sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Cinema Português

A partir de agora, e nos próximos sete dias, vamos entrar em modo: Cinema Português.
Fiquem atentos, que vai haver boas surpresas.


O Corvo (Le Corbeau) 1943



Uma viciosa série de cartas anónimas espalham rumores, suspeições e o medo entre os habitantes de uma pequena aldeia do interior de França, e uma após outra, elas revoltam as pessoas umas contra as outras, revelando segredos muito bem escondidos, mas o único segredo que não é revelado é a identidade do autor das cartas...
"Le Corbeau" é um filme obscuro e feroz, duas das características principais dos filmes do seu autor, Henri-Georges Clouzot. Feito em 1943, no auge da ocupação alemã em França, e originou assim muito controvérsia durante e depois da guerra, já que Clouzot não pintou um retrato da burguesia muito favorável. A luz é a metáfora principal do filme. Uma lâmpada a balançar marca o limite da linha entre o bem e o mal, simbolizando tanto o conflito interno entre as pessoas, como as batalhas exteriores a um nível social. Esta moralidade relativista é o núcleo de um filme construído sobre a feiura, a mentira e a corrupção, como uma pequena localidade da província é dilacerada por um misterioso anónimo que se auto-intitula "Corbeau", que metodicamente expõe todos os segredos mais sombrios dos habitantes da cidade.
Clouzot foi criticado tanto pelo governo da extrema-direita de Vichy, como pelo movimento da resistência ou ainda pela igreja católica. O jovem realizador, ainda no seu segundo filme, foi proibido de filmar durante alguns anos, mesmo depois da libertação francesa, acusado de ter criado um filme anti-francês e de propaganda Nazi (foi produzido por uma companhia alemã, e o próprio realizador era acusado de ser um colaborador), mas o argumento tinha sido escrito seis anos antes por Louis Chavance. Felizmente, muitos intelectuais franceses defenderam o filme, como Jean Cocteau ou Jean-Paul Sartre, e o ban seria levantado poucos anos depois, acabando o filme por ser reconhecido como uma fábula anti-Gestapo, e também anti-informantes.
Tem um ambiente propício de um genuíno filme Noir, mas o Noir só seria descoberto depois da Segunda Guerra Mundial. É um filme que emerge directamente a partir do período de ocupação alemã. É sem dúvida uma das maiores obras do cinema francês que merece ser partilhado. É baseado em eventos verdadeiros ocorridos na década de 20.

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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Dia de Cólera (Vredens Dag) 1943



No início do século 17 a Dinamarca é atravessada pelo medo da bruxaria. Uma velha mulher pede a Anne, a jovem esposa de um pastor, para a esconder, mas ela é capturada, torturada e queimada por alegadamente praticar bruxaria. Quando o filho do pastor, Martin, regressa a casa, fica fascinado pela beleza da madrasta, e acabam por se apaixonar os dois. O amor de Anne por Martin torna-se tão intenso que chega a desejar que o marido morra...
O realizador Carl Theodor Dreyer é conhecido pelo ambiente austero dos seus filmes, e pela sua abordagem de assuntos como a fé e o sofrimento humano. Uma década depois do seu famoso filme, "Vampyr",  ele fez um filme que é celebrado por muitos como a sua verdadeira obra-prima, o seu trabalho mais representativo do Dreyer homem, e do Dreyer cineasta. Passado durante o período da caça ás bruxas no século 17, Dreyer mostra-nos uma comunidade atormentada pelo medo. Por um lado, medo de serem acusados de bruxaria e serem brutalmente assassinados pela comunidade, por outro lado, medo de serem tentados pelo diabo, e serem atirados para o inferno por toda a eternidade. O filme foi feito durante a ocupação Nazi da Dinamarca, durante a Segunda Guerra Mundial, e é difícil não ver os paralelismos destas duas realidades.
"Vredens Dag" faz parte de uma trilogia com "The Passion of Joan of Arc (1928) e Ordet (1955). O que os três filmes têm em comum é uma crença no espírito humano para suportar qualquer calamidade, através ou em vez da religião. "Vredens Dag" é o mais obscuro dos três, o mais pessimista, mas Dreyer ainda consegue transmitir que o sofrimento mortal é transitório e que o sentimento humano é eterno e vai triunfar no fim. Os três filmes mostram a religião de um modo muito irónico, talvez subversivo. O subtexto escondido, é que a religião é um grande mal para a humanidade, ao passo que a fé é a sua grande salvação. As consequências da aderência cega à religião estão bem aparentes neste filme. Por contraste, Dreyer retrata a verdadeira fé com o mais nobre dos sentimentos: a vontade de transcender o "agora" e o "aqui", libertando todo o caos e o tumulto das vidas na terra.

