domingo, 18 de fevereiro de 2018

A Bela e a Fera (Panna a Netvor) 1978

Julie é filha de um comerciante falido, sendo a única entre as irmãs, que opta por salvar a vida do seu pai, indo até a um castelo num bosque amaldiçoado, onde conhece um estranho ser. A princípio ele quer matá-la, mas a beleza da jovem impede-o disso. Embora proibida de vê-lo, ela começa a amá-lo, tornando-se este amor, a única forma de resgatá-lo da sua maldição.
Publicado em 1756 pelo francês Jeanne-Marie Leprince de Beaumont, "La Belle et la Bête" era uma história, ela própria, uma versão reescrita e abreviada de um livro escrito anteriormente por Gabrielle-Suzanne Barbot de Villeneuve, e viria a tornar-se num dos contos de fadas mais famosos de todos os tempos. A história de uma bela mulher da classe trabalhadora chamada Belle, com o mais amável e puro coração de todas as suas irmãs, que se apaixona por uma besta, e eventualmente o transforma num príncipe bonito. Teve numerosas adaptações para o teatro e para o cinema, com as mais famosas para o cinema a ficarem a de Jean Cocteau realizada em 1946 e a da Disney em 1991.
Esta versão, do checo Juraj Herz, realizador de "Cremator", uma comédia negra sobre o nazismo e o holocausto, está longe de ser uma versão conhecida, mas, é, provavelmente, um dos mais belos filmes de sempre retirados dos contos de fadas. A versão de Cocteau era uma alegoria sobre a ocupação e libertação da França, mas aqui filmava-se na Checoslováquia, e encontrava-se vestígios de simbolismo político, pertencentes à sombra do Comunismo, que era o sistema político vigente em grande parte da Europa do Leste, naquela altura.     
O filme de Juraj já tinha quatro anos quando chegou ao Fantasporto, e tinha brilhado no Festival de Sitges em 1979 onde ganhou o prémio de Melhor Realizador. Mas como nesta altura, sobretudo aos filmes fantásticos europeus, era difícil serem exibidos, foi repescado para esta primeira edição do Fantasporto. Aliás, grande parte dos filmes desta primeira edição do Fantasporto foram repescados de outros anos. "Panna a Netvor" não passou por despercebido, e ganhou uma Menção Especial no Festival.

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sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

El Caminante (El Caminante) 1979

Na Idade Média, o diabo assume a forma humana, atende pelo nome de Leonardo, e viaja em volta da Terra para ver como os seres humanos evoluíram. Ao fazer isto, ele mente, rouba, seduz, mata e torna-se rico no processo. Pelas suas viagens, ele adopta um jovem, Tomás, e faz dele seu servo, ensinando-lhe os maus caminhos. 
Os críticos que não se tinham entusiasmado muito com os filmes de terror do actor e argumentista Paul Naschy, desde este "El Caminante" reavaliaram a sua carreira, principalmente os seus trabalhos mais significativos. O próprio Naschy considerou este o seu filme mais significativo: uma fantasia medieval satírica e descarada, muito na veia de Luis Buñuel ou Pier Paolo Pasolini. Ambicioso e acompanhado pelo excepcional director de fotografia Alejandro Ulloa, que já tinha filmado "The Diabolical Dr. Z" (1965) para Jess Franco, "Perversion Story" (1969), para Lucio Fulci, ou "Companeros" (1970) de Sérgio Corbucci, e uma série de clássicos da exploitation, o filme tem um ambiente apocalíptico muito mais inquietante do que qualquer outro filme de terror de Naschy, e na sua essência nem sequer é um filme de terror, funcionando muito mais como uma comédia.
Naschy também tem o papel de protagonista, que lhe assenta como uma luva, um arrogante fanfarrão com uma cintilação diabólica e maliciosa nos seus olhos. Neste contexto, finalmente faz sentido todas as mulheres caírem a seus pés. Observando o seu Satanás crucificado a olhar para o céu e amaldiçoando Deus pela sua parte de culpa em dar vida a todos nós "porcos", é talvez a cena mais pungente e poderosa que o actor já fez.
Naschy participou com dois filmes nesta primeira edição do Fantasporto. O segundo veremos mais para a frente.

