sexta-feira, 24 de junho de 2016

Cannes 1982 - Os premiados


Assim termina este ciclo dedicado a Cannes 1982. Espero que tenham gostado. Para finalizar, aqui ficam os premiados neste edição.

  • Palme d'Or:
    • Missing by Costa Gavras
    • Yol by Şerif Gören and Yılmaz Güney
  • Grand Prix: La Notte di San Lorenzo
  • Best Actor: Jack Lemmon for Missing
  • Best Actress: Jadwiga Jankowska-Cieślak for Egymásra nézve
  • Best Director: Werner Herzog for Fitzcarraldo
  • Best Screenplay: Jerzy Skolimowski for Moonlighting
  • Best Artistic Contribution: Bruno Nuytten (cinematographer) for Invitation au voyage
  • Honorary Award: "Hommage à Satyajit Ray" to Satyajit Ray.
  • Technical Grand Prize: Raoul Coutard (cinematographer) for Passion
  • 35th Anniversary Prize: Identificazione di una donna by Michelangelo Antonioni
  • Caméra d'Or: Half a Life by Romain Goupil
  • Short Film Palme d'Or: Merlin ou le cours de l'or by Arthur Joffé
  • Jury Prize - Best Short Film: Meow by Marcos Magalhães
  • FIPRESCI Prize:
    • Another Way by Károly Makk (special award)
    • Les fleurs sauvages by Jean Pierre Lefebvre
    • Yol by Şerif Gören and Yilmaz Güney (Unanimously)
  • Prize of the Ecumenical Jury: The Night of the Shooting Stars by Paolo and Vittorio Taviani
  • Prize of the Ecumenical Jury - Special Mention:
    • Dhil al ardh by Taieb Louhichi
    • Yol by Şerif Gören and Yilmaz Güney
  • Award of the Youth:
    • Foreign Film: Time Stands Still by Péter Gothár
    • French Film: Half a Life by Romain Goupil

Moonlighting (Moonlighting) 1982

Um empregador polaco, Nowak, leva um grupo de operários até Londres, para que eles ofereçam mão de obra barata a um escritório do governo. Nowak precisa de supervisionar o projeto e os homens, que enfrentam as tentações do ocidente e a solidão e separação de suas famílias. Quando a agitação na Polónia conduz a uma intervenção militar, Nowak encara uma situação bem mais difícil do que esperava.
Jerzy Skolimowski é um cineasta habilidoso com um talento especial para cenários claustrofóbicos, um estranho sentido de humor, e uma visão sóbria da duplicidade humana. "Moonlighting" debruça-se tanto sobre a corrupção na Polónia como é uma crítica afiada ao socialismo - as pessoas a roubarem e a atacarem-se umas ás outras nas ruas da cidade.  Conduzindo os seus homens para cumprindo os prazos e negando-lhes a verdade, Nowak, interpretado por Jeremy Irons, transforma-se ele próprio num chefe totalitário. Os trabalhadores, eventualmente, revoltam-se e sentimos nos nossos ossos a sensação de traição que é a dor e a agonia de todos os indivíduos vitimados por aqueles que pensam que sabem o que é melhor. Este drama político não pronuncia uma única declaração política, uma vez que se torna alegórico e encontra alivio num sentido de humor amargo.
Skolimowski dá-nos bastantes hipóteses de observar tanto os londrinos na sua vida quotidiana, como os pobres trabalhadores polacos escondidos no escritório do seu patrão rico. Skolimowski já era habitual em Cannes, e concorria na selecção oficial. Com "The Shout" havia ganho o Grande Prémio do Juri.