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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Expresso de Munique (Night Train to Munich) 1940



Quando os alemães marcham para Praga o inventor de armamento, Dr Bomasch, foge para Inglaterra. A sua filha Anna (Margaret Lockwood), foge da prisão para se juntar a ele, mas o líder da Gestapo consegue raptá-los e enviá-los de novo para Berlin. À medida que a guerra se desenvolve o agente secreto britânico Gus Bennet (Rex Harrison), segue-os disfarçado de oficial alemão.
De certa forma este é o protótipo dos primeiros tempos do thriller de espionagem britânico, antes dos bombardeamentos começarem a sério, antes do V-12, antes da extensão do Holocausto ser conhecida, por outras palavras, foi feito no tempo em que o filme de espionagem podia ser uma aventura divertida, um desafio à masculinidade e ao poder britânico. Continuava a ser uma questão de vida ou de morte, mas era possível que com a inteligência podia-se derrotar os alemães. É um filme muito mais light do que os filmes cinzentos realizados no pós-guerra pelo mesmo Carol Reed, como "The Third Man". Esta versão de Munich da Segunda Guerra Mundial servia muito mais como cenário alarmante do que como um desafio visceral à moralidade da espécie humana. Esta abordagem de Reed é um pouco cómica, e teve sucesso mais graças ao excelente elenco do que propriamente ao argumento.
"Night Train to Munich" tem muito a partilhar com um filme de Alfred Hitchcock, realizado no ano anterior "The Lady Vanishes". Tês membros do elenco, os argumentistas Frank Launder e Sidney Gilliat, uma história à volta de uma intriga internacional, e uma extensa sequência a bordo de um comboio. Há um bom balanço entre comédia e acção, e o filme também funciona bem como veículo de propaganda para a entrada da Inglaterra na guerra.

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terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Correspondente de Guerra (Foreign Correspondent) 1940



Johnny Jones (Joel McCrea) é o correspondente de um jornal de Nova Iorque, que viaja para a Europa sob o pseudónimo de Huntley Haverstock, quando a Segunda Guerra Mundial estava prestes a rebentar. Chega primeiro a Londres mas logo depois está em Amsterdão, onde testemunha o assassinato de Van Meer (Albert Bassermann), um diplomata holandês. Entretanto ele descobre que quem morreu foi um sósia, e que Van Meer na verdade foi raptado pelo inimigo, que pretende arrancar dele alguns segredos. Jones entra em desespero porque a sua história é um bocado absurda, e ninguém acredita nele, e ao mesmo tempo o inimigo pretende matá-lo.
Embora "Foreign Correspondent" seja um dos filmes menos conhecidos de Alfred Hitchcock, (apesar das suas seis nomeações aos Óscares, que perderia para outro filme seu, "Rebecca"), é normalmente esquecido entre as listas de clássicos do realizador, sendo inclusivé considerado um filme de série B por alguns fãs, é, no entanto, um dos seus filmes mais eficientes no que diz respeito a entretimento. Podemos encontrar aqui algumas cenas clássicas, como a perseguição através de uma multidão de chapéus de chuva, a sequência nos moinhos de vento holandeses, a queda da torre da Catedral Westminster, e o clímax que incluí uma queda de um avião no oceano, sequência que parece bem feita demais para os seus dias. A ausência de popularidade deste filme talvez se deva à escolha dos protagonistas, Joel McCrea e Laraine Day, que,de facto não se identificam muito com os habituais protagonistas do realizador (a primeira escolha era Gary Cooper e Joan Fontaine).
Há uma tendência propagandista no filme, começando no título americanizado, que se desmascara a si próprio no argumento de Ben Hetch, Charles Bennett e Joan Harrison, apesar de Hetch não aparecer creditado. Durante o epílogo, mostrando o bombardeamento de Londres, faz-se a sugestão que os Estados Unidos se deviam preparar para um conflito armado, e que teriam de ser eles a ser os bastiões da paz num mundo prestes a ficar em chamas. O verdadeiro bombardeamento a Londres pelos alemães registou-se apenas três dias antes do lançamento do filme.
Embora o argumento estivesse em desenvolvimento há vários anos, estava bem em sintonia com os tempos caóticos em que foi feito. O filme é um precursor de um futuro grande êxito de Hitckcock, "North by Northwest", e quase tão divertido.

