica da cerâmica e limitava-me, voluntariamente, a fórmulas mais simples. E isto não era autêntico, era uma construção intelectual. O que acabo de dizer faz muito sentido no ramo da cerâmica. O meu pai, que trabalhou com cerâmica, explicou-me que se chegou a pintar um vaso com todas as cores inimagináveis, tal como se pinta sobre tela ou papel. Já não há cerâmicas, acabou-se tudo. A cerâmica existia quando tinha à disposição cinco, seis cores, quando possuía uma paleta limitada e técnicas complicadas. 
“O mesmo se aplica ao cinema; as pessoas que realizaram os primeiros filmes americanos ou suecos ou alemães – essas primeiras obras tão boas – não eram, com certeza, todos grandes artistas, aliás muitos deles eram artistas medíocres. E mesmo assim os filmes deles eram bons. Porquê? Porque a técnica era difícil: aqui está. Em França, depois do período majestoso, depois de Méliès, Max Linder, temos filmes que não valem o que quer que seja. Porquê? Porque éramos intelectuais, porque queríamos fazer filmes de arte, queríamos realizar obras de arte. Na verdade, a partir do momento em que nos sentimos intelectuais, deixando de ser artistas manuais, corremos um grande perigo. Se hoje, eu e o Roberto, nos dedicamos à televisão, é porque a televisão está num estádio técnico primitivo que talvez possa dar aos autores o espírito do cinema primordial, quando todas as realizações eram boas.” 
Outra das coisas que aguçou a curiosidade de realizadores consagrados ou encenadores jovens em relação à televisão, nos anos 50, foi a transmissão em directo, que implicava um jogo de cintura enorme se se quisesse fazer algo minimamente apresentável. Mas durante os directos, se se visse algo que valesse a pena, “um pedaço de emoção que não estava lá” (nas palavras de Arthur Penn), podiam-se mandar às urtigas todas as marcações e planeamentos de guiões de rodagem e arriscar manter um grande plano ou o exorcismo de um actor talentoso, em busca de revelações inéditas e impossíveis com regras e planeamentos. No início, a televisão pôde ser a ponte de acesso do grande público ao Teatro, através das encenações de Penn, Lumet, Cottafavi ou Bergman, além de ser também uma forma de literatura que o cinema não podia nem pode ser, emulando a leitura em capítulos ou tópicos, das enciclopédias aos grandes romances, dos livros técnicos aos livros de contos, das biografias aos livros de história, através de séries ou mini-séries de televisão como “Berlin Alexanderplatz” de Fassbinder, “Histoire(s) du cinéma” de Godard, “Cuore” de Comencini, “La lotta dell'uomo per la sua sopravvivenza” de Rossellini, “L'héritage de la chouette” de Marker, “Cristóbal Colón” de Cottafavi, ou a já citada“Alfred Hitchcock Presents”. Trabalhos feitos com a especificidade do meio em vista, com muito engenho e grande inteligência. 
Agradecendo ao grande Francisco Rocha o convite, a oportunidade e o desafio, termino dizendo que há várias televisões: a que documenta o mundo e tem toda uma herança por si só a que prestar contas, das grandes reportagens aos debates políticos mais icónicos, do homem à Lua e da poesia dos grandes desportistas; a televisão de todos os dias, que nos pode preencher alguns espaços de tempo sem termos de pensar se se compara a um plano do Mizoguchi, e que vai de João Baião a Jerry Seinfeld; a ficção formatada que idealmente podia fazer o mesmo que o cinema, mas se apressa demais e se perde nas malhas da estupidez e da banalidade; e a que não merece menção e hoje parece ocupar quase todas as grelhas e horários; por fim, nas margens ou no fundo de tudo isto, há também a que merece ser considerada como parte da história do cinema, a que ajudou a financiar certas empreitadas impensáveis, a que permitiu a grandes cineastas fazer experiências e ensaiar antes dos concertos em salas de espectáculos, a que fez, cimentou ou resgatou carreiras, a que vai sintetizada neste pequeno ciclo dos “Cineastas e a Televisão”."

Roberto Rossellini na rodagem de “L'età di Cosimo de Medici” (1973)

sábado, 14 de setembro de 2019

Alley Cat (Dora-heita) 2000

Samurai Koheita Mochizuki, que tem o apelido de Dora-Heita, que significa "alley cat", ou "playboy", é um novo magistrado numa pequena cidade, que finge ser alcoólico, mas na verdade foi enviado para limpar esta cidade corrupta e sem lei. A sua tarefa é complicada pela chegada inesperada de uma mulher...
Com a indústria cinematográfica japonesa à beira de um colapso entre 1969/70, quatro dos seus realizadores mais importantes, Akira Kurosawa, Masaki Kobayashi, Keisuke Kinoshita, e Kon Ichikawa, formaram uma produtora a que chamaram de "Club of the Four Knights" (Yonki no kai). Esperavam que esta produtora amplamente financiada ajudasse a revitalizar o cinema do seu país, mas o seu primeiro filme, Dodes'ka-den (1970), de Akira Kurosawa foi um fracasso financeiro, e a produtora entrou em colapso, com cada um deles a seguir depois por caminhos diferentes.
Um dos projectos desta equipa que nunca passou do papel, seria este "Dora-Heita", dirigido por Kon Ichikawa muitos anos depois, numa altura em que os outros realizadores já tinham falecido. Ichikawa tinha então 84 anos, e o argumento do filme seria creditado a si, e aos outros três realizadores, porque supostamente eles iriam realizar o filme em conjunto, embora seja difícil de imaginar o que poderia sair dali.
Com um herói guerreiro moralmente ambíguo, o argumento aproxima-se mais a "Yojimbo" e "Sanjuro" de Kurosawa, e tal como estes também foi baseado num livro de Shugoro Yamamoto, embora cinematograficamente o filme não tivesse nada a ver com os filmes de Kurosawa, A desconstrução geral do mito samurai e todos os aspectos cerimoniais e hierárquicos são extremamente bem sucedidos, e o elenco de apoio é brilhante, com actores associados a um ou mais dos argumentistas. Este é o último filme deste ciclo. 
Legendas em inglês.

