terça-feira, 30 de junho de 2015

A Pista dos Gigantes (The Big Trail) 1930

Breck (John Wayne) conduz uma caravana de pioneiros através de ataques indios, tempestades, desertos, rios caudalosos, descendo penhascos, enquanto procura o assassino de um caçador, e se apaixona por Ruth (Marguerite Churchill).
Western épico, o primeiro da era do cinema sonoro, foi filmado simultaneamente nos 35mm habituais, e em 70 milímetros widescreen, um processo recém introduzido mas de curta duração chamado Fox Grandeur (similar ao posterior Todd-AO). Nos anos 90 foi restaurado, ao seu esplendoroso widescreen original. O filme faz um trabalho impressionante ao mostrar as suas impressionantes vastas paisagens, as caravanas a atravessarem os rios, cruzando planícies ásperas e escalando penhascos íngremes em todos os tipos de clima, e a coragem dos pioneiros para fazerem uma viagem tão perigosa, tudo isto é mais importante do que um argumento pouco criativo e sem imaginação, para além de díalogos pouco naturais, e uma tentativa de fazer humor ligeiro. Mas tudo isto acaba por não ser tão importante.
Consta que o filme custou 2 milhões de dólares para ser feito, muito para a altura em questão, e surpreendentemente falhou nas bilheteiras. Foi filmado na mesma tradição que outros grandes westerns da década anterior, como "The Covered Wagon" (1923) ou "The Iron Horse" (1924). Raoul Walsh pretendia ser o protagonista, mas teve de procurar um substituto depois de perder um olho. John Ford recomendou-lhe o seu amigo Marion Morrison para o papel, e este para o seu papel de protagonista acabou por adoptar o nome de John Wayne, com o qual ficaria no resto carreira. Mas depois do filme ter fracassado monetariamente acabou por obrigar Wayne a andar por inúmeros filmes de série B durante a década de 30. Wayne só recuperaria a reputação quase 10 anos mais tarde, num outro western épico realizado por John Ford: "Stagecoach".

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domingo, 28 de junho de 2015

Raoul Walsh - Parte 1

Quando os críticos dos Cahiers du Cinema conferiam o status de "auteur" aos cinestas de Hollywood, a tendência era favorecer os realizadores mais "machos" cuja vida era tão áspera como os filmes que faziam. Raoul Walsh era o epítome da bravura, um dos chamados "mavericks" que demonstrava um vigoroso senso de aventura, dentro e fora da tela.
Ainda em adolescente, interrompeu os estudos para viajar com o seu tio de barco, acabando por se tornar cowboy no México. No Texas juntou-se a uma companhia de teatro itenerante, e finalmente chegou a Hollywood como cowboy cantor, trabalhando para D. W. Griffith em vários filmes, tanto atrás como à frente das câmeras, como por exemplo, no papel de John Wilkes Booth em "The Birth of a Nation" (1915).
Como realizador, Walsh foi um pioneiro. Ajudou a formular o protótipo do filme de gangsters com "Regeneration" (1915), além de realizar uma série de outros filmes mudos notáveis, como "The Thief of Bagdad" (1924), "What Price Glory" (1926), e "Sadie Thompson" (1928). Também deu a John Wayne uma das suas primeiras oportunidades, em "The Big Trail" (1930). Mas, os anos trinta não foram muito favoráveis a Walsh, e foi apenas quando ele se mudou para a Warner Bros., no final da década, que começaram a aparecer sinais de um estilo pessoal.
O seu forte eram os filmes de acção, preenchidos com uma energia abrasiva e uma decência brusca onde os seus heróis definiam o seu próprio código moral, num universo indiferente. Com um trio de filmes de gangsters levou o género a novos patamares: "The Roaring Twenties" (1939), "High Sierra" (1941) e "White Heat" (1949). Walsh demonstrava uma afinidade natural com actores duros como James Cagney ("Manpower" 1941), Humphrey Bogart ("They Drive by Night" 1940), e, principalmente, Errol Flynn (quem dirigiu em vários filmes). As experiências pessoais de Walsh incutiam autenticidade em westerns como "Pursued" (1947) ou "Colorado Territory" (1949).
Permaneceu um realizador activo até meados da década de 60, mas a sua carreira entrou em declínio desde que saíu da Warner, a meio da década de 50. Ao todo realizou mais de 100 filmes, numa carreira que se prolongou por 52 anos, tendo sido forçado a retirar-se em 1964, por perder a visão no já único olho que tinha.
Neste ciclo dedicado a Raoul Walsh, vamos ver cerca de 3 dezenas dos seus filmes mais importantes, com especial ênfase ao período da Warner. Como irá ser um curso extenso vou dividi-lo em três partes, por ordem cronológica. A segunda parte irá para o ar em Setembro, depois do ciclo "Anos Setenta, Esses Esquecidos...", e a terceira durante o mês de Outubro.
Aqui ficam os filmes que poderão ver de seguida:

