segunda-feira, 26 de junho de 2017

On Fertile Lands (Bereketli Topraklar Üzerinde) 1980

Bereketli Topraklar Üzerinde / On Fertile Lands (1979) é baseado numa obra de realismo social de Orhan Kemal, sobre a difícil situação dos camponeses pobres no final da década de 40, na Turquia do pós-Segunda Guerra Mundial, que não teve a sorte de passar pela revolução industrial nem pelas reformas agrárias. Apoiando o dialect0 Marxista, o filme concentra-se em Ali, Yusuf and Hasan (ecoando Tom, Jim e Muley de "Grapes of Wrath", 1940, de John Ford, que teve uma forte influência no realizador, Erden Kiral), três amigos que desejam melhorar o seu status social e económico trabalhando na cidade, mas enfrentando para isso muitas dificuldades.
As primeiras sequências, usando câmara ao ombro, mostram trabalhadores temporários desesperados, homens com poucos dentes e crianças empobrecidas, são pessoas invisíveis que olham directamente para a câmara evocando Walker Evans (1903–75), que expôs a pobreza rural no sul do Alabama durante a grande depressão (no filme "Agee and Evans", 1939). A câmara passa sobre as tendas esfarrapadas, mas discretamente fica afastada, enquanto o narrador nos informa que a terra de Çukurova é fértil, e as suas pessoas são pacientes. Mesmo que eles morram há sempre o outro mundo. Devemos sempre comparar-nos com os que estão por baixo, e não com os que estão acima, e ficar gratos, como disseram os profetas. Esta é a verdade nua, apresentada como uma verdade objectiva sem perder a complexidade literária e a beleza poética do livro de Kemal. Consciente da improbabilidade de narrar tanta pobreza com formas tradicionais e sentir a agonia do intruso, Kiral procura uma nova linguagem cinematográfica que levante a consciência, preservando a liberdade dos trabalhadores, negada pelo sistema. Os méritos artísticos de Kıral levam o filme para além do tratado político criando personagens tridimensionais e complexas com necessidades básicas, comida, sono, sexo, e até mesmo amor. A vida humana é reduzida à sobrevivência física. 
O filme manteve a sua contemporaneidade ao longo de décadas recebendo o prémio de melhor filmes no Antalya Golden Orange Film Festival, em 1981, mas o prémio foi-lhe retirado devido à pressão do governo militar e Kiral foi compensado com o prémio de melhor realizador, que ele recusou receber. O filme foi depois banido, e os negativos ficaram perdidos. Foram descobertos 28 anos depois num armazém na Suiça, e o filme foi restaurado pela  Groupama Film Foundation, em França, para voltar a ser mostrado no Istanbul International Film Festival, em 2008.
A versão que podem tirar aqui do blog tem uma qualidade péssima, mas é mesmo assim e a única disponível com legendas em inglês. Para vê-la com as legendas terão de usar o programa VCL. Existe uma versão no youtube com uma qualidade muito boa, mas não tem legendas. É o que se pode arranjar, o filme é muito raro.

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sábado, 24 de junho de 2017

Suru - O Rebanho (Sürü) 1979

Por causa de um conflicto local, uma família de camponeses do leste da Turquia decide vender o seu rebanho de ovelhas, uma mercadoria muito preciosa, na distante cidade de Ancara. Durante a longa viagem de comboio subornos devem ser pagos a oficiais mesquinhos, ovelhas são roubadas ou morrem nos vagões embaladas, e a esposa de um dos filhos da família fica gravemente doente...
"Sürü" é um retrato realista de uma Turquia em transição para o capitalismo. O filme problematiza a desintegração de uma tribo curda e a sua estrutura patriarcal, com mudanças na estrutura económica do país. Está dividido, principalmente, em três partes, em todas as quais se destacam a natureza misteriosa deste povo: no acampamento, na viagem de comboio para Ancara, e, já na cidade. No acampamento, um abrigo temporário, a tribo continua o seu estilo de vida ao ar livre, com a vida nómada a ser documentada quase etnograficamente. A tranquilidade da atmosfera tem uma qualidade estranha. O conflito é confinado a espaços interiores claustrofóbicos, dentro das tendas ou perto delas, onde os mais fracos são humilhados. 
A mensagem política do filme está carregada de crítica social. O atraso e a ignorância de um estrato social ou étnico revertem-se pelo resto da sociedade. As mulheres são uma metáfora para os oprimidos. Colocadas em espaços liminares, as mulheres têm uma dupla vantagem par os homens, embora a opressão feudal destrua ambos. Quando a perda de identidade não é consciente (como no caso das minorias étnicas na Turquia), o poder é mais destrutivo. Pessoas afectadas por uma melancolia mais profunda perdem a voz. O silêncio de uma das personagens, Berivan, é uma metáfora para os povos oprimidos sem voz, os pobres, as mulheres, mas, principalmente os curdos, silenciados fisicamente e metaforicamente, não são capazes de falar o seu próprio idioma, embora esta mensagem seja muito subtil no filme, para conseguir contornar a censura estatal.
Escrito por Yılmaz Güney, enquanto estava na prisão, e realizado por  Zeki Ökten, esta trágica história da desintegração de uma família tribal (e os seus costumes e tradições) recebeu uma enorme aclamação internacional, incluindo o Leopardo de Ouro no festival de Locarno, e dois prémios importantes no festival de Berlim. A administração do festival Antalya Golden Orange Film recusou-se a aceitar "Sürü" na competição, porque a cidadania turca de Melike Demirağ tinha sido revogada pelo seu papel de esposa de Şivan, interpretado por Tarık Akan, que já estava na lista negra. Mas depois acabaria por premiar o filme com vários prémios.