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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Alexander Nevsky (Aleksandr Nevskiy) 1938



Sobretudo, é um excelente pedaço de propaganda histórica sobre o espírito guerreiro russo, como ele liga o passado e o presente através da expressão do patriotismo. É passado no século XIII, numa altura em que os russos estão a ser invadidos por forasteiros. O heróico, piedoso, e inocente príncipe Alexander Nevsky (Nikolai Cherkasov) derrota os invasores suecos e é declarado herói nacional. Logo depois derrota os mongóis graças às suas lendárias habilidades de batalha. Finalmente ele consegue unir o povo de  Novgorod, para combater uns invasores mais sinistros: os alemães. Na primavera de 1242, com a ajuda dos seus comandantes Vasili (Nikolai Okhlopkov) e Gavrilo (Andrei Abrikosov), atacam o adversário alemão numa sangrenta batalha no gelo.
Ajudado pela enorme banda sonora de Sergei Prokofiev, e uma carismática interpretação de Cherkasov no papel do cavaleiro corajoso e salvador do seu país, e pelas cenas de combate espectaculares, que resultam num épico histórico intemporal, e como uma homenagem ao espírito da humanidade de lutar pela liberdade. O filme foi retirado por Stalin dos cinemas na altura em que foi lançado por causa da assinatura de um pacto germânico-soviético, mas quando os Nazis, um ano e meio depois, quebraram o pacto e invadiram a URSS, o filme foi colocado de novo em exibição, e com muito êxito.
A ligação entre os teutões alemães do século 13 e o exército Nazi do século 20 era por demais evidente, e essa foi a razão pela qual Stalin em primeiro lugar baniu o filme, por estar consciente do quanto poderoso o filme era, ao caracterizar os alemães como animais. Eisenstein era incapaz de fazer um filme que não fosse uma complexa obra de arte, e consegue juntar todo o seu talento em "Alexander Nevsky", um filme que, narrativamente falando, é um dos seus mais simples.

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domingo, 22 de fevereiro de 2015

O Triunfo da Vontade (Triumph des Willens) 1935



"O Triunfo da Vontade" mostra-nos muitos membros do Partido Nazi assim como soldados, marchando ao som de música clássica, cantando, jogando e cozinhando; também inclui trechos sonoros de discursos dados por vários conselheiros para Adolf Hitler, porções de discursos do próprio Hitler. O filme tenta mostrar como os alemães mostravam a sua lealdade à pessoa de Hitler.
Documentário altamente controverso da demonstração do poder Nazi nos anos que antecederam a guerra. Ao mesmo tempo é um filme grande e poderoso, elogiado pelo mundo do cinema, que tem sido uma influência incalculável ao longo dos anos, para caminhos cinematográficos posteriores, fossem eles documentários ou obras de ficção. No entanto, ao mesmo tempo, é igualmente detestado, visto como uma ameaça (ainda é proibido na Alemanha, fora do estudo académico), visto como uma glorificação do mal, e até mesmo julgado como não sendo um documentário de todo.
No ano de 1934 Leni Riefenstahl foi convidada por Hitler para filmar uma conferência/comício de 4 dias em Nurenberga, tendo sido lhe dada ajuda nunca antes vista num único filme. E foi graças à ajuda de Hitler que forneceu a Riefenstahl tanta ajuda, que o filme chegou a ser considerado o mais documentário até então filmado. É lógico que o objectivo de Hitler era fazer uma demonstração do poder que então tinha.
Qualquer que seja a nossa opinião, é inegável a mestria técnica aqui vista. Uma equipa de mais de 170 técnicos foram utilizados nas filmagens (16 equipas de operadores de câmeras), e foram filmadas cerca de 60 de imagens, que foram editadas no final, para a impressão final que resultou num filme com quase duas horas.
Riefenstahl, inevitavelmente tornou-se numa das figuras mais controversas da história. Em entrevistas posteriores ela insistiu que tinha ficado fascinada pelo Nazismo, mas politicamente era ingénua, e ignorava as falhas cometidas na guerra, uma posição que alguns dos seus críticos consideraram rídicula.