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quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Fantasporto 1982

Em 2018 vamos prestar uma série de homenagens ao Fantasporto, e provavelmente também a outros festivais, mas, numa série de ciclos, iremos aqui recordar várias edições deste festival, cada ciclo respeitante a um ano, com os filmes dessa edição a passarem aqui no blog. Ao fim de 37 anos este festival continua a ser um dos festivais de cinema fantástico mais importantes da Europa.
O Fantasporto - Festival Internacional de Cinema do Porto teve início em 1981, com uma edição experimental, mas foi em 1982 teve uma edição mais séria, com uma secção competitiva. Neste primeiro ano fizeram parte da selecção oficial 19 filmes, originários de países como Checoslováquia, Jugoslávia, Espanha, França, RFA, Estados Unidos, Polónia, entre outros. Destes 19 filmes, 14 irão passar neste ciclo do My Two Thousand Movies, ficando de fora apenas 5 por serem muito raros e serem impossíveis de se encontrar na internet. Mais para a frente, em 2018, irão ser recordadas outras edições do festival, em cada ciclo respectivo. Por agora, preparem-se para a primeira edição do Fantasporto Online. Até já.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

O Arco (Hwal) 2005

Nos anos 60, num barco de pesca em alto-mar, um homem cria uma jovem desde quando era bébé. O combinado é que se casariam quando ela completasse 17 anos e falta um ano para que tal aconteça. Eles vivem de uma forma simples, rezando e alugando o barco para pescadores, mas as coisas mudam quando um jovem tripulante entra nas suas vidas.
"Kim Ki-duk e os seus filmes estranhos e poéticos. “O Arco” é ousado, corajoso, desconcertante, incómodo, bizarro e quem o assiste sente esse peso nas próprias costas, não pelas cenas fortes, mas pelo tema que é tratado, ainda mais na atualidade que casos do tipo ocorrem com frequência. O grande mérito do filme é a capacidade extrema de provocar essas sensações. Só não é considerado o teor muito controverso porque o Kim sabe fazer filme com muita beleza e sensibilidade, um exercício musical e de poesia, um “cinema-arte” tocante. A banda sonora, como já foi destacada pelos críticos, tem uma fusão despadronizada e arrepiante com as cenas, elevando ainda mais os sentimentos.
O desenrolar da história é de um total anticlímax, desejamos profundamente uma reconciliação heróica por parte do senhor homem, todavia, percebemos a pura realidade de um filme fora dos arquétipos, que possivelmente isso não aconteça, que possivelmente não nos agrade em termos de ideologia, mas nunca em termos cinematográficos, porque tudo é feito com muita dignidade."

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domingo, 11 de fevereiro de 2018

Nocturna - A Noite Mágica (Nocturna) 2007

Tim, um menino que vive num orfanato, enche-se de coragem para enfrentar a sua assustadora sombra que lhe mete tanto medo. Para o conseguir, vai viver uma fantástica aventura em Nocturna, um mundo paralelo que surge cada noite ao adormecermos. Aqui irá conhecer todas as criaturas da noite e com elas fará uma fabulosa viagem para tentar salvar a sua estrela mais querida: Adhara.
A beleza desta aventura animada reside na caracterização da infância. É representada como um momento em que as crianças brilhantes e sensíveis se encontram capazes de reconhecer problemas e perigos que os adultos não possam ver até que seja tarde demais. "Nocturna" é uma descrição lírica de uma batalha de uma criança contra os pressupostos dos adultos, que por vezes são perigosamente incorrectos.
Realizado a quatro mãos pelos espanhóis Adrià Garcia e Victor Maldonado, é o único trabalho desta dupla de realizadores até hoje.  Por cá foi visto unicamente numa das primeiras edições do Motelx, e no Brasil nunca foi visto, mas é uma obra de animação a descobrir por toda a família.

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quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