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quinta-feira, 12 de setembro de 2019

47 Ronin (Shijûshichinin no Shikaku) 1994

No Japão de 1701, Asano,  o daimyo de Ako, agrediu Kira (Rie Miyazawa) um oficial do Shogunate, no castelo de Edo, crime pelo qual foi condenado a cometer suicídio. No ano seguinte, um dos antigos guardiões de Asano, Kuranosuke Oishi (Ken Takakura), reúne um grupo de outros seguidores do seu senhor e com eles conspira para se vingar de Kira, a quem ele considera responsável pela morte de Asano. 
Desde o início até ao fim, dificilmente há um momento do filme que não seja cativante. Organizando cuidadosamente os seus cenários e as suas personagens, coreografando perfeitamente os movimentos destes últimos, e filmando cada imagem encantadora com tremenda habilidade, Ichikawa criou uma bela visão para a historia do cinema. Praticamente todos os instantes de cada cena apresentam ao espectador um quadro impressionante, quer ele enquadre um bando de samurais que conspiram à noite com silhuetas de árvores, ou mostre o líder desses homens diante da entrada de uma casa sob um galho de uma árvores carregado com flores de cerejeira. ou simplesmente apresente dois personagens sentados em silêncio numa sala austera, tudo é pura poesia cinematográfica.
Realizado em 1994, é uma das muitas versões desta famosa história, e é basicamente uma reformulação do cinema de samurais de final dos anos sessenta, período no qual Ichikawa foi muito activo. O protagonista é Ken Takakura, que tinha protagonizado cinco anos antes um filme de Ridley Scott, "Black Rain".

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terça-feira, 10 de setembro de 2019

Princess from the Moon (Taketori Monogatari) 1987

Quando uma misteriosa luz aparece no céu, um casal pobre investiga e encontra uma pequena cápsula perto do túmulo da sua filha. A cápsula abre-se para revelar um bébé que se parece muito com a filha. Decidem adoptá-la e ela cresce tornando-se uma jovem de excepcional beleza, incapaz de decidir qual dos seus muitos pretendentes realmente a ama. Quando ela toma uma decisão final descobre onde estão as suas origens, e não é na Terra... 
Toshirô Mifune e Ayako Wakao, dois já veteranos do cinema japonês são o casal central deste filme de fantasia, baseado numa história tradicional japonesa que não é muito familiar para o público ocidental. A mesma história deu origem a um outro filme produzido pelos estúdios Ghibli intitulado "The Tale of the Princess Kaguya", lançado em 2013, mas a esta primeira versão, produzida pelos estúdios Toho, foi dada à história uma reviravolta ficcional mais cientifica.  
Foi estreado com o 55º aniversário do Estúdio Toho. Ichikawa observou que queria fazer esse filme há muitos anos, e a sua intenção era fazer um filme de pura diversão. Foi selecionado como filme de abertura para o Festival de Cinema de Tóquio, onde não foi bem recebido pelos críticos. Os estúdios promoveram o filme fortemente, e tiveram o segundo maior retorno nesse ano. 
Legendas em inglês.

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domingo, 8 de setembro de 2019

The Makioka Sisters (Sasameyuki) 1983


Baseado num livro popular de Junichiro Tanizaki, esta adaptação japonesa realizada por Kon Ichikawa, centra-se na história de quatro filhas de uma família da classe alta de Osaka, herdeiras de uma grande fortuna. As duas irmãs mais velhas, Tsuruko e Sachiko, são casadas, e sentem-se obrigadas a encontrar pretendentes adequados para as duas irmãs mais novas, a tímida Yukikio, e impedir que Taeko, a mais independente, envergonhe a família casando com alguém de uma classe mais baixa.
"The Makioka Sisters" é uma soap opera à grande moda japonesa, com a apresentação da rivalidade entre irmãos (neste caso, irmãs"), disputas domésticas, escândalos, e o refluxo da tradição sob o ataque do modernismo. O filme oferece ainda aos ocidentais um vislumbre revelador dos conflitos de classes e algumas repercussões cómicas do sistema japonês e da selecção de parceiros para as mulheres jovens.
O tom sereno é sintomático do facto de que o filme não é sobre o fim de uma era, mas sobre o começo de uma. A acção passa-se em 1938, perto do início da era Showa, no Japão, um período tempestuoso que terminou em 1989 com a morte de Hirohito, e inclui eventos traumáticos importantes como a guerra sino-japonesa, a Segunda Guerra Mundial e a ocupação Aliada do Japão. Nesse contexto é importante observar que Ichikawa optou por tratar o melodrama pré-guerra não como um preludio ingénuo para tempos mais sombrios pela frente, mas como um período brilhante de mudança iminente. 
Legendas em inglês.