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sábado, 21 de fevereiro de 2015

Sob a Influência da Guerra

1939/45: Segunda Guerra Mundial. Muitos constrangimentos foram criados para o mundo cinema dos países envolvidos nesta guerra. Neste período de tempo, não se deixou de fazer cinema, apesar da censura, das demandas de propaganda, da devastação das batalhas, da diminuição dos recursos, muitos realizadores em ambos os lados do conflito conseguiram fazer filmes, em alguns casos autênticas declarações pessoais sobre a guerra.
Surgiu-me a idéia de fazer um ciclo, não sobre a Guerra porque isso ficará para outra altura, mas de filmes que de algum modo tenham sido feitos sob a influência desta. Quer seja sobre os bastidores, ou seja sobre a guerra de espionagem vista em filmes como "Foreign Correspondent" de Hitchcock, ou "Night Train to Munich", de Carol Reed, quer seja em filmes onde o tema da guerra esteja escondido, apenas visto subtilmente, mas que esteja bem presente, como em obras como "Le Corbeau" de Clouzot, ou "Vredens Dag", ambos filmados durante a ocupação Nazi. 
Cada um destes seis filmes que iremos ver são originários de um país diferente. Deixei de fora a Itália, de quem já tínhamos visto alguns destes filmes no ciclo Viagem a Itália, sobretudo os de Rosselini, mas tinha de incluír a grande causadora da guerra, a Alemanha, de quem iremos ver o maior filme de propaganda Nazi, "Triumph des Willens", apesar de ter sido realizado alguns anos antes da guerra começar.

Sendo assim, esta é a programação desta semana:

Domingo: "Triumph des Willens" (1935), de Leni Riefenstahl

Segunda: "Aleksandr Nevskiy" (1938), de Sergei M. Eisenstein e Dmitriy Vasilev

Terça: "Foreign Correspondent" (1940), de Alfred Hitchcock

Quarta: "Night Train to Munich" (1943), de Carol Reed

Quinta: "Vredens Dag" (1943), de Carl T. Dreyer

Sexta: Le Corbeau (1943), de Henri-Georges Clouzot



Chantrapas (Chantrapas) 2010



Nicolas é um artista, um cineasta, que só deseja expressar-se e a quem todos desejam reduzir ao silêncio. Quando inicia a sua carreira na Geórgia, os "ideólogos" esperam amordaçá-lo, preocupados com o facto de a sua obra não seguir as regras fixadas. Perante a determinação daqueles, Nicolas deixa a sua terra natal e viaja para França - a terra da liberdade e da democracia. Mas o "estado de graça’ não vai durar muito.
O georgiano Otar Iosseliani, um estudante de Aleksandr Dovzhenko, já vinha a trabalhar em França desde o início dos anos 80. "Chantrapas" era o seu primeiro filme sobre um tema relacionado com a Rússia/Georgia em quase quinze anos. O título do filme deriva da expressão "(ne) chantera pas" (não vou cantar), aparentemente usada num passado distante. Um mestre a descobrir componentes de contos de fadas alegóricos nas mais básicas circunstâncias, Iosseliani rodeia Nicolas com assistentes mágicos improváveis.
Iosseliani nunca perde a oportunidade de fazer reviver a carreira de um velho profissional. Por exemplo, neste filme temos o actor e realizador vencedor de um Óscar Pierre Étaix, que se tornou realizador na década de 50 sob a tutela de Jacques Tati, mas que já tinha deixado a cadeira da realização desde os anos 80, e que desempenha na perfeição o papel de um produtor francês.
Para o realizador, este filme é “um retrato colectivo de cineastas”. “Sempre consegui tudo o que queria, ainda que os meus filmes fossem proibidos”. Homogeneamente filmado por dois diferentes directores de fotografia, um em França e o outro na Geórgia,  o filme é feito com o estilo simples que já nos habituara Iosseliani, sugerindo que contar uma história de uma forma convincente nunca foi uma qualidade essencial aos seus olhos.
Passou no festival de Cannes de 2010, extra festival.

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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Segunda de Manhã (Lundi Matin) 2002



