terça-feira, 24 de maio de 2016

Youth of the Beast (Yajû no Seishun) 1963

Joe Shishido interpreta um durão com uma agenda secreta. O seu comportamento violento chama a atenção de um duro chefe da Yakuza, que imediatamente o recruta. Depressa ele tenta fazer um acordo com um gang rival, e começa uma guerra de gangs. As suas reais motivações são gradualmente reveladas à medida que vamos descobrindo que tudo está relacionado com o assassinato de um polícia que é mostrado logo no inicio do filme.
Nas últimas décadas, desde que os seus filmes começaram a cruzar o oceano, Seijun Suzuki tornou-se numa figura de culto nos Estados Unidos, um génio impetuoso e original, habituado a quebrar as regras da desconexão lógica e da estética. Os seus estranhos filmes eram muitas vezes comparados com os de Samuel Fuller ou David Lynch, sendo ele próprio um fã fervoroso de Jim Jarmusch, que lhe agradeceu nos créditos finais de "Ghost Dog: Way of the Samurai" (1999). Na altura do lançamento deste filme, que muitos consideram o seu "breakthrough", já tinha realizado quase 30 filmes, no espaço de uma década. A maior parte eram filmes baratos, rápidos e simples, considerados "program pictures", uma expressão idêntica aos filmes de série B nos Estados Unidos.
"Youth of the Beast" era um "film noir" maravilhosamente distorcido pelos padrões de Suzuki. Começa a preto e branco, com dois policias a investigarem um aparente duplo suicídio de uma "call girl", e um homem casado com quem ela tinha um caso. Suzuki deixa logo caír a primeira pista de que este não é um crime normal. Tal como acontece na maioria dos filmes de Suzuki, a história não é central. À medida que a sua carreira evoluía as suas narrativas tornavam-se cada vez mais confusas e implausíveis, a tal ponto que ele acabou por ser demitido da Nikkatsu no final dos anos sessenta. "Youth of the Beast" não é um filme tão fragmentado narrativamente, mas o seu estilo visual ultrapassa a história.
Sexo e violência são admiravelmente misturados, e existe aqui um certo sadismo, ao desviar a atenção para as personagens mais bizarras. um dos personagens centrais é gay, e usa uma pequena navalha para cortar quem ousar lembrá-lo de que a sua mãe era prostituta. Uma das marcas de Suzuki é o tratamento do crime organizado como se fosse um estilo de vida absurdo.
Legendas em Inglês.

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segunda-feira, 23 de maio de 2016

Zero Focus (Zero no Shôten) 1961

Um viagem de negócios desde Tóquio até à área isolada de Kanazawa, nas províncias ocidentais, conhecidas como os Alpes Japoneses, leva Kenichi Uhara (Koji Nanbara) um executivo e recém casado com Teiko (Yoshiko Kuga). Kenichi vai finalizar alguns negócios na sua antiga filial, onde trabalhou para o rico dono de uma fábrica chamado Murota (Yoshi Kato). Kenichi acaba por desaparecer passados poucos dias, e Teiko viaja de comboio na companhia de um executivo (Takanobu Hozumi) para tentar descobrir o que aconteceu ao marido, para perceber que existem coisas sobre o passado dele que ela não tinha conhecimento.
Realizado por Yoshitaro Nomura, filho do grande realizador do cinema mudo japonês Hotei Nomura, que realizou cerca de 70 filmes antes do cinema sonoro chegar ao Japão, é baseado num livro de Seicho Matsumoto. É reminiscente dos filmes noirs americanos dos anos quarenta, e coberto de grandes twists e uma atmosfera sinistra, com paisagens muito negras, tal como o ambiente da história e o território montanhoso onde a acção é filmada. É também um filme desafiante para espectadores estrangeiros, com algumas reviravoltas e pistas a poderem ser mal interpretadas, por terem a ver com os costumes locais.
Existe aqui uma grande crítica às mulheres Japonesas, e a forma como elas são vistas na sociedade. Teiko é recém casada com a idade de 36 anos, um pouco tarde para os velhos padrões japoneses, e mesmo para os actuais, sendo contrastada com mulheres que se tornaram prostitutas para sobreviver no pós-guerra do Japão. De certa forma o filme é sobre a perda da virgindade moral de Teiko. Enquanto ela não é corrompida por outros, é forçada a confrontar realidades da vida longe da sua calma existência em Tóquio.
Uma grande interpretação de Yoshiko Kuga, que tinha recentemente interpretado dois grandes filmes de Ozu: "A Flor do Equinócio" (1958) e "Bom Dia" (1959).