- The Big Trail (1930)
- Me and My Gal (1932)
- The Roaring Twenties (1939)
- They Drive By Night (1940)
- They Died With Their Boots On (1941)
- High Sierra (1941)
- Gentleman Jim (1942)
- Desperate Journey (1942)
- Action in the North Atlantic (1943)
- Background to Danger (1943)
- Northern Pursuit (1943)


 

sábado, 27 de junho de 2015

Emboscada Fatal (Comanche Station) 1960

Loner Cody (Randolph Scott) é contratado por um rico fazendeiro para recuperar a sua esposa raptada, Mrs. Lowe (Nancy Gates), e ao conseguí-lo, terá de cumprir um longo caminho de regresso. No trajecto de volta, um fora-da-lei e seus homens juntam-se a ele apenas por interesse à grande quantia em dinheiro oferecida como prémio. Com os índios em pé-de-guerra e os bandidos como antigos inimigos, tudo se encaminha para um final explosivo...
O derradeiro filme deste aclamado ciclo, também chamado por Ranown, é mais uma obra bastante sólida,  de aventuras non-stop, que recicla e embaralha os temas do filme anterior, "Ride Lonesome". Em ambos os filmes Scott interpreta um homem que é inicialmente confundido com um caçador de recompensas, cavalgando o território do Oeste tentando enriquecer negociando pessoas, mas, que na verdade, tem uma missão pessoal a cumprir.
A maior parte de "Comanche Station" foi rodado na região norte da California, em Lone Pine, perto do sopé do Monte Whitney. As acumulações montanhosas de pedregulhos, conhecidas como Alabama Hills, são figuras proeminentes no filme, servindo como pano de fundo para a abertura e para as cenas finais, bem como proporcionam o árido e desolador campo de batalha onde a guerra entre Cody e Lane é resolvida. Dos sete filmes desta dupla, três foram filmados aqui.
Atrás destas colaborações entre Scott e Boetticher estavam dois outros homens. Harry Joe Brown produziu cinco dos sete filmes desta dupla, e Burt Kennedy, que escreveu o argumento também de cinco. Foram um exemplo da habilidade de Brown que conseguiu convencer a Columbia a produzir todos estes filmes, numa altura em que o western estava a passar para a televisão, o que marcaria o declínio do género.

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O Homem que Luta Só (Ride Lonesome) 1959

O assassino Billy John (James Best), é capturado por Ben Brigade (Randolph Scott), um caçador de recompensas, que pretende levá-lo até Santa Cruz para ser enforcado. Brigade pára numa estalagem onde salva a esposa do gerente de um ataque de índios e pede ajuda a dois foras-da-lei para o acompanharem na sua jornada com mais segurança. Contudo, o ataque dos índios continua, e os foras-da-lei têm outros planos...
O penúltimo filme na série "Boetticher/Scott é considerado por muitos como o melhor, e também dos melhores da carreira do realizador. Tal como o título do filme indica, Ben Brigade, o personagem de Scott, é um herói solitário, um caçador de recompensas que guia o seu prisioneiro para ser julgado, mas na realidade, na maior parte do filme, Brigade não cavalga sozinho.
O argumento é basicamente um compêndio de todos os padrões do western: o ataque dos índios, os vilões a perseguirem os heróis para um confronto final, e a mulher da fronteira que precisa de ser protegida (Karen Steel, que era uma habitual nos filmes de Boetticher). Tal como James Stewart em "The Naked Spur", Brigade é um caçador de recompensas pouco relutante, não o tipo de pessoa que esperaríamos perseguir alguém por dinheiro. É óbvio que nem tudo é o que parece, e Brigade tem motivos ocultos para aquilo que está a fazer.
Como é habitual, Boetticher é extremamente imparcial ao lidar com os seus personagens principais, com personalidades bem desenvolvidas, nunca permitindo que Boone e Whit se tornem os vilões do filme, apesar de conspirarem contra Brigade. Isto porque o vilão principal, Frank, o irmão de Billy (Lee Van Cleef), pouco está presente no no filme, e era preciso algum antagonismo contra a personagem principal.
Era a estreia absoluta de James Coburn nas longas metragens, no papel de Whit.

