quinta-feira, 21 de março de 2019

Golpe Baixo (The Longest Yard) 1974

Burt Reynolds é Paul Crewe, um ex-jogador de futebol americano que caiu em desgraça e que foi banido da NFL. Preso por agredir um guarda e resistir à prisão, acaba em uma penitenciária cujo diretor (Eddie Albert) mantém um time formado pelos guardas. Pressionado, Paul forma um time de presidiários, aos trancos e barrancos, do qual fazem parte figuras que, de outra forma, se odiariam. Todos com um propósito em comum: ir à forra contra os guardas opressores, dando neles uma surra daquelas. Paul Crewe, por sua vez, enxerga no jogo a sua chance de resgatar a honra perdida.
"Golpe Baixo" (the longest yard) é um veículo e tanto para Burt Reynolds. Com roteiro de Tracy Keenan Wynn, em cima de um argumento de Albert S. Ruddy, o filme é dirigido pelo mestre Robert Aldrich. Se, essencialmente, o que temos é uma história sobre inconformismo e anti-autoridade (além de lidar com um tema caro ao cinema americano: o da segunda chance, ou, parafraseando Paulo Vanzolini, o do levanta-sacode-a-poeira- e-dá-a-volta-por-cima), com Aldrich na direção é inevitável a sensação de que vemos um repeteco de seu "Os Doze Condenados" (the dirty dozen - nota do autor: um dos filmes da vida deste que vos escreve). Os elementos se repetem: um outsider recruta um bando de facínoras, mequetrefes, pústulas, pulhas mal encarados e demais sujeitos de maus bofes,e os treina para uma missão quase impossível.
E que elenco de párias! Trata-se de um verdadeiro quem é quem de character actors, dos melhores que Hollywood já viu: Ed Lauter (cuja cara parecia talhada num pedaço de madeira), o varapau Richard Kiel, Robert Tessier, Mike Henry e outros.
Mas o grande destaque é o jogo entre guardas e prisioneiros no qual o título brasileiro do filme se mostra plenamente justificado. São 47 minutos em que Robert Aldrich faz uso de uma edição frenética, transformando o jogo visto na tela em uma cópia perfeita de uma partida verdadeira, com a montagem paralela, com imagens do jogo intercalando-se às imagens da torcida, do banco de reservas, slow motion, sons de ossos se partindo, corpos se batendo.
Esse é um dos filmes que fazem parte da minha memória afetiva. Eu o vi, pela primeira vez, em 1985, aos doze anos, quando foi exibido na televisão, e nesses anos que se passaram - nesses 34 anos -, em todas as suas reexibições, em cada uma delas era como se "Golpe Baixo" fosse uma novidade para mim. 
Não esperem uma obra prima do cinema, ou mesmo um filme de incomparável qualidade artística, ou mesmo um desses cult movies que vão do nada para lugar nenhum,sabe? Desses filmes que sao uma espécie de pré tudo e pós nada cinematográfico? Nada disso. O único intuito de "Golpe Baixo" é divertir, e nisso ele é bem sucedido.
* Texto da autoria do Alexandre Mourão.