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domingo, 22 de maio de 2016

Porcos e Couraçados (Buta to Gunkan) 1961

Originalmente lançado em 1961, "Porcos e Couraçados" é um belo filme que captura maravilhosamente um período único na história japonesa. Depois da derrota do país na Segunda Guerra Mundial o Japão foi alvo de uma significativa presença americana, e com o país a recuperar dos efeitos muito graves da guerra isto teve um impacto significativo sobre a população. Afastando-se das crenças do tempo da guerra, lidavam com a desconfiança das gerações mais velhas e, lutando para sobreviver em circunstâncias difíceis, a população mais jovem japonesa foi lutando contra uma espécie de crise de identidade.
Paralelismos entre o Japão como país, e as vidas dos personagens deste filme, constantemente percorrem Porcos e Couraçados, impregnando as decisões com um maior significado e profundidade. Os dois protagonistas principais, um pequeno yakuza, Kinta (Hiroyuki Nagato), e a sua namorada Haruko (Jitsuko Yoshimura), estão num ponto importante de inflexão e há um sentido ao longo do filme em que as decisões que eles tomam vão definir as suas vidas.
Kinta esforça-se para alcançar sucesso como gangster, através de esquemas para obter dinheiro dos ricos e tentativas de favores de gangues mais poderosos, para levar a cabo assassinatos. Está desesperado para conquistar reputação como um gangster. Haruko por outro lado, quer sair da cidade portuária de Yokosuka em que vivem, vendo para lá da vida tradicional dos seus pais.
Baseado num argumento de Hisashi Yamauchi, o filme é uma obra um pouco complexa, com as acções das personagens secundários muitas vezes a terem mais importância do que aparentam. Um retrato impressionante do pós-guerra, a vida no Japão, selvagem e caótica contada por Shohei Imamura, "Porcos e Couraçados" é um documento que define não apenas o estilo singular Imamura - uma agressão deliberada à serenidade de Yasujiro Ozu -, mas também define profundamente a sua visão humana do mundo, muitas vezes apresentada através dos sonhos, desejos e desespero das pessoas que compõem os estratos mais baixos da sociedade do seu país. Tal como muitos outros filmes de Imamura, "Porcos e Couraçados" é preenchido com criminosos, chulos e prostitutas, mas o que liga muitos dos personagens simpáticos dos seus filmes não é tanto as suas profissões ou mesmo a realidade sombria económico e social que os rodeia , mas a vitalidade e o desafio que eles apresentam nesse meio. A visão do mundo Imamura é escura e profundamente cínica, é uma qualidade que fez dele, na minha opinião, o maior cineasta do cinema novo japonês.

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sábado, 21 de maio de 2016

O Inútil (Rokudenashi) 1960

A secretária Ikuko Makino é alvo de brincadeiras de mau gosto por parte do filho do chefe e dos seus amigos, um grupo de jovens rebeldes que fazem de tudo para matar o tédio. Apesar dessa relação conflituosa, Makino apaixona-se por Jun, um dos rapazes do grupo, a quem chama de “imprestável”.
Yoshishige Yoshida a demonstrar o seu talento logo no seu primeiro filme, mostrando, por exemplo, grande domínio na iluminação e na composição. "Rokudenashi" era fortemente influenciado pela Nouvelle Vague (de certa forma poderia ser considerado uma versão japonesa de "O Acossado", talvez com algumas piscadelas para "Cruel Story of Youth", realizado por Oshima pouco tempo antes. A fotografia dinâmica a preto e branco anuncia a mise en scène não convencional e os movimentos de câmara fluidos estão aqui presentes, tornando-se a assinatura de filmes posteriores de Oshida. 
É um filme que analisa o tema dos jovens sem rumo, a base da história é um grupo de quatro estudantes, dois dos quais de famílias ricas. Um dos mais pobres apaixona-se pela secretária de um dos mais ricos que tenta levá-lo para o caminho certo, mas como um filme socialmente sensível como este é, sabemos que não vai correr bem. 
 Yoshida ficaria mais tarde conhecido por obras como "Eros + Massacre" ou "Akitsu Springs".
Legendas em inglês.

