segunda-feira, 20 de maio de 2019

The Gift to Stalin (Podarok Stalinu) 2008

Do pós-guerra soviético às paisagens remotas do Cazaquistão, "The Gift to Stalin" retrata eventos locais raramente vistos no cinema. Em 1949, num comboio para o Oeste cheio de prisioneiros políticos e pessoas indesejáveis, o jovem judeu Sashka (Dalen Shintemirov) é separado da família
moscovita, e segue para um destino obscuro e é levado para o Cazaquistão rural, onde é contrabandeado para um sitio seguro por um homem chamado Kasym. Transportado para as estepes selvagens Sashka encontra uma comunidade improvisada de exilados, que inclui uma bela condenada, um doutor polaco, e uma série de órfãos do deserto.
O filme de Rustem Abdrashev é ao mesmo tempo épico e intimista, tentando captar todo o momento histórico bem como o amadurecimento de um rapaz resiliente. Abdrashev tem a confiança necessária para criar uma atmosfera pacientemente. Uma rara pequena história passada num grande momento, poético tanto na fotografia de Khasanbek Kydyraliev como no argumento de Pavel Finn. 
Narrado por  Sashka como um adulto residente em Israel, "The Gift to Stalin" luta para criar uma família sob o domínio da opressão, aqui representada por um polícia importante e pomposo, governando a aldeia pelo medo, e, no caso de Vera, pelos abusos sexuais. 
Legendas em inglês.

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domingo, 19 de maio de 2019

Native Dancer (Baksy) 2008

Aidai, a baksy, ou feiticeira, vive nas montanhas e ajuda as pessoas. Ela usa acções misteriosas para curar os doentes, e dar filhos aos casais inférteis. À medida que as forças capitalistas começam a invadir a tradição, a primeira baixa é herança mais fundamental da cultura - a terra. A curandeira tem de deixar a sua terra porque alguém acha que ela é ideal para um posto de gasolina Uma dura batalha entre o "bem" sobrenatural e o "mal" natural, segue-se.
"Native Dancer" é um filme estranho. Meio realismo mágico, meio filme de gangsters, com alguns momentos de comédia introduzidos pelo primo de Batyr. A realizadora Gulshat Omarova, de quem já tínhamos visto "Shiva" neste ciclo, faz um grande uso da paisagem do Cazaquistão, e também do Uzbequistão. Não é difícil acreditar em magia em terras como estas, e a realizadora ainda escolheu alguns habitantes locais para participar no filme. A curandeira Aidai é interpretada por uma curandeira verdadeira, de nome Neisipkul Omarbekova.
O argumento foi escrito a meias pela realizadora e pelo russo Sergei Brodov, de "Nomad", e mais ou menos a meio desliga-se do misticismo e passam para o suspense, quando uma das personagens é raptada. Estas sequências dão uma mudança refrescante na ênfase do filme, que nunca fica sem rumo, e segue sempre pelo caminho certo. 
Legendas em inglês.

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quinta-feira, 16 de maio de 2019

Ulzhan (Ulzhan) 2007

Algures nas intermináveis estepes da Ásia Central existe um tesouro. Um homem tem a chave para a ele chegar, um fragmento de um mapa antigo. Mas, na sua busca inquieta, Charles não procura fama nem glória. Ele procura uma forma de curar a sua alma ferida. Ele procura por amor, e Ulzhan sentiu isso a primeira vez que lhe colocou os olhos em cima.
Voando por baixo dos radares do regresso do cinema aos westerns que se deu no século 21, vamos encontrar "Ulzhan" (2007), do alemão Volker Schlöndorff. Embora não seja um western americano, nem um filme passado no século XIX, o filme é uma homenagem às formas clássicas do género. Numa entrevista, Schlöndorff disse que tentou, num determinado momento, obter os direitos de usar a música de "The Searchers" (1956), de John Ford, para explicar o paralelismo entre o herói errante de "Ulzhan" e o Ethan Edwards, de John Ford.
O realizador alemão já tinha criado quase-westerns no passado, como foram os casos de "Michael Kohlhaas" (1968), ou mais recentemente "The Ogre" (1996), para não falar do americano "A Gathering of Old Men" (1986). Enquanto que em Kohlhaas e The Ogre essa preocupação envolvia o western filtrado pelo género distintamente alemão do Heimatfilm, a apropriação do western em "Ulzhan" serve fins perfeitamente diferentes. Como filme conduzido pelo seu cenário, "Ulzhan" guia-nos através do deserto cazaque, uma fronteira cultural e intelectual, algures entre o materialismo ocidental e a espiritualidade oriental. Embora Schlöndorff não elimine completamente todas as tradições do pensamento colonialista europeu, em "Ulzhan", ele apresenta, a visão de um cineasta globalizado que tenta confrontar o legado do imperialismo e o potencial para os europeus de ultrapassá-lo. 
Legendas em inglês.  