O Pântano (La Cienaga) 2001

No mês de fevereiro, no pantanal do Noroeste argentino, o calor se junta às chuvas tropicais. Hà alguns kilometros da cidade La Ciénaga está a Mandragora, uma propriedade rural onde Mecha, com 50 anos, passa as férias de verão com os seus quatro filhos e um marido inexistente. Esquece a sua tristeza no vinho. Tali é a prima de Mecha. Também tem quatro filhos. Dois acidentes vão reunir essas duas familias.
"Na sequência de abertura de La ciénaga (Le marécage)(2001), o intenso tilintar do gelo nas taças é algo que fica tão impregnado na nossa memória quanto o vermelho excessivamente saturado que colore a bebida servida aos personagens. Também são extremamente pregnantes os ruídos que acompanham os planos-detalhes ou fechados desses instantes iniciais do filme – como se, na mixagem final, o volume desses elementos tivesse recebido um ganho sonoro muito maior que os outros sons que os circundam em cena. Escutamos claramente o arrastar do ferro das cadeiras de praia pelo chão de cimento, o ranger de suas molas ao sabor dos corpos que se esticam em letargia, as trovoadas anunciando a intensa chuva de verão vindoura – todos eles não apenas estão bastante presentes, como também colaboram na desconfortável sensação de imprecisão perceptiva que se apossa do espectador, graças a um encadeamento de planos que não nos permite mensurar adequadamente distâncias e localizações no espaço cênico que lhe é apresentado.
Mais adiante, um grupo de garotos corre pelas ruas agitadas da cidadezinha, tentando alcançar as jovens que, incansáveis, tentam fugir das bexigas cheias d’água que seus perseguidores insistentemente lançam em sua direção. Subitamente, elas entram numa loja de roupas, e uma delas fecha atrás de si uma grande porta de vidro. Num big close, vemos os lábios de uma adolescente murmurarem algo, enquanto a bexiga estoura contra o vidro que a protege. A água escorre pela superfície com uma suavidade que contrasta com a intensidade com que o ruído ecoa pela sala de exibição, mais próximo das entrelinhas que pontuam o jogo erótico travado entre meninos e meninas recém-ingressados à puberdade. Todavia, essa sobrevalorização dos elementos sonoros acaba sendo essencial para a experiência sensorial proposta ao espectador pelo filme de Lucrecia Martel, criando pontos de escuta privilegiados que permitem traduzir, de certa forma, a sensação dos corpos filmados a vagar por um ambiente em que o calor e umidade insuportáveis regem tanto o torpor dos adultos quanto a ebulição dos mais jovens.
Acredito que os três longas-metragens que compõem a filmografia da argentina Lucrecia Martel partilham de um certo “realismo sensório” (Vieira Jr., 2011) que emerge numa certa vertente do cinema contemporâneo. Tal realismo seria marcado pela construção narrativa através de ambiências, pela adoção de um olhar microscópico sobre o espaço-tempo cotidiano e por uma experiência afetiva marcada pela sobrevalorização de uma sensorialidade multilinear e dispersiva. Trata-se de uma espécie de denominador comum entre filmes realizados nas últimas duas décadas por cineastas tão diversos quanto Lucrecia Martel, Hou Hsiao Hsien, Apichatpong Weerasethakul, Claire Denis e Naomi Kawase, entre outros."
Texto de Erly Vieira Jr.

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terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Blind Mountain (Mang Shan) 2007

A jovem estudante Bai Xuemei é enganada e vendida como esposa por traficantes de seres humanos para uma aldeia isolada. Violada e espancada, ela leva a vida de uma escrava sexual e fica sem esperanças de conseguir fugir, por causa da apatia e egoísmo dos moradores locais. Quando finalmente fugir é apenas o começo de uma outra tragédia.
Alguns periodos sobre a epidemia do tráfico de seres humanos concentraram-se no papel do crime organizado, que seguiam mulheres desesperadas da Europa do Leste que se deixavam levar pela promessa de trabalho de um proxeneta e acabavam por ser escravizadas na prostituição. Mas os mitos da história também estão repletos de incidentes por raptos de mulheres para esposas, e "Blind Moutain" demonstra que este péssimo costume não desapareceu na antiguidade.
O chinês Li Yang, no seu segundo filme, é particularmente eficiente a demonstrar o quanto é tão difícil, mesmo para uma mulher espirituosa e educada escapar, seja por resistência activa ou passiva, protestos contra o chefe da aldeia ou a sua família em casa, ou suborno sexual. Fugir desta bela paisagem montanhosa é quase impossível. Embora Bai tenha momentos dispersos de gentileza, com meninos e professores da escola, os horríveis momentos de castigação aumentam de dia para dia. 
Li Yang fez uma extensa pesquisa, e o casting de uma série de actores não profissionais, incluindo algumas vitimas verdadeira de violações e os seus salvadores. Enquanto o seu primeiro filme "Blind Shaft" era sobre a ganância na industria da mineração e foi feito de forma completamente anónima sem permissão do governo, "Blind Mountain" tem uma longa lista de colaborações entre autoridades governamentais, e o dedo apontado apenas para os habitantes locais e os legisladores. 