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terça-feira, 17 de maio de 2016

Take Aim at the Police Van (Jûsangô Taihisen' Yori: Sono Gosôsha o Nerae) 1960

Uma van da polícia é assaltada, e os dois prisioneiros que viajavam lá dentro são mortos. O guarda da prisão que se encontrava de serviço é suspenso, e não vê outra solução senão procurar ele mesmo os criminosos. Quem eram as vítimas, quem eram os seus familiares e namoradas, e quem mais estava na Van nessa noite? À medida que a investigação avança outros morrem, coincidências ocorrem, enquanto o polícia se aproxima da verdade.
Desde o final dos anos cinquenta e através dos anos sessenta, os filmes de gangsters selvagens eram o principal negócio da Nikkatsu, o mais antigo estúdio do Japão. Numa tentativa de fazer aproximar o público mais jovem que crescia habituado às importações que chegavam dos Estados Unidos e França, a Nikkatsu começou a produzir filmes de acção que incluíam elementos dos westerns, comédias, e filmes sobre a rebeldia juvenil. Seijun Suzuki era um dos nomes mais importantes nesta altura, ao lado de Toshio Masuda, e Takashi Nomura,e não será por acaso que este filme terá vários filmes seus.
"Take Aim at the Police Van" é brilhantemente fotografado por Shigeyoshi Min, que usa algumas cenas clássicas dos filmes americanos, tal como a utilização da câmara no pára-choques dianteiro, que compunha muitas vezes as sequências de abertura. Os locais utilizados para as filmagens ajudam a manter o filme fresco, e ajudam a capturar o ambiente do pós-guerra das cidades japonesas. Koichi Kawabe foi encarregado de fazer a banda sonora do filme, e faz um magnifico trabalho, adicionando o suspense necessário, além de serem notadas muitas familariedades com os film noir americanos.
A história é o clássico "whodunit". Os argumentistas Shinichi Sekizawa e Kazuo Shimada vão deixando muitas pistas para nos deixarem ocupados a pensar até ao final em quem é o principal criminoso, que vai mantendo o filme interessante.
Legendas em inglês.

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segunda-feira, 16 de maio de 2016

Dragnet Girl (Hijôsen no Onna) 1933

Tokiko é uma dactilógrafa que esta mais interessada em chamar a atenção do filho do chefe do que cumprir o seu dever. Isto porque o seu verdadeiro namorado é Joji, um boxeur que se tornou gangster, e vê nesta situação uma boa oportunidade para fazer dinheiro. Contudo, quando Kazuko, a inocente irmã de Hiroshi, um possível novo membro da quadrilha, pede a Joji para não aceitar o irmão, o gangster fica apaixonado pela jovem. Tokiko fica com ciúmes, e está determinada a reconquistar Joji, mas este já tomou a decisão de obter a redenção.
 "Dragnet Girl" é descrito como um dos filmes mudos mais populares e aclamados de Ozu, e é fácil perceber porquê. O filme está cheio de momentos maravilhosamente construidos, além de ser um dos seus filmes mais impressionantes visualmente, do período mudo. Faz um grande uso da profundidade de campo, enchendo o frame com as suas maravilhosas composições, acrescentando numerosas camadas por cada "shot". É a perfeita demonstração da força do filme, em adicionar dimensões visuais sem utilizar a tecnologia 3D, enigmática e desconfortável.
Tal como os outros filmes neste mini-ciclo, tem um núcleo moralista e sentimental, mas não se sente que seja encaminhado para este ponto, tal como os outros são. A mudança de foco dramático entre as personagens, embora contribuindo para uma história mais rica, pode fazer o filme mais difícil de se seguir, com o meio a ser um pouco lento. Ainda assim é o filme mais forte desta série.
Intertitles em português.