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sábado, 7 de setembro de 2019

The Devil´s Island (Gokumon-to) 1976

1946. Um detective pitoresco investiga os assassinatos de três irmãs numa pequena ilha japonesa. Lá ele encontrará uma comunidade fechada e suspeita de forasteiros, na qual acontecem uma série de assassinatos planeados a sangue frio, e que estão para além da razão.
Kon Ichikawa a revisitar o nundo de Kosuke Kindaichi neste "The Devil´s Island". Era a terceira de cinco vezes que o faria, mas será o último filme da série que veremos neste ciclo. "The Devil´s Island" seria adaptado de uma forma confusa do segundo livro da série de Kindaichi, e passa-se alguns anos antes da adaptação anterior de Ichikawa, "The Devil´s Ballad". O facto de ambos os filmes se chamarem "The Devil´s" é pura coincidência. 
Como nas duas adaptações anteriores de Kindaichi, Ichikawa mantém o cenário imeadiato no pós-guerra, embora desta vez a guerra seja anterior e de fundo, pois a nossa história passa-se em solo profano, uma ilha pirata que já foi o lar dos criminosos mais hediondos exilados do Japão. Como se pode supor, a história não está longe dos livros de Agatha Christie, e vale a pena pela curiosidade, e por também ter feito um enorme êxito nos cinemas japoneses da altura.
Legendas em inglês.

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quarta-feira, 4 de setembro de 2019

The Devil's Ballad (Akuma no Temari-uta) 1977


Kôsuke Kindaichi é um detective privado um tanto peculiar que está de visita a uma cidade isolada. Lá ele conhece um detective, e juntos começam a investigar um crime não resolvido com vinte anos, e, de repente, uma nova vaga de crimes começa a acontecer. Kindaichi deve descobrir o que aconteceu no passado, para saber quem é o assassino.
Kon Ichikawa regressa a Kôsuke Kindaichi o popular personagem de Seishi Yokomizo, depois do enorme sucesso do filme do ano anterior, "The Inugami Family". Kindaichi foi a estrela de 77 histórias diferentes e dezenas de adaptações cinematográficas, um detective inteligente mas humilde, uma vez mais interpretado por Kôji Ishizaka, em mais uma óptima representação. 
Assemelha-se ao filme anterior em muitos aspectos. Muito confuso no início, envolvendo uma maldição antiga, uma música folclórica, antigas rivalidades familiares e duplas identidades. Depois de 40 minutos começa-se a cristalizar uma história envolvente, onde Ichikawa emprega alguns truques estilísticos e uma montagem abrupta, onde mantém os espectadores interessados dando à história alguns solavancos inesperados. Tal como no filme anterior, nem tudo é o que parece.
No que diz respeito aos filmes de mistério era uma obra muito à frente do seu tempo. A quantidade de factos e nomes que se deve processar nos primeiros 40 minutos é avassaladora, portanto a atenção aos detalhes é um pré-requisito muito importante. 
Legendas em inglês.

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segunda-feira, 2 de setembro de 2019

The Inugami Family (Inugami-ke no Ichizoku) 1976


O chefe da rica família Inugami morre, e deixa para trás um último desejo que vai desapontar quase toda a gente. O único beneficiário é uma jovem que não faz parte da família, mas há um problema: ela tem que se casar com um dos três netos do velho, e se não o fizer a herança será dividida entre os parentes mais próximos. Naturalmente, as pessoas começam a brigar, e algumas começam a ser mortas. É então que o nosso protagonista, o detective Kindaichi, entra em cena, só que toda a gente mente, e ninguém é o que diz ser...
Ao contrário de muitos dos seus contemporâneos, Kon Ichikawa foi capaz de continuar a trabalhar durante os turbulentos anos 70 e 80, porque estava pronto a assumir projectos puramente comerciais. O sucesso fenomenal e extremamente inesperado de "The Inugami Family" colocou-o numa posição privilegiada durante uns bons anos, durante os quais ele realizou mais quatro filmes interpretados por Kôji Ishizaka no papel do detective Kôsuke Kindaichi, personagem dos livros de Seishi Yokomizo, com cada filme a ser um sucesso comercial, em parte graças à grande estratégica de marketing de Haruki Kadokawa, o produtor, que se iniciava nas lides cinematográficas com o primeiro filme da série. 
Um filme que é reminiscente dos trabalhos de Agatha Christie, mas mesmo que "The Unugami Family" seja sem dúvida parte do género de "detective", também há muito mais do que isso. O filme possui ainda elementos notáveis de terror, drama familiar, e até comentário social, mas o argumento inteligente à parte, é a realização de Ichikawa que o eleva acima dos outros do género, com a parte visual, principalmente, a ser deslumbrante.
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domingo, 1 de setembro de 2019

The Wanderers (Matatabi) 1973


Seguimos a vida de três amigos no degrau mais baixo da ordem social da Yakuza (muitas pessoas confundem este filme como sendo sobre 3 Ronin, mas definitivamente esse não é o caso, e fica claro na narração de abertura). Os três protagonistas são de facto toseinins, camponeses errantes que abandonaram a família e o lar por uma vida de aventuras e pequenos crimes, viajando entre as casas da Yakuza em busca de abrigo, trabalho e comida. O filme centra-se na vida de Genta, um jovem em conflito entre o desejo (da família e do amor) e a obrigação (para com o código da Yakuza).
"The Wanderers" pretende ridicularizar qualquer código, uma vez que códigos rígidos frequentemente comprometem a nossa própria moralidade e humanidade. A única personagem que realmente é mostrada a rejeitar um código é a jovem, Okumi, que foge do seu "dono" para ficar com Genta. Ela rejeita firmemente o papel que lhe é dado pelas regras da sociedade para fazer o que é certo, não só para si própria, mas também para os seus três amigos.
O filme foi lançado numa época em que o Japão buscava valores para orientar a sua juventude, e o código Yakuza era muito usado e oferecido como modelo nos filmes daquele período. O ponto principal de Ichikawa era de ridicularizar esses valores, mostrando a Yakuza como um bando de andarilhos de mente pobre, covardes indignos que seguem regras sem nunca as questionar. O ponto de vista de Ichikawa é esclarecido ao longo do filme, sem usar grande ênfase.
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sexta-feira, 30 de agosto de 2019