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quinta-feira, 22 de junho de 2017

A Rapariga do Lenço Vermelho (Selvi Boylum Al Yazmalim) 1977

A história de um dilema entre o amor de uma mulher, e a sua lógica. Asya, uma jovem com uma mãe reservadora, conhece Ilyas um homem da cidade por quem depressa se apaixona. Superam as dificuldades e têm um casamento rápido e feliz. No entanto, a vida vai mudar quando ajuda um homem certa noite, deixa a mulher e o filho e sai de casa. Asya pega no filho e parte sem rumo, até que uma mão amiga a ajuda desinteressadamente.
Enquanto o livro original de Chingiz Aitmatov, de onde é adaptado este filme, nos mostra a história dos dois homens, o filme de Atif Yilmaz concentra-se na mulher. Começa com um close-up de Asya, e termina da mesma forma. Asya é apresentada como uma mulher independente, capaz de decidir o seu caminho. Decide fugir com o homem que ama em vez de casar com um homem que nem conhece. Toma a iniciativa de falar com o chefe de İlyas, e sai de casa quando não está feliz. Para preparar a audiência para a escolha de Asya no final, Yilmaz insere certos detalhes da vida de Asya com Cemşit. Apesar de ser legalmente casada, descartou as roupas de camponesa e trabalha agora numa cooperativa.
Os diálogos são reduzidos ao mínimo no filme, a narrativa flui através de monólogos/vozes interiores, os três principais actores exprimem-se através de sinais e mímica enquanto enfrentam o público, uma novidade para o cinema turco, e que era a forma de Atıf Yılmaz preservar o texto lírico, enquanto enfatizava a visualidade. 
 Atif Yilmaz era um dos realizadores turcos mais activos neste período do cinema turco, realizou mais de quarenta filmes durante a década de setenta, alguns deles bastante importantes.

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quarta-feira, 21 de junho de 2017

O Autocarro (Otobüs) 1975

Este filme apresenta-nos o ponto de vista de nove imigrantes, que viajam num autocarro das áreas rurais da Turquia directamente para uma das mais modernas cidades, Estocolmo. São enganados por um contrabandista, que lhes ficou com o dinheiro e o passaporte com a promessa de lhes arranjar um emprego na Suécia. Quando chegam a Estocolmo, sendo eles completamente estranhos à cidade e cultura, sem ter onde ir e sem dinheiro para comprar comida, o único lugar onde encontram refúgio é o autocarro onde viajaram, estacionado num local muito central da cidade, durante um inverno bastante frio. O medo de serem apanhados pela polícia e recambiados para o seu país de origem obriga-os a esconderem-se dentro do autocarro durante o dia, e durante a noite fazem a dura luta pela sobrevivência. Durante estas excursões nocturnas observamos como estes camponeses vivem a vida nocturna na cidade. 
O filme mostra-nos como alguns dos aspectos considerados aceitáveis da vida quotidiana (como o consumo de álcool, a nudez, a sexualidade e a homossexualidade) são considerados perversões para as pessoas estrangeiras. E é por isso que quase todos os cidadões locais são retratados como hostis, pervertidos, racistas, arrogantes, cruéis e implacáveis. Por outro lado, todos os nove cidadãos turcos são vistos como ingénuos, e quase totalmente ininteligentes. Mesmo com o filme a tratar dum tema sempre quente como a emigração não lida com o tema de uma forma muito profunda, mesmo assim sendo considerado dos melhores filmes turcos dos anos 70.
Vencedor de vários prémios em festivais internacionais, ainda que menores, era o filme de estreia de Tunç Okan, um actor tornado realizador, que contava no seu repertório já com algumas interpretações importantes. 
Legendas em inglês.

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terça-feira, 20 de junho de 2017

My Prostitute Love (Vesikali Yarim) 1968

1968, numa taberna em Istambul. A bela e magnífica Sabiha está a cantar no palco. Halil não consegue tirar os olhos dela. Eles apaixonam-se, mas Halil é casado e um homem vulgar. Não procura nada de especial, mas o que está feito, está feito. No entanto, os rumores começam a circular...
A história de um dos mais sentimentais melodramas do cinema turco é muito dolorosa. Adaptado para o grande ecrã por Safa Önal, a partir de uma história de Sait Faik. Desde o início da história em que "toda a gente está certa", Halil e Sabiha estão cientes do que poderá ser o fim deles. É uma história de amor que começa com uma pergunta, e termina com o peso da pergunta que acaba por não ser perguntada: És casado? Começa com a solidão de um homem numa taberna, e acaba com a solidão de uma mulher deixada no meio da rua num bairro degradado. "My Prostitute Love" é o melodrama mais ingénuo do cinema turco.
É um filme realista que representa o sentimento da década de sessenta em Istambul, de forma autêntica. Escrito de forma poética, e cuidadosamente elaborado em termos de fotografia, justapõe a imagem realista dos interiores e das paisagens dos anos sessenta com os momentos místicos de amor entre duas personagens, que ganham vida com os impressionantes desempenhos dos actores Turkan Soray e Izzet Gunay, conseguindo criar uma ruptura na abordagem tradicional moralista.
Lütfi Akad é um dos realizadores mais importantes da Turquia. Deu ao cinema do seu país muitas coisas importantes, começando pela forma como movimentava a sua câmara. Andava de cenário em cenário, de rua em rua, mostrando ao seu público o mundo real, pessoas reais, sem grandes estrela de cinema. Os seus actores, em grande parte, não agiam em frente à câmara, eles viviam na câmara.
Legendas em Inglês.