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quarta-feira, 15 de maio de 2019

To go to Heaven First you Have to Die (Bihisht Faqat Baroi Murdagon) 2006

Impressionante e poético, "To Get To Heaven First You Have To Die" confirma o realizador Djamshed Usmonov ("Angel on the Right") como um dos mais brilhantes talentos do cinema soviético, e também do cinema da Ásia Central. Com mais clareza, mais sombrio e perturbador do que os seus filmes anteriores, conta com Khurched Golibekov a interpretar o Kamal, um homem de olhos arregalados, que está casado há alguns meses mas não consegue consumar o seu casamento. Depois de saber que fisicamente não há nada de errado com ele, depois de uma visita ao médico, Kamal parte para a cidade na tentativa de curar a sua impotência. Com uma ingenuidade infantil, ele esforça-se para encontrar alguém, até um encontro casual num autocarro , onde ele conhece uma jovem russa casada. Este encontro casual, leva-o numa jornada muito mais sinistra do que ele esperava…
Comparado por críticos a "A Short Film About Love", de Krzysztof Kieslowski, este filme conta com uma realização e uma narrativa absolutamente infalíveis de Usmanov, que gentil e gradualmente puxa o tapete dos nossos pés. Tomando como emprestadas muitas convenções do cinema americano de série B ("new boy in Town", introversão juvenil, iniciação numa família criminosa, sedução pelo mundo de gansters), para depois reduzir o ritmo para a velocidade de um caracol, Usmanov cria um ambiente estranho mas agradável. Injecta-nos um conto errante de voyeurismo e redenção com comentários sociais astutos e um humor brincalhão, tão elíptico e fatalista como seria de esperar deste cineasta. 
Legendas em inglês. 

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segunda-feira, 13 de maio de 2019

Nomad - A Profecia do Guerreiro (Köshpendiler) 2005

O primeiro blockbuster a emergir do Cazaquistão, "Nomad" conta a história dos primórdios deste país. A história começa no início do Século XVIII, quando as tribos cazaques pacíficas e os nómades se encontram sob ataque quase constante de saqueadores e tribos em guerra, principalmente os Jungars da Mongólia. As tribos devem unir-se para o bem da sua pátria, e muitos, incluindo o sábio Oraz (Jason Scott Lee), acreditam que a sua graça salvadora é um guerreiro que é profetizado para se levantar e levar os seus guerreiros à vitória. Anos mais tarde, este guerreiro chega na forma de Mansur (Kuno Becker) um jovem nobre que vai ser inspirado por Oraz. Os Jungars vão preparar a sua mais impiedosa invasão, e Mansur terá que cumprir o seu destino rapidamente, e tornar-se o grande guerreiro que nasceu para ser.
"Nomad: the Warrior" pode ser melhor descrito como uma ambiciosa confusão, e considerando que a Weinstein Company está envolvida, isso não é de surpreender. Por um lado o filme tem dificuldade em decidir que tipo de público quer atingir. Por um lado dá a impressão de ser um retrato nascido no Cazaquistão, de como é possível um herói unir uma nação. Mas depois, a inclusão de actores ocidentais tornam a história meio confusa. Além de Becker e Jason Scott Lee, vamos encontrar Jay Hernandez, como o melhor amigo de Mansur, e Mark Dacascus, como o principal vilão, o líder dos Jungars.
O filme também foi parado a meio da produção, e retomado depois por outro realizador, pelo que aparecem dois realizadores nos créditos finais, Sergei Bodrov e o checo Ivan Passer, na sua última obra até à data, sendo este filme muitas vezes comparado com "300", de Zack Snyder.
É uma curiosidade para quem quiser conhecer um blockbuster do Cazaquistão, e este tem legendas em português.

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sábado, 11 de maio de 2019

Schizo (Shiza) 2004

Longa metragem de estreia da realizadora cazaque Guka Omarova, "Shiza", ou "Schizo" conta a parte
mais sombria da vida de um jovem de quinze anos, que dá nome ao filme. Passado no Cazaquistão, nos economicamente desesperantes inícios dos anos noventa, Schizo e a sua mãe estão a passar uma vida difícil. Quando o jovem é enviado para casa da escola por ter problemas, o namorado da mãe envolve-o em pequenas actividades ilegais. A cada decisão, a vida do jovem vai mergulhando num espiral descendente. A mãe ama-o e cuida dele, mas Schizo não modelos inspiradores ou orientação para o futuro.
Através de uma série de eventos, Schizo conhece uma mulher mais velha e igualmente desesperada, Zinka, que tem um filho pequeno e mora num barraco num terreno isolado e árido no meio do nada. Os três acabam a viver como uma família de facto, criando relacionamentos emocionais e de apoio. 
Há alguns factos notáveis sobre "Schizo" que merecem a pena ser mencionados. Tem apenas dois actores profissionais, o resto são não profissionais. Além disso, tanto o jovem que interpreta Schizo como o mais pequeno são órfãos. A realizadora foi até um orfanato para procurar uma criança para participar no filme. A actriz que interpreta Zinka chama-se Olga Zandina. que era uma das poucas profissionais, mesmo assim estreava-se no cinema com este filme, com uma personagem que exala vulnerabilidade, selvajaria e autenticidade.
Schizo, interpretado por Olzhas Nussuppaev. é uma personagem discretamente convincente. A fotografia dá o tom, e informa o público sobre o nosso protagonista. Shots amplos enfatizam o sentimento de isolamento de Schizo e o seu sentimento de ser pequeno num mundo grande. Paisagens áridas e prédios cinzentos e sem graça sugerem desolação e pobreza, mas o filme foi um dos melhores a saír do Cazaquistão neste início do Século 21, tendo sido exibido no festival de Cannes de 2004, concorrendo para a Câmara de Ouro, e Un Certain Regard.
Legendas em inglês.