Link
Imdb

terça-feira, 19 de março de 2019

Asia Central: Século 21


A Quadrilha (The Outfit) 1973

Earl Macklin está sedento de vingança. Ele quer vingar a morte de seu irmão e não vai hesitar um só instante em seu objetivo até acertar as contas com os responsáveis, nem que tenha que mandar para o inferno todos aqueles que tentarem impedi-lo.
Em linhas gerais o que temos aqui é um filme na linha da vingança cega e obstinada, marca registada de Richard Stark, também autor de "à queima roupa" (point blank), de John Boorman, e que trazia Lee Marvin em seu melhor papel. Se Boorman se aproveita da história para criar um filme policial ultramegaestilizado que, em alguns momentos, se torna uma bela investigação sobre a memória, John Flynn, ao contrário, entrega um filme de ação genuíno, perfeito, objetivo. Era essa a sua característica: a objetividade. Talvez ele a tenha herdado de Robert Wise, com quem trabalhou em "homens em fúria" (odds against tomorrow). Ele vai direto ao assunto, sem firulas narrativas, dando a "a quadrilha", com o auxilio luxuoso de uma câmera nervosa, o tom de urgência que a história pede. 
O elenco também ajuda - e muito! O papel de Earl Macklin caiu direitinho para Robert Duvall. Quem também está nele é Joe Don Baker (que puta ator!), Karen Black, Tim Carey e Robert Ryan. Com todos esses elementos, por que "a quadrilha" não é considerado um clássico do cinema ao nível de um "gun crazy", por exemplo? Vai saber... E ser subestimado era algo do qual John Flynn sabia. Mesmo tendo feito filmes muito bons como "na solidão do desejo" (the sargeant), "a outra face da violência" (rolling thunder); "a marca da corrupção" (best seller); e "fúria mortal" (out for justice), seu nome é, no mais das vezes, associado pela critica àquela pecha de filmes descartáveis, sem muito conteúdo, sem que neles fossem observadas as sutilezas em sua objetividade realista. 
Depois desse filme há que ser pensado: a obra de John Flynn não seria merecedora de uma revisão? 
* Texto do Alexandre Mourão.

Link
Imdb

segunda-feira, 18 de março de 2019

Contrato Para Matar (The Killers) 1964

“Os Assassinos” (The Killers), de 1964, é a terceira adaptação do conto de Ernest Hemingway. As outras duas foram as de Robert Siodmak, de 1946 – um clássico noir -, e a segunda um curta metragem de Andrei Tarkovsky (em co-direção com Alexander Gordon e Marika Beiku), de 1957, mas nenhum deles se iguala a essa versão dirigida por Don Siegel. Como se sabe, o filme foi produzido originalmente para a televisao, mas por causa de sua brutalidade foi exibido nos cinemas.
Se o conto de Hemingway, e consequentemente as suas adaptações cinematográficas, mostra dois assassinos que vão a um restaurante rural para eliminar um homem marcado. Don Siegel subverte muda completamente o ponto da história, mostrando Charlie Strom (Lee Marvin) e Lee (Clu Gulager) como os dois assassinos contratados para eliminar Johnny North (John Cassavetes) que, ao ficar frente a frente com o seu destino, o aceita. A sua passividade diante da morte, aceitando-a sem implorar, choca a dupla. Os dois, após investigar o motivo de tanta submissão, descobrem que Johnny North estava envolvido com Sheila Farr (Angie Dickinson), namorada de Jack Browling (Ronald Reagan). 
Don Siegel fez um trabalho e tanto com seu elenco. Conhecido por sua direção de atores econômica e eficiente, ele arranca performances memoráveis de Dickinson e Reagan. Ela, uma femme fatale na mais pura acepção do termo; ele, na performance de sua vida, a sua ultima atuação antes de se dedicar à política. “Os Assassinos” é um filme que se sustenta pelo olhar, seja na cena de abertura em que o rosto do personagem de Lee Marvin aparece refletido nas lentes dos óculos escuros de Clu Gulager, assim como os olhos de John Cassavetes que não saem da cabeça de seus executores. 
Don Siegel é um realizador que fez muito a minha cabeça como cinéfilo em formação: títulos como “Meu Nome é Coogan” (Coogan’s Bluff), de 1968; “Os Abutres Têm Fome” (Two Mules For Sister Sara), de 1970; “Perseguidor Implacável” (Dirty Harry), de 1971; e “O Homem Que Burlou A Máfia” (Charley Varrick), de 1975, da mesma forma que este “The Killers” formaram o meu gosto estético por filmes que Rogério Durst, crítico de cinema do jornal O Globo, nos anos noventa, alcunhou de Cine-Machão. Filmes secos, diretos, crus. Todos os títulos acima citados foram vistos na televisão, em madrugadas passadas em claro esperando a próxima atração do Coruja Colorida. 
* Texto da autoria do Alexandre Mourão. 