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quarta-feira, 22 de junho de 2016

O Mistério de Picasso (Le mystère Picasso) 1956

"Ao contrário das habituais cinebiografias ficcionais (uma das mais famosas, Sede de Viver, sobre Van Gogh, tendo sido produzida no mesmo ano) ou dos filmes documentais, sobretudo curtas-metragens que se detém sobre as obras de arte acabadas de grandes artistas, o filme de Clouzot se propõe a mostrar o artista em atividade. Nesse sentido, compõe as sequências iniciais do filme com gravuras realizadas em tempo real ou próximo do real e, posteriormente, através do recurso da montagem procura ilustrar o que Picasso descrevera como sua técnica de justaposição de cores e desenhos. O sentido de utilizar uma colagem das alterações efetivadas no quadro se faz a partir da própria reclamação de Picasso de que as obras desenhadas em tempo real são bastante superficiais. Pode-se perceber nitidamente a diferença quando contrapostas com a primeira obra que deixa para lado a preocupação com a filmagem em tempo real. Ao final, o realizador expressa sua preocupação de que o espectador poderá acreditar que foi produto de 10 minutos e o próprio Picasso afirma que foi de 5 horas de trabalho. Embora as obras apresentadas a partir dessa opção sejam via de regra mais bem acabadas, Picasso demonstra desgosto com os rumos que a sobreposição de gravuras e cores que efetuou em um dos quadros. O aspecto de improviso e espontaneidade é visivelmente enganoso, o que deixa a indagação do quanto o “erro” provocado no quadro que desgostou o pintor não serviria apenas para exemplificar o seu próprio processo de produção. Trata-se de uma produção indicada sobretudo aos aficcionados incondicionais do mundo das artes, no sentido de que Clouzot não introduz seu documentário com nada que diga respeito especificamente a Picasso ou sua arte e tampouco o entrevista. No máximo, existe o evidentemente ensaiado contato de Clouzot com seu “ator” no ateliê do mesmo, procurando controlar o tempo de realização da pintura com o tempo de filme restante no chassi da câmera, etc. Sua estrutura é basicamente composta das imagens do pintor e da trilha sonora triunfante de Auric, um dos mais tradicionais do cinema francês de então. O filme foi tema de um artigo de André Bazin." Cid Vasconcelos, daqui.
Em 1956 ganhou o prémio do Juri no festival de Cannes, e voltaria a ser exibido, fora de competição, neste ano de 1982.

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terça-feira, 21 de junho de 2016

Paixão (Passion) 1982

Num aldeia suíço; uma equipa de filmagens prepara um filme sobre os antigos mestres da pintura. Mas o realizador polaco, Jerzy, tem alguns problemas em encontrar a luz certa para o filme, e as filmagens estão inutilizáveis. Entretanto, ele começa a relacionar-se com duas mulheres locais: Hanna, a proprietária do hotel, e Isabelle, que está desempregada depois de envolver-se exaustivamente em questões sindicais na fábrica onde trabalhava. Os sentimentos de Jerzy oscilam entre a simpatia pela causa de Isabelle e o charme excitante de Hanna.
"O filme dentro do filme" é talvez mais o objectivo de Jean-Luc Godard, do que os envolvimentos emocionais dos seus personagens. "Passion" é também um filme auto-reflexivo onde os personagens são tratados pelos mesmos nomes dos actores (Jerzy Radziwilowicz chama-se Jerzy, Isabelle Hupert chama-se Isabelle, Hanna Schygulla chama-se Hanna). Godard está interessado na relação entre as imagens e o som um com o outro, e bem como nas divisões entre artifício e vida real. 
Tal como a maioria dos filmes de Godard, "Passion" evoca mais do que explica, plantando as ideias mas não atingindo o objectivo da resolução. Sendo assim, respostas não serão encontradas, Godard deixa as suas personagens circularem e depois guia os seus personagens para o pôr do sol. As mulheres aparentemente parecem libertadas do realizador, que não consegue manter a sua vida no caminho certo em busca da realidade que o abandonou, enquanto ele continua a procurar a próxima mentira.  
"Passion" seria a sequela natural de "Sauve Qui Peut (la Vie)" e um intrigante filme sobre o trabalho e o amor. Desafia a curiosidade dos espectadores levando-os a olhar atentamente para as imagens evocativas de Raoul Coutard, a política sexual de Jerzy e as suas mulheres e o confuso processo de criar um filme. Foi selecionado para a seleção oficial de Cannes, em 1982.