As Olimpíadas de Tóquio (Tôkyô Orinpikku) 1965

"As Olimpíadas de Tóquio" (Tokyo Orimpikku) é um documentário profundamente humanista de Kon Ichikawa sobre os Jogos Olímpicos de 1964, em Tóquio, no Japão, que esteve quase para não ser feito. Inicialmente rejeitado pelo Comité Olímpico Japonês por ser artístico demais, que procurava um documentário mais noticioso num estilo mais tradicional, focado nos vencedores de medalhas japoneses e na recém modernizada cidade de Tóquio, o documentário de Ichikawa acabou por se ver envolvido numa encruzilhada que se centrava num dos grandes paradoxos do cinema documental: o realizador está ali simplesmente para gravar, ou para interpretar?
Felizmente, a obra-prima de Ichikawa sobreviveu à provação que parecia um pouco ridícula, dada a natureza magnífica do filme. Não convencional, sim. Mas é essa natureza não convencional de Ichikawa que vem da sensibilidade única do realizador como cineasta japonês do pós-guerra, que torna o filme tão memorável e único. Todas as Olimpíadas encomendam um filme oficial, e a maioria deles são reportagens intercambiáveis sobre quem ganhou o quê. Poucos destes documentários chegam às Olimpíadas e comemoram não só o objectivo real dos jogos, reunir pessoas de todas as nacionalidades e etnias em competições de boa vontade, mas também mostram a humanidade dos competidores. As câmaras de Ichikawa procuram e elucidam não apenas atletas de grande talento, mas também as dolorosas dimensões humanas da competição, o que significa que o filme se foca nos perdedores com a mesma frequência que dos vencedores.
Visualmente o filme é uma maravilha das técnicas cinematográficas, muitas das quais eram inovadoras na altura naquilo que era aceitável para um documentário desportivo. Nunca satisfeito em apenas capturar o evento em filme, Ichikawa procurou transmitir mais minuciosamente a experiência das Olimpíadas. Por exemplo, ele emprega a câmara lenta durante as corridas, para que possamos ver todos os músculos dos atletas, a tensão nos seus rostos, o desejo nos seus olhos. Para fazer a transição para a ginástica ele dá-nos uma imagem abstrata de uma única ginasta contra um fundo preto, usando câmara lenta e múltiplas exposições para destacar ainda mais a beleza dos movimentos físicos.
Mas, de certa forma, o Comité Olimpíco Japonês estava absolutamente certo em rejeitar "Tokyo Orimpikku". Enquanto que eles queriam um documentário rigoroso e objectivo sobre o que aconteceu naqueles 17 dias em Tóquio, Ichikawa deu-lhes um poema visual e pessoal sobre a natureza humana. Quem ganhou com isso? Todos nós.
Legendas em inglês.

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quarta-feira, 28 de agosto de 2019

120 Filmes Noir

Este post já tem uns anitos. Cinco, para falar a verdade, mas hoje resolvi passa-lo para o topo porque muitos dos novos visitantes do blog talvez não o conheçam, e convém ser visitado de vez em quando para que os links não se percam. Disfrutem à vontade.

The Maltese Falcon (1941, John Huston) - Imdb Link
Double Indemnity (1944, Billy Wilder) - Imdb Link
The Big Sleep (1946, Howard Hawks) - Imdb Link
Sunset Boulevard (1950, Billy Wilder) - Imdb Link
The Third Man (1949, Carol Reed) - Imdb Link
M (1931, Fritz Lang) - Imdb Link
Notorious (1946, Alfred Hitchcock) - Imdb Link
Touch of Evil (1948, Orson Welles) - Imdb Link
Cris Cross (1949, Robert Siodmak) - Imdb Link
Strangers on a Train (1951, Alfred Hitchcock) - Imdb Link
Out of the Past (1947, Jacques Tourneur) - Imdb Link
The Big Combo (1955, Joseph H. Lewis) - Imdb Link
The Night of the Hunter (1955, Charles Laughton) - Imdb Link
The Killing (1956, Stanley Kubrick) - Imdb Link
Key Largo (1948, John Huston) - Imdb Link
The Killers (1946, Robert Siodmak) - Imdb Link
I Am a Fugitive From a Chain Gang (1932, Mervyn Le Roy) - Imdb Link Legenda
Ace in the Hole (1951, Billy Wilder) - Imdb Link
Laura (1944, Otto Preminger) - Imdb Link
White Heat (1949, Raoul Walsh) - Imdb Link

The Lost Weekend (1945, Billy Wilder) - Imdb Link
Angels With Dirty Faces (1938, Michael Curtiz) - Imdb Link
Du Rififi Chez Les Hommes (1955, Jules Dassin) - Imdb Link
Sweet Smell of Success (Alexander Mackendrick) - Imdb Link
The Blue Dahlia (1946, George Marshall) - Imdb Link
Night and the City (1950, Jules Dassin) - Imdb Link
The Set-Up (1949, Robert Wise) - Imdb Link Legenda
Scarface (1932, Howard Hawks) - Imdb Link
Shadow of a Doubt (1933, Alfred Hitchcock) - Imdb Link
The Big Heat (1953, Fritz Lang) - Imdb Link
The Asphalt Jungle (1950, John Huston) - Imdb Link
Nightmare Alley (1947, Edmund Goulding) Imdb Link Legenda
Body and Soul (1947, Robert Rossen) - Imdb Link
In a Lonely Place (1950, Nicholas Ray) - Imdb Link
The Lady From Shangai (1947, Orson Welles) - Imdb Link
Ossessione (1943, Luchino Visconti) - Imdb Link
The Woman In the Window (1944, Fritz Lang) - Imdb Link
Pickup on South Street (1953, Samuel Fuller) - Imdb Link
Scarlet Street (1945, Fritz Lang) - Imdb Link
Kiss of Death (1947, Henry Hathaway) - Imdb Link