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domingo, 18 de junho de 2017

Tempo de Amar (Sevmek Zamani) 1965

Halil é um pintor que se apaixona por um rosto num quadro, que pertence à filha dos donos de uma mansão. Certo dia, a rapariga chega à mansão no exacto momento que Halil está a olhar para o retrato, e é o inicio de uma estranha relação. 
O filme é contado em duas formas distintas. Primeiro, um realismo rigoroso na busca da identidade específica do povo turco. Ocidente ou Oriente, a eterna batalha caótica. Em segundo lugar, através desta separação de Ocidente e Oriente, o filme mostra-nos duas percepções diferentes do amor: uma cantora moderna, urbanizada (Sema Ozcan) a querer estar com um homem (Musfik Kenter), que por sua vez está apenas apaixonado pelo retrato da cantora. Por outro lado, o homem oriental a recusar o amor da cantora que está mais ligada ao Ocidente, e à perdição.
Um filme obscuro, um tesouro escondido para os amantes de cinema internacional, é considerado um dos melhores filmes da história do cinema turco, apesar de ainda permanecer desconhecido para muitos cinéfilos da nova geração. Elogiado pela sua fotografia a preto e branco, o filme segue a tradição estética de Antonioni, sendo uma mistura eclética de temas modernistas (a solidão individual), a metafísica (a luta do bem contra o mal, com o mal a ser representado pelas influências do ocidente), e as noções do marxismo, visíveis em outros filmes do realizador Metin Erksan, um dos primeiros realizadores turcos que viu o cinema como uma forma de arte, além de um meio de entretenimento das massas.

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sábado, 17 de junho de 2017

Verão Seco (Susuz Yaz) 1963

Uma história de luta de classes que se passa durante um verão seco na zona rural da Turquia. Como consequência das condições climáticas quentes e secas os agricultores que vivem na aldeia não podem regar os seus campos. O proprietário da única terra com nascente de água não deixa os outros proprietários usarem a sua água, construindo um dique, e ambos os lados entram em conflito a propósito do uso deste recurso natural. 
Desta forma, este conflito transforma-se numa disputa de propriedade, que é um dos assuntos preferidos do realizador Metin Erksan. Além disso, o realizador usa a obsessão do proprietário para seduzir a jovem e encantadora esposa do irmão, que acaba por tomar partido dos outros agricultores para fortalecer esta questão de propriedade. 
A beleza deste filme vem da sua simplicidade visual. Faz lembrar muito os grandes clássicos do neorealismo italiano, mas tem um espírito mais livre, que lhe confere uma identidade verdadeiramente única. O foco da atenção é a moralidade flexível dos principais protagonistas. Ao longo do filme, aos três personagens principais (os dois irmãos e a esposa e de um deles) são apresentados dilemas difíceis, que os obrigam a tomar decisões difíceis, decisões que indirectamente desafiam e expõem as falhas dos entendimentos tradicionais turcos sobre responsabilidade e respeito. Impressionante também é o tom erótico do filme, com algumas imagens da actriz Hülya Koçyigit a ultrapassarem surpreendentemente os censores turcos da altura.
Vencedor do Leão de Ouro no Festival de Berlim de 1964, e da Biennale do Festival de Veneza desse mesmo ano, foi o primeiro sucesso internacional do cinema turco. Contudo, as coisas não foram muito fáceis interinamente. Foi retirado da circulação pelas autoridades turcas pouco tempo depois da estreia. 

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quinta-feira, 15 de junho de 2017

Da Trácia à Capadócia, uma viagem pelo cinema turco

Quando em 1982 "Yol" de Yilmaz Güney conquistou a Palma de Ouro no festival de Cannes o cinema turco entrou para a vanguarda internacional. Este reconhecimento, e a classificação de "Yol" como um filme "turco" (feito por um cineasta turco e curdo) sublinham o desafio primordial de definir e categorizar um cinema nacional. Investigadores, estudantes, e as suas pesquisas reflectiram essas interrogações. Estudos contemporâneos abordaram a evolução do cinema turco a partir da representação do desejo do estado de unificar uma república recem-formada (1923) através da idade de Ouro do cinema de entretenimento (Yesilçam), e continuando com o contemporâneo Novo Cinema Turco, reflectindo sobre  o traumático passado social, político e cultural de uma nação.
Através deste recente movimento de filmes e o seu reconhecimento global surgiu uma nova geração de estudiosos do cinema turco. É uma geração com rigor académico, coragem e compromisso de reexaminar a relação do cinema turco com o passado de uma nação e a relação do "novo cinema" com a evolução actual das perspectivas políticas e sociais da sociedade turca contra o poder do estado.
Este ciclo que hoje se inicia, não pretende ser um "o melhor de " do cinema turco. Pretende, tal como o título indica, que seja feita uma viagem, sem preconceitos nem obrigações, pelo passado e pelo presente do cinema daquele país, numa tentativa, tal como o fizeram os estudiosos que referi anteriormente, de recuperar e divulgar o cinema daquele país, principalmente pelos lugares mais escondidos e com menos visibilidade. Viagem esta que começará nos anos sessenta, com um filme premiado, e acabará já no século 21, com outro filme premiado.