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domingo, 19 de junho de 2016

A Ratoeira (Elippathayam) 1982

"Elippatthayam" conta-nos a história de uma família, num particular período da história da Índia, passado dentro dos limites de um pequeno "taravad", ou uma pequena e tradicional propriedade feudal de Kerala. O protagonista é Unni (Karmana), um proprietário que se escravizou a si próprio e ao seu status, recusando-se a reconhecer que o mundo lá fora mudou, e que o seu modo de vida tornou-se completamente irrelevante. Unni vive com uma irmã mais velha, já passada da idade de casar e uma mais nova, acabada de terminar a escola e com uma veia rebelde. Quando o filme começa os três descobrem que têm um rato na sua propriedade. Conseguem capturá-lo, e a irmã mais nova afoga-o no rio. A partir daí seguimos uma série de episódios, a maioria deles ilustrando a natureza preguiçosa de Unni, e o efeito que ele tem nas irmãs.
Adoor Gopalakrishnan tem sido muitas vezes comparado a Satyajit Ray, mas Ray nunca fez um filme tão enigmático e livre de estrutura como este. O seu estilo talvez seja mais próximo de outro realizador indiano, Ritwik Ghatak, com algumas semelhanças com Weerasethakul (nos momentos de silêncio e misteriosos), Haneke (na lenta desintegração de uma unidade social fechada) e Buñuel (sátira política).
Era o terceiro filme do realizador, depois de "Swayamvaram" e "Koodiyattam", e o seu primeiro filme a cores. Um realizador muito cuidadoso como ele tem muita precisão no uso da cor, e do guarda-roupa. A fotografia é muito boa, e é preenchida com composições muito complexas. A casa é uma personagem no filme, e é filmada de diversas formas e feitios. 
Um dos temas abordados é o tratamento das mulheres nos campos feudais. O homem não faz absolutamente nada, excepto mimar-se a si próprio. As irmãs são codificadas por cores. A mais nova de vermelho, a côr da revolta. A mais velha veste-se de azul, a côr da doçura e da submissão.
Uma terceira irmã, que irá aparecer mais tarde,
veste-se de verde, para mostrar que é uma pessoa prática.
O filme foi selecionado para a competição "Un Certain Regarde".

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Depois do Amor (Shoot the Moon) 1982

Um casamento de quinze anos que se dissolve, deixando o marido, a esposa e os seus quatro filhos devastados. Ele está preocupado com a carreira e a amante; ela, com a carreira e a criação dos seus quatro filhos. Enquanto tentam seguir caminhos separados, a inveja e amargura une-os.
Realizado por Alan Parker, depois dois sucessos de "Midnight Express" e "Fame", é um retrato de um casamento falhado, de um casal influente. Desde a cena de abertura em que vemos Albert Finney a afundar-se em desespero profundo, enquanto ouvimos as vozes excitadas da sua esposa e dos seus quatro filhos num quarto das proximidades, é claro que as coisas correram terrivelmente mal, e que tudo parece uma situação idílica, e sem volta. O restante deste filme sombrio é a preocupação em mostrar a forma como este casal irá lidar com a separação. Ela (Diane Keaton), afunda-se numa depressão para depois assumir um amante (Peter Weller), um trabalhador da construção silencioso mas bonito que chegou a construir um campo de Ténis na sua propriedade. Ele continua um caso com Sandy (Karen Allen), mas mantém um cruel sentido de propriedade sobre a sua casa e família. Enquanto isso há uma tentativa em curso por cada um dos personagens em descobrir o que realmente correu mal, mas esta pergunta não terá resposta fácil.
É basicamente um filme de actores, com Albert Finney a recolher grande parte dos louros, mas Diane Keaton também uma interpretação bastante enervante. Ambos seriam nomeados para os Globos de Ouro no ano seguinte, mas ficariam fora dos Óscares.
Era o terceiro filme de Parker a ser nomeado para Cannes, Depois de "Bugsy Malone" (1976), e "Midnight Express" (1978).