Gun Crazy (1950, Joseph H. Lewis) - Imdb Link Legendas
Mildred Pierce (1945, Michael Curtiz) - Imdb Link
Where the Sidewalk Ends (1950, Otto Preminger) - Imdb Link
The Naked City (1948, Jules Dassin) - Imdb Link
Gilda (1946, Charles Vidor) - Imdb Link
Murder, My Sweet (1944, Edward Dmytryk) - Imdb Link
Kiss Me Deadly (1955, Robert Aldrich) - Imdb Link
Sudden Fear (1952, David Miller) - Imdb Link
This Gun for Hire (1942, Frank Tuttle) - Imdb Link
Dark Passage (1947, Delmer Daves) - Imdb Link
The Postman Always Rings Twice (1946, Tay Garnett) - Imdb Link
Fury (1936, Fritz Lang) - Imdb Link
Leave Her to Heaven (1945, John M. Stahl) - Imdb Link
D.O.A. (1950, Rudolph Mathé) - Imdb Link
Kansas City Confidential (1952, Phil Karlson) Imdb Link
Force of Evil (1948, Abraham Polonsky) Imdb Link
Crossfire (1947, Edward Dmytryk) - Imdb Link
The Strange Love of Martha Ivers (1946, Lewis Milestone) - Imdb Link
House of Strangers (1949, Joseph L. Mankiewicz) - Imdb Link
The Wrong Man (1956, Alfred Hitchcock) - Imdb Link

Odds Against Tomorrow (1959, Robert Wise) - Imdb Link
Raw Deal (1948, Anthony Mann) - Imdb Link Legendas
Act of Violence (1948, Fred Zinnemann) - Imdb Link
The Stranger (1946, Orson Welles) - Imdb Link
You Only Live Once (1937, Fritz Lang) - Imdb Link
Angel Face (1952, Otto Preminger) - Imdb Link
Pitfall (1948, André de Toth) - Imdb Link
Detour (1945, Edgar G. Ulmer) - Imdb Link
On Dangerous Ground (1951, Nicholas Ray) Imdb Link
Panic in the Streets (1950, Elia Kazan) - Imdb Link
Human Desire (1954, Fritz Lang) - Imdb Link
Fallen Angel (1945, Otto Preminger) - Imdb Link
Cry of the City (1948, Robert Siodmak) - Imdb Link
Dead Reckoning (1947, John Cromwell) - Imdb Link
T-Men (1947, Anthony Mann) - Imdb Link
Party Girl (1958, Nicholas Ray) - Imdb Link
Clash By Night (1952, Fritz Lang) - Imdb Link
Mystery Street (1950, John Sturges) - Imdb Link
Niagara (1953, Henry Hathaway) - Imdb Link
While the City Sleeps (1956, Fritz Lang) - Imdb Link

Beyond a Resonable Doubt (1956, Fritz Lang) Imdb Link
The Big Steal (1949, Don Siegel) - Imdb Link
Black Angel (1946, Roy William Neill) - Imdb Link
Born to Kill (1947, Robert Wise) - Imdb Link
Brute Force (1947, Jules Dassin) - Imdb Link
Call Northside 777 (1948, Henry Hathaway) - Imdb Link
Caugh (1949, Max Ophüls) - Imdb Link
Cry Danger (1951, Robert Parish) - Imdb Link 
Follow Me Quietly (1949, Richard Fleischer) - Imdb Link
Journey Into Fear (1943, Norman Foster) - Imdb Link
Lady in the Lake (1947, Robert Montgomery) - Imdb Link
My Name is Julia Ross  (1945, Joseph H. Lewis) - Imdb Link
Nightfall (1957, Jacques Tourneur) - Imdb Link
Pushover (1954, Richard Quine) - Imdb Link
The Shanghai Gesture (1941, Josef Von Sternberg) - Imdb Link
Side Street (1949, Anthony Mann) - Imdb Link
Stranger on the Third Floor (1940, Boris Ingster) - Imdb Link
The Dark Corner (1946, Henry Hathaway) - Imdb Link
The Hitch-Hiker (1953, Ida Lupino) - Imdb Link
The Mob (1951, Robert Parish) - Imdb Link
The Seventh Victim (1943, Mark Robson) - Imdb Link
They Live by Night  (1946, Nicholas Ray) - Imdb Link
Thieves Highway (1949, Jules Dassin) - Imdb Link
Whirpool (1949, Otto Preminger) - Imdb Link

Boomerang (1947, Elia Kazan) - Imdb Link 
Detective Story (1951, William Wyler) - Imdb Link 
House of Bamboo (1955, Samuel Fuller) - Imdb Link 
House by the River (1950, Fritz Lang) - Imdb Link 
Killer's Kiss (1955, Stanley Kubrick) - Imdb Link
Kiss Tomorrow Goodbye (1950, Gordon Douglas) - Imdb Link 
Railroaded (1947, Anthony Mann) - Imdb Link 
Secret Beyond the Door... (1948, Fritz Lang) - Imdb Link 
Shock (1946, Alfred L. Werker) - Imdb Link 
Suddenly (1954, Lewis Allen) - Imdb Link
The Big Clock (1948, John Farrow) - Imdb Link 
The Blue Gardenia (1953, Fritz Lang) - Imdb Link
The Desperate Hours (1955, William Wyler) - Imdb Link 
The Glass Key (1942, Staurt Heisler) - Imdb Link 
The Letter (1940, William Wyler) - Imdb Link 
The Reckless Moment (1949, Max Ophüls) - Imdb Link  
The Spiral Staircase (1945, Robert Siodmak) - Imdb Link
The Unsuspected (1945, Michael Curtiz) - Imdb Link
The House on 92nd Street (1945, Henry Hathaway) - Imdb Link
The Racket (1951, John Cromwell) - Imdb Link

