quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

Poseban Tretman (Poseban Tretman) 1980

Carregada com algum comentário social e político, esta comédia ocasionalmente hilariante e consistentemente engraçada, olha para um alcoólatra, Dr. Ilich (Ljuba Tadic), que trata o alcoolismo nos outros com uma mão de ferro e uma abordagem terapêutica invulgar. Entre a música de Wagner e uma dieta em que as maçãs aparecem em destaque, o médico está convencido de que os seus pacientes serão curados. O que realmente os aflige, é o que lhes causou o problema do álcool, então quando o médico leva os seus seis pacientes a uma cervejaria próxima para demonstrar o sucesso do seu tratamento, o resultado é o caos.
Goran Paskaljevic, natural da antiga Jugoslávia, do território que é hoje a Sérvia, conta-nos uma história de um grupo de alcoólatras em recuperação e o seu respectivo médico. O grupo, ao longo do filme, é retratado como submisso, embora não no sentido de precisarem de um tratamento radical que lhes altere a vida, como é o tratamento do Dr Ilich. São forçados pelo estado a se comprometerem totalmente com o tratamento, o que significa que não são voluntários, e não terão vida fora do tratamento até estarem totalmente "curados".
O filme é menos sobre questões de doença e tratamento do que é sobre questões sobre poder e autoridade. O doutor está a dominar questões quase absurdas sobre este grupo de pacientes, mas esta obra também fala sobre outras verdades nas entrelinhas. Alguns dos actores envolvidos eram alcoólicos de verdade, e de certa forma este era o papel das suas vidas. Peter Kralj, um dos protagonistas, chegou mesmo a dizer: "Quando eu estava sóbrio o nervosismo fez-me gaguejar em cena, e enquanto eu estava bêbado a gagueira desapareceu, mas, infelizmente, a minha memória também, o que me fez esquecer algumas frases." 
Nomeado para a Palma de Ouro. Legendas em inglês.

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quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

O Terraço (La Terraza) 1980

Cinco amigos de longa data reúnem-se para jantar num terraço do apartamento de um deles, situado em pleno centro de Roma. As conversas e a s confidências sucedem-se. É visível que o entusiasmo de outrora deu lugar a uma profunda desilusão devido a sucessivos fracassos, tanto a nível profissional como sentimental. O argumentista vive uma crise artística; o produtor de cinema é desprezado pela mulher; o jornalista de esquerda, recém-abandonado pela esposa, perde o emprego; o deputado do PCI envolve-se com uma jovem casada; e o diretor de uma rede de televisão renuncia à vida.
Uma boa oportunidade para ver novamente o grande sentido de crítica e amor de Ettore Scola pela sociedade contemporânea italiana, misturando de forma tragicómica a política, a crise de meia-idade, o casamento fracassado, o amor, a infidelidade, o suicídio, a amizade, e o papel dos intelectuais. 
Um destaque muito especial para o grandioso elenco, com nomes como Vittorio Gassman, Ugo Tognazzi, Jean-Louis Trintignant, Marcello Mastroianni, Serge Reggiani nos principais papéis, e ainda, a bela Stefania Sandrelli, e a quase estreante Marie Trintignant, filha de Jean-Louis, em papéis secundários. 
Não é dos melhores filmes de Scola, mas tem os seus créditos, que valeram a Scola a sua quarta nomeação para a Palma de Ouro.

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segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Bye Bye Brasil (Bye Bye Brasil) 1980

Uma caravana de cinco artistas viajam pelo interior do Brasil exibindo espetáculos numa tenda improvisada. O filme funciona no estilo de vinhetas ao analisar os muitos cenários e dificuldades que  o grupo encontra, além de fazer uma declaração muito forte sobre a pobreza e as dificuldades que as pessoas do interior enfrentam. A história é dirigida pelos personagens que são, em geral, amorais.  Reflectem o desespero das audiências que esperam silenciosamente o dia para se elevarem, mas nunca o fazem.
""Bye, Bye, Brasil" é sobre um país que está a acabar e a abrir caminho para outro que está a começar. Não sei exactamente o que está a começar nem o que está a acabar. Estou apenas a gravar esse momento único, essa linha divisória num grupo de pessoas, que, como qualquer um de nós, buscam o seu lugar, na nova ordem e na vida.". Carlos Diegues, um dos fundadores do Movimento do Cinema Novo, usou estas palavras para descrever o seu oitavo filme, no qual ele permaneceu fiel a um dos seus temas preferidos: a busca pela liberdade e o desejo pela maior felicidade. Tema este que já tinha sido explorado na sua bela trilogia sobre figuras históricas negras: "Ganga Zumba, Rei dos Palmares" (a sua primeira longa metragem, feita em 1963); Xica da Silva (1975), e, posteriormente, em "Quilombo" (1983). 
Com um elenco onde se destacavam alguns nomes do cinema e da televisão brasileira, como José Wilker, Betty Faria e Fábio Júnior, valeu a Carlos Diegues a sua primeira seleção para Cannes, tendo concorrido para ganhar a Palma de Ouro.

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domingo, 12 de janeiro de 2020

O Bando de Jesse James (The Long Riders) 1980

As Origens, façanhas e o destino final do bando de Jesse James, são contados num retrato simpático dos assaltantes de bancos compostos por irmãos, que iniciam os seus lendários ataques por vingança. 
"The Long Riders" era mais uma entrada (entre muitas) nos westerns sobre o bando dos irmãos James-Younger, os famosos assaltantes de bancos, mas também um dos esforços mais interessantes para cobrir o território. O realizador Walter Hill tem um dos seus melhores trabalhos por detrás das câmeras, o seu primeiro filme directamente no território do Western, com um certo pendor Peckinpah-esque (talvez um pouco demais, até) capturando a brutalidade e a violência sangrenta do pistoleiro ocidental. Hill tem fama de ser o verdadeiro sucessor de Peckinpah, a até chegaram a trabalhar juntos, e, definitivamente, este foi dos filmes que mais ajudou a criar o mito. 
Grande parte do filme conta a história da queda do bando dos irmãos James-Younger, como a agência de detetives Pinkerton conseguiria apanhá-los nas suas casas das famílias do Missouri, enquanto os cofres tornavam-se cada vez mais difíceis de arrombar. Para dar maior realismo, o elenco de irmãos na tela é interpretado por irmãos na vida real - os três Carradines (David, Keith e Robert) como os Youngers, os dois Quaids (Dennis e Randy) como o Millers, e dois Keaches (Stacy e James) como os irmãos James. Mesmo o elenco de apoio tem irmãos na forma de Christopher Guest e Nicholas Guest como os irmãos Ford. Curiosamente, os irmãos não são pintados nem como bons, nem como maus, eles têm respeito uns pelos outros, mas irão cometer alguns atos hediondos, incluindo assassinatos, que só pode ser visto como repreensível. 
O filme foi selecionado para a competição da Palma de Ouro. Foi o único filme de Walter Hill a ser selecionado para a Palma de Ouro, até hoje.