Link
Imdb

sábado, 16 de março de 2019

Quem Programa Sou Eu: Alexandre Mourão

"Se a mim fosse perguntado, acerca dos filmes que escolhi para os próximos dias, se eles são os melhores filmes de todos os tempos na minha opinião, a resposta seria: - Não, não mesmo. Na minha lista de melhores de todos os tempos figuram títulos como "operação frança" (french connection), de William Friedkin - que sempre encabeça a lista -, "o bandido da luz vermelha", de Rogério Sganzerla, e " o segundo rosto" (seconds), de John Frankenheimer. Os filmes que escolhi, apesar disso, não são daqueles que façam parte de uma lista respeitável... É que - vou contar uma coisa - tenho comigo uma frase lida nas Escrituras, e que sigo à risca: "nem só de obras primas viverá o cinéfilo"
Assim, elaborei essa lista de filmes em que estão presentes realizadores muito queridos (como Don Siegel e Andrzej Zulawski) e filmes presentes em minha memoria afetiva, vistos em reexibições nas madrugadas televisivas, geralmente no Corujão, ou em incansáveis e sessões de VHS. Espero que os filmes escolhidos sejam do agrado de todos.
É isso…"

Estas são as palavras do Alexandre Mourão para nos apresentar este ciclo. O Alexandre é um "velho" seguidor dos Thousand Movies, já desde 2012, e é um cinéfilo daqueles que eu gosto, porque não gosta só de "obras-primas", tal como eu. "Obras-primas" até é uma palavra de que eu não gosto de usar, e quem conhece este blog, sabe do que eu estou a falar.
Os próximos dias são da exclusiva responsabilidade do Alexandre, e creio que todos vamos ganhar bastante com isso. 
Se quiserem participar nesta rubrica, escrevam para myonethousandmovies@gmail.com. Até segunda-feira.

sexta-feira, 15 de março de 2019

Olney São Paulo

Chega assim ao fim o ciclo dedicado a Olney São Paulo, um dos cineastas brasileiros mais esquecidos e que mereceu aqui honras de um ciclo em nome próprio, que contou com a maravilhosa ajuda do Yves São Paulo, um familiar seu, que me forneceu todos os textos que acompanharam as postagens. O meu grande obrigado. 

Podem ler mais sobre o Olney neste endereço.  

Obrigado a todos, e até já.

Pinto vem Aí (Pinto vem Aí) 1976

Chico Pinto foi prefeito de Feira de Santana (Bahia) e deposto no meio de seu mandato pela ditadura instaurada no Brasil em 1964. Em 1976, Olney São Paulo realiza Pinto Vem Aí para mostrar o retorno do político que teve seus direitos de seguir exercendo seu mandato cassados. O cineasta perseguido dá voz a um político perseguido.
O que me chama particular atenção com Pinto Vem Aí é o ar de deboche que começa com o título, se esbarra nos títulos do genérico apresentado em pichações nos muros, e continua com a participação das crianças ajudando a desenvolver uma campanha eleitoral. Escavações em Pompeia encontraram pichações de direto conteúdo erótico/pornográfico. Uma das imagens símbolo da luta contra a ditadura no Brasil é exatamente a de um homem a fazer pichação “abaixo à ditadura”. Unindo as duas coisas, Olney brinca com as palavras, com o nome do político e com o caráter obsceno da pichação para, de maneira velada ou metafórica, levantar o dedo do meio para o governo corrente. A democracia está voltando para a alegria orgástica de toda população que não aguenta a repressão militar.