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quinta-feira, 25 de junho de 2015

Têmpera de Herói (Buchanan Rides Alone) 1958

No caminho de regresso para casa, Tom Buchanan (Randolph Scott), passa pela cidade de Agry, na fronteira entre a California e o México, e acaba por se envolver num conflito entre o mexicano Abe Garbo, e a familia que domina a região, do mesmo apelido que o nome da cidade.
"Buchanan Rides Alone" continua o famoso ciclo de westerns realizados por Bud Boetticher e interpretados por Randolph Scott, embora seja talvez o mais "leve" da série, e também o mais fácil. Até aqui os filmes eram conhecidos por dar ao herói do western normalmente sisudo um sentido de humor e um sorriso pronto, mas este filme em particular é dominado por um sentido cómico e um sentimento de slapstick. O herói é largamente incompetente, tropeçando no meio dos problemas, ficando de fora apenas como forma anárquica, e, de seguida, tropeçando de volta para o meio das coisas. Scott interpreta um Buchanan solitário, que acaba de passar algum tempo como mercenário no México, ganhando dinheiro suficiente para cumprir o sonho mais comum de qualquer cowboy: comprar um pedaço de terra só para si.
No seu conjunto, "Buchanan Rides Alone" é mais um western interessante da equipa Boetticher / Scott, um estudo de contrastes, em que a um drama sério e por vezes sangrento é substituido pelo factor cómico, neutralizando a sensação de perigo real, neste história. Em vez disso, é um western engraçado, bastante acessível, cujo tom irreverente é melhor representando pelo momento em que Scott, depois de um disputa no saloon com um adversário, lhe pisca um olho. Tentem imaginar um actor como Gary Cooper a fazer isso, e então saberão o quanto esta série de filmes é diferente dos mais comuns westerns.

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quarta-feira, 24 de junho de 2015

Entardecer Sangrento (Decision at Sundown) 1957

Bart Allison (Scott) chega a Sundown pretendendo matar Tate Kimbrough, com o seu amigo Sam. Ele acredita que Kimbrough fora resposável pela morte da sua esposa, três anos antes, e agora pretende vingança.
"Decision at Sundown" é um western invulgar da dupla formada por Scott e Boetticher, onde a personagem principal costuma ser impulsionada por um acto heróico, mas aqui vamos deparar com um twist, ao encontrar o personagem interpretado por Randolph Scott a ser movido por um acto de vingança, completamente consumido pelo ódio. Boetticher consegue manter a tensão alta, neste "chamber western" onde as correntes emocionais e filosóficas são desenvolvidas lentamente e pacientemente.
Com as simpatias do filme a manterem-se longe de Bart, mesmo com este a fazer o papel de herói, a narrativa centra-se mais na cidade, como um todo. A história não é realmente a do homem bom em busca de vingança contra o homem mau, para corrigir um erro cometido muito tempo antes, mas é um tipo muito diferente de western, basicamente "High Noon" em sentido inverso, com o despertar dos habitantes da cidade contra a podridão no seu meio, em torno de um homem que não quer nem aprecia a sua ajuda. Se o filme não é realmente sobre o herói, que termina o filme consumido pelo sentimento do ódio, raiva e perda, é sobre a forma como as pessoas da cidade reaprendem colectivamente sobre o valor do auto-respeito. Kimbrough pode não ter sido totalmente responsável pela morte da esposa de Bart, mas ele é, sem dúvida, um influência malévola em Sundown, mantendo o povo dócil, com os seus homens a controlarem a lei na cidade. Liderados pelo médico local, o povo de Sumdowm vai acabar por redimir-se.
  Ao longo de todo o filme, até a personagem de Kimbrough é humanizada, com as simpatias a tornarem-se cada vez mais difusas, mais difíceis de rastrear. Não está claro desde o início, o que Kimbrough fez pelo povo da cidade concretamente, à excepção de comprar o xerife, e eleger alguns bandidos para deputados da cidade. No final é visto como um homem normal, como qualquer outro, com medo de enfrentar Bart, mas disposto a fazê-lo de qualquer modo, para manter o seu orgulho.