 Este ciclo tem um programador muito especial, especialista em cinema turco. Nuno Simões, fotógrafo de paixão, seguidor do My One/Two Thousand Movies já há alguns anos. Podem seguir o seu trabalho, aqui.
No sábado será publicado o primeiro filme, com o ciclo a ter um total de 20. 

Criadores de Stop-Motion: O Mundo Surreal dos Irmãos Quay

Os irmãos Quay estão entre os artistas de animação mais bem sucedidos dos últimos anos. Os fantásticos cenários e os seus fantoches kafkianos e os ocasionais closeups combinam numa alquimia engenhosa de visão inconsciente e metafórica. Ver qualquer filme de animação desta dupla significa entrar num mundo de sonhos de metáfora e poesia visual. Nas suas próprias palavras: "Os filmes de marionetes pela sua própria natureza são construções extremamente artificiais, ainda mais dependentes de que nível de "encantamento" se deseja para eles em relação ao tema, e, acima de tudo, a mise-en-scène conceptual aplicada". O "encantamento" dos seus filmes fê-los conquistar audiências pelo mundo fora, e as suas inovações introduziram uma nova qualidade de poesia para o filme animado. Hoje trago-vos aqui uma série de curtas desta dupla, e uma longa. 

Nocturna Artificialia (1979)
Uma história enigmática contada em sete capítulos, cada um introduzido por uma frase elíptica num título. Um homem no seu apartamento. Ele sai para a rua onde um eléctrico vermelho passa ao lado de uma catedral. Curta de estreia dos realizadores. Com valores de produção bastante baixos, é quase o filme mais negro dos Quay, além de ser o mais sombrio. Um jogo de sombras bastante apurado que faz com que nunca tenhamos a certeza do que estamos a ver. Os realizadores não gostam muito de misturá-lo com os seus filmes posteriores. 
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The Cabinet of Jan Svankmajer (1984)
Em Praga, um marioneta professora, com pinças metálicas nos lugares das mãos e um livro aberto como chapéu, toma um jovem rapaz como pupilo. Primeiro a professora esvazia a cabeça do rapaz de todos os brinquedos, deixando-o sem o topo a maioria do filme. Depois ensina o rapaz sobre ilusões e perspectivas, a busca de um objecto através da exploração de um banco de gavetas, adivinhando um objecto e a migração das formas. A animação em stop Motion dos Quay é obviamente influenciada por Jan Svankmajer, e este é o seu tributo ao realizador Checo. 
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Street of Crocodiles (1986)
Um acompanhamento musical electrónico orquestrado por Karlheinz Stockhausen acompanha adequadamente o filme. É talvez o trabalho dos Quay mais bem sucedido dos realizadores, inteiramente animado por marionetes e o fantástico microcosmos do seu universo. Foi um filme altamente premiado. Não ganhou em Cannes, mas ganhou prémios nos festivais de Sitgés e Fantasporto. 
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Rehearsal for Extinct Anatomies (1988)
Na frágil imobilidade de uma sala, um casal espera. Enquanto o crepúsculo avança, alternadamente inconsciente e ansioso por pressentimentos de destruição brutal. Livremente inspirado numa gravura do pintor francês Jean Honoré Fragonard. O ponto de partida era uma música que Leszek Jankowski escreveu para um projecto com temas de Kafka. Assim é criado um plano coreográfico envolvendo certos movimentos de câmara precisamente calibrados, criando um cenário com isto em mente. 
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The Comb (1991)
O filme abre no quarto sombrio de uma bela adormecida, e parece entrar na sua mente e mergulhar nos seus sonhos. Com base num fragmento de um texto do escritor austríaco Robert Walser, "The Comb" é uma exploração do subconsciente, visualizada como uma casa de teatro labiríntica assombrada por um explorador de bonecas. Uma mistura impressionante de live action com animação, "The Comb" é semelhante a uma nota sensual de violinos, guitarras e gritos e sussurros vindos de um sótão, todos banhados num magnífico brilho dourado.  
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Instituto Benjamenta (1995)
Jakob Von Gunten acaba de entrar para o estranho Instituto Benjamenta, especializado em preparar e educar criados. Pouco a pouco vai conhecendo os seus inusitados colegas e apredendo técnicas de serventia a cargo dos irmãos Johannes e Lisa Benjamenta, responsáveis pelo Instituto. Estranho é a norma para esta primeira longa metragem em live action dos imãos gémeos Quay, que por esta altura já tinham atingido o estatuto de culto pelas suas curtas metragens. Aqui, as influências são o expressionismo alemão de "O Gabinete do Dr. Caligari", e é marcado por um tom de pesadelo. É vagamente baseado na novela "Jakob Von Gunten", do autor suiço Robert Walser. Filme premiado em festivais como Fantasporto, Sitgés e Locarno. Tem legendas em português. 
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terça-feira, 13 de junho de 2017

Alex Cox - Extras

Alex Cox era um grande fã de spaghetti western. Na altura que completou o seu curso na UCLA, escreveu uma tese sobre este sub-género cinematográfico. O resultado desta tese originou o excelente livro "10,000 Ways To Die", que hoje publicamos aqui.