Link

Ciganos do Nordeste (Ciganos do Nordeste) 1976

Documentário encomendado pela Rede Globo de Televisão para fazer parte de sua série, ainda existente, Globo Repórter, Olney São Paulo tomou a estrada em busca destas personagens erráticas para transformar em tema de seu mais novo filme. Aproveitando a oportunidade de ter dinheiro para filmar, fez mais que uma obra de reportagem para televisão, realizando dois cortes diferentes, um
para quem havia feito a encomenda e outro com sua própria visão sobre as personagens párias de seu filme, esta ultima enviada para diversos festivais de cinema. 
O filme abre com um grupo de ciganos montados em jumentos, montando acampamento ao lado de estrada, seu lado marginal, uma identificação que pode ser logo encontrada em como Olney São Paulo aborda estas personagens, o cineasta independente correndo de um lado para outro para encontrar os temas de seus filmes e realizar seus registros, à margem do mundo das grandes produções – especialmente ao considerarmos seus status como documentarista, desde sempre visto como lado menor do cinema, adorador de dinheiro e maquinário “de última geração”. A simplicidade dos jumentos e a montagem de acampamento à beira de pista poderia ser o resumo de um cinema independente e – por que não? – de guerrilha, ainda que recebendo o suporte minoritário de gigante das comunicações, mas que não enxergava este “documentário” como uma peça merecedora de prioridades.

Link

quinta-feira, 14 de março de 2019

Sob Ditame de Rude Almajesto: Sinais de Chuva (Sob Ditame de Rude Almajesto: Sinais de Chuva) 1975

Este é um dos filmes mais queridos dentro da filmografia de Olney São Paulo, ensaio baseado em crônica, filmado na roça de irmão mais novo, figurando alguns de seus familiares, sobrinhos, avô.
Não somente os cientistas com seus métodos bem estabelecidos e aceitos por pares acadêmicos dispõem de técnica para estudar o ambiente no qual trabalham. O tratado científico popular, seu Almajesto, mesmo não sendo aceito por sua falta de precisão por este mesmo grupo científico, é passado de geração em geração por àquele aspecto da literatura costumeiramente esquecido, mas de extrema importância, a oralidade. E é por meio de uma narração dinâmica que simula uma conversa entre sertanejos a demonstrar os métodos de prever quando choverá neste semi-deserto, que Olney São Paulo apresenta algo da tradição popular, passada ao longo das décadas, atravessando fronteiras.
O filme é de uma beleza lírica imagética ímpar ao captar nas lentes de sua câmera em filme colorido as características peculiares da região do semiárido baiano. Lá estão os vespeiros, a terra seca, os mandacarus, e até a inesperada aparição de redemoinho.

Link

O Forte (O Forte) 1974

Segundo longa-metragem de ficção de Olney São Paulo, baseado em romance do escritor Adonias Filho, O Forte apresenta a chegada de engenheiro a Salvador, responsável por erguer parque de diversões no lugar onde correntemente reside o Forte de São Marcelo, edificação centenária que se
encontra no meio do mar, e onde por muito tempo foram encaminhados prisioneiros políticos.
O filme em questão teve produção tumultuada, muitas brigas entre diretor e produtor, equipamentos de má qualidade (em muitos casos filmando com películas fora do prazo de validade), e tendo ainda que lidar com a morte de um de seus atores principais.
Ainda assim, mostra-se como uma das obras mais encantadoras desta filmografia. Um filme que, assim como seu antecessor fictício Manhã Cinzenta, abandona certos tradicionalismos narrativos para misturar o fantástico com o real, a encenação ficcional com o documentário. Em certos trechos do filme a câmera se dirige diretamente a moradores da cidade de Salvador, capital do estado da Bahia, e pergunta: o que você acha da derrubada do Forte de São Marcelo? Em outros momentos o lado romântico da adaptação fala mais alto, seja nos romances do engenheiro protagonista, seja na figura de sua esposa. O tempo em O Forte não é linear, ecoando a história dos prédios que circundam seus personagens, para além de suas próprias memórias. Salvador é uma cidade de sofrimentos e aprisionamentos, e suas paredes sussurram os fantasmas de seus dias idos.