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domingo, 4 de fevereiro de 2018

A Cativa (La Captive) 2000

Simon é um jovem parisiense que vive num apartamento elegante com a avó e a namorada, Ariane. O intenso amor de Simon para com Ariane faz com que tenha suspeitas sobre a fidelidade da namorada e segue-a durante um tempo, acreditando que ela tem um caso lésbico. No fim, convencido de que Ariane leva uma vida dupla sórdida, Simon insiste que se separem, um acto que resulta em consequências trágicas...
Vagamente baseado no quinto volume do monolítico de Proust "Á la Recherche du Temps Perdu", La Captive é um negro estudo do amor obsessivo de Chantal Akerman, atualmente uma das realizadoras mais cotadas da Bélgica. A sensação que fica é que o filme é mais um thriller psicológico do que um tradicional drama romântico, com frequentes referências a Vertigo de Hitchcock, mais do que evidentes.
 A característica mais marcante é a sua fotografia austera. A maior parte do filme passa-se durante a noite ou em ambientes escuros, algo que constantemente enfatiza a relação de prisioneiro/carcereiro dos dois jovens amantes. Acrescente-se a isso as interpretações contidas (mas eficazes) dos dois atores principais, e o resultado é uma obra assombrosamente existencialista, um poema negro e arrepiante de um romance de conto de fadas distorcido, obliterado por aberrações mentais perversas. 
Pelo lado negativo, a frieza implacável do filme rouba-o da humanidade e enfraquece a caracterização a tal ponto que é quase impossível a simpatizar com os personagens centrais. Nós nunca compreendemos a razão para o comportamento de Simon, e ele continua a ser um enigma, uma caixa fechada, e até à sequência final final. No entanto, apesar de um pouco longo, La Captive impressiona como uma obra profundamente perturbadora que oferece uma quantidade instigante de paranoia e desejo.

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sábado, 3 de fevereiro de 2018

Swimming Pool (Swimming Pool) 2003

Sarah Morton (Charlotte Rampling) é uma escritora inglesa cujos romances policiais conciliam sucesso de vendas e prestígio junto da crítica. A convite de seu editor, ela viaja para a casa de campo dele, na Provence francesa, onde supostamente vai encontrar a tranquilidade necessária para escrever o seu próximo livro. Mas a paz de Sarah é interrompida com a chegada de Julie (Ludivine Sagnier), a filha do editor, uma adolescente linda e cheia de vida por quem a escritora sentirá uma grande e estranha atração.
Francois Ozon brinca uma vez mais com os géneros convencionais do cinema, desta vez no campo do drama criminal. São duas histórias em uma, sendo a primeira um drama silencioso e contemplativo que envolve a luta pela liberdade sexual de uma autora conservadora com ciumes da jovem sensual com quem é obrigada a partilhar o espaço. A segunda metade do filme cai para o thriller psicológico, com alguns acrescentos engenhosamente entrelaçados. 
Com temas muito subtis sobre a sexualidade geracional, notam-se as diferenças entre as sensibilidades francesas e britânicas, e um tom feminista, mas o filme dificilmente chegaria a bom porto sem as brilhantes interpretações que tem de Charlotte Rampling e Ludivine Sagnier. Seria o primeiro filme de Ozon em língua inglesa.

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terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Carne Fresca, Procura-se (De Grønne Slagtere) 2003

Svend e Bjarne trabalham como talhantes numa pequena cidade dinamarquesa. Não suportando mais a arrogância do chefe, eles decidem abrir o próprio talho. Após um início lamentável, um infeliz acidente coincide justamente com um enorme pedido de carnes e rapidamente começam a lucrar. Ao mesmo tempo, no entanto, Bjarne terá de lidar com o irmão gémeo que, passados anos, de repente acordou de um coma.
Para um filme ostensivamente sobre um dos temas mais nojentos conhecidos pelo homem, "The Green Butchers" está em grande parte livre de momentos indignação e de gore, Anders Thomas Jensen parece mais interessado em desenvolver personagens e deixar a história se resolver sem grandes montagens ou tentativas de chocar a audiência, com baldes de sangue e crueldade. O resultado é o que de mais inofensivo se encontra nos seus filmes. A parte do canibalismo é horrível, mas é abordado tão abertamente como apenas se tratasse de uma reflexão tardia. 
Sendo a segunda obra de Anders Thomas Jensen, é um filme que deverá atrair os fãs das comédias negras, e também os fãs de Mads Mikkelsen, que aqui ainda se encontrava em inicio de carreira. O filme foi uma sensação no Fantasporto de 2004,  tendo ganho três prémios na Semana dos Realizadores, Melhor Filme, Realizador, e Actor Principal. 