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quinta-feira, 9 de maio de 2019

The Hunter (Okhotnik) 2004

Numa aldeia isolada nas montanhas do Cazaquistão, Erken, um rapaz de 12 anos, vive com a mãe, uma bonita e sedutora mãe solteira. Uma noite, quando a mãe é visitada por um caçador, Erken rouba-lhe a arma e o cavalo para assaltar a loja. Procurado pela polícia, o jovem é encontrado pelo caçador, que lhe dá duas hipóteses: ser entregue à polícia ou ir viver com ele para as montanhas.
Regressando a um tema que lhe era familiar, que era a vida na aldeia, Serik Aprymov, oferece-nos uma interpretação cazaque sobre o que é a idade da adolescência, em "The Hunter" (2004). Com uma grande ênfase na música e na mitologia, Aprymov dá-nos tem aqui o seu filme mais ambicioso até então. Urbanização, aldeias e vida de nómades a colidirem na vida de um rapaz que luta para encontrar o seu caminho através deles. Como um todo, "The Hunter" testa os limites da chamada "nova vaga cazaque" e explora as influências culturais em volta da vida cazaque nas aldeias. 
O retrato das mulheres neste filme reflecte um dos problemas maiores no cinema da Ásia Central deste período, onde os realizadores optaram por personagens vazias de estereótipos de género, em vez de personagens complexas. Enquanto que a mãe é uma personagem estática num estado de virtude perdida, sendo deixada inteiramente inexplorada no filme, o retrato do caçador é o de um predador sexual dinâmico. 
Dos festivais onde passou, destaque para o de Locarno, onde ganhou dois prémios: o C.I.C.A.E. Award, e o Netpac Award. 
Legendas em inglês.

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quarta-feira, 8 de maio de 2019

Angel on the Right (Fararishtay Kifti Rost) 2002

Hamro (Maruf Pulodzoda) é um durão que regressa à sua terra natal, no Tajiquistão, depois de uma década em Moscovo, depois de uma década em Moscovo, para visitar a sua mãe moribunda, Halima (Uktamoi Miyasarova), que pode estar a morrer. O dela é que seja feita uma porta dupla na sua casa, para que o o seu caixão possa ser levado cerimoniosamente, e para isso Hamro tem de fazer as renovações. Acontece que a "doença" de Halima é apenas um pretexto para atraír Hamro de volta para casa, mas agora ele vai ter de lidar com velhas dívidas e com um filho que não sabia que tinha.
O título do filme deriva de uma lenda islâmica que fala sobre um anjo invisível que se encontra em cima de cada um dos nossos ombros. do lado direito testemunha as nossas boas acções e pensamentos, do lado esquerdo os nossos maus. Depois da morte a balança da justiça é pesada, com o anjo a ser enviado para o céu ou inferno, dependente das suas acções em vida. O realizador, Jamshed Usmonov, recusa-se, no entanto, a pintar os seus personagens de preto e branco, de acordo com um sentido de mistério para as motivações e acções da mãe e filho. 
Filmando na sua própria aldeia natal, e usando os seus parentes próximos em importantes papéis, o realizador constrói um retrato revelador de uma comunidade empobrecida, ainda a recuperar dos efeitos da guerra civil. Muito dos prazeres do filme estão no detalhes e nos rituais da vida quotidiana: os apertos de mão vigorosos ao fazer negócios, as técnicas do agente imobiliário local, a forma como alguém reserva o tempo da sua passagem para a outra vida.
O filme foi exibido em inúmeros festivais, incluindo Cannes 2002, onde concorreu na secção "Un Certain Regard", ao lado de realizadores como Pablo Trapero, Bahman Ghodabi, Apitchapong Weerasethakul, Christophe Honoré, Abderrahmane Sissako, entre outros.
Legendas em inglês.

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segunda-feira, 6 de maio de 2019

A Estrada (Jol) 2001

Um realizador chega a uma encruzilhada na sua vida e na sua arte quando descobre que a sua mãe pode estar a morrer, neste drama com toques cómicos do realizador Darezhan Omirbayev. Amir Kobessov (Djamshed Usmonov) é um muito respeitado realizador do Cazaquistão que está a sofrer, tanto profissionalmente como pessoalmente, uma crise de confiança. Amir começa a perguntar a si próprio se o público ainda está interessado no seu trabalho, e tem um pesadelo recorrente em que a estreia do seu último filme é preterida a um épico de baixo orçamento. Em casa o casamento também não está bem, e luta com a sua esposa para o conseguir manter de pé. Quando Amir recebe a notícia de que a sua mãe está gravemente doente, ele parte no carro para visitá-la na pequena aldeia onde nasceu. Ao longo do caminho vai examinando o seu passado enquanto tenta aceitar um futuro incerto.
Este filme de Darezhan Omirbayev celebra abertamente o seu amor pelo cinema. Não só o filme é dedicado aos seus compatriotas realizadores do Cazaquistão, como o herói principal é interpretado por um outro realizador do seu país, Jamshed Usmonov, de quem veremos dois filmes futuramente neste ciclo, e que tem um capítulo, muito interessante, dedicado a si, no livro que vos ofereci no post abaixo.
O filme é um clássico exemplo de um "road movie", em que o movimento de Amir pelo espaço (as estepes do Caziquistão) permite que ele revisite a jornada da sua vida. O passado, no entanto, não está na distante aldeia da sua infância, mas sim, é regido por duas obsessões: sexo e cinema. Os pensamentos de Amir raramente regressam à sua mãe, ou ao seu passado na pequena aldeia, durante a viagem, e quando regressam, são marcados por ausência de ligações.
Em 2002 foi exibido no Festival de Cannes, integrado na selecção oficial "Un Certain Regard". Creio que nunca foi exibido em Portugal ou Brasil, por isso adaptei o nome do filme em português livremente, já que o título internacional é "The Road".
Legendas em inglês.