Link
Imdb

quarta-feira, 13 de março de 2019

Como Nasce uma Cidade (Como Nasce uma Cidade) 1973

Filme encomendado à Olney São Paulo em ocasião da comemoração dos 100 anos da cidade de Feira  de Santana, Como Nasce Uma Cidade é filme sobre as idiossincrasias que marcam o crescimento da urbanidade e flerte com o “progresso” e a “modernidade” enquanto tenta-se manter conectado com o passado. De seu lançamento até nossos dias, Feira de Santana comemorou algo em torno de oitenta anos, símbolo de um lugar lutando por encontrar suas raízes e suas identidades numa mutabilidade constante, querendo apontar sua importância num cenário muito mais amplo que o meramente local, porque cidade grande que se prese tem que suspirar em virar metrópole com tudo que este título tem para entregar, e portanto tem que experimentar a passagem do tempo diferente de todo o resto.
À primeira vista Como Nasce Uma Cidade pode ser visto como documento histórico sobre um local em específico – Feira de Santana, interior do estado da Bahia – mas o espectador com olfato apurado (porque a cinefilia atiça todos os sentidos) notará certa universalidade no ensaio sobre esta cidade, o confronto entre velho e novo, entre moderno e tradicional – nem todo progresso leva para frente.

Link

terça-feira, 12 de março de 2019

Manhã Cinzenta (Manhã Cinzenta) 1969

Um grupo de líderes estudantis se reúne e pensa em organizar resistência frente à ditadura estabelecida. Presos, são submetidos a torturas e a um julgamento feito por cérebro artificial. O lado maquínico da lei e da ordem são impostos sobre a paixão e a liberdade humana.
O mais conhecido dos filmes de Olney São Paulo, Manhã Cinzenta foi exibido em diversos festivais ao redor do mundo, incluindo a Quinzena dos Realizadores, em uma de suas primeiras versões. Fugindo do tradicional, Olney monta seu filme com o que Glauber Rocha chamou de “montagem caleidoscópica”, o que pode ser evocado como uma resistência do próprio cineasta ao tradicionalismo aristotélico de empregar começo meio e fim, respectivamente, evocado até mesmo pela estudante líder estudantil, que apesar da angústia e apatia que abate seus companheiros, anuncia: eles me encontrarão de pé. O cérebro mecânico adota leis e ordens, mas a arte não possui regras intransponíveis. 
A existência do filme tem uma história por si só. Rendeu prisão e tortura ao realizador, acusado de compactuar com sequestro de avião desviado para Cuba, sob alegação de que seu filme teria sido exibido a bordo. Todas as cópias de Manhã Cinzenta encontradas pelas forças militares foram destruídas. Antes da perseguição o cineasta conseguiu exportar cópias para outros países, e assim o filme figurou em festivais internacionais depois de banido de solo brasileiro. O público brasileiro somente teve acesso ao filme graças membro do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, que trocou o filme de latas em sua cinemateca, mantendo uma cópia exibida clandestinamente em cineclubes e em casas de amigos.

Link
Imdb

segunda-feira, 11 de março de 2019

O Grito da Terra (O Grito da Terra) 1964

Duas jovens camponesas que enxergam seu espaço natal de maneiras diferentes. Lóli (Lucy Carvalho) quer subir de vida, abandonar a pobreza de sua família e, quem sabe, ir para a cidade. Mariá (Helena Ignez) gosta do trabalho na terra, e pensa em poder continuar nela e prover para sua
família. Mesmo não sendo dada a tremores, as terras do interior baiano são cambiáveis, se movimentam, as cercas das grandes fazendas avançam sobre a de pequenos agricultores. A chegada do Professor (Lídio Silva) mexe com os ânimos dos proprietários de terra com sonhos de grandeza. Estudar para não ser explorado, para saber lutar por seus direitos. Palavras que não devem ser ditas, sob pena de ter seu barraco incendiado.
Neste cenário de lutas pela terra que Olney São Paulo nos apresenta seu primeiro longa-metragem, Grito da Terra. Filma o sertão com algumas reminiscências de sua cinefilia, colocando seu gosto pelo cinema de faroeste, até mesmo encontrando uma pedra imensa que poderia aproximá-lo dos épicos filmados no Monument Valey. E como nos faroestes, o sertão é terra sem lei, quem tem dinheiro contrata matadores, avança cercas, impõe preços impraticáveis para explorar a miséria dos mais pobres. Diferente dos faroestes, a perspectiva tomada frente aos embates de ricos e pobres não é de fabulário, porque o que Olney apresenta em seu filme não é conflito deixado para contos de um país em formação, sendo antes casos corriqueiros.
Vale aqui uma nota especial para a trilha sonora original de Remo Usai e as canções de Fernando Lona, escritas em conjunto com o cineasta Orlando Senna.