Alex Cox foi também apresentador de uma série da BBC2 chamada Moviedrome, onde cada filme era apresentado antes de ser mostrado na TV, com as escolhas a caírem, sobretudo, em filmes de culto. Cox foi o apresentador desta série, desde 1988 até 1994. Nesta pesquisa podem ver algumas das apresentações de Cox.

É tudo quanto ao ciclo "Alex Cox - O Último Maverick". Espero que tenham gostado.

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Bill the Galactic Hero (Bill the Galactic Hero) 2014

Billy é um entregador de pizzas num planeta distante que tropeça numa unidade de recrutamento para as tropas espaciais, e é enganado a se inscrever com o uso de drogas. A bordo de uma nave estelar vai envolver-se numa guerra contra seres com a aparência de lagartos. 
"Billy the Galactic Hero" é baseado num livro satírico de ficção científica escrito em 1965 por Harry Harrison, que foi escrito como contrapeso para um outro livro neo-fascista de 1960 chamado "Starship Troopers" de Robert A Heinlein, também ele passado para o cinema em 1997, pelas mãos do holandês Paul Verhoeven, filme esse que também satirizou bastante a sua fonte e as suas tendências militaristas. É uma comédia de ficção científica passada nos confins da nossa galáxia, com os humanos a travarem uma guerra contra uma espécie alienígena reptiliana conhecida como Chingers. Cox revelou que estava a trabalhar com o autor do livro na organização do filme, quando este morreu.
Cox já vinha a planear fazer uma versão deste livro desde há muitos anos, meados dos anos oitenta, quando ainda era uma grande esperança de Hollywood graças ao sucesso de "Repo Man", embora não tivesse conseguido obter financiamento na altura. A partir de 2012 aceitou um trabalho a dar aulas na Universidade do Colorado, em Boulder, e foi este o meio improvável que conseguiu para fazer "Bill the Galactic Hero". Através de crowdfunding on Kickstarter conseguiu um orçamento de 114 mil dólares, e junto com os estudantes da universidade onde leccionava começaram a produzir o filme, com alguns deles a receberem honras de co-realização. Desta forma "Bill The Galactic Hero" foi considerado o maior filme de estudantes jamais feito, graças ao orçamento conseguido. 
É difícil falar desta adaptação de "Bill The Galactic Hero" sem nos sentirmos na obrigação de preparar os espectadores para o que aí vem. É essencialmente uma longa metragem sem grande escala ou ambição, um projecto sem fins lucrativos construido para ser colocado online gratuitamente. E qual seria o aluno de cinema que não gostaria de fazer um filme com Alex Cox?
Filme sem legendas.

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domingo, 11 de junho de 2017

Repo Chick (Repo Chick) 2009

Num futuro indeterminado Pixxi (Jaclyn Jonet, de "Searchers 2.0") é uma jovem rica e mimada, que é deserdada pela família e se vê obrigada a trabalhar como "repo woman", para sobreviver, a recuperar carros dos que não pagam as prestações, tal como Emilio Estevez fazia em "Repo Man". Para onde quer que vá é seguida por um grupo de amigos chatos, e por uma câmara que regista o seu dia para um programa de TV. 
"Repo Chick", realizado por Alex Cox, está a meio caminho entre um remake/sequela de "Repo Man", o seu filme de culto de 1984, não sendo nem uma coisa nem outra. Existe alguma semelhança entre os dois filmes, como o humor subversivo, mas a principal diferença está na forma como são tratados os temas destas duas obras: "Repo Man" era um filme sobre a alienação, e "Repo Chick" é um filme que está enraizado no anticapitalismo. A primeira parte de "Repo Chick" gira mais em torno das suas personagens coloridas, é a mais interessante, enquanto que a segunda parte é mais mecânica, e aí Cox espalha-se um pouco.
Alex Cox é um realizador que nunca joga pelas regras, e por isso já há alguns anos que estava preso a micro-orçamentos surreais, que por serem mais limitados, obrigavam-no a ser mais inventivo nos seus trabalhos, mas, tal como em "Searchers 2.0", a recepção da crítica também não foi muito boa. O elenco é sempre um atractivo nos filmes de Cox, e se os actores principais são alguns dos colaboradores habituais do realizador, conta também com algumas estrelas convidadas: Chloe Webb, Rosanna Arquette, Karen Black, entre outros.
Teve honras de estreia no Festival de Veneza, obviamente fora de competição.
Legendas em inglês.