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terça-feira, 23 de junho de 2015

A Marca do Terror (The Tall T.) 1957

Depois de perder o seu cavalo numa aposta, Pat Brennan (Randolph Scott) apanha boleia de uma diligência, com dois recém casados Willard e Doretta Mims (John Hubbard e Maureen O´Sullivan). Na paragem seguinte o condutor e os passageiros caem nas mãos de um trio de foras-da-lei, cujo líder é um homem chamado Frank Usher (Richard Boone). Quando Usher descobre que Doretta é filha de um proprietário de uma mina de cobre, resolve pedir um resgate. A tensão irá aumentar nas 24 horas seguintes, com Usher a aguardar resposta às suas demandas, e uma ligação romântica a crescer entre Brennan e Doretta.
Filmado em apenas 12 dias, "The Tall T." é mais um western notável, numa década que sem dúvida pertenceu a este género. Burt Kennedy escreve um argumento tenso, a partir de um conto de Elmore Leonard.
"The Tall T." é, acima de tudo, um filme de actores. A primeira surpresa reside no desempenho de Maureen O'Sullivan, no papel da choramingona Doretta Mims, um desempenho que quase pode ser visto como uma antítese do seu excelente papel de mulher independente  em "Tarzan and His Mate". Aqui ela é a recém-casada, e tímida esposa do antipático Willard Mims.  Depois há o papel de Scott, entre os mais bem desenvolvidos dentro do cânone de Boetticher.
"The Tall T." tem também algumas das melhores sequências da dupla Boetticher/Scott, incluíndo o uso magistral do terreno rochoso, a caverna escura em que Doretta e Brennan são mantidos, e as sequências da diligência. E não esquecer as sequências de Brennan protege um pacote de hortelã-pimenta doce.

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domingo, 21 de junho de 2015

7 Homens Para Matar (Seven Men From Now) 1956

Ben Stride (um ex-xerife) persegue sete homens que fizeram um assalto em Wells Fargo, e assassinaram a sua esposa. Stride vive atormentado pelo facto de que o seu próprio fracasso para manter o seu emprego foi a esposa trabalhar no sitio que foi assaltado, e por isso ele sente-se responsável pela sua morte.
Durante a década de 50, Bud Boetticher realizou dois famosos filmes sobre touradas: "The Bullfighter and the Lady" e "The Magnificent Matador". John Wayne produziu o primeiro, e foi por essa razão que convidou Boetticher para este pequeno western. Seria a primeira das sete colaborações do realizador com o actor Randolph Scott, colaborações essas que impulsionaram este ciclo, e também a primeira colaboração com Burt Kennedy, que na década seguinte se tornaria um dos realizadores mais importantes de série B americana. Houve quem os classificasse de "chamber westerns", e considerasse como uma das descobertas mais gratificantes do cinema dos anos 50. Eram obras psicologicamente complexas, equivalentes para os westerns americanos como Val Lewton estava para os filmes de terror dos anos 40, de quem já vimos alguns filmes neste blog.
Este filme de estreia era muito moderno esteticamente, muito tenso, e com personagens tão ou mais desenvolvidas do que famosas obras posteriores de realizadores como Sergio Leone ou Sam Peckinpah. Duas outras duplas podem colocar-se ao mesmo nível destas colaborações: Delmer Daves/Glenn Ford e Anthony Mann/James Stewart.
"Seven Men From Now" separa-se dos vulgares westerns na abordagem que faz conceito do bem e do mal. Os chamados "vilões" neste filme não se vestem de preto e com cara de maus, e o herói não executa apenas tarefas altruístas. Todos os tipos de personagens convivem entre eles, e tal como Jean Renoir disse em "A Guerra do Jogo": "toda a gente tem as suas razões". Poucos filmes demonstram tão bem este tipo de sentimento, como este.Um destaque muito especial para o papel de vilão de Lee Marvin.