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sábado, 11 de janeiro de 2020

O Plano dos Seus 19 Anos (Jukyusai no Chizu) 1979

Um jovem faz um mapa de um bairro onde entrega jornais. Mantém um dossier de cada família onde regista os seus hábitos, e avalia o quanto não gosta deles. Uma família, por exemplo, tem um X porque o seu cão ladre muito. Um homem recebe um X porque se recusa a pagar as suas contas. O mais assustador é que este jovem declara ser da extrema-direita, e em breve começa a perseguir estas famílias com ameaças de bombas.
Produzido de forma totalmente independente, este filme de Mitsuo Yanagimachi (realizador do documentário Godspeed You! Black Emperor")  não seria apenas a sua primeira longa metragem de ficção, como seria também a sua primeira colaboração com o  escritor Kenji Nakagami, autor da "short story" na qual este filme é baseado, e com quem ele trabalharia anos mais tarde naquela que é considerada a sua obra-prima, "Himatsuri" (1985). 
Seguimos um jovem problemático que podia ser um qualquer candidato a terrorista nos dias de hoje, mas Yanagimachi em vez de nos apresentar explicações simples para este comportamento anti-social, apenas descreve as acções e permite e decida porque razão estas coisas estão a acontecer. Questões de responsabilidade pessoal versus influências sociais, são completamente deixadas ao espectador para ele resolver. 
Honras de passagem por Cannes, seria exibido na Semana Internacional da Crítica, e alguns meses depois passaria pelo Festival da Figueira da Foz.
Legendas em Inglês.

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quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

Reviver Cannes 1980

Estamos na hora de festival. Uma ideia que já recriamos aqui em 2 ou 3 ciclos, foi de pegar numa edição de um determinado festival de cinema, e reproduzi-la, em grande parte, num único ciclo.
Desta vez o festival escolhido foi o de Cannes, e vamos viajar até ao ano de 1980. As próximas semanas irão contar um uma série de filmes que passaram no Festival de Cannes deste ano. As grandes surpresas, os grandes vencedores, ou os grandes derrotados.
Não querendo avaliar se este ano foi melhor ou pior do que os outros, posso garantir que vamos aqui ter filmes de realizadores como Akira Kurosawa, Samuel Fuller, Hal Ashby,  Jean-Luc Godard, entre muitos outros.
Não vale fazerem batota, não consultem, para já, a internet para saber quem ganhou. Vamos seguir este ciclo, e depois, no fim, veremos se concordamos com o júri ou não.
 Passo a apresentar os membros do respeitável júri:


Kirk Douglas (USA) Jury President
Ken Adam (UK)
Robert Benayoun (France)
Veljko Bulajić (Yugoslavia)
Leslie Caron (France)
Charles Champlin (USA)
André Delvaux (Belgium)
Gian Luigi Rondi (Italy)
Michael Spencer (Canada)
Albina du Boisrouvray (France)

Ficamos com um dos vencedores do ano anterior, e até amanhã.


quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

Laissez-Passer (Laissez-Passer) 2002

Durante a ocupação alemã na França, na 2ª Guerra Mundial, uma produtora alemã chamada Continental começa a produzir filmes franceses. Jean-Devaivre (Jacques Gamblin) é um assistente de realização que decide trabalhar na Continental, com o intuito de disfarçar as suas atividades na resistência. Ele é um homem de ação. Já o argumentista Jean Aurenche (Denis Podalydès) prefere recusar todas as ofertas feitas pelos alemães. É um homem reflexivo, que se encontra dividido entre as três diferentes amantes e que faz da escrita a sua forma particular de negar-se ao cerco nazi. Outros dez personagens são retratados, alguns aderindo aos nazis e outros rebelando-se, mas todos envolvidos na luta pela sobrevivência.
O argumento é baseado nas conversas de Bertrand Tavernier com o realizador Jean Devaivre e o argumentista Jean Aurenche. As suas histórias são o núcleo central do filme, que é a causa do deslocamento emocional do filme à medida que a câmara muda de uma personagem para outra. Embora os dois homens habitem o mesmo ambiente, eles nunca se encontram, excepto de passagem, e as suas vidas são muito diferentes. Tavernier consegue recriar as condições sob as quais os filmes eram feito na França do início dos anos 40. Os chefes de estúdio alemães são recriados, não como filisteus, mas como mestres de tarefas difíceis. Mais do que tudo, eles querem que os seus projectos sejam entregues dentro do prazo, e do orçamento, mantendo os mais altos padrões de qualidade artística. A polícia secreta nazi vai pairando pelo ar, e a paranoia alimenta-se do medo. Isso é garantido.
A melhor forma de acabar este ciclo. Espero que tenham gostado.
Legendas em inglês.