An Actor's Revenge (Yukinojô Henge) 1963


Kon Ichikawa a homenagear o grande Kabuki onnagata Kasuo Hasegawa, que comemorava aqui a sua 300ª aparição no cinema, com um papel especialmente concebido para ele. Kabuki é um dos estilos clássicos de teatro no Japão, que era conhecido por não usar mulheres nos papéis femininos, mas sim actores masculinos altamente treinados, chamados de "onnagata", e que por vezes eram mais convincentes do que muitas mulheres.
Nesta história, passada em 1836, Yukinojo (Kasuo Hasegawa) é um "onnagata" a viajar para Edo vestido de mulher. Na viagem reconhece três comerciantes implacáveis que arruinaram o negócio do pais, levando-os ao suicídio. Empenhado em vingar a morte dos pais, segue-os, e com a ajuda de um misterioso bandido chamado Yamitaro (interpretado pelo mesmo Hasegawa), irá tentar cumprir a promessa, mesmo que isso signifique a destruição da filha de um dos comerciantes, que se apaixona por ele.
Kon Ichikawa foi designado para realizar este filme, um remake de um outro de 1935 também com Hasegawa como protagonista, como punição pelos fracassos comerciais dos seus filmes mais recentes. Ainda assim acabou por se tornar num dos filmes mais marcantes do realizador. O filme começa e acaba num teatro, reservando o seu conto de vingança com performances, e colocando o público num lugar confortável para nos lembrar que tudo aquilo é entretenimento, e assim deve ser desfrutado. Com reviravoltas lúdicas e visuais audaciosos, é um filme a não perder.
Legendado em português.

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segunda-feira, 26 de agosto de 2019

Alone on the Pacific (Taiheiyô Hitoribotchi) 1963


Kenichi Horie está determinado a desafiar a sua família e as leis da natureza atravessando do Pacífico para a América num pequeno veleiro. Apesar de ter feito um planeamento muito cuidadoso, muitos eventos imprevistos irão testar a sua determinação.
Em 1962, quando o jovem Horie Kenichi completou a primeira viagem marítima pelo Oceano Pacífico, entre Osaka e São Francisco, uma viagem feita num barco sem motor, e com pouca experiência em navegação, as reacções no seu país de origem foram de rejeição, e até vergonha. No Japão da época, as crenças colectivas eram de que nenhum indivíduo deveria perturbar a harmonia de todos, e ao entrar secretamente em tal viagem, sem obter permissão oficial, as acções de Horie eram vistas não como heroicas, mas como acções de um maluco. Era uma conquista vista de um modo diferente por ambas as sociedades, nos Estados Unidos a acção de Horie foi amplamente divulgada e muito celebrada, embora ele tenha sido inicialmente preso por não ter passaporte, mas foi rapidamente libertado e recebeu um visto para um período de 30 dias.
No regresso ao país de origem Horie escreveu um livro sobre a sua aventura marítima, que foi prontamente adaptada para o cinema pelo casal Kon Ichikawa e a argumentista Natto Wada, sua esposa. O filme acabou por conquistar o público de uma forma de que o evento original não o fez, talvez pela forma como o filme é contado, num formato mais associado à aventura e à ficção, com um papel central entregue ao actor Yûjirû Ishihara, um actor que tinha tendência a interpretar psersonagens que perseguiam os seu sonhos, desafiando as regras e a aprovação da sociedade, algo que estava bem identificado com o personagem centrar deste filme.
A maior parte do filme é ocupado pela jornada em si, cuja história de um homem num barco é interrompida por flashbacks de Horie e os preparativos para a viagem, e as conversas com os membros da sua família sobre as suas intenções. Cinematograficamente a natureza épica da viagem é contada com muita eficácia, principalmente com um óptimo trabalho de fotografia da autoria de Yoshihiro Yamazaki.
Seria nomeado para o Globo de Ouro de Melhor filme estrangeiro de 1964, além de ter feito parte da Seleção oficial de Cannes desse mesmo ano. 
Legendas em inglês.

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sexta-feira, 23 de agosto de 2019