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sábado, 4 de maio de 2019

Ásia Central: Século XXI


Sem dúvida que a história do cinema na Ásia Central seguiu um caminho invulgar, reflectindo os interesses da construção da nação soviética, o internacionalismo infundido ideologicamente, o exotismo e a fantasia neo-tradicionalista, à medida que o século avançava. Ao longo do caminho, alguns filmes verdadeiramente excelentes e de renome mundial foram produzidos em lugares esquecidos, até que a "guerra ao terror" evocou memórias de rivalidade entre os impérios russos e britânicos.
A história da Ásia Central está marcada por uma série de invasões e convulsões, desde as conquistas de Alexandre, o Grande, Genghis Khan e Tamerlane, até à absorção da região pela primeira Rússia depois pela União Soviética (a violência persistiu, depois da independência no Tajiquistão, uma feroz guerra civil resolvida apenas nos anos 90 do século passado). O domínio Soviético na Ásia Central foi catastrófico, durante o governo de Staline, sobretudo, o modo de vida tadicional do seu povo foi brutalmente reprimido, se não destruído, mesmo. Milhões morreram como resultado da fome ou da perseguição do governo, o islão foi banido, o alfabeto árabe foi substituído primeiro por caracteres latinos, e, por fim, cirílicos, propriedades foram confiscadas, no Cazaquistão, onde a cultura era quase exclusivamente nómade, o povo foi obrigado a se estabelecer. Alguns dos países foram devastados ecologicamente por máquinas soviéticas para aumentar o rendimento agrícola, e o território foi invadido por milhões de russos e outros estrangeiros, aqui a assistência médica melhorou significativamente e o analfabetismo foi quase totalmente eliminado.
Fazer cinema nestas condições, não foi, e nunca será muito fácil de ser feito. Mas o certo é que ele foi feito, e continua a saír desta região da Ásia Central, que se entende pelos seguintes países: Cazaquistão, Quirguistão, Tajiquistão, Turquemenistão, e Uzbequistão.
Não é meu objectivo fazer um ciclo sobre a história do cinema nestes cinco países, mas sim traçar um mapa do estado em que está a situação actual do cinema nesta região.
No final do século 20, apenas o Uzbequistão produzia filmes para o seu próprio mercado. Enquanto que o Cazaquistão e o Quirguistão receberam inúmeros prémios em festivais internacionais de cinema, o público interno não conseguia encontrar os seus filmes. O cinema no Tajiquistão e no Turquemenistão era praticamente inexistente. Os anos 90 foram uma década de difícil transição, incerteza política e colapso económico, e cinema na Ásia Central reflectia essa realidade. As indústrias cinematográficas domésticas eram ainda mais limitadas pela disponibilidade de filmes baratos, muitas vezes ilegais, de Hollywood e da Rússia.
Vamos iniciar assim esta viagem, não muito longa, com cerca de 15 filmes destes 5 países, todos feitos a partir do ano 2000, e que por uma ou outra razão mereceram destaque.
E, para começar, para que se possam inteirar do que acontecia neste canto do mundo, cinematograficamente falando, deixo-vos com um livro em PDF, que pode funcionar como introdução, e, até quem sabe, guia. Começo a postar os filmes a partir de segunda ou terça-feira.
Bom fim de semana.

Cinema in Asia Central: Rewriting Cultural Histories, de Michael Rouland, Gulnara Abikeyeva, Birgit Beumers

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O Vale Era Verde (How Green Was My Valley) 1941

A história decorre no virar do século (XIX/XX), numa pequena aldeia mineira em Gales. O casal Morgan compõe canções sobre as minas de carvão e cria os seus filhos na esperança de que estes tenham uma vida melhor que a deles.
"The Grapes of Wrath, The Long Voyage Home e Tobacco Road, são, muitas vezes, englobados numa chaveta comum: a "trilogia social" do realizador. A etiqueta presta-se a equívocos mas há, inegavelmente, uma atmosfera comum nessas obras, baseadas, todas, em escritores (Steinbeck, O´Neill, Caldwell) enquadráveis no chamado "realismo americano".
Mas Ford não era homem para se prender a um género ou a uma "escola". E, em 1941, depois desses três filmes, iniciou as filmagens de "How Green Was my Valley", adaptação de um escritor - Richard Llewllynn - que nada aparentava ao realismo.
Último filme de Ford , antes de ser mobilizado (só quatro anos depois, em 1945, o cineasta voltaria à ficção) foi um dos maiores êxitos da sua carreira. Obteve seis Óscares (Melhor Filme, Melhor Realização, Melhor Interpretação Masculina Secundária - Donal Crisp, Melhor Fotografia, Melhor Direcção Artística, Melhores Cenários), valendo, como já se disse, a Ford, o seu terceiro Óscar (segundo consecutivo) e batendo, como melhor filme do ano, o célebre Citizen Kane. 
Contudo, para muita gente, estas distinções foram ambíguas, pois pareceram premiar o "classicismo" contra o "modernismo". E não faltou quem dissesse que na carreira de Ford este filme marca uma viragem de 180º. O "revoltado" Ford de "The Grapes of Wrath" aparecia, aqui, como extremo defensor dos valores menos associados à revolta: Deus, Pátria e Família. E desposaria o ponto de vista de Donald Crisp na sua tenaz oposição à greve e aos sindicatos ("socialista nonsense"), exaltando a figura do Pai ("homens como o meu pai não podem morrer") e o sacrifício do amor de Pidgeon por O´Hara por razões de sacerdócio. Para os que sempre chamaram ao autor de "Young Mr. Lincoln" reacionário, puritano, beato e outros mimos, "How Green Was My Valley" surgiu como a perfeita exemplificação de tais atributos."
É com estas palavras de João Bénard da Costa sobre "How Green Was My Valley" que terminamos este ciclo sobre os filmes de John Ford realizadores entre o início do cinema falado, e a altura em que ele partiu para a Guerra. Espero que tenham gostado, penso que daqui a uns tempos farei o mesmo para os filmes de Howard Hawks. Até já, o próximo ciclo começa já a seguir.