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sábado, 20 de junho de 2015

Os Westerns de Budd Boetticher e Randolph Scott

Ao longo da história do cinema foram muitas as estrelas que, de alguma forma, ficaram ligadas a realizadores. Por vezes, esses realizadores sentiam-se inspirados pelos actores, ou actrizes, chegando a construir filmes ou personagens à volta deles.
No Western, estas duplas - realizador/actor - eram muito comuns. Basta lembrar que John Wayne ficou para sempre ligado a John Ford, e juntos fizeram alguns dos melhores filmes do género. Nos anos cinquenta, Anthony Mann e James Stewart fizeram uma série de westerns psicológicos que hoje em dia colocam-se entre os mais importantes. Já Sérgio Leone realizou a trilogia dos Dólares à volta de personagens de Clint Eastwood.
 Nos anos 50, Budd Boetticher era um realizador desconhecido, um autor, dedicado a filmes de série B, quer fossem comédias, westerns, ou filmes noir. Amado por cinéfilos invertebrados, mas também por todos aqueles que partilhavam uma visão da América que incluísse honra, dever, cavalos e a paisagem física do western americano, os seus westerns geralmente tinham um herói solitário, quase sempre silencioso, por vezes alienado do mundo, numa paisagem que lhe era hostil. As suas intenções chegavam mesmo a confundir-se com a dos vilões. Os seus melhores filmes eram existencialistas e emocionalmente ambíguos, mas continuava a haver um tom moral, que de certa forma girava em volta da sua própria integridade.
Boetticher encontrou um rosto, e um actor, para as suas personagens: Randolph Scott, que apenas começou a trabalhar com ele quando tinha 57 anos. A figura de Scott era perfeita para estas personagens, de rosto taciturno e solitário. Scott já era uma grande estrela nesta altura, mas nunca esteve tão bem como nestes westerns minimalistas de Boetticher. Interpretava sempre homens de poucas palavras, muitas vezes com uma história trágica que impulsionava as suas acções arriscadas e altruístas. A colaboração entre os dois apenas durou cinco anos (entre 1956 e 1960), mas espalhou-se por 7 filmes:
Embora não haja nenhuma teoria específica sobre o assunto, quer de críticos ou de estudantes de cinema, Boetticher é muito estimado por este grupo de filmes que fez com Scott. Todos eles fruto de produções de baixo orçamento, todavia com uma enorme precisão, como poderão evidenciar. Resumindo, estamos perante um pequeno pedaço da história do cinema americano, a não perder.




Aqui ficam os 6 filmes que farão parte deste ciclo:

- "Seven Men From Now" (1956)

 - "The Tall T" (1957)

- " Decision at Sundown" (1957)

 - "Buchanan Rides Alone" (1958)

- "Ride Lonesome" (1959)

- "Comanche Station" (1960)

* Texto originalmente publicado aqui.

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Histórias de Caçadeiras (Shotgun Stories) 2007

Son Hayes nunca fala das cicatrizes que tem nas costas: os chumbos de caçadeira desenham debaixo da pele um padrão de pontos negros e azuis. Os homens com quem trabalha fazem apostas sobre como as ganhou. Son é irmão de Boy e Kid - o pai que os abandonara nunca se importou em dar aos filhos nomes como deve ser. E os três crescem com a mãe amarga. Nos campos de algodão e nas pequenas estradas do Sudeste de Arkansas, estes irmãos descobrem o que estão dispostos a percorrer para proteger a família.
Enquanto o argumento foi desenhado numa trajectória ascendente de violência, o visual do filme de estreia de Jeff Nichols mantém a precisão das suas imagens de abertura. Co-produzido por David Gordon Green e fotografado por Adam Stone, o filme é ao mesmo tempo intensamente regional e expansivo e as imagens oferecem detalhes desolados dos irmãos, as suas frustrações e desejos.  A inevitável violência aponta para outro sistema em vigor, baseado na forma como os homens agem e são esperados agir, a sua aparente falta de opções.
Todo o elenco é excelente, com interpretações que sugerem influências óbvias do Western, sem parecer arcaico. Michael Shannon erradia uma tenacidade refletida na sua cicatriz física, e tem uma química tão grande com Linon e Jacobs, temos uma sensação de que eles já se conhecem tão bem e não precisam de falar sobre os seus sentimentos.
Como filme indie, percorreu vários festivais pelo mundo fora, tendo ganho variados prémios.