11 Anos de Thousand Movies /Times Are Changing, Not Me (2012)

Hoje os Thousand  Movies completam o bonito número de 11 anos. 11 anos a passar filmes para todos vós, uma longa luta que parece não ter fim.
Nesta data especial tenho um pequeno presente para vós, um filme que se estreia hoje online, e que foi co-realizado pelo José Oliveira, a Marta Ramos e o Mário Fernandes. Três velhos amigos aqui deste sitio que em 2012 fizeram este documentário sobre o realizador Manuel Mozos, outro nome bem respeitado aqui por este local.
O nome deste documentário reflete bastante bem o que se passa por aqui: "Times are Changing, Not Me". A verdade é que ao longo deste tempo as coisas não mudaram muito por aqui, mas provavelmente é preciso um espaço assim, e eu acredito no que faço, por isso tenho mantido as coisas sempre assim.
Sobre este filme, o José Oliveira disse o seguinte: "Esta frase é do Pat Garrett & Billy the Kid (Duelo na Poeira, 1973) e resume um pouco o cinema do Mozos, esta relação de resistência. Isto apesar do Xavier, por exemplo, ser um filme completamente moderno, pois está sempre a extravasar, a inventar coisas novas, aquele travelling na Alameda, a construção coral das várias personagens que se cruzam com o Xavier, aquele rodopio. E depois a câmara e a montagem do Manuel vão sempre atrás daquilo com relações ultra complexas. Mas apesar de tudo já ninguém filma assim, ou pouca gente. “Times are changing but not me” é uma crença que se podem ainda utilizar muitas coisas do passado, de um grande cinema, que o Mozos viveu. O Mozos num texto magnifico sobre o Peckinpah fala disso, das grandes salas de cinema, que os filmes dele só se poderiam ver em salas monumentais, com ecrãs monumentais, com cadeiras todas partidas, com a película a partir no meio do filme. Um grande cinema que ele conheceu, esse ritual, essa experiência religiosa de ir ao cinema. Hoje vemos os filmes nos shoppings ou na internet, são novas maneiras. Mas ver o cinema nessas condições do passado importa para muitas coisas. Por exemplo, vês hoje um filme do Manuel ou do Pedro Costa, que viveram esta forma de fazer e ver o cinema, e reparas como as escalas de planos, os detalhes, como se filma um rosto, um corpo, tudo é diferente por causa dessa experiência que tiveram. Por outro lado, a geração de hoje já não filma dessa maneira pois sabe que a dimensão do ecrã em que vamos ver o seu filme é menor. As escalas vão diminuindo ou vão sendo mais dispersas." 
Optem sempre por verem os filmes numa sala de cinema, sempre que for possível. Quando não for possível, sabem onde podem vir ter.

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terça-feira, 20 de agosto de 2019

Being Two Isn´t Easy (Watashi wa Nisai) 1962


Gorô e Chiyo são marido e esposa, com um filho recém nascido chamado Tarô passam pelos altos e baixos de uma vida familiar a viverem num moderno apartamento nos subúrbios de Tóquio.  A sua história é contada nos primeiros dois anos de vida de Tarô, e muitos dos seus problemas resultam do facto de Gorô e Chiyo estarem inseguros como pais, principalmente por causa das suas diferentes perspetivas da sua vida futura como pais. Ouvimos a perspetiva de Tarô, através da sua voz interior, e também a vemos através dos olhos dos seus pais.
Muitos anos antes da série de filmes "Look Who´s Talking", Kon Ichikawa já tinha um bébé narrador, menos sarcástico, a relatar as frustrações da criação dos filhos pelos seus pais. O bébé é ouvido frequentemente, mas de forma alguma fornece a narração continua.
Filme simples e doce sobre os primeiros anos de vida de uma criança. Por vezes faz rir (principalmente nas narrações da criança), e por vezes é provocante, mas é um óptimo retrato do que era a vida de ser pai, principalmente durante a década de sessenta.
Legendas em inglês.

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domingo, 18 de agosto de 2019

Ten Dark Women (Kuroi Jûnin no Onna) 1961


Kaze é um produtor de televisão casado, que tem várias namoradas ao mesmo tempo, para além da sua esposa. Elas reúnem-se todas com o objectivo de conspirar contra ele e matá-lo, no entanto, cada uma delas pretende secretamente salvá-lo no último momento, e garantir ser ela a única mulher da sua vida. Escusado será dizer que, quando chega a hora do crime acontecer, as coisas ficam realmente complicadas.
Kon Ichikawa, comentarista dos seus tempos, volta o seu olhar irónico para o sexismo inerente da década de sessenta, com uma farsa sobre um marido mulherengo de repente confrontado com a decepção das suas amantes, que de repente se uniram só com um objectivo em mente - a sua morte. Com argumento de Natto Wadda, esposa do realizador e sua colaboradora frequente, até se retirar em 1965, "Ten Dark Women" é uma comédia absurda e tímida sobre 10 mulheres que amam tanto um homem que até o querem ver morto, ou, pelo menos, não com as outras.
Nos anos sessenta o termo "comédia negra" tornou-se popular nos cinemas americanos, e é por aqui que este filme se qualificaria. Mas, aqui, ao remover o factor raiva ou vingança da história, também é removido todo o melodrama, e o filme também não funciona como uma comédia. Ninguém age da forma que é esperado, dado a configuração da trama. Sendo um pouco diferente da orientação cinematográfica de Ichikawa, é também um filme bastante interessante. 
Legendas em inglês.

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sábado, 17 de agosto de 2019

Her Brother (Ototo) 1960


Passado em 1926, quando a tradição japonesa era muito mais forte, este drama de Kon Ichikawa analisa o funcionamento interno de uma família japonesa padrão, principalmente a relação entre uma irmã e um irmão.
"Ototo" é principalmente uma fatia da vida japonesa que se concentra nos valores e tradições familiares. O cuidado incondicional e o amor pela ovelha negra da família que causou problemas até ao fim, embora não sem frustrações nem sentimentos negativos, é muito impressionante.
O filme tem muito melodrama e uma velocidade muito lenta, além de vários enredos secundários que nem lhe fazem muita falta. Felizmente a recompensa vinda deste filme é gratificante, e em certos momentos "Ototo" é um trabalho esmagadoramente emocionante, mas é muito verdade que os acontecimentos aqui retratados podem acontecer a qualquer família.
Exibido no festival de Cannes de 1961, ganhou uma menção especial.
Legendas em inglês.