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quinta-feira, 2 de maio de 2019

A Estrada do Tabaco (Tobacco Road) 1941

Durante a Grande Depressão americana, a família Lester não sabe como sobreviver à miséria que se avizinha. Residem e gerem os territórios rurais da Geórgia, cultivados com tabaco e algodão, mas já nem isso os salva. Debilitados pela pobreza ao ponto de atingirem um estado de ignorância e egoísmo cruel, os Lesters preocupam-se com a fome, os apetites sexuais que os devoram e o medo de que a hierarquia social os empurre para uma camada ainda mais desfavorecida.
O filme mais estranho de John Ford, é como uma realidade alternativa para "As Vinhas da Ira". Baseado num livro de Erskine Caldwell, e numapeça longa de Jack Kirkland, com argumento escrito por Nunnally Johnson, o filme concentra-se num grupo de camponeses que ainda ocupam as suas terras, mesmo depois das plantações terem deixado de crescer. Charley Grapewin dá algum equilibrio como Jeeter Lester, um homem de bom coração, à frente de um elenco de peso: Gene Tierney, Wiliam Tracy, Dana Andrews, Marjorie Rambeau, Elizabeth Patterson e Ward Bond.
O filme foi bastante prejudicado por ter sido homogeneizado pelos pedidos dos estúdios e dos censores, indo parar à lista dos filmes amaldiçoados. Depois de várias reclamações de que "muitas pessoas religiosas em todo o pais possam ter ficado ofendidas com os aspectos religiosos", Ford aligeirou o tom do filme. Segundo as suas palavras: "We have no dirt in the picture. We’ve eliminated the horrible details and what we’ve got left is a nice dramatic story. It’s a tearjerker, with some comedy relief. What we’re aiming at is to have the customers sympathize with our people and not feel disgusted." Para evitar controvérsias a Fox decidiu não filmar em exteriores, na Geórgia, mas sim em estúdios e cenários fechados para impedir que o filme fosse banido antes da estreia. Eventualmente só seria banido na Austrália.
O certo é que seria mais um filme injustamente esquecido de Ford, talvez por ter sido lançado mesmo no meio de dois filmes em que Ford foi premiado com o Óscar de Melhor Realizador: "As Vinhas da Ira" (1940) e "O Vale era Verde" (1941).

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quarta-feira, 1 de maio de 2019

Tormenta a Bordo (The Long Voyage Home) 1940

A bordo do cargueiro Glencairn as vidas da tripulação são vividas com medo, solidão, suspeita e camaradagem. Os marinheiros contrabandeiam mulheres e bebidas a bordo, brigam entre si, espiam-se, consolam-se quando a morte se aproxima e ajudam-se uns aos outros do perigo. Isto com a Segunda Guerra Mundial como pano de fundo.
"The Long Voyage Home" é um filme estranhamente belo, baseado numa série de peças rápidas de Eugene O´Neill. Descreve uma jornada a bordo de um cargueiro desde as Índias Ocidentais de volta para os Estados Unidos durante o início da Segunda Guerra Mundial. John Ford reúne a sua equipa habitual, que vinha desde o argumentista Dudley Nichols  na sua penúltima colaboração com o realizador, ao magnifico elenco que incluía John Wayne, Thomas Mitchell, Ward Bond, Joe Sawyer, entre outros.
O filme seria notável pelo trabalho da fotografia de Gregg Toland, que já tinha trabalhado com Ford em "As Vinhas da Ira", e que logo depois deste filme trabalharia em "Citizen Kane", considerado em ter umas das melhores fotografias de sempre. Ford admirava tanto o trabalho de Toland que o deixou usar a câmara livremente, ao que Toland aproveitou para experimentar um novo tipo de lentes que lhe garantiam uma grande profundidade de foco. Seriam essas mesmas lentes que seriam usadas em "Citizen Kane".
Sendo este filme mais uma grande-obra prima de Ford, acaba por ser prejudicado por ter sido feito no período mais criativo do realizador. Alguns filmes ofuscavam totalmente os outros, por terem sido feitos com muita proximidade de tempo. No caso de "The Long Voyage Home" e também "Tobacco Road" foram feitos entre "As Vinhas da Ira" e "O Vale era Verde", tudo no espaço de uns meses. O tempo acabaria por fazer justiça a cada um destes filmes.