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segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

Les Caves du Majestic (Les Caves du Majestic) 1945

Madame Petersen, a esposa de um rico homem de negócios sueco, é assassinada no Hotel Majestic em Paris e o Chefe Inspector Maigret é chamado a investigar. As suspeitas imediatamente caem num antigo amante da mulher, Arthur Donge, que se vem a descobrir ser o pai natural do único filho dela. Maigret não está convencido das culpas de Donge, até descobrir que ela antes de morrer estava a ser chantageada por alguém com as iniciais "A.D." Parecia ser um caso de fácil solução, mas nem sempre as coisas são o que parecem...
Albert Préjean mais uma vez a interpretar o famoso detective dos livros de Georges Simenon. Por esta altura ele estava já bem familiarizado com o papel, embora a sua interpretação tivesse pouco a ver com o personagem dos livros. O seu herói era uma espécie de cruzamento entre Dirty Harry e o Tenente Colombro, embora tivesse muito melhor sentido para se vestir.
Era o último filme feito pela Continental, durante a Ocupação. Apesar do filme ter sido filmado em Fevereiro de 1944, o único da Continental a ser filmado nos estúdios da Rue de Château, em Neuilly, só seria estrado em Agosto de 1945, e então distribuído pela então recém formada Union Générale Cinématographic (UGC). A popularidade da sua principal estrela Préjean garantiu o sucesso do filme, apesar da sua associação com a então desacreditada Continental, com o seu logo a ficar, inclusive ausente dos créditos. 
Apeesar deste ser o último filme da Continental, amanhã ainda temos uma surpresa para fechar com chave de Ouro.
Legendas em Inglês.

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sábado, 4 de janeiro de 2020

Cécile Est Morte! (Cécile Est Morte! ) 1944

Há seis meses que Cécile anda a pedir protecção para a polícia, convencida que a sua vida corre perigo. Ninguém parece acreditar nela, apesar dela estar convencida que alguém anda a fazer repetidas visitas noturnas à casa onde vive com a tia. Como a polícia não parece querer ajudá-la pede ajuda ao irmão para vigiar o seu apartamento de noite em troca de dinheiro. O Inspector Maigret anda demasiado ocupado com crimes que já tiveram lugar para dar resposta aos medos de Cécile. Até que uma jovem mulher desconhecida é encontrada morta num quarto de hotel com a cabeça cortada, e com o nome "Cécile" escrito no espelho. 
Depois de uma interpretação bastante convincente como Inspector Maigret em "Picups" de Richard Pottier, um filme que não veremos neste ciclo, Albert Préjean voltaria ao papel mais duas vezes, assistido por André Gabriello, o seu sidekick Lucas. O filme, apesar de bastante interessante, falha um pouco na captura da atmosfera dos livros de Georges Simenon, com Préjean a dar uma interpretação mais rebelde da personagem, apesar do filme ter uma fotografia bastante noir, e uma iluminação que cria um ambiente de tensão e opressão crescente.
Seria o último filmes que Maurice Tourneur fazia para a Continetal, um realizador cheio de recursos que na sua juventude tinha sido um dos grandes pioneiros do cinema americano, autor de joias cinéfilas como "The Blue Bird" (1918). No seu regresso a França, no início do cinema sonoro, Torneur dedicou-se mais a filmes de crime, desenvolvendo a estética do cinema noir. O seu filho Jacques tinha ficado nos Estados Unidos, e por esta altura tinha já alcançado sucesso na RKO, com filmes de série B como "Cat People", "I Walked With a Zombie" ou "The Leopard Man".
Legendas em inglês.

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quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

O Vale do Inferno (Le Val D'enfer) 1943

O "Vale do Inferno" é uma pedreira na zona rural de França, e quando o seu chefe casa com a filha rebelde do seu falecido melhor amigo, ela começa a despedaçar a sua família. Começa pelos mais velhos.
"Le Val D'Enfer" foi o quarto de cinco filmes que Maurice Tourneur fez para a Continental, todos eles compreendidos entre 1941 e 1944, e é facilmente um dos seus filmes mais obscuros, com o seu ambiente negro a reflectir a era em que foi feito. O filme possui um respeitável elenco com uma série de estrelas já estabelecidas no panorama do cinema francês da altura, como Ginette no papel principal. A personagem de Leclerc é, de facto, muito venenosa e demonstra uma total falta de humanidade e compaixão enquanto destrói a vida de cada pessoa que lhe oferece ajuda e atenção. Nem é necessário dizer que o filme afectou também muito negativamente a imagem da actriz.
Em parte devido ao resultado do filme ter sido rodado em exteriores, numa pedreira verdadeira, tem um sentido de realismo diferente da maioria dos filmes da altura. As interpretações naturalistas e a fantástica fotografia fazem a história ficar muito absorvente. A presença de regulares de Marcel Pagnol como Edouard Delmont e Charles Blavette dão ao filme uma autenticidade quase neo-realista.
Ironicamente, Leclerc, pela associação com a Continental, seria presa depois da Libertação, e como resultado, nunca mais teria um papel importante no resto da carreira. Além deste filme, ela seria também protagonista de "Le Corbeau", um outro filme da Continental mal compreendido.
Legendas em inglês.

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sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

2019 no M2TM

Chega assim ao fim mais um ano de Thousand Movies.
Foi um ano bastante activo por aqui. Fiquei com mais tempo para o blog, e tivemos mais filmes. Desde 2015 que não tínhamos tantos filmes publicados durante o ano. Foi um ano que trouxe uma nova rubrica, parecida com a antiga "5x5", que teve lugar, principalmente, no blog anterior. Em "Quem programa Sou Eu" são os nossos leitores que são convidados a organizar o seu próprio ciclo, e a escolherem os filmes a serem postados.
Foram sete os convidados que fizeram parte desta rubrica. O Carlos Natálio e o Alexandre Mourão preferiram uma abordagem mais pessoal e escolheram filmes que os ajudaram a crescer enquanto pessoas. O Álvaro Martins escolheu os temas Melancolia e Desolação para o seu ciclo. O José Oliveira escolheu o tema Desporto, e o João Palhares o tema "Os Cineastas e a Televisão", e os três acompanharam os filmes com brilhantes textos seus. O Rafael Lima escolheu para tema do seu ciclo o Catálogo Janus Films, e terminamos o ano com o ciclo da Inês Esteves e um fantástico ciclo sobre a produtora Continental Films. Este ciclo ainda não terminou, vai acabar no início de Janeiro, mas aqui fica desde já o meu agradecimento a todos pela colaboração e por todos os bons momentos proporcionados. Espero muitas mais colaborações em 2020.
Ao longo do ano tivemos ainda uma série de ciclos preparados minuciosamente, com o objectivo de trazer um diferente ponto de vista a todos os seguidores do M2TM. Vamos lá fazer um resumo:
Começamos o ano com o ciclo "Fotofilme", em colaboração com um curso da Universidade Nova organizada pelo Luís Mendonça. Em Fevereiro iniciou-se um ciclo bastante prolongado sobre o "Giallo", em que vimos cerca de 26 filmes. Em Março tivemos um ciclo sobre um realizador brasileiro a descobrir, Olney São Paulo, com alguns filmes inéditos na internet. Textos exclusivos do Yves São Paulo, um familiar do realizador. Logo depois chegaram os filmes da década de 30 de John Ford, até ao momento em que ele partiu para a guerra. Em Maio fomos até à Ásia Central, com uma selecção de filmes contemporâneos de países como Cazaquistão, Quirguistão, Tajiquistão, Turquemenistão, e Uzbequistão.
Em Junho chegou o festival Stop Motion, com uma série de curtas e longas metragens de animação, escolhidas a dedo, e feitas com o uso desta técnica. Em Agosto começamos um ciclo sobre um realizador Japonês pouco reconhecido no Ocidente, Kon Ichikawa. Da sua vasta filmografia fizemos uma selecção com cerca de 20 filmes. No final de Setembro foi para o ar o ciclo "Fantasy Lo Fi", com uma série de filmes de fantasia de baixo orçamento, sobretudo europeus. E durante todo o mês de Novembro e parte do de Dezembro um ciclo da Hammer Studios, provavelmente o ciclo que muitos de vós esperavam sobre os filmes de terror desta produtora. Foram perto de 40 filmes, livros, documentários, e muita informação partilhada.
Queria deixar um agradecimento a quem tem partilhado os acontecimentos do blog nas redes sociais, como o Jorge Saraiva, o Marc Nt e o José Carlos Maltez.
Foi um ano bastante intenso, e fica desde já o aviso que o próximo será mais. Sempre que possível com bons filmes e bons e inéditos ciclos.
Vou tirar agora umas miniférias, e volto dia 2 de Janeiro, para continuarmos o ciclo que está a decorrer. Um bom ano para todos. 

quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

Au Bonheur des Dames (Au Bonheur des Dames) 1943

Denise Baudu, uma jovem órfã com necessidades, decide ir para Paris onde o seu tio mantém uma loja de tecidos, "La Vieil Elbeuf", onde espera que o tio a coloque numa boa posição. Infelizmente Octave Mouret, um concorrente visionário do tio, acaba de abrir uma gigante loja nas proximidades, que agora atraí clientes como um íman.  Denise, ao perceber que a loja do tio está a morrer, vai oferecer os seus préstimos a Octave.
"Au Bonheur des Dames" foi uma das produções mais generosas da Continental no período da ocupação. Baseado no 11º livro do escritor francês Émile Zola, "A Saga dos Rougon-Macquart" o filme quase subverte as intenções originais de Émile Zola e oferece uma declaração sem vergonha do Petainismo à sua ideia mais básica. Apesar do seu óbvio contexto político, que lhe valeu algumas críticas pouco favoráveis durante e depois da ocupação, o filme não tem qualquer falha tecnicamente, e um dos filmes visualmente mais impressionantes feitos pela Continental. A escala dos cenários e a atenção aos detalhes são incríveis para um filme do seu tempo, providenciando um dos mais autênticos retratos do Segundo Império Francês. 
O filme foi realizado pelo antigo advogado André Cayatte, o segundo de três filmes que ele fez para a Continental, e era também o seu segundo filme, e já mostrava suficiente talento para tirar o máximo de partido dramático de cada cena, como na sequência do confronto final entre Baudu e o seu rival Mouret. Tal como Zola, Cayatte era muito influenciado pela consciência social dos artistas, e, no futuro , daria a voz a vários importantes temas sociais, como a queda do sistema judicial francês. Este filme não é tão directo a condenar os males da sociedade como alguns dos seus filmes posteriores, mas faz um comentário importante ao poder dos grandes negócios a tomarem conta das nossas vidas, em prejudico dos pequenos negócios.
Legendas em inglês.

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segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

L'Assassin Habite... au 21 (L'Assassin Habite... au 21) 1942

O Inspector Wens investiga o caso de um serial killer que deixa um cartão de visita para as suas vítimas: Monsieur Durand. Quando o Inspector recebe uma pista de que o assassino mora numa pensão resolve infiltrar-se na pensão com a namorada, que só deseja ser famosa para ser cantora, e começa a investigar os outros inquilinos. Um suspeito é preso, mas o assassino continua a matar...
A primeira longa metragem de Clouzot é um filme de um suave contraste com os thrillers carregados de suspense que ele é melhor conhecido, como "Les Diaboliques" ou "Le Salaire de la Peur", e um excelente exemplo do que era conhecido como o "polar" nos anos 40.
"L'Assassin Habite au 21" é um thriller "whodunit" que apesar de ser mais leve que os filmes de Clouzot posteriores, ainda contém alguns elementos perturbantes, e uma técnica surpreendentemente madura e efectiva para alguém que estava ainda a fazer o seu primeiro filme, principalmente por causa dos primeiros cinco minutos, que contêm alguns momentos emocionantes e chocantes. 
Nota-se claramente que viria a ser uma influencia importante para o film noir americano, particularmente na iluminação da atmosfera e na fotografia. Pierre Fresnay repete o seu papel de Inspector Wens, do filme anterior "Le Dernier des Six", que Clouzot igualmente escreveu. Suzy Delair também regressa no papel da namorada de Wens, Mila Milou.
Os censores em tempo de guerra (dos Nazis e do público em geral) foram talvez o factor mais importante para determinar o ambiente do filme. Poderia ter sido um thriller psicológico bem mais obscuro, como aconteceu no seu filme seguinte, "Le Corbeau", mas em vez disso Clouzot optou por uma abordagem mais leve, com algum humor que parece aumentar em vez de aliviar a tensão, com alguns personagens a parecerem algo cómicos no inicio, mas que acabarão por se tronar personagens sinistras.
Legendas em português.