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quinta-feira, 15 de agosto de 2019

A Woman's Testament (Jokyô) 1960


Um conjunto de três contos sobre mulheres modernas, realizados por realizadores diferentes. Na primeira história (de Yasuzô Masumura) encontramos uma jovem mulher que trabalha num clube nocturno em Tóquio. Ela tem um bom plano para o que parece ser um futuro financeiro forte. Por um lado, está a investir numa empresa, por outro está a tomar medidas para casar com o filho do dono da empresa. Na segunda história, (de Kon Ichikawa), uma jovem é empregada por um agente imobiliário para convencer clientes do sexo masculino a investirem em propriedades sem valor, tomando banho com eles. Na última, de Kôzaburô Yoshimura, encontramos uma gueixa viúva sem preocupações financeiras, mas ao se envolver com um falsário acaba por ter problemas na família e na sociedade.
Um excelente filme antológico composto por três histórias decididamente não sentimentais, sobre a luta de três mulheres modernas. Apesar de já terem passado quase 60 anos da sua produção parece um filme notavelmente moderno na sua representação de mulheres a fazerem o seu próprio caminho no mundo, e a sua franqueza sexual. Fraqueza essa muito à frente da maioria dos filmes americanos da altura.
Kon Ichikawa colaborou nesta trilogia com a segunda história.
Legendas em inglês.

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quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Fogo na Planície (Nobi) 1959


Tamura (Eiji Funakoshi), o herói de "Fogo na Planície", de Kon Ichikawa, pode ser o herói mais solitário da história do cinema. Mais solitário do que os peregrinos espirituais de Bresson, Bergman ou Dreyer. É um soldado de um exército que, na derrota, lhe virou as costas.
Estamos em 1945, na ilha de Leyte, nas Filipinas. As forças do Japão foram tão derrotadas que abandonaram qualquer pretensão de solidariedade e camaradagem, da responsabilidade básica dos homens em guerra se protegerem mutuamente. Na primeira cena do filme, Tamara, um soldado com tuberculose, que foi dispensado, ainda doente, de um hospital da campanha, porque não há espaço suficiente para os doentes e a equipas de médicos, é informado pelo seu líder de esquadrão que deve regressar ao hospital, porque a sua própria unidade não tem forma de sustentá-lo naquele estado de debilidade. E mais, se o hospital não o receber de volta, ele deve se matar.
Depois desta sequência pesada, Tamura inicia uma viagem através de uma paisagem inimaginavelmente hostil. O exército americano controla as estradas, os filipinos odeiam os japoneses por terem transformado os seus terrenos num campo de batalha. E os colegas soldados de Tamura estão tão desesperados e famintos que alguns, numa total retirada de toda a sua humanidade, recuam para a linha que separa a humanidade da selvajaria, e matam outros homens por comida.
No livro de 1952, de Shohei Ooka, no qual este filme se baseia, Tamura reflecte: "Para pessoas como nós, viver o dia e a noite à beira do perigo, o instinto normal de sobrevivência parece atacar por dentro, como uma doença, distorcendo a personalidade e removendo todos os motivos que não sejam do puro interesse próprio". Tamura, consumista, faminto, e muitas vezes delirante, perambula numa espécie de atordoamento moral. Ele sabe que está no Inferno, mas não está pronto para se alistar no exército dos condenados, e enquanto luta contra o inimigo também está a lutar contra o inimigo voraz que tem dentro de si.
"Fogo na Planície" é, naturalmente, um filme antiguerra. Um dos mais persuasivos e poderosos de todos os tempos. Mas também é mais do que isso: não apenas uma série de quadros vívidos e chocantes, mas também uma investigação lúcida e estranhamente pura sobre os misteriosos trabalhos da vontade humana. Todos os homens são ilhas, e Ichikawa faz com que as distâncias entre elas pareçam incrivelmente vastas. É um visão íntima e incrivelmente clara do apocalipse.
Legendas em português.

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segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Odd Obsession (Kagi) 1959


Um velho especialista em antiguidades (Ganjiro Nakamura), de Kyoto, no Japão, tenta ressuscitar a sua virilidade em decadência, ao apresentar a sua linda e mais nova esposa (Machiko Kyo),  ao namorado da filha (Tatsuya Nakadai).
"Odd Obsession", como é conhecido internacionalmente, de Kon Ichikawa, seria a primeira de muitas adaptações para o grande ecrã do livro de Tanizaki, "Kagi", cujo assunto seria irresistível para muitos realizadores dos chamados "pinku movies", filmes com uma grande carga sexual, assim como fonte para um dos melhores filmes de Tinto Brass. É um filme extremamente perverso, até pervertido, ainda por cima feito debaixo da censura vigente em 1959.
Mas os filmes japoneses eram muito mais abertos do que os americanos quando o assunto era o sexo, durante o final da década de cinquenta, tanto que seria comercializado em 1961 com o slogan: "the most daring motion picture ever made". Mas não era um filme sobre nudez, ou sexo dissimulado, o sexo aqui era uma obsessão, mas também era uma arma e uma armadilha para todos os personagens envolvidos.
Como as motivações das personagens nunca são claras, nunca sabemos o que esperar delas, e assim, ficamos em suspenso do principio ao fim. A personagem de Kyo é particularmente inescrutável, nunca sabemos o quanto ela sabe dos planos do marido, e o argumento do filme nunca nos deixa prever o que se passa pela sua cabeça, ao contrário do livro, que vai alternando entre a narração do marido e da mulher.
Por esta altura Ichikawa já gozava de enorme sucesso internacional. O filme ganhou o grande prémio do Júri no Festival de Cannes de 1960, e ganhou o Globo de Ouro de Melhor Filme em Língua Estrangeira, que partilhou em conjunto com outros 4 filmes, entre os quais "Morangos Silvestres" e "Orfeu Negro".
Legendas em português.

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