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segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

35 Shots de Rum (35 Rhums) 2008

O viúvo Lionel (Alex Descas) vive num complexo habitacional com a sua filha, Josephine (Mati Diop), com quem tem fortes laços por tê-la criado sozinho. Enquanto Lionel atrai a atenção de uma mulher de meia-idade, um taxista que começa a andar pelo bairro envolve-se com Josephine e eles começam a sair. Quando o namorado de Josephine aceita um trabalho no exterior e se muda, deixando a rapariga sozinha, Lionel percebe que a filha está a ficar independente e que talvez esteja na hora deles confrontarem os seus passados.
Descrever as emoções que atravessam os filmes de Claire Denis é como tentar lavar os pés numa miragem. Elas estão lá, e no entanto, se lhes tentarmos tocar, a sua beleza perde-se instantaneamente. Descrever o enredo é mais simples, pois quase não há um. "35 Rhums" representa para a audiência uma jornada de um ponto de partida incerto para um destino do qual não sabemos nada.
Juntamo-nos nestas viagens de crescer, envelhecer, crescer juntos, e tentar perceber a vida. Denis declina fazer concessões, está disposta a mostrar, mas recusa-se a contar. Como tal, depende do tipo de viajante que nós somos. "35 Rhums" é sobre a condição humana, como as pessoas se ligam umas às outras, como respondemos a estas ligações, e as emoções que delas surgem. Um dos melhores trabalhos de Claire Denis.

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sábado, 27 de janeiro de 2018

Lavoura Arcaica (Lavoura Arcaica) 2001

"A produção difícil de Lavoura Arcaica (2001), longa de estreia de Luiz Fernando Carvalho, é bastante conhecida. O corte inicial do filme possuía 3h40, diminuída em uma hora para uma “versão comercial”, que obviamente clamava por um filme menor. O impasse mais curioso veio do Canal Plus, rede francesa que se interessou em co-financiar a obra juntamente com a VideoFilmes dos irmãos Salles, com peso especial na distribuição europeia. Se tivesse menos de duas horas, a obra apareceria como favorita à Palma de Ouro em Cannes (naquele ano, venceu O Quarto do Filho, de Nanni Moretti).
Depois do segundo corte, da insistência do diretor em não mexer mais na obra (apoiado pelo próprio Raduan Nassar, autor do livro adaptado) e concordância dos irmãos Salles com a opinião de Luiz Fernando Carvalho, o prazo para a inscrição do filme no Festival de Cannes foi esgotado, o financiamento do Canal Plus não aconteceu, e a opinião de alguns críticos brasileiros, pedindo que o filme não fosse mesmo inscrito, pois afastaria os votos da Academia, viu o sonho realizado. Com 2h43 minutos de duração, Lavoura Arcaica chegou aos cinemas. E arrebatou a todos os que mergulharam em sua história, mostrando que em alguns casos, o excesso programado, o perfeccionismo e a extrema fidelidade à obra original não necessariamente estragam um filme. É a forma como se manipula esses ingredientes que resulta em um bom ou mal produto. No caso de Lavoura Arcaica, o resultado é uma obra-prima. 
André (Selton Mello) é o foco do enredo. Ele representa o filho pródigo que deixa a casa vazia, triste, quando resolve fugir ao julgo do pai e do marasmo da fazenda onde mora. De família libanesa, onde o patriarca, interpretado de maneira soberba por Raul Cortez, administra a vida de todos em forte vigilância moral e valores demasiadamente arcaicos, André percebe que não há lugar para ele, o sujo, o epilético, o filho da “febre nos pés” naquele lugar. Ele é o filho que possui um desejo incestuoso pela irmã, chegando a realizá-lo, em uma espécie de “milagre divino da carne”, que serve tanto como descarga de sua libido, quanto como afronta a tudo o que o opressivo pai construiu e valorizou a vida inteira."
 Podem ler o resto do texto, aqui

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quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Atanarjuat - O Corredor (Atanarjuat) 2001