Link
Imdb

Um Crime na Rua (Um Crime na Rua) 1954

Um assassinato é cometido e dois detetives seguem a pista do crime a partir de um cigarro encontrado na cena do crime. Filme amador feito por um grupo de amigos se valendo das referências do cinema policial que costumavam assistir unido a alguns costumes folclóricos – como colocar uma moeda na boca do morto para pagar sua passagem na terra dos mortos, remontando à Grécia antiga.
A vontade de fazer cinema já estava muito bem tatuada em Olney São Paulo quando um de seus amigos aparece em Feira de Santana, cidade onde morava, com uma câmera de filmar de 16mm. Mesmo sem equipamento ou experiência para fazer o filme, os amigos escrevem uma história e começam a filmagem. Parando o filme na câmera e voltando a fita dentro dela, fazem as diferentes sequências em diferentes locações – uma peça histórica sobre o interior do Brasil, e em especial para a história da cidade de Feira de Santana. Depois de pronto, viajam por algumas cidades da Bahia exibindo a peça feita por cinéfilos em clubes. Por algumas décadas resistiu em apenas uma cópia exibida para amigos e familiares, e hoje surge aos espectadores como uma curiosidade, quase um filme de férias de família, o primeiro passo do cinéfilo em direção à direção de cinema (um segredo partilhado por metade da cinefilia).

Link
Não tem imdb

sábado, 9 de março de 2019

Olney São Paulo

"Por muito tempo os filmes de Olney São Paulo ficaram fadados ao escuro de latas guardadas em prateleiras e esquecidas debaixo de camadas de poeira. Um esquecimento não feito ao acaso devido à má qualidade de sua obra – o que não é o caso – mas sim esquecimento programado, ainda que com certo descuido. Cineasta marginal, que financiava a maior parte de seus próprios filmes com dinheiro do bolso com seu salário de funcionário público, filmando com rolos de película vencida ou montando seus filmes durante a madrugada (horário mais barato do aluguel do equipamento de montagem), que viu um de seus filmes caçado e destruído pela ditadura brasileira instalada a partir de 1964 (por sorte, não puseram as mãos em todas as cópias, e o filme em questão figurará em nosso ciclo). Se tinha alguém que poderia ter todos os motivos do mundo para abandonar o cinema e não mais querer saber dele, esse alguém era Olney São Paulo. Não o fez. Até seu leito de morte (prematura – aos 41 anos) em 1978 seguiu planejando filmar. Bem-vindos ao mundo do cinema de Olney São Paulo, feito com um pedaço de folclore brasileiro esquecido, feito com um pouco de folclore inventado pelo próprio autor – seja em ficção, seja em documentário, seja numa inusitada mistura dos dois."

Este ciclo terá a colaboração do Yves São Paulo, familiar do realizador, que gentilmente cedeu os filmes (a maior parte deles inéditos na internet) e os textos que acompanharão o ciclo, com muita informação que ajudará a conhecer um pouco melhor o realizador.  Podem conhecer o blog do Yves, Siga a Cena. O meu muito obrigado pela sua ajuda.

Irei estar fora no fim de semana, por isso passeremos aos filmes a partir de segunda-feira. Bom fim de semana, e até já.


sexta-feira, 8 de março de 2019

Ao longo de quase 4 semanas fizemos um viagem ao interior de um dos sub-géneros mais importantes e também mais relegados do cinema italiano. Foi uma seleção de 25 filmes imprescindíveis, esperemos que tenham gostado. Obrigado aos que seguiram.