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Desaparecido (Missing) 1982

Um jovem escritor idealista desaparece no Chile dias depois do golpe de estado que depôs o presidente Salvador Allende, em 1973. Para tentar encontrá-lo, o seu pai americano vai até o país, que então vivia sob regime ditatorial, com a esposa viúva do rapaz desaparecido. Só que para encontrar o escritor, eles vão ter que lidar com polícia, prisão, cenas de violência e toda a má vontade da máquina pública.
Na década de setenta, o grego Costa-Gavras construiu com o sucesso de "Z" (1969), vencedor de um Óscar, uma série de thrillers políticos muito aclamados, incluindo "L'Aveu" (1970) e "Estado de Sítio" (1973). "Missing" continuava esta tendência, e era o primeiro filme feito em lingua inglesa, para além do primeiro feito na América. Tal como os filmes anteriores do realizador, este também foi muito bem recebido pela crítica, um tremendo sucesso comercial e um grande êxito de bilheteira, depois de ter ganho um Óscar de melhor argumento.  
"Missing" é mais acessível e mais fiel ao convencional thriller político americano, e mais intransigente, intenso e perturbador que os seus filmes anteriores. Algumas das imagens do filme são chocantes, e deixam uma impressão duradoura, particularmente o toque de recolher angustiante, e a sequência horrível na morgue. Estas imagens têm uma ressonância aterradora, suprimida de quaisqueres artifícios teatrais, que se torna mais eficazes por incluirem as duas personagens principais, Ed e Beth, brilhantemente interpretadas por Jack Lemmon e Sissy Spacek.
O filme é baseado no livro controverso de Thomas Hauser, que contava a vida real de Charles Horman, que foi alegadamente vitima da intervenção americana no golpe militar no Chile, que teve lugar em 1973. Tal foi o interesse público no filme, que o secretário de estado da altura foi obrigado a fazer um comunicado desmentindo algumas acusações feitas pelo filme.
Participou na seleção oficial de Cannes.

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sexta-feira, 17 de junho de 2016

Chronopolis (Chronopolis) 1982

Como nos diz a sinopse, conta a história de um alpinista obcecado, que vamos ver com o prólogo antes dos créditos de abertura, que informam da presença de Chronopolis, uma cidade imaginária que existe num manuscrito sonho da mente, onde os seus habitantes são imortais ansiando por uma mudança na sua onipresença. Eles podem ver o nosso mundo, e ver todas as pessoas, assim como este alpinista, e a sinopse explica que eles decidiram entrar em contato com ele através da alquimia, criando uma esfera inteligente para encontrar o homem.
Uma animação de 60 minutos abstrata, meditacional, atmosférica e surreal (tradução: drogas pesadas são necessárias), realizada por Piotr Kamler que geralmente fazia curtas. A descrição de fundo é de uma eterna e mística, cidade inacessível dos imortais que têm dominado o tempo e tentam quebrar a sua monotonia, chegando a um ser humano.A animação é sobre um processo enigmático interminável de preparação e de comunicação.
Não há diálogo para explicar o que acontece, apenas uma breve narração na abertura para definir o que se está a passar. Alguns filmes não podem ser descritos por palavras, mas alguns também não precisam de palavras. A fantasia de Piotr Kamler é um desses filmes. Usando um pouco da animação mais bela de sempre, é uma peça de artesanato, um filme mudo sobre uma raça de gigantes imortais aborrecidos, e entretidos com a manipulação das suas máquinas complexas numa cidade atemporal, até que um homem escalando as paredes da sua imensa cidade capta a sua atenção. Estes são os principais pontos de Chronopolis, mas as palavras realmente não conseguem explicar nada neste filme enigmático.
Teve estreia no festival de Cannes de 1982, fora de competição, e no ano seguinte ganhou o prémio da crítica no Fantasporto.