Todas as segundas de manhã, Vincent começa a mesma rotina monótona. Uma hora e meia de trânsito até ao trabalho pouco inspirador numa fábrica. Em casa, as obrigações familiares que estão sempre a interromper a sua paixão pela pintura. Vincent já não suporta as segundas de manhã! Esta farto da fábrica, da mulher e das crianças, das contradições incompreensíveis da vida e do dia-a-dia do sítio em que vive. O velho Albert todos os dias faz o mesmo caminho. Cansado, um dia, Vincent resolve ver um pouco do mundo e viaja até Veneza. Talvez aí ele consiga encontrar o que falta na sua vida...
O georgiano Otar Iosseliani tem um grande fascínio pelos pequenos detalhes da vida das pessoas, e pela forma como elas lidam com as surpresas, decepções, e prazeres que surgem nas suas vidas. Vincent encontra o seu lugar em Veneza. O pai dá-lhe o dinheiro que ele precisa e diz-lhe para procurar um parente afastado, que por acaso é uma pessoa bastante desagradável que se apresenta como um cavalheiro rico, e bastante conhecedor das artes.
Nada liga o filme de cena para cena, para além de um egocentrismo central. Toda a gente está tão preocupada com a sua vida, que não ligam a mais coisa nenhuma. Mas isso é tudo muito divertido, e as pessoas fazem coisas muito peculiares e engraçadas. Mais uma vez com um diálogo escasso, o filme é quase completamente em silêncio. Há algumas sequências extremamente astutas e inteligentes: um churrasco surreal numa praia italiana, um analfabeto a escrever uma carta de amor, e também muitas personagens excêntricas, como um carteiro que lê o correio de toda a gente, um padre que espia as mulheres casadas através de um telescópio, ou uma idosa num carro desportivo. O humor é suave e inofensivo para toda a gente, seco, sarcástico, e absolutamente genial.  

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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Adeus, Terra Firme (Adieu, plancher des vaches!) 1999



"O rico que finge ser pobre (inserido numa família altamente disfuncional) e o pobre que finge ser rico (na procura das conquistas femininas). O valor do materialismo, a sua inevitabilidade. Comédia urbana, fábula lírica e social da amizade, da liberdade e da injustiça no mundo. Adieu, Plancher des Vaches! é ouro sobre azul, condição irremediável do ser humano aquela que o relega para o virtuosismo duma postura social, para a força intrínseca do indivíduo na persuasão do próximo (e consequente êxito) de acordo com as regalias (ou falta delas) sociais. Iosseliani impugna qualquer romantismo (e integridade) inerente ao Homem. Condena tanto o pobre como o rico. Mergulhado na clareza do seu cinema, aliado a um sentido clássico que grita pelos primórdios da humanidade, Adieu, Plancher des Vaches! explora um certo sentido absurdo e cruel dessa mesma humanidade.
 No entanto, a pérola das pérolas é a condução narrativa e a mise-en-scène de Iosseliani. O ritmo das acções, o encadeamento e desenrolar da narrativa, os movimentos de câmara pacientes mas fundamentados reforçam essa vitalidade que o protagonista parece conter. A clareza das imagens, a energia da acção, a câmara que procura preferencialmente a distância (a indicação da alheação daquela família e daquela gente). Iosseliani filma aquele universo conferindo-lhe uma identidade própria. Há ali muito sarcasmo, muita fome de mandar foder o mundo (por isso os dois bêbedos que se assimilam surpreendentemente apesar do antagonismo social e aquele final em que os dois caminham rumo à liberdade), muita fome de igualdade social. Foi o primeiro filme de Iosseliani que vi, mas confesso que fiquei com vontade a mais."
Texto do Álvaro Martins, tirado daqui.

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terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Os Favoritos da Lua (Les Favoris de la Lune) 1984



Primeiro filme de Otar Iosseliani em França, é uma meditação consistente e interessante sobre as reviravoltas bizarras do destino, que unem pessoas e objectos por acaso, e depois os afastam de novo. O filme podia-se chamar "As Aventuras de um Quadro do Século XIX e de uma Porcelana do Século XVIII" pois estes objectos são passando de mão em mão na vida de várias pessoas, como um negociante de arte, um ladrão, um inspector de polícia, um negociante de armas, um esteticista, vários vagabundos e um velho doido.
 Enquanto a idéia de objectos como ponto em comum em várias histórias pode não ser uma idéia totalmente original, é noutro ponto que a película de Iosseliani se destaca. O realizador dá ao espectador vislumbres de um passado supostamente rosado quando a aristocracia rural tinha prazer em pequenos luxos como louças pintadas à mão, ou objectos de arte completamente manuais. Mas mesmo no passado, há insinuações de mudanças. A qualidade da narrativa neste filme, sugere que apenas a vida dos objectos tem estabilidade, mas a idéia da "permanência do objecto", numa última análise, é tanto uma ilusão como qualquer outra coisa neste filme.  
Com uma paciência pitoresca, o realizador cria um drama fascinante sobre a serenidade da vida e a evanescência das coisas. Ganhou dois prémios no festival de Veneza em 1984, incluíndo o prémio especial do Júri.

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