sábado, 21 de dezembro de 2019

A Sua Maior Causa (Les Inconnus dans la Maison) 1942

Hector Loursat, advogado, mora com a filha Nicole numa grande mansão numa cidade da província. Não falam muito entre si, e de alguma forma responsabilizam o outro pela situação: Hector costumava ser um dos grandes advogados da cidade até que a sua esposa o trocou por um homem 18 anos atrás. Desde então que Hector bebe, e deixou de viver, completamente intoxicado pelo álcool. Não se preocupa muito com a filha, que foi criada por uma empregada. Uma noite são ouvidos tiros no andar de cima, e Hector vê uma sombra a fugir, e encontra um homem morto numa cama velha do sótão.
O livro de Georges Simenon de 1940 "Les Inconnus dans la Maison" é um estudo meditativo sobre o colapso social e o descontentamento juvenil que contém uma poderosa crítica às sociedade dos países ocidentais da década de 40. O mesmo pode ser dito da magnifica adaptação para cinema de Henri Decoin, uma das primeiras e mais bem sucedidas tentativas de trazer o universo sombrio e melancólico de Simenon para o grande ecrã. Era o segundo filme que Decoin fazia para a Continental, e seria difícil ser mais diferente em tom e assunto do seu primeiro filme: "Premier Rendez-Vous" (1941), uma comédia romântica de estilo americanizado.
Henry Decoin é considerado um dos realizadores franceses mais versáteis apesar da maior parte da sua carreira ser conhecida por comédias ligeiras. "Les Inconnus dans la Maison" mostra um lado diferente de Decoin, mais escuro, mais pessimista, mais consciente de uma realidade sombria da vida real. Sem dúvida o seu melhor filme, igualado apenas pelo ainda mais sombrio "La Vérité Sur Bébé Dongue" (1952), outra suberba adaptação de Simenon. 
O argumento era de Henri-Georges Clouzot que, tal como Decoin, havia começado a sua carreira na Alemanha a fazer versões de filmes franceses falados em alemão. O papel de Clouzot na Continental era de supervisionar os argumentos dos filmes da produtora, mas acabaria por escrever e realizar alguns. "Les Inconnus dans la Maison" tem muito em comum com "Le Corbeau", o filme mais conhecido da Continental, como por exemplo a atmosfera arrepiante que recordava os anos da ocupação, e ao mesmo tempo fazia uma crítica à sociedade francesa contemporânea, que neste momento estava dividida. Os dois filmes foram julgados como Petainistas, e foram banidos (injustamente) logo depois da libertação. 
Legendas em inglês.

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quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

Sinfonia Fantástica (La Symphonie Fantastique) 1942

Em Paris por volta de 1825, Hector Berlioz é um estudante de medicina que demonstra mais interesse em música do que na anatomia humana. Convencido de que o seu futuro será de compositor, o jovem Berlioz abandona os estudos e dedica-se às composições musicais encorajado pelo seu amigo Antoine Charbonnel. O mundo ainda não está preparado para Berlioz e o seu novo conceito musical, e apenas longos anos de trabalho duro e desilusões ele começará a ver frutos.
"La Symphonie Fantastique" era o mais grandioso dos filmes produzidos pela Continental na altura da ocupação. O homem apontado para dirigir a Continental, Alfred Greven, tinha um especial interesse nele e deu uma ajuda no argumento. O filme não era uma adaptação muito fiel da vida de Berlioz, apesar de ir buscar inspiração às suas "Mémoirs". Em comum com outros respeitáveis biopics de artistas proeminentes era o facto de se destacar o trabalho do artista em prol do artista como pessoa, e apesar do filme não surpreender muito enquanto drama, acaba por ser um respeitável produto a um dos mais importantes compositores franceses. Uma produção de alto nível, que revelava a superioridade da cultura francesa, e que apelava ao patriotismo francês num período de grande incertezas e ansiedade.
Como seria de esperar de qualquer filme financiado pelos Nazis, este glorioso biopic não podia ter uma mensagem muito aberta com o risco de ser banido, e provavelmente as intenções de Greven eram de unir os franceses,  e servir o seu iluminado líder Maréchal Petain, a viver em Vichy. Infelizmente alguns alemães proeminentes, incluindo o ministro da propaganda Joseph Goebbels, viram o filme de uma forma diferente, como um flagrante apelo ao patriotismo francês que poderia provocar reações na Resistência Francesa, e foi assim que "La Symphonie Fantastique" foi considerado perigoso, e todas as suas cópias encontradas foram enviadas para a incineradora.
Greven era a grande força por detrás do filme, mas a realização cabia a um jovem de 37 anos chamado Christian-Jacque, que já tinha conseguido um grande sucesso para a Continental, "L'Assassinat du Père Noel", no ano anterior. Com grandes recursos, como os que tinha da Continental, Jacque fazia grandes filmes, embora nunca tinha atingido o estatuto de "auteur".
Legendas em inglês.

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terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Mataram o Pai Natal (L'assassinat du Père Noël) 1941

Numa pequena localidade algures nos Alpes franceses o Natal está a chegar, e a pesada neve isolou-os do resto do país. Não é nada que não estejam habituados, e a população está entretida com a preparação dos festejos natalícios. A atmosfera muda subitamente quando alguém ataca o padre da aldeia, e depois rouba o valioso sino de São Nicolau da igreja local, ao mesmo tempo que um homem aparece morto vestido de Pai Natal. O presidente imediatamente entra em contacto com a esquadra mais próxima, mas é-lhe dito que devido à neve levará alguns dias até que os únicos policias disponíveis cheguem ao local. O presidente, e alguns locais mais influentes, concluem que se a polícia não consegue lá chegar, o ladrão também não consegue saír, o que significa que ainda está entre eles, e pode ser qualquer um.
Como uma pequena comunidade, com um ambiente claustrofóbico, pode ser tomada pelo medo, pela suspeição, e pelas denuncias maliciosas, "L'Assassinat du Pére Nõel" tem muito em comum com "Le Corbeau" de Henri-Georges Clouzot. O enredo pode ser diferente, mas os dois filmes evocam poderosamente o ambiente que se vivia na altura, transportando o sentimento de desconfiança e paranoia que se vivia na França ocupada pelos nazis. As similaridades são mais evidentes quando nos apercebemos que os dois filmes foram produzidos pela Continental, gerida por capitais alemães. Grande parte dos argumentistas e realizadores que trabalharam com a Continental não eram simpatizantes da ocupação, e salvavam a consciência introduzindo alguma alegoria escondida nos seus filmes, mas teria de ser algo que escapasse aos censores alemães e pudesse ser apanhado pelo público cinéfilo. 
"L'Assassinat du Pére Nõel" era um dos exemplos mais flagrantes destes acontecimentos, na representação da população de uma pequena localidade montanhesa que se torna instável por causa de uma série de eventos sinistros, e viria a ter uma ressonância imediata na maioria da população francesa, que se ajustava ao regime nazi. O assassinato do Pai Natal aparecia para simbolizar a perda de identidade, mas, como mais tarde seria implícito no filme, esta perda dos ideais seria muito mais difícil de ultrapassar do que previsto. Um público moderno veria toda esta situação mais como um desafio, e o Pai Natal, afinal de contas, não era apenas um homem, mas uma ideia, e as ideias não podem ser mortas.
O filme também tem um grande significado histórico, pois foi o primeiro a ser feito depois da capitalização do país pelos alemães. Foi o primeiro a ser feito pela Continental, o que colocava a fasquia bem alta aos futuros filmes da produtora. Apesar da ocupação ser considerada um dos períodos mais negros da história do país, um período em que a nação fora humilhada e a maioria das pessoas passaram por situações muito duras, também foi um período em que o cinema francês floresceu, graças ao investimento dos alemães na Continental, que procuravam sempre os mais talentosos técnicos. E é por isso que o cinema da altura é tido, hoje em dia, em tão alta estima.
Legendas em inglês.