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sábado, 10 de junho de 2017

Searchers 2.0 (Searchers 2.0) 2007

Dois actores, Mel Torres (Del Zamora) e Fred Fletcher (Ed Pansullo), descobrem que quando eram crianças participaram juntos num velho western, onde foram fisicamente atormentados pelo argumentista Fritz Frobisher. Descobrem que Frobisher irá fazer uma rara aparição em público, num evento no Monument Valley, o local preferido de John Ford. Decidem partir para lá no camião da filha de Mel, que também os acompanha, para ajustarem contas com o argumentista. A viagem é a parte mais cinéfila do filme, pois ambos sabem muito sobre westerns, e será o assunto da conversa ao longo da viagem.
Tal como as últimas obras de Alex Cox, "Searchers 2.0" é um filme minimalista. Produzido com um orçamento de $180,000 e rodado em apenas duas semanas em video digital, que funciona maravilhosamente em alguns momentos, principalmente na capturas das mesas do sudoeste americano. Por outras vezes, dentro dos edificios e dentro do carro, a imagem parece granulada e lamacenta. A viagem na estrada é gasta, sobretudo, com brigas e discussões, mas quando os nossos heróis chegam ao Monument Valley e há um objectivo claro entre mãos o filme transforma-se em algo magnífico. Até ali o filme era interessante como um objecto de guerrilha, mas não muito divertido de se ver.
O final é verdadeiramente inspirador, terminando tri-duelo a homenagear "O Bom, o Mau, e o Vilão", de Sérgio Leone, com cada um dos participantes a desafiar o outro a dizer nomes de duplos do filme de Leone ainda vivos. 
A produção desde filme, muito discreta, é de Roger Corman.
Filme sem legendas.

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Revengers Tragedy (Revengers Tragedy) 2002

Esta é a história de um homem cuja amada foi assassinada no dia de casamento, e o seu desejo de vingança. Numa Liverpool pós-apocaliptica do futuro, Vindici (Christopher Eccleston) regressa de um exílio auto-imposto, para derrubar os responsáveis pelo assassinato da sua esposa. Enquanto que a sua família se encontra a viver tempos difíceis, o assassino, conhecido como The Duke (Derek Jacobi), tornou-se num homem poderoso.
Verdadeiramente subversivo e rebelde, Alex Cox fez um filme semelhante a "Romeo & Juliet" de Baz Luhrmann e "Titus" de Julie Taymor, mas não adaptou uma peça de Shakespeare. Em vez disso escolheu uma peça do século 17 de Thomas Middleton, que, segundo o realizador, era o trabalho mais vil jamais feito em língua inglesa, e o produto de uma mente doente. Adaptar Shakespeare seria vulgar demais para Cox, e seria muito previsível, então, vamos lá adaptar uma obra de Thomas Middleton.
Cox actualiza a acção num futuro próximo, onde todos se vestem como punks, e onde tatuagens, piecings, caras pintadas eram a norma. A fotografia está cheia de cores deslumbrantes, e a excelente banda sonora da banda Chumbawumba dão ao filme um pouco de ar para se respirar. Por vezes o filme é dificil de se seguir, mas não nos podemos esquecer de que é um filme de Alex Cox.  Era a segunda colaboração entre Cox e o actor Christopher Eccleston.
Legendas em Inglês. 

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quinta-feira, 8 de junho de 2017

Kurosawa: The Last Emperor (Kurosawa: The Last Emperor) 1999

Feito para ser exibido na televisão por Alex Cox, o documentário "Kurosawa: The Last Emperor" é uma crónica histórica bastante completa sobre a vida e a obra de Akira Kurosawa. Cox dá ao lendário realizador japonês um perfil bastante extensivo utilizando os detalhes e histórias de entrevistas com familiares, actores que com ele trabalharam, membros de equipas de produção, amigos e outros realizadores. Tudo isto incorporado com uma riqueza de imagens de muitos filmes de Kurosawa, e o resultado é um retrato informativo de não ficção, que fornece apenas uma perspectiva do legado de uma das figuras mais lendárias do cinema. 
Apesar de ter menos de uma hora, é um documentário que cobre muitos territórios. Começa com a infância do realizador, e através das entrevistas pinta um retrato muito pessoal da vida e do trabalho do homem até à sua morte. Psicanalisa a vida do realizador, sugerindo que certos eventos seminais (como o suicídio do seu irmão) moldaram em grande parte o seu trabalho, tematicamente. As informações fornecidas podem não ser muito interessantes para o espectador casual, mas para os fãs de Kurosawa ou os estudantes de cinema a sério, vai fazer querer ver todos os filmes do realizador novamente.
Documentário com legendas em inglês apenas nos diálogos em japonês.