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quinta-feira, 18 de junho de 2015

Sling Blade - O Arremeso (Sling Blade) 1996

Um homem parcialmente deficiente chamado Karl é libertado de um hospital mental, cerca de 20 anos depois de ter assassinado a sua mãe e outra pessoa. É frequentemente questionado se vai matar de novo, mas encolhe os ombros e diz que não há razão para isso. Agora fora da instituição mental instala-se na sua velha cidade natal, trabalhando como mecânico. Conhece um rapaz chamado Frank, de quem se torna amigo, e é convidado para ficar na casa deste pela mãe, que o vê como uma pessoa estranha mas amável. Já o namorado desta vê as coisas de outra forma...
O filme que fez de Billy Bob Thornton uma estrela, e um veículo improvável para ser um dos melhores filmes do ano. "Sling Blade" também recebeu o Óscar de Melhor Argumento para Thorton, que além de interpretar o papel principal também realizava. Não é um filme sobre o bem e o mal, com um protagonista ou antogonista claro, mas antes um filme sobre o certo e o errado. É uma distinção complicada, mas isso torna a história ainda mais atraente.
"Sling Blade" era uma extensão de uma curta metragem a preto e branco que Thornton escreveu e interpretou em 1994, chamada "Some Folks Call it a Sling Blade". Ao expandir o filme para fora dos quatro muros da prisão estadual, Thornton é capaz de expandir plenamente o seu sentido de tempo e lugar, e dá-lhe uma atenção ao detalhe normalmente reservada para obras literárias, que permitem aos seus personagens crescerem e se desenvolverem. O facto de que Thornton teve vários anos para trabalhar o personagem de Karl é bastante evidente, e nota-se na forma como ele habita o papel, desde a sua postura até à forma de caminhar.
No seu coração, "Sling Blade" é um conto de Southern Gothic, de amor e redenção. Tem o tipo de personagem que William Faulkner teria ficado orgulhoso de escrever sobre, e cria e sustenta um clima sugestivo que carrega traços do grotesco mas que permanece resolutamente humano. Para um realizador estreante em longas metragens Thornton é extremamente tranquilo, mesmo quando cede ao sentimentalismo perto do final.

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quarta-feira, 17 de junho de 2015

Sangue Selvagem (Wise Blood) 1979

 Um norte-americano do sul - jovem, pobre, ambicioso e pouco educado - está determinado a ser alguém no mundo. Ele decide que a melhor maneira de o fazer é tornar-se pregador e funda a sua própria igreja.
Em finais da década de setenta, John Huston foi abordado por um jovem produtor chamado Michael Fitzgerald. Ele era um dos seis filhos de Sally e Robert Fitzgerald. O seu pai era um famoso tradutor do grego, era o editor literário de Flannery O´Connor,  e a sua mãe editava as cartas deste escritor nascido na Georgia, que passou largos períodos de tempo em casa dos Fitzgerald, antes de uma morte precoce por doença.
Foi ideia de Michael Fitzgerald fazer um filme de "Wise Blood", que tinha sido publicado em 1952, deslumbrante primeiro romance de O´Connor. A história de um jovem georgiano cuja obsessão por Deus o leva a fugir o mais rapidamente dele, para bater de frente na parede de Jesus e da religião.
Huston já tinha capturado da melhor forma a tensão erótica de Carson McCullers em "Reflections in a Golden Eye" e a inocência e o terror do clássico da guerra civil "Red Badge of Courage", escrito por Stephen Crane. Ambos os livros eram dramas sulistas, e por isso Huston poderia ser o realizador ideal para passar "Wise Blood" para filme.
O orçamento para o filme era muito baixo, e toda a gente, incluido Huston, trabalhou com um salário mínimo, quase simbólico. A esposa de Michael co-produziu o filme, e o seu irmão, Benedict, escreveu o argumento. Foi filmado em exteriores em Macon, na Georgia, sem grandes estrelas no elenco, mas com actores talentosos. Brad Dourif, era o protagonista, um jovem que aguardava um filme à sua altura, depois de ter sido nomeado para o Óscar de Melhor Actor Secubdário em "Voando Sobre um Ninho de Cucos".
Enquanto o romance de O´Connor era passado no início da década de 50, um tempo particularmente crucial para o conflito de identidades que se debatia no Sul dos Estados Unidos, o filme de Huston teve de ser passado num tempo contemporãneo, por causa de questões orçamentais, o que significa que todos os carros eram da década de 70, e não havia grande esforço em esconder os edifícios mais modernos do centro de Macon. Ao mesmo tempo, o conteúdo não é actualizado, e as atitudes (principalmente as questões raciais), permanecem firmemente enraizadas no início do década de 50. Os críticos que elogiaram o filme, viram isso como uma mistura eficaz de períodos de tempo, para criar uma espécie de atemporalidade.
Pelas questões orçamentais já citadas, pode dizer-se que é um filme "menor", de John Huston. Mas no que diz respeito à qualidade, não é um filme tão menor assim.

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