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segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

O Último dos Seis (Le Dernier des Six) 1941

Depois de vencerem uma aposta e dividirem o lucro, seis amigos fazem um pacto e prometem partilhar todo o dinheiro que conseguirem em 5 anos. O momento está muito próximo, mas um deles é misteriosamente assassinado, e depois outro… O superintendente Wenceslas Woroboyioetschik (também conhecido como Wens) é chamado para investigar...
Embora tenha ido buscar alguma inspiração, talvez mesmo inconscientemente, à série de filmes "The Thin Man", feitos em Hollywood nos anos 30 e 40, "Le Dernier des Six" tem uma identidade gaulesa muito própria, e ajudou a estabelecer o que rapidamente viria a ser considerado um dos géneros mais populares em França, o "Polar", que eram thrillers de mistério. O filme era baseado numa pulp novel de crime chamada "Six Hommes Morts" do belga Sanilslas-André Steeman, um de uma série de trabalhos que contava como protagonista o detective Monsieur Wens. O argumento é claramente copiado, ou mesmo plagiado, do livro de Agatha Christie "Ten Little Indians", que por sua vez seria adaptado para o cinema alguns anos depois em "And then There Was None" (1945), o filme de estreia de René Clair em Hollywood. Para a Continental Films esta era uma produção de prestígio que preenchia perfeitamente os seus requisitos: providenciar algum entretenimento para as audiências francesas, para aliviarem a mente da ocupação Nazi.
Georges Lacombe pode ter sido creditado como realizador, mas não conseguimos tirar a ideia de que grande parte da sua inspiração veio do argumentista Henri-Georges Clouzot, que faria a sua estreia atrás das camaras num filme que seria uma sequela directa deste, chamado "L'Assassin Habite au 21" (1942). As similaridades estilísticas entre os dois filmes são impressionantes, o que pode levar a crer que Clouzot pode ter exercido muito mais controlo artístico do que lhe foi creditado, e o filme é bastante melhor do que o que Lacombe tinha feito na sua carreira até então. Como Clouzot tinha começado carreira na Alemanha pré-Nazi, trabalhando em adaptações de obras francesas para filmes populares alemães, não seria de surpreender que ele fosse bastante influenciado pelo expressionismo alemão, e isso estaria bem presente tanto neste filme, como na sua obra de estreia, através do uso da luz e das sombras que contribuíram muito para a atmosfera destes dois filmes bastante agradáveis. 
Legendas em inglês.

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domingo, 15 de dezembro de 2019

Continental Films: o busto de Hitler nos Campos Elísios coberto de casacos e chapéus de chuva.

A rubrica "Quem Programa Sou Eu" tem sido uma constante ao longo de 2019, levando já seis edições. Nesta rubrica os nossos leitores são convidados a programar um ciclo, com cerca de 10 filmes, da sua preferência, ou sobre um determinado assunto. A Inês Esteves, uma já antiga seguidora do My Two Thousand Movies, lançou-me um desafio no mês passado, que tem em tudo a ver com o espírito do blog: um ciclo sobre a Continental Films, uma produtora francesa com capitais alemães durante a ocupação Nazi. Uma idéia excelente, para a qual lançamos mãos à obra imediatamente.
Para ficarmos a conhecer um pouco sobre o que foi a Continental, e em que circunstâncias se destacou, vamos ler a introdução escrita pela Inês.