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Legendas
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quinta-feira, 16 de junho de 2016

Creepshow: Contos de Terror (Creepshow) 1982

Sequência de pequenas histórias de terror criadas em homenagem a uma revista de terror americana da década de 50. São cinco histórias ligadas por uma central que envolve um jovem a ser maltratado pelo pai por gostar de bandas desenhadas. Na primeira, um pai regressa do túmulo para se vingar da filha que o matou; na segunda, um meteoro transforma um homem numa estranha criatura; na terceira, um marido vinga-se da esposa e do seu amante, mas depois verá que a vingança pode se voltar contra ele; na quarta história, um homem maltratado pela esposa descobre uma caixa misteriosa que esconde uma terrível criatura; na última história, um homem que odeia vermes e insectos terá que enfrentar o seu maior pesadelo quando ocorre um 'blackout'.
Como é fácil de adivinhar pelo prólogo, "Creepshow" era realizado por George A. Romero e escrito por Stephen King como homenagem às bandas desenhadas da sua juventude, um tipo de material bastante desaprovado pelos pais, tanto que acabaram por ser fortemente regulados ou mesmo proibidos, porque se acreditava que as bandas desenhadas deformavam as pequenas mentes. Esta antologia de cinco episódios, bastante na veia da Amicus dos anos sessenta e setenta, embora aqui houvesse um esforço muito maior em recriar o ambiente desses quadradinhos.
Para os fãs de Romero e de King o filme não explorava muito o talento dos dois, era mais como uma colaboração divertida entre os dois. Tem alguns bons momentos e bom sentido de humor, que é fundamental nestas pequenas histórias. O filme tinha estreia absoluta na edição de Cannes de 1982, mas foi mostrado fora de competição.

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quarta-feira, 15 de junho de 2016

A Noite de Varennes (La Nuit de Varennes) 1982

Em 20 de junho de 1791, o Rei e a Rainha da França (Luiz XVI e Maria Antonieta),tentaram fugir dos revolucionários de Paris para se juntar aos aliados monarquistas de fora da França, no entanto foram capturados na cidade de Varennes. O incidente deu início a uma inflamada desconfiança popular e repúdio à monarquia. Ligados a esse evento histórico, nesse mesmo caminho está um grupo de viajantes, incluindo Thomas Paine (Harvey Keitel), um patriota americano, o conhecido e sedutor Casanova (Marcello Mastroianni), o escritor Frances Restil de La Bretone (Jean-Louis Barrault) e uma das pajens da Rainha. A partir dessa idéia original, Scola retrata os diversos olhares daquele momento em relação à Revolução Francesa.
"La Nuit de Varennes" continua a tradição francesa de filmes de época de qualidade nos anos 80, e oferece-nos um atraente retrato da pré-revolução francesa. Produção franco-italiana de grande orçamento, era realizada pelo italiano Ettore Scola, e contava com um elenco cheio de estrelas e valores de produção que muitos realizadores franceses não podiam sequer sonhar.
Pouco vulgar, o filme mantém os seus personagens e a audiência bem longe dos actores principais desta história, e, em vez disso, reflecte sobre  os eventos históricos e os seus efeitos nestas personagens. Quando finalmente o rei e a raínha aparecem no filme, é por uma breve cena, dando ênfase ao abismo intransponível entre a monarquia real e o povo.
Durante a maior parte do tempo, "La Nuit de Varennes" está mais preocupada com os problemas políticos e sociais do dia, particularmente o papel da monarquia e a pressão que eles fazem perante a revolução sangrenta. Em vez de nos apresentar um contexto histórico, Scola anima as coisas usando personagens coloridas para contar a história, usando mesmo elementos cómicos para fazer a ponte com os nossos dias. Isto torna o filme mais relevante para uma audiência moderna, sem perder o contexto histórico ou o sentido de autenticidade.
Fez parte da selecção oficial do Festival de Cannes.