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terça-feira, 6 de junho de 2017

Three Businessmen (Three Businessmen) 1998

Dois comerciantes de arte, um americano (Miguel Sandoval) e um britânico (Alex Cox), encontram-se no restaurante do hotel onde estão hospedados, em Liverpool. Os dois decidem procurar uma refeição nocturna, o que se torna problemático quando o inglês revela que é vegetariano. Enquanto seguem a busca por uma refeição minimamente aceitável para os dois, o ponto principal do filme é a discussão entre os dois para encontrarem um restaurante ideal.
Alex Cox no território da solidão e da alienação da paisagem urbana moderna. Bennie e Frank são os tipos de homens bem sucedidos nascidos para se adequarem ao mundo moderno, mas, na realidade, são figuras tristes, pouco realizadas, não estabelecendo muitas ligações entre si, e sem ligação aparente mais profunda do que têm com os jornais, telemóveis, ou computadores...
"Three Businessmen" é uma comédia absurda de Alex Cox, onde grande parte do orçamento foi gasto a comprar bilhetes de avião para a equipa de produção. Cox, como é evidente, tem um carinho especial pelas suas personagens perdidas, assim como pela cidades que ele escolheu para o filme. O argumento é escrito por Tod Davies, colaboradora ocasional de Cox, que nesse mesmo ano trabalharam em conjunto no argumento de "Fear and Loathing in Las Vegas", de Terry Gilliam.  
A influência de Cox neste filme é de Luis Buñuel, com o seu "O Discreto Charme da Burguesia", que também era sobre um grupo de pessoas que tentavam jantar, mas são constantemente desviados por eventos surrealistas. 
Legendas em inglês.

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domingo, 4 de junho de 2017

The Winner (The Winner) 1996

"The Winner" conta-nos a história de um homem comum, chamado Philip (Vincent D’Onofrio) que de repente tem uma mudança de sorte. Antes de tentar suicidar-se, num Domingo, vai até um casino de segunda categoria para derreter o que resta do seu dinheiro, só que desta vez ganha de cada vez que joga, e continua a ganhar (desde que seja aos Domingos). Esta onda vencedora atrai varias pessoas desonestas que pretendem tirar proveito da sorte de Philip, incluindo um trio de vigaristas com pouca habilidade para roubar, um irmão sociopata procurado pela lei,  e uma cantora de bares chamada Louise (Rebecca De Mornay), que também já apanhou o coração de Philip. Ela trabalha para o dono do Casino, a quem deve dinheiro.
Em 1995 Alex Cox estava em Cannes, a ajudar a promover "La Reina de la Noche" (1994), de Arturo Ripstein, filme no qual tinha participado como actor. Tinha aceite o papel para conseguir dinheiro para completar a versão cinematográfica de "Death and the Compass", e em Cannes foi abordado por produtores que queriam fazer uma versão cinematográfica de "A Darker Purpose", uma obra escrita por Wendy Riss. Cox leu o argumento e assinou, na esperança que o dinheiro chegasse para completar "Death and the Compass".
As coisas não correram bem entre Cox e os produtores, com o realizador a querer tirar o nome dos créditos do filme, embora o seu nome tivesse permanecido. A versão final que Cox tinha terminado foi rejeitada pelos produtores, que acabaram por lançar uma versão muito diferente. Ele tinha preparado uma banda sonora que dava ênfase ao lado mais irónico do filme, mas a banda sonora que foi incluída era muito diferente da pretendida pelo realizador. 
 Mesmo assim o filme vale a pena, por várias razões: a fotografia, com alguns takes longos que já eram habituais na filmografia do realizador, e o magnífico elenco: Vincent D’Onofrio, Rebecca De Mornay, Delroy Lindo, Michael Madsen, Billy Bob Thornton, Frank Whaley, entre outros.
Filme sem legendas. 

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sábado, 3 de junho de 2017

Death and the Compass (Death and the Compass) 1992

O detective Erik Lonnrot (brilhantemente interpretado por Peter Boyle), investiga uma série de bizarros assassinatos numa cidade futurista, sombria e caótica, administrada por um governo totalitário. Enquanto vai chegando perto da verdade, Lonnrot descobre uma complexa conspiração oculta, que o coloca em perigo de vida.
"Death and the Compass" oferecia a Alex Cox a oportunidade de adaptar uma obra literária pela primeira vez. Baseado numa história curta (originalmente intitulada de “La Muerte y la brújula”) de Jorge Luis Borges, publicada pela primeira vez em 1942, mas apenas traduzida para inglês em 1954. Era a peça central de uma trilogia de detectives que Borges escreveu, e foi publicada precisamente 100 anos depois de “The Mystery of Marie Roget”, também a história do meio de uma trilogia de Auguste Dupin, escrito por Edgar Allen Poe. A história de Poe influenciou a obra de Borges, mas a sensação de enclausuramento sentida na obra vem de Franz Kafka. 
Cox teve oportunidade de fazer este filme através da BBC, que lhe perguntou se estava interessado em fazer uma versão de “La Muerte y la brújula”, como uma colaboração para uma série de adaptações televisivas da obra de Borges, série essa que teve 6 episódios, cada um realizado por um realizador diferente. Um desses episódios era realizado por Carlos Saura, "El Sur". Esta série tinha como objectivo assinalar o 500 aniversário da invasão espanhola ao novo mundo. O filme que temos aqui hoje disponível ficou completo em duas fases: a primeira fase foi filmada em 1992 e acabou numa versão de 55 minutos, que foi exibida na televisão espanhola e na BBC. Um ano mais tarde foi filmado material adicional, para montar uma versão cinematográfica, mas a falta de recursos para a prós-produção e uma confusão sobre os direitos cinematográficos deixaram esta nova versão em espera.
A questão dos direitos acabou por ser um labirinto, como o próprio filme. Os direitos da propriedade da história estavam num produtor em Espanha, e problemas com os direitos no México e no Japão precisavam de ser resolvidos, antes do film
e saír cá para fora. Quando tudo ficou concluído o filme foi finalmente exibido, no Outono de 1996. 
Legendas em espanhol.