Abrangendo duas gerações, é um conto épico do mal que perturba uma pequena comunidade numa pequena comunidade na região selvagem do Ártico. A discórdia tem as suas raízes nos problemas causados por um xamã, que vê as famílias de Sauri e Tulimaq se envolverem numa disputa amarga. Alguns anos depois, com o crescimento dos seus filhos o sangue começa a ferver. Os filho de Tulimaq,  Amaqjuag (Pakkak Innuksuk) o mais forte, e Atanarjuat (Natar Ungalaaq), o mais rápido,  provocam o filho de Sauri, Oki (Peter Henry Arnatsiaq) que tem superiores habilidades de caça, e quando Atanarjuat conquista o coração da pretendente de Oki as coisas começam a aquecer. 
Oki planeia matar o rival, resultando em sequências fotográficas de tirar o fôlego pois Atanarjuat corre nú por entre o gelo, temendo pelo sua vida. Só essa sequência vale o filme. 
Inicialmente é um filme difícil de se seguir, em grande parte porque o elenco está tão abafado nas máscaras de focas que mal se distinguem, mas uma vez que a história começa a fluir tudo começa a fazer sentido. Misturando o mito e a tradição, os medos espirituais e as preocupações muito reais sobre a escassez de alimentos, o realizador Zacharias Kunuk constroi uma imagem complexa da vida dura suportada por gerações do povo Inuit, e como as suas fábulas explicam ao mais novos a importância de colocar o bem estar do grupo acima do seu. 
Interpretado por um elenco de desconhecidos, é atravessado por um sentimento quase documental, filmado com uma única câmara, aumentando a sensação da realidade e da região selvagem, auxiliada por uma luz maravilhosa que pode ter sido a razão porque o filme ganhou a Câmara de Ouro no festival de Cannes.
É o primeiro filme de Kunuk, e também o primeiro filme em linguagem Inuit. 

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terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Luzes no Crepúsculo (Laitakaupungin valot) 2006

Como o pequeno vagabundo de Chaplin, o protagonista, um homem chamado Koistinen, procura no duro mundo uma pequena brecha pela qual possa rastejar. No entanto, tanto os seus semelhantes como o aparato da sociedade sem rosto fazem questão de esmagar as suas modestas esperanças, uma após outra. Elementos criminosos exploram a sua ânsia por amor e a sua posição de guarda nocturno num roubo que executam, deixando Koistinen frente às consequências. 
O finlandês Aki Kaurismäki construiu uma reputação de nos mostrar o mundo dos desajustados, perdedores e  solitários, neste gratificante "Laitakaupungin valot", onde um solitário guarda nocturno num centro comercial cujos sonhos de uma vida melhor nunca são alcançados. Passivo e isolado, Koistinen fuma, bebe e sonha, que são as suas únicas formas de renunciar à condenação. Toda a gente que Koistinen encontra é um obstáculo para a sua  felicidade.
Terceiro filme na trilogia "Finlândia", é uma obra menor comparada com outros filmes do realizador, como "O Homem sem Passado", vencedor de vários prémios em Cannes, e nomeando para o Óscar de Melhor Filme em Língua estrangeira, mas é reconhecível e agradável o trabalho do realizador em quase todas as cenas, principalmente a abordagem leve feita à iluminação e cor. As interpretações também estão no seu modo "Kaurismaki": simples, directas, e com o mínimo de emoções possíveis.

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segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

O Bom Ladrão (The Good Thief) 2002

Bob Montagnet (Nick Nolte), um americano viciado no jogo e nas drogas, vai parar ao Sul de França, sem sorte nem dinheiro. Bob elege como ambiente perfeito para exercitar suas habilidades a boate do inescrupuloso Remi (Marc Lavoine). Lá ele encanta-se pela jovem Anne (Nutsa Kukhianidze), que tira da prostituição. Depois de uma briga envolvendo a polícia e Remi, Bob salva a vida do detetive Roger (Tchéky Karyo), de quem é amigo de longa data. Depois de ver os seus últimos trocados irem embora nas corridas, Bob recebe um ousado convite: participar num grande golpe com a ajuda do colega Vladimir (Emir Kusturica), no qual assaltarão um dos principais casinos de Montecarlo no dia do Grande Prémio de Mónaco.
Adaptação vaga de um filme noir de Jean-Pierre Melville, seguindo a estética do film noir, chamado "Bob le Flambeur", funciona como um bálsamo calmante para os cinéfilos criados com actores como Jean-Paul Belmondo e Jean Seberg, não esquecendo Roger Duchesne, o Bob original, o jogador inveterado aqui interpretado por Nick Nolte. Para o público mais mainstream o filme de Neil Jordan passou um pouco por baixo dos radares, o que é uma pena, pois o filme é considerado um dos melhores do realizador, e quase de certeza também entre os melhores de Nick Nolte.   
A acção da obra prima de Melville era passada à volta de Montmartre, onde Bob caminhava pelas ruas escuras à procura da sua próxima conquista. Jordan transpõe a acção para a Riviera francesa de Nice, e embora muita da atmosfera negra se perca por causa da transposição para cores neste filme, tudo o que se perde acaba por ser compensado na interpretação de Nolte. 