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terça-feira, 30 de abril de 2019

As Vinhas da Ira (The Gates of Wrath) 1940

Quando Tom Joad (Henry Fonda), regressa para a sua quinta no Oklahoma, depois de quatro anos na prisão, descobre que já nada é o que era. Estamos na década de 30, vive-se a depressão, e a sua família perdeu a casa e a quinta para o banco. Assim começa uma jornada incrível para Tom, ao ver a injustiça social à sua volta, ele muda de um pequeno criminoso para um sindicalista.
"As Vinhas da Ira" é um filme monumental feito por um realizador monumental, John Ford, baseado num livro brilhante de outra figura monumental, John Steinbeck. As verdades estabelecidas no livro e no filme, podem ser tão verdadeiras hoje como eram então. Tom leva a sua família em busca de trabalho e a promessa de uma vida melhor, na califórnia, mas tudo o que encontra são mentiras, corrupção policial, e exploração empresarial dos trabalhadores desesperados. Uma situação muito parecida com a dos trabalhadores migrantes provenientes do México e América Central, em busca do suposto sonho americano. Interessante, o argumento, adaptado por Nunnally Johnson, é, na realidade, muito mais optimista que o livro. O filme oferece alguns vislumbres de esperança ao clã Joad, e oferece alguma cor à escuridão que é o livro (assim como a algumas idéias políticas mais extremas). 
Há um toque de sentimentalismo em "As Vinhas da Ira". É apenas uma sugestão, e nunca é um factor detractor dentro do filme. Os actores nunca permitem que o argumento de Johnson se torne demasiado sentimental. Os olhos sondantes de Henry Fonda, a mágoa do sorriso de Jane Darwell, o olhar vago de Dorris Bowden, e o rosto de derrotado de Frank Darien estão sempre presentes para atirar qualquer sentimentalismo para o lado. Ou, pelo menos, para garantir que o sentimentalismo seja merecido. Se houver qualquer sentimentalismo é gerado pela dureza que os seus personagens enfrentam em cada frame. 
John Ford ganhou com este filme o seu segundo Óscar para melhor realizador, e, "As Vinhas da Ira, está certamente, entre as melhores obras do realizador.

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segunda-feira, 29 de abril de 2019

Ouvem-se Tambores ao Longe (Drums Along the Mohawk) 1939

Henry Fonda é um camponês que durante a Guerra Revolucionária se casa com uma rapariga da cidade (Claudette Colbert), e tenta se estabelecer no Mohawk Valley. Infelizmente a guerra irá bater à sua porta, quando os ingleses conseguem convencer os índios a lutarem por eles. Os nossos dois personagens principais vão superar as dificuldades da agricultura, evitando ataques, depois reconstruindo, para serem atacados novamente.
O ano de 1939 foi um ano histórico para o cinema de Hollywood. Foram produzidos filmes tão importantes como "Gone with the Wind", "The Wizard of Oz", "Mr. Smith Goes to Washington", "Goodbye, Mr. Chips", "Wuthering Heights", "Ninotchka", "Of Mice and Men", "Love Affair", "Dark Victory", entre tantos outros, e também foi um ano histórico para John Ford, que viu ver a luz do dia 3 das suas maiores obras-primas. Depois de Stagecoach" (êxito instantâneo) e "Young Mr. Lincoln" (êxito tardio) chegava agora a vez de "Drums Along the Mohawk", o seu primeiro filme em Technicolor, onde apesar do Technicolor o realizador evitou um visual explosivamente colorido, talvez por querer ficar com as sombras e os tons cinza inerentes aos seus filmes a preto e branco.
"Drums Along the Mohawk" apesar de ser um filme de período tem o sentimento de um western, cobrindo o período imediatamente anterior e posterior à Guerra Revolucionária. É um filme digno de nota pelos seus detalhes realísticos e um nível de dificuldade e brutalidade que não era vulgar ser visto num filme de Hollywood, mas que expunha quão difícil e frágil era a vida dos primeiros colonizadores americanos.
O filme não romantizava a guerra pela independência, nem faz com que a eventual vitória dos americanos seja uma conclusão para as pessoas que retrata. Os colonos do Vale Mohawk estão com problemas desde o início, isolados, vagamente organizados e em menor número, e quando todos os combatentes qualificados são convocados para a guerra, são informados que quem não se apresentar para a guerra será enforcado.
Curioso que seria o segundo de uma série de três filmes de Ford interpretados por Henry Fonda. 

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sábado, 27 de abril de 2019

Brevemente: Cinema Português

 O cinema português que deve ser visto.

"Longe Daqui" (1993), de João Guerra

"Guerra Civil" (2010), de Pedro Caldas.

Este Verão, no My Two Thousand Movies.
O ciclo do Ford continua na próxima segunda-feira.

A Grande Esperança (Young Mr. Lincoln) 1939

Dez anos na vida de Abraham Lincoln, antes dele se tornar conhecido pela sua nação e pelo mundo. Muda-se de um gabinete em Kentucky para Springfield, Illinois, para começar a prática de advocacia. Defende dois homens acusados de assassinato numa luta política, sofre a morte da namorada Ann, corteja a sua futura esposa Mary Todd, e concorda entrar na política.
"Young Mr. Lincoln", hoje considerado uma das obras-primas de Ford - para muitos, mesmo, a sua obra-prima - foi um filme que, à época, passou quase completamente despercebido. Feito no mesmo ano de "Stagecoach" (a que se segue cronologicamente, o primeiro estreado em Março de 1939, o segundo em Julho) foi completamente eclipsado pelo sucesso do lendário western e, durante muitos anos, poucas referências lhe foram feitas. Só foi designado para os Óscares numa única categoria (melhor argumento original) e nem nessa ganhou: "Mr. Smith Goes to Washington" de Capra, venceu-o. Sucedeu, contudo, que por altura dos primeiros intercâmbios de filmes entre os Estados Unidos e a União Soviética, "Young Mr. Lincoln" se contou entre as poucas obras americanas distribuídas na U.R.S.S. Foi lá que Eisenstein o viu e escreveu sobre ele as frases que hoje se tonaram um lugar comum publicitário desta obra: "Há filmes mais sumptuosos e mais ricos. Há filmes mais divertidos e cativantes. Há mesmo filmes mais comoventes na obra de Ford (…) E, no entanto, de todos os filmes realizados era este que eu gostaria de ter feito (…). Se uma fada ociosa chegasse a minha casa e me dissesse: "Sergei Mikhailovich, neste momento não tenho nada para fazer. Queres que te mostre um numerozinho de magia? Queres transformar-te, com um pequeno gesto da minha varinha de condão, no autor de um dos muitos filmes americanos realizados até hoje? Eu indicaria imediatamente o filme que gostaria de ter feito: "Young Mr. Lincoln", realizado por John Ford""
Este texto só foi conhecido na Europa e na América nos anos 50 e a crítica, pasmada perante tão insólita valorização, começou então a rever "Young Mr. Lincoln". A crítica de esquerda, sobretudo, seguiu o "Papa" Eisenstein e há quatro décadas que não param os hiperbólicos elogios a esta obra-prima durante tanto tempo votada ao esquecimento."
Palavras de João Bénard da Costa, que exemplificam bem q beleza deste filme, que hoje é considerado um dos seus melhores. Mas nem sempre foi assim.