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quinta-feira, 1 de junho de 2017

Highway Patrolman (El Patrullero) 1991

Este "El Patrullero" não é nenhum Robocop, nem nenhum Mad Max. Na realidade, o filme leva todo o drama de acção policial como uma forma. No México, Pedro Rojas (Sosa) é o patrulheiro da estrada, que vai das suas noções idealistas de aplicação da lei, a uma desilusão amarga com a corrupção que encontra. Dirigido em espanhol pelo renegado realizador inglês Alex Cox, o filme é um estudo de personagem de um homem cuja honestidade inerente o leva a não ser bom. Primeiro conhecemos Pedro (o actor Roberto Sosa aparece em quase todas as cenas) nas suas aulas de patrulhamento fascista. Pedro termina o curso, mas está decepcionado porque o pai não apareceu na cerimónia de graduação, queria que ele fosse médico, e ele acaba por ficar colocado na zona do desolado deserto de Durango. Pouco a pouco ele é vítima do tradicional sistema de subornos, tentando descobrir como não fazer parte de um sistema, ele próprio corrupto. 
1991. A tentar recuperar do fracasso crítico e comercial de "Walker", Alex Cox lançou um pequeno filme de baixo orçamento. Cox vinha a resistir a fazer um policial porque não confiava nessa profissão, mas ficou interessado depois de conversar com um homem que tinha sido policia no México. O que o interessava era o tema da decência a ser corrompida, ou, como diz Cox, "uma história idealista onde o desejo de ser polícia é uma desilusão". 
Como em muitos filmes de Cox, "El Patrullero" está cheio de cameos interessantes, neste caso por actores mexicanos (o caso de Pedro Armendáriz Jr. é o mais conhecido). Com planos longos, e quase sem cortes, Cox segue o patrullero do título, enquanto ele se confronta com a corrupção dos narcotraficantes mexicanos e dos pequenos burocratas. Enquanto a sua sorte vai de mal a pior, o patrullero parece enquadrar-se com a noção de Cox sobre a impossibilidade de qualquer comportamento correcto possa levar a alcançar objectivos dignos. Mas, mesmo neste contexto, Cox faz um apelo humanista para a decência, mesmo quando as circunstâncias o desencorajam.
A circunstância mais saliente nesta história é a relação do México com os Estados Unidos. Os mexicanos exibem uma decência especial, mesmo que sejam abusados pelos vizinhos do norte. Tranquilamente, "El Patrullero" consegue fazer a crítica social que falhara em "Walker". Cox indaga que a violência nascia da ganância capitalista e um império americano delirante, bem como os seus efeitos corrosivos sobre o indivíduo. 
Legendas em inglês.

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quarta-feira, 31 de maio de 2017

Os Imortais (Walker) 1987

William Walker e os seus mercenários entram na Nicarágua em meados do Século XIX para instalar um novo governo através de um golpe de estado. Tudo está a ser financiado por um multimilionário americano que tem os seus próprios interesses no país.
Recusando a esconder-se confortavelmente no passado, Alex Cox faz da sua sátira política uma crítica feroz sobre a intromissão dos Estados Unidos na América Central. Feito durante o apoio de Ronald Reagan aos Contras, este biopic histórico é uma acusção tão reveladora do direito dos Deuses dos Estados Unidos de espalhar democracias falsas que são, na verdade, ditaduras de exploração que apenas beneficiam as empresas americanas. Os ricos e famosos são implacavelmente ridicularizados como idiotas vulgares e cruéis cujo privilégio lhes permite fazer qualquer coisa. Dito isto, Walker é ao mesmo tempo, um herói e um representante desprezível de tudo o que é perigoso, niilista e sombrio sobre todos os poderosos. 
Este filme acabaria por torná-lo persona non grata em Hollywood, e, talvez, defina mais claramente a diferença entre dois pontos diferentes: um que é Cox e a política revolucionária através de Hollywood; no outro é Cox e a sua relação com a máquina de Hollywood. Provavelmente a máquina de Hollywood pode tolerar a política, mas apenas se não ameaçar o sistema. "Walker" ultrapassou claramente esse limite. Se a estética do filme é bem sucedida ou não é um assunto de discussão, mas o fracasso do filme como espectáculo político é fundamental para entender a diferença entre uma atitude punk como uma perspectiva crítica, e o mesmo como uma estratégica de marketing. 
Com brilhantes interpretações de Ed Harris e Peter Boyle, "Walker" também tem o seu mérito como um western, próximo da homenagem ao spaghetti que tinha sido o seu filme anterior, "Straight to Hell". Aqui, o modelo é Sam Peckinpah, o que faz sentido, porque o argumentista Rudy Wurlitzer também escreveu o argumento para "Pat Garret & Billy the Kid", um dos melhores filmes de Peckinpah. A banda sonora de Joe Strummer, amigo pessoal de Cox e fundador da banda The Clash, inspirou-se no trabalho de Bob Dylan no filme acima mencionado, mas também combina vários estilos. 

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