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domingo, 21 de janeiro de 2018

Transe (Transe) 2006

"A história de Sónia, uma mulher de 20 e poucos anos que abandona o namorado e a família, em São Petersburgo, na Rússia, e decide partir sem olhar para trás para tentar encontrar uma vida melhor noutro país. Sónia vai conhecer a ilusão de uma vida nova e o inferno daqueles a quem a vida parece nada ter para dar. Fazendo a sua "via sacra" Europa fora, atravessando todo o continente, primeiro pela Alemanha, depois Itália, para acabar no extremo oposto, em Portugal, ela vai conhecer toda a miséria e degradação que o tráfico e a exploração dos mais fracos provoca. 
Um filme sobre a exploração e o tráfico de mulheres que a realizadora Teresa Villaverde ("Os Mutantes") explica a partir das palavras de Santa Teresa de Ávila: "O inferno é um cão a ladrar lá fora". "Estamos no início do século XXI e o cão ladra em toda a parte. Não nos livrámos da tortura, da escravatura, do genocídio. A personagem central deste filme vê esse inferno de frente e de muito perto. Penso que não chega a entrar, porque é preciso fazer parte do inferno para estar lá dentro. Ela não faz parte, mas não há saída. Jorge Semprún escreveu a propósito da sua experiência num campo nazi que um dos motores da sobrevivência é a curiosidade. Se não quisermos olhar, as chamas agigantam-se.": Publico.pt

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sábado, 20 de janeiro de 2018

A Festa da Menina Morta (A Festa da Menina Morta) 2008

Há 20 anos uma pequena população ribeirinha do alto Amazonas comemora a Festa da Menina Morta. O evento celebra o milagre realizado por Santinho, que depois do suicídio da mãe recebeu nas suas mãos, da boca de um cachorro, os trapos do vestido de uma menina desaparecida. A menina nunca encontrada, mas o tecido rasgado e manchado de sangue passa a ser adorado e considerado sagrado. A festa cresceu indiferente à dor do irmão da menina morta, Tadeu. A cada ano as pessoas visitam o local para rezar, pedir e aguardar as "revelações" da menina, que através de Santinho se manifestam no ápice da cerimonia.
"A Festa da Menina Morta parece trazer uma vontade bastante pessoal de Matheus Nachtergaele em levar para o cinema algo que lhe é de caríssimo interesse. Ele fala sempre sobre a importância daquela cultura ribeirinha do rio Amazonas, tão desconhecida para nós. Mas, finda a projeção, surgem perguntas. O que Matheus queria precisamente falar: de um modo de vida ou do misticismo? E como ele se posiciona sobre a dinâmica desse grupo social que é reproduzido, em princípio, de uma matriz real? São perguntas sem respostas afiadas, lançadas ao vento, que têm seu retorno garantido para colocarem em xeque certos procedimentos adotados pelo diretor, que acabam por culminar sobre um dilema terrível ao filme: onde se coloca o ponto-de-vista do narrador-cineasta.
Nachtergaele parte de um evento real para assim compor os traços ficcionais que se voltam ao ponto de partida: uma procissão-festa que celebra o milagre brotado da morte de uma menina, num verdadeiro culto-relicário de suas roupinhas rasgadas entre músicas, comilanças e bebedeiras festeiras, que o ator conheceu quando atuava em O Auto da Compadecida (o que deixa claro, mais uma vez, as intenções nobres de alguém que cruzou semestres com projeto firme na cabeça). Na verdade, o filme parte desse extrato real para sobrevoar em círculos o personagem de Santinho (Daniel de Oliveira), que ganhou o status que seu nome indica há 20 anos, quando recebeu de um cão os trapos da menina no mesmo instante em que sua mãe se suicidava. Virou milagreiro, mas o que o filme nos mostra é que aqui está um violento sujeito, vulcanizado a explosões de humor, pequenas violências domésticas (como tabefes no cocuruto das empregadas). É um líder sob crise titã, carregando o peso da coroa e arruinado nos seus ânimos. "
Podem ler mais, aqui.  