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quinta-feira, 12 de maio de 2016

That Night's Wife (Sono yo no Tsuma) 1930

Shuji (Tokihiko Okada) volta-se para o mundo do crime depois de não encontrar outra forma de pagar as contas da filha seriamente doente (Mitsuko Ichimura). Depois de um assalto alerta as autoridades da sua presença, mas deve esconder-se para a noite. Acontece que a filha está numa fase crítica da sua doença, e ele resolve arriscar e voltar para casa. O detective Kagawa (Togo Yamamoto) segue no seu rasto....
"Sono yo no Tsuma" é notavelmente diferente no sentido estético de obras como "Viagem a Tóquio", mas esta ênfase nas diferenças desvaloriza a progressão de Ozu como realizador durante os primeiros anos. Temos um filme que é o reflexo das preocupações sociais globais do cineasta. A maior diferença para os filmes posteriores, do seu período de ouro, é que essas preocupações são mais evidentes aqui, o que o torna em algo mais sentimental do que seria de esperar de Ozu.
O argumento é uma adaptação de Kogo Noda de um livro escrito pelo historiador Oscar Schisgall, mas podia ter passado pelas mãos de Ozu, principalmente por causa da natureza da consciência social. O ponto mais importante é que os personagens de Ozu evoluem cada vez mais em termos de classe social a cada novo filme. Nesta fase inicial da sua carreira os seus filmes podem ser categorizados como shomin-geki, porque temos sempre uma família da classe trabalhadora a lutar.
Foi o único filme de Ozu filmado inteiramente de noite, e um dos seus dois filmes que envolvia armas (o outro era o seu terceiro filme de gangsters, "Dragnet Girl"). Para prestar homenagem aos filmes americanos que o influenciaram Ozu coloca no apartamento do protagonista cartazes de filmes como "Broadway Babies" (1929) ou "Gentleman of the Press" (1929).
Intertitles em inglês.

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quarta-feira, 11 de maio de 2016

Walk Cheerfully (Hogaraka ni Ayume) 1930

Koyama Kenji, apelidado de "the Knife" é um pequeno gangster, ajudado pelos seus comparsas Senko, Gunpei e a namorada Chieko. Um dia ele cruza com uma jovem chamada Yasue a sair de uma loja de jóias e corteja-a.Entretanto Chieko entrega Yasue nas garras do seu chefe Ono, mas Kenji resgata-a a resolve endireitar a sua vida. Os seus comparsas tentam trazê-lo de volta para o mundo do crime, e ele recusa. Só que não vai ser assim tão fácil livrar-se do seu passado...
Filme mudo de Yasujiro Ozu, foi considerado um filme de gangsters influenciado por "Underworld", de Josef  von Sternberg, embora seja preenchido com algumas situações de comédia e drama doméstico, o que o coloca mais no campo da comédia romântica, apesar da elevada velocidade a que ocorrem as situações. Tem gangsters vestidos com roupas ocidentais, percorrendo salões de bilhar e ringues de boxe, algo que não era muito comum num filme japonês desta altura, numa Tóquio em mudança, que rapidamente se vai tornando mais Ocidental, largando cada vez mais as tradições familiares ancestrais.
Ozu conta-nos esta aventura a partir da história de Hiroshi Shimizu, e argumento de Tadao Ikeda, que todos no Japão se devem comprometer se a mudança na sociedade urbanizada permanecer estável, deixando claro que isto tanto vale para os tradicionalistas como para os ocidentalistas. É um filme menor na carreira de Ozu, mas mesmo assim é muito interessante, sobretudo na forma como partilha elementos do film noir.
Intertitles em inglês.