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terça-feira, 14 de junho de 2016

Dia dos Idiotas (Tag Der Idioten) 1981

Carol Schneider (Carole Bouquet) leva uma vida sem rumo, com o seu amante Alexander. Não encontrando possibilidade de se expressar na sociedade "exterior", ela muda-se para uma sociedade "interior", localizada dentro de um asilo de loucos. Ela prefere este mundo ao mundo real, apesar dos muitos terrores que este mundo apresenta, mas no fundo ela não consegue viver em nenhum destes mundos.
Carole Bouquet, famosa pelo filme de Buñuel "Esse Obscuro Objecto do Desejo", e acabada de filmar um filme para a série de James Bond, "For Your Eyes Only", interpreta o seu mais memorável papel, uma mulher louca num mundo louco, segundo uma visão atormentada de Werner Schroeter, que certamente não queria fazer um filme acessível nem evitar uma obra chocante.
A loucura como uma metáfora para as pessoas com medo das suas próprias necessidades de viver a vida no mundo real dominado por normas e instituições impessoais. Esta é uma possível interpretação, mas  Schroeter parece mais interessado em ensaiar teatralmente e sequências poéticas de loucura, em vez de pensamentos coesos.
Foi o primeiro filme de Werner Schroeter a ser selecionado para Cannes, e concorreu para o prémio principal.

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segunda-feira, 13 de junho de 2016

Hospital dos Malucos (Britannia Hospital) 1982

O quotidiano de um hospital, mas não de um hospital qualquer. É o Britannia Hospital no dia em que comemora 500 anos e será inaugurada uma nova ala, com a presença do representante da família real. Mas as coisas não correm tão bem: há terroristas do lado de fora, grevistas e sindicalistas do lado de dentro. Um médico tenta obter sucesso numa operação de transplante do cérebro, mas ele perde (literalmente) a cabeça e precisa com urgência de outra. E à espreita, um repórter curioso, disfarçado de limpador de janelas.
"Britannia Hospital" era uma alegoria do que se estava a passar em Inglaterra na altura, por volta de 1982, e era a última parte de uma trilogia realizada por Lindsay Anderson, que seguia as aventuras de Mick Travis enquanto este viajava por uma estranha e por vezes surreal Grã-Bretanha.  A aventura tinha começado em "If..." (1968), um filme que havia ganho a Palma de Ouro desse ano, depois continuou com "O Lucky Man" (1972), nomeado para a Palma de Ouro, e acabaria com este filme, onde Malcolm McDowell interpreta um repórter de investigação que segue as actividades bizarras do Professor Miller interpretado pelo sempre interessante Graham Crowden, que já tinha tido um papel no filme anterior da trilogia. Nos seus três filmes Anderson tinha coberto todos os aspectos, políticos e institucionais, da sociedade britânica desde 1968 a 1982, com todo o seu complexo sistema de diferenças e privilégios de classes e de casta, incluindo as suas escolas públicas, políticas internacionais, sistema de direito, e sistema de saúde, descobrindo que havia algo de podre neste reino.
Como é habitual nos filmes de Anderson, temos um elenco de primeira qualidade, com a maioria dos actores a ter estado presente nos filmes anteriores, e uma fotografia profissionalmente filmada por Mike Fash embora o seu trabalho não tenha a mesma sensação que Miroslav Ondricek deu aos dois trabalhos anteriores. Desde a primeira cena, em que um doente idoso é deixado para morrer numa maca até à sequência final de Miller, revelando a sua maior conquista científica, o filme é cheio de surpresas. Uma personagem é interpretada por um anão, e outra por um homem num arrasto. No entanto, uma das maiores surpresas do elenco vem de Robin Askwith a interpretar Ben Keating, o valentão da escola em "If..."
Concorreu para a seleção Oficial do festival, e no ano seguinte ganhou o prémio da audiência no Fantasporto.

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