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quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Eu, Tu e Todos os que Conhecemos (Me and You and Everyone We Know) 2005

Uma cidade qualquer nos EUA. Los Angeles, talvez. Uma crónica sobre pessoas vulgares que se tornam pessoas extraordinárias, num mundo em que o mundano pode ser transcendente. Christine Jesperson é uma artista solitária e condutora de um táxi para idosos. Richard é um vendedor de sapatos recém-divorciado, pai de dois filhos, e que anseia porque lhe aconteçam coisas extraordinárias. Mas quando conhece a frágil e cativante Christine entra em pânico. Destemida, mas também intensamente frágil, Christine só quer ser amada e Richard, algo excêntrico e decididamente perdido, parece-lhe irresistível. 
"Me and You and Everyone We Know," vencedor de prémios em Cannes e em Sundance, é o primeiro filme de Miranda July, e a sua abordagem de olhos abertos e questionáveis pode parecer quase ingénua. Mas esta inocência, que tanto nos pode atrair como provocar o sentimento contrário, é mais um efeito calculado do que uma simples expressão de uma sensibilidade caprichosa.
Antes de entrar para o mundo dos filmes, July era uma artista conceptual (trabalhava em vídeo e outros meios de comunicação), uma procura que exigia uma autoconfiança mais profunda, bem como uma vontade de olhar até para os objectos e eventos mais triviais como material potencial para a estética da transformação. Embora o filme tenha uma clara linha narrativa, e possa até ser classificado como uma comédia romântica, é também um artefacto visual meticulosamente construído, apresentando de uma forma divertida as qualidades a arte de instalação às convenções do cinema narrativo. 

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terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Natureza Morta (Sanxia Haoren) 2006

A velha cidade de Fengjie já está submersa, mas o seu novo bairro ainda não foi terminado. Há coisas a salvar e há coisas a deixar para trás... Han Saming, um mineiro, viaja para Fengjie para tentar encontrar a ex-mulher que não vê há 16 anos. Quando se encontram, nas margens do rio Yangtze, decidem voltar a casar-se. Também Shen Hong, uma enfermeira, viaja para Fengjie à procura do marido que não vê há dois anos. Abraçam-se em frente à barragem das Três Gargantas, mas apesar da dança, decidem separar-se.
Jia Zhang-Ke, é um dos realizadores mais proeminentes da chamada sexta geração do cinema chinês, e também um dos melhores realizadores do mundo neste século 21, dirige aqui brilhantemente um filme que combina documentário e fantasia, pintando uma imagem evocativa da China moderna, livre da propaganda tradicional chinesa, e independente do governo para mostrar que há um surto de alienação no país. Esta atitude política subversiva, levou a que o filme fosse banido no seu próprio país, mas bastante mostrado na Europa e nos Estados Unidos.
As duas histórias em cima sobre dificuldades pessoais e casamentos em ruptura dão ao realizador uma hipótese de observar o que se passa no coração da China industrial, e como a globalização e a renovação urbana vieram para a China, de modo que os telemóveis e outros bens ocidentais são apenas parte do quotidiano chinês, como também são do quotidiano de Los Angeles. Esta imagem do país demonstra que os problemas universais do progresso causam o deslocamento e deixam aqueles que não estão em posição de se ajustarem marginalizados da sociedade, e que a nova forma de capitalismo é tão dura como o sistema comunista. 
Ganhou o Leão de Ouro do festival de Veneza, em 2006. 

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domingo, 14 de janeiro de 2018

Onde Jaz o teu Sorriso? (Où gît votre sourire enfoui?) 2001

Quase vinte anos depois de Harun Farocki prestar uma homenagem à profunda influência do cinema de Straub/Huillet, ao filmar o processo exaustivo da preparação do filme "Class Relations" para o documentário "Jean-Marie Straub and Danièle Huillet at Work…", Pedro Costa captura o seu processo igualmente exigente da montagem da longa-metragem "Sicilia!" em "Onde Jaz o Teu Sorrisso?". Na verdade, tal como o filme de Farocki captura intrinsecamente a metodologia de trabalho dos cineastas através dos seus temas recorrentes de automação e sistematização de processos, também o filme de Costa ilustra a particularidade da sua metodologia através da sua própria preocupação caracteristica, para capturar o alegórico no quotidiano. 
À medida que os cineastas alternadamente contam histórias e anedotas pessoais, tanto sobre o seu matrimónio como sobre o seu cinema colaborativo, o que emerge no retrato reverente e discreto de Costa é uma imagem carinhosa, humorística da relação entre os dois, a todos os níveis. Uma história de amor moderna que funde a paixão com a política, a criatividade com a convicção, contada a partir da intimidade privilegiada de dois românticos irascíveis e duradouros casais intelectuais, activistas sociais, cinéfilos obsessivos, idealistas sem idade, e artistas inovadores.
Este documentário serve também de antecipação para um dos grandes ciclos deste verão, dedicado a esta dupla de realizadores. Será lá mais para o Verão, e terá textos do nosso habitual colaborardor, Jorge Saraiva.

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