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Yasujiro Ozu – The Gangster Films

Hoje em dia Yasujiro Ozu já não é um nome desconhecido para os países ocidentais, mas durante muito tempo, este que hoje é considerado o "mais japonês dos realizadores japoneses", foi ofuscado internacionalmente pelos épicos de Akira Kurosawa, cujo cinema era mais orientado para a acção.
Por contraste, Ozu era quase desconhecido fora do país até à década de cinquenta, altura em que lançou filmes sublimes como "Viagem a Tóquio", que eram impossíveis de passar despercebidos. O estilo de Ozu era calmo, contemplativo, e filmado com shots sem movimento, que acabaria por influenciar muitos realizadores na posterioridade.
Nos anos 30 Ozu não era assim. Antes do som chegar ao Japão (por volta de 1936), Ozu fazia filmes com ritmos furiosos. Durante este período ele fez três filmes de gangsters, que foram o mais próximo que se podia chegar dos filmes negros: "Walk Cheerfully",  "That Night’s Wife" (ambos de 1930) e "Dragnet Girl" (1933). Estes três filmes foram lançados em 2013 pelo British Film Institute, e deixaram o mundo boquiaberto, por serem exactamente o oposto ao que se conhecia do realizador. Em "Dragnet Girl", por exemplo, os actores vestem roupas ocidentais, falam na gíria habitual do submundo americano, as poses de durões são reminiscentes dos durões de Hollywood, como James Cagney e Edward G. Robinson, e parecem quase típicos filmes de gangsters americanos.
Todos estes filmes eram mudos, claro, embora haja partituras musicais compostas para cada um dos filmes por Ed Hughes, todas elas bastante eficazes na sua intenção e execução. Nos próximos dias faremos aqui uma pequena viagem por estes filmes, um pequeno ciclo dentro do ciclo do Film Noir Japonês, em que serão introduzidas estas três obras. Fiquem atentos, portanto.

 

- "Walk Cheerfully" (1930)

- "That Night’s Wife" (1930)

- "Dragnet Girl" (1933)

segunda-feira, 9 de maio de 2016

Afraid to Die (Karakkaze Yarô) 1960

Quando Takeo é libertado da cadeia por atacar Handa, um lord rival da Yakuza, a última coisa que tem em mente é assumir a posição do pai, recentemente falecido, fã do clã Asahina. Ele e o irmão mais velho Aikawa consideram todas as opções, incluindo deixar a vida de gangsters completamente. Mas a saída é mais difícil do que o previsto porque entra em cena um clã rival, exigindo uma pequena vingança.
O primeiro aspecto digno de nota, é que o tema do filme está explicitamente expresso no título, "medo de morrer". A história de um herdeiro de um clã da Yakuza que tem literalmente medo de morrer. Este medo surge de várias formas, e é facilmente reconhecível para todas as personagens. Um dos argumentistas do filme é um nome facilmente reconhecido, Kikushima Ryuzo, que ficou famoso a escrever argumentos para Akira Kurosawa, em obras como "Throne of Blood" (1957), "The Hidden Fortress" (1958), "The Bad Sleep Well" (1960), "Yojimbo" (1961), "Sanjuro" (1962), entre outros. Assim, falta alguma coisa na narrativa que poderia ter sido um pouco mais substancial.
Outro aspecto interessante é o papel principal ser interpretado por Yukio Mishima, numa das suas poucas intrepretações como protagonista de um filme já que ele era mais conhecido como escritor e novelista. Mishima tornou-se uma personagem quase lendária pelas suas excentricidades, tanto na vida como na morte. Para o público ocidental, a sua vida ficou dramaticamente retratada num filme de 1985 realizado por Paul Schrader, chamado "Mishima: A Life in Four Chapters". Ficou conhecido pela sua obsessão pela austeridade física, e a sua morte foi por "sepukku", em protesto contra o enfraquecimento do imperador no pós-guerra.
A realização era de Yasuzo Masumura, um realizador da nova vaga do cinema japonês, então em inicio de carreira, que manda aqui um olhar pouco sentimental para a vida no submundo e para as suas fantasias machistas. Produzido pelos estúdios Daiei, foi concebido para ser um veículo para Mishima, mas a atmosfera negra do filme distingue-o de um mero filme de propaganda.