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quarta-feira, 24 de abril de 2019

Cavalgada Heróica (Stagecoach) 1939

Stagecoach foi o primeiro filme a reunir o realizador John Ford a três ícones do cinema, o western, o actor que viria a ser a sua estrela mais emblemática, John Wayne, e a personagem invisível presente numa série de filmes de Ford, o Monument Valley. Ford e Wayne já tinham feito Westerns antes
deste filme, é claro, mas a sua colaboração aqui despertou algo ousado e incomum que iria dar nova vida ao género e ajudar a moldá-lo para as próximas duas décadas, a Idade de Ouro do Western de Hollywood. Parece que algo novo e especial está a acontecer a partir do momento em que Ford introduz Wayne como o bandido preso injustamente, apelidado de Ringo Kid. Um shot interrompe o excesso de velocidade de uma diligência, e um zoom freneticamente de um shot longo de Wayne passa para um close do seu rosto apertado, o fantasma de uma dança sorrindo com os seus lábios, a aba do chapéu curva cinzelada. Parece que Ford sabia, desde o momento em que apresentou a sua estrela, o quão fortemente esta imagem iria ressoar: a entrada de Wayne no filme é electrizante, a chegada de ambos, o bandido infame e a próxima nova estrela.
Apesar de toda esta ênfase, Ringo Kid é apenas um dos nove passageiros que acaba de entrar a bordo da carruagem, todos indo na mesma direcção, enfrentando um território perigoso atormentado pela guerra dos Apaches, por razões muito diferentes. O xerife Curly (George Bancroft) pretende impedir Ringo de provocar um banho de sangue no final da viagem, onde ele enfrentará os três homens que mataram o pai e o irmão de Ringo, e que o estão esperando. A prostituta Dallas (Claire Trevor) o embriagado médico Boone (Thomas Mitchell) estão a ser perseguidos pelos cidadãos mais "respeitáveis​​" da cidade, alguns dos quais na verdade não são tão respeitáveis como gostariam que os outros pensassem. O jogador Hatfield (John Carradine) projecta uma imagem cavalheiresca, mas só poderia ser um assassino covarde, enquanto o pomposo Gatewood (Berton Churchill) foge da cidade com o dinheiro da folha de pagamento roubado. Há também a doente Lucy (Louise Platt), tentando alcançar o marido na cavalaria, o nervoso vendedor de whisky Peacock (Donald Meek), cuja carga é uma tentação para Doc Boone, e o cochista Buck (Andy Devine), que não consegue parar de reclamar sobre a sua esposa mexicana.
Este grupo heterogéneo é composto por vários tipos de personagens, e o subtexto sobre a classe social e a respeitabilidade são tão amplamente jogados como o humor: os outros passageiros são irritados pelas brigas de Peacock e Doc Boone, até que percebem que ambos têm muito a oferecer na sua generosidade e compaixão. Apenas Ringo, ele próprio um pária como um ex-presidiário e um bandido procurado, pouco se importa com esta casta, e insiste em se referir a Lucy e Dallas como "senhoras", o que, naturalmente, faz ganhar a gratidão de Dallas. Os cenários do filme e os personagens são standards, representações familiares do Velho Oeste, gravados na pedra dura da paisagem: as grandes extensões de terra dura empoeirada, as mesas e pilares rochosos salientes do Monument Valley. Ford desenha com traços largos, a elaboração de imagens icónicas da viagem da diligência pelo país aberto, levantando um rastro de poeira atrás dela. O filme tem um tratamento especial desta paisagem westerniana, que servem como um contraste com o interior mais claustrofóbico da diligência, onde as composições de Ford são necessariamente simples no espaço apertado. 
Ao longo do filme, a ameaça do ataques dos índios - e o confronto inevitável aguardando Ringo no fim da linha - paira sobre a jornada da diligência, mas é principalmente uma tensão de construção lenta até ao clímax. As coisas estão relativamente calmas na maior parte do passeio, pelo menos fora da carruagem. Os argumentos entre os passageiros, em grande parte motivados pela divisão de classes e vários deslizes percebidos, são quase tão interessantes como a beleza pictórica dos arredores. Há energia e poesia em alguns shots exteriores de Ford - uma imagem sombria da silhueta de um Ringo atrás de Dallas na escuridão, os incontáveis ​​shots do cocheiro acelerando através das planícies - mesmo quando nada mais está realmente a acontecer dentro da carruagem. E, claro, o final do filme é emocionante, com o ataque Apache a fornecer uma desculpa perfeita para alguns movimentos fantasiosos, como saltos de um cavalo para outro. Todo o filme trabalhava para este showcase de acção explosiva, e não se pode perder o entusiasmo de Ford, quando, no último minuto, os soldados da cavalaria chegam para salvar o dia: um tal cliché onde Ford investe com tal vitalidade e que é difícil resistir . A sequência toda é divertida e acelerada, e configura o tiroteio final, de Ringo com os três irmãos que mataram a sua família e o mandaram para a cadeia injustamente. 
Como um dos marcos definitivos do género, a influência e a importância de Stagecoach é difícil de igualar. Mas está longe de ser um filme sisudo, uma relíquia ultrapassada do seu tempo, apesar da sua linguagem e os dispositivos narrativos terem sido filtrados através da história do seu género, desde então.