"Estamos no início da década de 40 do século XX, a França encontra-se sob ocupação alemã e o governo francês está exilado em Vichy por essa época.
O panorama cinematográfico francês nos anos 40 estava estagnado, atravessava um período de crise, com muitos estúdios a fechar e a mobilização em torno da guerra era geral. Grandes nomes como Renoir tinham sido forçados ao exílio devido à ocupação nazi, contudo, uma certa crise económica vinha já de trás, de finais da década de 30 mas, ainda assim, a França era uma das maiores indústrias de cinema europeias.
É por isso importante para os alemães controlá-la e é assim que nasce a nova empresa de produção, a Continental Films, uma produtora cinematográfica franco-alemã, instalada em Paris em plena Ocupação. Paris era a cidade onde muitos soldados alemães se deslocavam em licença em busca da diversão e do prazer. A Continental era uma empresa de direito francês e capital alemão. Durante a sua breve existência, entre 1940 e 45, a Continental Films produziu cerca de 30 filmes. Joseph Goebbels, ministro da propaganda nazi e das figuras mais próximas de Hitler, nomeia para director da Continental, um alemão veterano da I Grande Guerra e amigo de Göring, homem de negócios, já ligado à UFA - Universum Film AG ( era o director de produção da UFA), francófilo e próximo do partido nazi, um homem exigente, rico e megalómano, falamos de Alfred Greven.
A ideia de Goebbels era fundamentalmente fazer dinheiro com a Continental Films, produzindo filmes ligeiros, de entretenimento e comédias, captando o estrelato francês para os filmes, aproveitando que a indústria francesa detinha a distribuição pelos Países Baixos, pela própria França, Espanha, Itália, para onde o cinema francês exportava. A Alemanha estava fora deste circuito, já que era o cinema alemão que, na perspectiva dos nazis, devia ser o de conteúdo, como o de carácter nacionalista. A propaganda estava também a cargo do cinema feito na Alemanha e era o cinema produzido na Alemanha que devia permanecer como o dominante, talvez por esse motivo, a Continental tivesse dificuldades de financiamento, porque o capital era quase todo canalizado para a UFA. A Continental fora criada com uma ideia de negócio e para entreter os territórios ocupados com filmes puramente desprovidos de conteúdo e abrilhantados por estrelas como Danielle Darrieux e Fernandel.
A Continental tem uma história misteriosa e paradoxal e, por incrível que pareça, chega a gozar duma liberdade que é, no mínimo, bizarra, dada a conjuntura sócio-política daqueles anos, e os seus estúdios produziram filmes vanguardistas e inovadores.
Não estava nos planos de Alfred Greven seguir as orientações de Joseph Goebbels, que ao chegar ao seu escritório nos Champs Elysées todas as manhãs, pendurava o sobretudo e o chapéu de chuva no busto de Hitler.
Alfred Greven é, como disse, um francófilo, e não tem dificuldade em fazer-se rodear dos melhores e mais talentosos profissionais do cinema que se fazia em França, desde argumentistas a realizadores, compositores a técnicos e actores e, para isso, fazia uso dos seus métodos ora de sedução ora de chantagem, conforme a situação. É o caso de Georges-Henri Clouzot que é convidado por Greven, que admirava muito o seu trabalho de cenógrafo, a chefiar o departamento de cenografia da produtora franco-alemã. Clouzot pôde mostrar o seu talento e a partir daí, aproveitar a oportunidade para realizar nos estúdios da Continental, duas das suas grandes obras: “Le Corbeau” e “L’Assassin Habite au 21”. Além disso, as pessoas precisavam mesmo de trabalhar ainda que, fazendo-o para a Continental Films, lhes valesse o cliché de colaboracionistas, Clouzot esteve vários anos impossibilitado de filmar depois da Libertação devido à sua ligação à produtora franco-alemã. A verdade é que muitos acumulavam a actividade de profissionais nos estúdios da Continental com a actividade clandestina na Resistência, por exemplo.
A situação daqueles tempos sombrios era complexa, porque havia muitos profissionais que não conseguiam de todo trabalho durante a ocupação nazi e foram captados pelos estúdios da produtora, tanto vedetas consagradas como jovens talentos que se lançaram na Continental, e é neste aspecto que Alfred Greven teve um papel verdadeiramente ambíguo. Fosse por ser um homem de negócios acima de tudo e extremamente exigente, fosse por ser um conhecedor e amador da cultura francesa, Greven fez -se rodear dos melhores e entre os melhores estão evidentemente judeus e comunistas; alguns trabalharam clandestinamente na Continental, sem créditos já que o seu nome jamais poderia ser publicitado ou teriam de o substituir por pseudónimo ou nome falso, mas outros, pelo contrário, tiveram um papel destacado, como foi o caso do paradigmático actor Harry Baur que reunia todos os requisitos para ser persona non grata aos nazis: era inglês, agente-duplo, comunista, judeu mas era uma estrela do teatro e cinema franceses, um grande actor, uma figura incontornável da interpretação em França. O seu desempenho brilhante como protagonista no filme “L’Assassinat du Pére Noel”, o cativante Monsieur Cornusse que representa o homem bom e sonhador, indignou os nazis: “Como era possível um judeu estrelar um filme alemão?!”, na opinião do crítico e realizador Bertrand Tavernier, autor do documentário sobre cinema em Paris durante a Ocupação - “Laissez Passer”, poderia entender-se como um acto de provocação por parte de Harry Baur a sua presença na Continental. Harry Baur viria a morrer devido a brutais maus tratos na prisão às mãos da Gestapo. Há ainda outros casos de judeus como o do compositor Roland Manuel (Levy) que criou música para filmes como “Inconnu dans la Maison” ou do cineasta Raymond Bernard, assim como elementos da Resistência e também russos trabalhavam para a Continental pois já eram profissionais da indústria cinematográfica francesa e estavam em França desde a Revolução Russa.
Certo é que Alfred Greven percebeu desde logo que tinha de fazer este jogo duplo se queria tornar a Continental numa Hollywood europeia. Há aliás, um episódio curioso, quando Greven tenta levar Jacques Prévert para a Continental, o que Prévert não aceitou, mas terá dito a Greven que este jamais alcançaria o sucesso de Hollywood porque a Continental não tinha judeus e eles eram os melhores. O que Prévert desconhecia era que Alfred Greven já o tinha percebido e esse era o seu segredo mais bem guardado.
Alfred Greven queria acima de tudo produzir cinema de qualidade, e conseguiu-o com uma independência notável, dadas as circunstâncias, quer em relação ao governo alemão, quer em relação ao governo francês de Vichy e produziu filmes transgressores e subversivos, no conteúdo e ou na forma.
Temos o exemplo de “Le Corbeau” de Clouzot, um filme que não passaria na censura de nenhum dos governos, pois para os alemães, o filme que retrata um vilarejo que é contaminado por uma praga de cartas anónimas assinadas por um corvo que delata os habitantes, fazendo pairar um clima de terror psicológico e desconfiança entre os membros daquela comunidade, desencorajava a denúncia anónima de que a Gestapo muito se alimentava e era, por isso, na perspectiva dos alemães, um filme ao serviço de Vichy. Para outros era um filme anti-francês, desde logo, o governo francês, conservador e católico, considerou “Le Corbeau” um filme imoral que fala de questões malditas como o aborto e a droga. Os comunistas e a resistência também não o viam com bons olhos pois era produzido com dinheiro nazi. O certo é que, independentemente da ambivalência do filme, que questiona de que lado está o bem e de que lado está o mal (onde estão os bons e onde estão os maus), o que ele denuncia é a cegueira estúpida das multidões que seguem sedentas e dominadas pela cólera, prontas a linchar o primeiro que lhes apareça à frente e isto é uma impiedosa crítica social de que Clouzot lança mão.
O filme “La Symphonie Fantastique” de Christian-Jaque, é claramente uma exaltação da França. Um filme sobre Berlioz, o patriotismo, em que entram personagens como Victor Hugo, o que elevava a moral e auto-estima do país ocupado. Goebbels, furioso, chama Greven a Berlim, depois de ver o filme, para lhe lembrar que a Continental não devia jamais fazer filmes a enaltecer o nacionalismo francês, que não era essa a sua função mas sim filmes comerciais, ligeiros, para fazer adormecer o espectador.
A Continental levou para o cinema obras da literatura francesa nos filmes de André Cayatte “Au Bonheur Des Dames”, adaptada dum romance de Émile Zola; “La Fausse Maîtresse” a partir da obra de Balzac e “Pierre et Jean” da de Guy de Maupassant; ou “la Main du Diable” realizado por Maurice Tourneur, inspirado numa novela do escritor e poeta francês Gérard de Nerval; “L’Assassinat du Pére Noel” de Christian-Jaque a partir do romance de Pierre Véry; “Les Caves du Majestic” realizado por Richard Pottier a partir do romance de Georges Simenon, o que confirma a densidade e independência do cinema que se fez nos estúdios dirigidos por Greven.
Por outro lado, o filme de Maurice Touneur, “La Main du Diable”, é bastante original porque subverte a fórmula do suspense: os momentos de maior perigo e tensão são precedidos de cenas cheias de gente, confusão e barulho (a cena inicial do jantar na estalagem ou a da vernissage), ao vermos a frenética e confusa movimentação da multidão sabemos que algo vai acontecer, ao contrário da fórmula habitual em que é o silêncio, as sombras, a solidão que anunciam o momento de revelação do perigo. 
A Continental Films tal como a figura enigmática de Alfred Greven estiveram envoltas numa névoa de mistério que ultimamente tem vindo a ser dissipada graças ao trabalho de historiadores e críticos de cinema, cineastas e investigadores contemporâneos. 
Os filmes dos estúdios da Continental não colhiam a simpatia da geração da Nouvelle Vague e Cahiers du Cinema por exemplo, e acabaram por ficar exilados no território do esquecimento pelas gerações que se seguiram à Libertação da França e ao fim da II Guerra. 
Foi absolutamente fundamental ter distância para se escrever a História e ter a coragem e curiosidade para investigar os arquivos da empresa e a produção cinematográfica financiada com dinheiro do Terceiro Reich, na França ocupada, por se tratar dum período extremamente sensível, ainda presente na memória colectiva. Porém, esse trabalho tornou possível reconstituir a história da Continental a partir de dentro, dos seus arquivos, entrando finalmente nesse território, interdito durante décadas, e levantar o véu que cobria a fascinante história dos estúdios, com as suas ambiguidades, paradoxalidades, idiossincrasias, mas sobretudo, resgatou do desconhecido e do esquecimento, um conjunto de admiráveis obras, surpreendentemente vanguardistas. 
Tem sido produzido algum trabalho de investigação e divulgação recentemente como a publicação da historiadora Christine Leteux “Continental Films: cinéma français sous l’Occupation”, os documentários “Laissez Passer” de Bertrand Tavernier e “O Mistério de Greven” de Claudia Collao, a par de inúmeros artigos na imprensa e exposições como a retrospectiva sobre a obra de Georges-Henri Clouzot na Cinemateca Francesa ou entrevistas e conferências dadas pelos investigadores que se debruçaram sobre cineastas que trabalharam no período da Ocupação ou sobre a Continental e seu conteúdo e contexto em geral. Esses trabalhos, têm vindo a devolver o lugar da Continental Films e das suas obras à História do Cinema e à Historiografia da Europa do Séc. XX. 
Convido-vos a ver este conjunto de filmes escolhidos para o ciclo que se segue, dedicado à Continental Films e a este período controverso da História da Europa."