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sábado, 7 de maio de 2016

O Enterro do Sol (Taiyô no Hakaba) 1960

Na favela de Osaka a juventude sem futuro envolve-se em assaltos, prostituição, compra e venda de bilhetes de identidade e de sangue. As alianças mudam constantemente.  Tatsu e Takeshi, amigos desde a infância, relutantemente juntam-se ao gang de Shin. Shin muda o seu gang muitas vezes para evitar o grande chefe local. Vão cruzar com Hanoko, uma jovem de grande ambição. Primeiro ela anda no negócio da venda de sangue, mas acaba por se juntar a Shin.
Um dos vários filmes que Nagisa Oshima fez sobre a juventude descontente do início dos anos sessenta, "Enterro do Sol" traça a rivalidade entre vários gangues nas favelas e guettos de Osaka. Fragmentado e elíptico, é passado num mundo de soluções a curto prazo, com gerações a esperarem pela próxima catástrofe, certos de que a terceira guerra mundial surgirá tão repentinamente como a segunda. Tal como os filmes de Pasolini do mesmo período ("Accatone", "Mamma Roma"), há algo de redentor nesta subclasse criminal - usam uma espécie de código de honra feudal - mas é muito mais fugaz e provisório. Talvez porque os adolescentes eram um animal tão raro no cinema japonês até ao momento, os filmes sobre jovens sem futuro deste período sentiam que realmente podiam resgatar estes adolescentes, como se o legado mais vergonhoso da derrota japonesa fosse o aumento da cultura adolescente, regredindo a nação para uma nova era, impulsionada pela ícone de culto Kayoko Hanoo, a actriz principal deste filme.
Oshima oferece-nos aqui um retrato perturbador de um Japão do pós-guerra amoral e arruinado, como ele retrata o caos, com pessimismo e perda de nacionalismo, a perda da identidade japonesa e a perda da cultura no rescaldo da guerra. É um estudo contundente da decadência do Japão no pós-guerra. O Sol enterrado do título do filme é o mesmo da bandeira imperial japonesa, e indicava o estado de desespero do Japão moderno.

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Rusty Knife (Sabita Naifu) 1958

O cenário é a cidade de Udaka, uma cidade do pós-guerra no coração da fase da reconstrução depois da Segunda Guerra Mundial, é o local onde a corrupção já tomou conta de tudo. Este cenário providencia-nos um olhar único para a fase da reconstrução japonesa, acrescentando o imprescindível contexto para o realizador Toshio Masuda produzir mais um "noir" para rivalizar com os filmes franceses e americanos, que dominavam o box-office na altura.
"Rusty Knife" aborda o problema do crime organizado, quando os gangsters criaram um estado perpétuo de medo entre a população. Seiji Katsumata (Naoki Sugiura) é uma pedra no sapato do promotor público Karita (Shoji Yasui). De cada vez que ele consegue meter as mãos em Katsumata, as vítimas desaparecem. Depois do gangster conseguir escapar de mais uma acusação de agressão, a sorte de Karita começa a mudar, quando o autor de uma carta anónima diz ser uma das três testemunhas do assassinato de um político, cinco anos atrás.
Primeira colaboração entre o realizador Toshio Masuda e a estrela  Yujiro Ishihara, foi um sucesso comercial para os estúdio da Nikkatsu em 1958, que os estúdios resolveram fazer desta colaboração um hábito. Ao longo de 25 filmes, esta dupla ajudou a redefinir o cinema de acção para o público japonês, ao longo da década de sessenta. Yujiro Ishihara é excelente como o herói problemático. O seu desempenho começa silencioso, porque o personagem quer passar despercebido. A fervura lenta é eficaz, e o nosso homem vai-se transformando num verdadeiro herói de acção. Ao longo deste ciclo veremos mais alguns filmes deste actor.
Legendas em inglês.

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