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terça-feira, 23 de abril de 2019

O Juramento dos Quatro (Four Men and a Prayer) 1938


Na Índia, o coronel Loring Leigh (C. Aubrey Smith) é acusado de emitir uma ordem que levou um esquadrão de homens à morte. É considerado culpado e demitido. Já em Inglaterra reúne os seus quatro filhos em volta dele para iniciar uma investigação para provar a sua inocência. Antes que possam iniciar a investigação Leigh é misteriosamente baleado e todos os seus documentos roubados, e embora o médico legista tenha considerado um suicídio os quatro filhos espalham-se pelos quatro cantos do mundo para apanharem o culpado. 
John Ford dirige este pequeno thriller de mistério atípico adaptado do romance de David Garth, com um argumento escrito por Richard Sherman, Sonya Levien e Walter Ferris. A história é melhor apresentada do que o filme merecia por um elenco encantador, onde se destacam já alguns nomes de peso. Os quatro irmãos são Richard Greene, George Sanders, David Niven, e William Henry, coadjuvados por Loretta Young, como namorada de Richard Greene. Não faltam ainda nomes de peso nos secundários, como C. Aubrey Smith, Alan Hale, e John Carradine. Carradine era já uma presença habitual nos filmes de Ford, participando aqui pela quarta vez num filme seu. Era habitual vê-lo em papéis de índole duvidosa, e a colaboração entre os dois estender-se-ía por mais uma série de filmes até Ford partir para a guerra.
Ford não estava particularmente intertessado em fazer este tipo de filme político, mas tinha um contrato com a Fox que o obrigava, mas mesmo assim conseguiu dar o melhor de si num conjunto de cenas que lhe eram queridas, como a calorosa reunião entre o pai e os quatro filhos. O filme, ao braquear o imperialismo britânico e as atrocidades cometidas pelo comercio mundial de armas, inclui uma declaração política muito questionável.

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segunda-feira, 22 de abril de 2019

O Furacão (The Hurricane) 1937

O filme conta a história de uma casal de jovens nativos, Marama (Dorothy Lamour) e Terangi (Jon Hall), que vivem numa bonita ilha. Um dia, Terangi vai trabalhar num veleiro, apesar dos protestos de Marama. No Tahiti, envolve-se numa briga num bar, e por causa disso é sentenciado a 6 meses de cadeia. Tenta fugir, é apanhado, e a sentença é aumentada, e antes que dê por isso está a cumprir uma pena de 16 anos. Várias boas almas tentam convencer o governador Eugene De Laage (Raymond Massey) a libertar Terangi, mas apesar de saber que essa é a coisa certa a fazer, o governador recusa. Até que surge o furacão do título, que vai alterar o rumo da história..
O auge dos filmes catástrofe, com elencos fabulosos de estrelas, é conhecido como a década de 70. Muitos anos antes, na década de 30, tivemos uma vaga como exemplo, que hoje é pouco falada. Houve terramotos, em "San Francisco" (1936, de Van Dyke), incêndios, em "In Old Chicago" (1938, de Henry King), inundações em "The Good Earth" (1937, de Sidney Franklin), e também furacões e ciclones, em "Suez" (1938, de Allan Dwan), e também neste "The Hurricane" (1937, de John Ford). Ford era regularmente convidado para trabalhar em superproduções, que ía alternando com os seus filmes mais pessoais, conseguindo quase sempre deixar a sua marca pessoal. Neste filme contava com um elenco de luxo, com alguns actores a fazerem já parte dos seus já habituais colaboradores: Dorothy Lamour, Mary Astor,  C. Aubrey Smith, Thomas Mitchell, Raymond Massey, John Carradine, entre outros.
Uma palavrinha aqui para Thomas Mitchell. Na sua primeira colaboração com Ford conseguiu uma nomeação para o Óscar de melhor actor secundário. Perdeu-o, mas viria a ganhá-lo dois anos mais tarde por "Stagecoach", com toda a justiça. Os dois voltariam-se a encontrar no ano seguinte, em "The Long Voyage Home".
Embora um pouco datado para os tempos correntes, este filme de John Ford ainda merece alguns destaques. Um deles é a sequência do título, a do furacão. O tal que não sabemos quando, mas sabemos que ele vai parecer. Embora o filme esteja creditado como realizado por John Ford, esta sequência que rouba o filme, foi na verdade realizada por Stuart Heisler, com a ajuda dos magos dos efeitos especiais James Basevi e R.O. Binger. A capacidade de Heisler de simular um feroz furação foi fenomenal, e representa uma verdadeira obra-prima dos primeiros efeitos especiais. Toda a narrativa converge para este momento, e isso faz deste filme obrigatório para os fãs do género.

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