 
O meu muito obrigado à Inês por esta fantástica introdução, e está lançado o mote para este "Quem Programa Sou Eu"  especial de Natal.

Se quiserem, pode ver já dois filmes em avanço, que não farão parte do ciclo por já se encontrarem no blog, mas que são, sem dúvida, duas das mais importantes obras da Continental.

 - Le Corbeau (1943), de Henri-Georges Clouzot
 - La Main de Diable (1943), de Maurice Tourneur

Até amanhã.

Hammer Studios - o Terror Vive Para Sempre

Ao longo de um mês e meio, e mais de 40 filmes fizemos aqui um tributo aos filmes de terror da Hammer. Espero que tenham gostado. Novo ciclo já a seguir.

Frankenstein e o Monstro do Inferno (Frankenstein and the Monster from Hell) 1974

O idoso Barão Victor Frankenstein (Cushing) está alojado num asilo de loucos, no qual exerce a função de cirurgião e tem uma série de privilégios, como por exemplo informações secretas sobre Adolf Klauss,, o diretor corrupto e pervertido do asilo (John Stratton). O Barão, sob o pseudónimo de Dr. Carl Victor, usa a sua posição para continuar as suas experiências na criação do homem. Quando Simon Helder (Briant), um jovem médico, chega ao asilo, o Barão fica impressionado com os talentos de Helder e decide torná-lo seu aprendiz. Juntos, eles trabalham no projeto de uma nova criatura. Sem o conhecimento de Simon, no entanto, Frankenstein promove a aquisição de partes de corpos dos seus pacientes assassinados. 
Depois do falhanço que foi "Horror of Frankenstein", o filme seguinte parecia uma reunião da antiga equipa da Hammer. Escrito por Anthony Hinds sob o pseudónimo de John Elder, a Hammer convenceu Terence Fisher a regressar de uma aposentadoria e Peter Cushing a regressar ao papel que o tornou famoso. Tinha tudo parar dar certo, no entanto a nostalgia dos bastidores não se traduziu na tela, e o último Frankenstein da Hammer acabaria por ser um esforço inglório para terminar um franchise que tinha feito história, um pouco ao jeito de Drácula no ano anterior. 
Embora possa ser uma tentativa de recapitulação de glórias passadas, o filme também tem algumas virtudes. O Barão de Cushing é o maior vilão de sempre, com referências a tendências homicidas e a procura de avanços científicos a qualquer custo e sem senso de moralidade. Cushing interpreta sempre bem esta personagem, e é, de longe a maior virtude do filme. 

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