Terror na Opera (Opera) 1987

Uma jovem cantora de ópera chamada Betty (Cristina Marsillach) é colocada no centro das atenções  antes da noite de estreia de "MacBeth", de Verdi, quando a protagonista da ópera Mara Czekova fica lesionada. Um fã enlouquecido persegue Betty enquanto que mata todos que são próximos a ela. Será   que Betty consegue desmascarar o assassino antes de se tornar na próxima vítima?
Em 1987 Dario Argento realizou aquele que muitos fãs consideram o seu último grande filme, "Opera". O filme supostamente foi feito durante os momentos mais tumultuosos da vida do realizador, ao mesmo tempo que falecia o seu pai, e também na altura em que ele terminava um longo relacionamento com a actriz Daria Nicolodi. A história do filme gira em volta de um assassino sádico que tem laços com um jovem cantora de ópera, é um dos melhores argumentos mais de toda a carreira de Argento, com todos os eventos a desdobrarem-se como se fossem uma tragédia de Shakespeare. 
O filme, tal como a peça, estava amaldiçoado, e isso levou a alguns contratempos pelo caminho. A música de Giuseppe Verdi com a partitura de Claudio Simonetti, junto com o heavy metal que é injectado no filme nas partes de assassinato, são partes integrantes de todo o filme. Apesar de Argento ser conhecido pelos seus visuais barrocos, os seus filmes sempre tiveram uma grande dívida para com os compositores, que ao longo das várias etapas da sua carreira sempre contribuíram com bandas sonoras assombrosas e ameaçadores, que faziam parte do ambiente dos seus filmes. Em termos visuais, "Opera" tinha uma das composições mais elegantes da carreira de Argento. O filme ocorre praticamente apenas em dois lugares: a casa da Ópera e o apartamento de Betty. As cores não são tão vívidas como a maioria dos filmes do realizador, mas os fãs dos primeiros filmes de Argento vão gostar de alguns detalhes que já eram usados anteriormente, como o excessivo uso da chuva ou o assassino de luvas negras, que são usados com grande efeito. Um filme imperdível. 

Link
Imdb

Abril no M2TM

Quando um ciclo é sobre um realizador não faz mal estragar a surpresa, porque todos já sabem o que vem a seguir. Assim, aqui fica a lista dos filmes a ver em Abril, no ciclo John Ford - Antes da Guerra:

- Born Reckless  (1930) *
- Men Without Women (1930)
- Up the River (1930) +
- Arrowsmith (1931)
- Seas Beneath (1931)
- Doctor Bull (1933) *
- Pilgrimage (1933)
- Judge Priest (1934)
- The World Moves On (1934) *
- The Lost Patrol (1934) 
- Steamboat Round the Bend (1935)
- The Informer (1935)
- The Whole Town´s Talking (1935)
- Mary of Scotland (1936) +
- The Plough and the Stars (1936)
- The Prisioner of Shark Island (1936)
- Hurricane (1937)
- Wee Willie Winkie (1937)
- Four Men and a Prayer (1938)
- The Adventures of Marco Polo (1938) +
- Drums Along the Mohawk (1939)
- Stagecoach (1939)
- Young Mr. Lincoln (1939)
- The Grapes of Wrath (1940)
- The Long Voyage Home (1940)
- How Green Was my Valley (1941)
- Tobacco Road (1941)

* legendas em inglês
+ legendas em espanhol

Enquanto Abril não vem, teremos Olney São Paulo em versão integral e inédita, já a partir de Sábado, e nas últimas duas semanas teremos mais um convidado especial a programar. Quem será?
Falta um filme para acabar o ciclo Giallo. Até já.



quinta-feira, 7 de março de 2019

O Estripador de Nova Iorque (The New York Ripper) 1982

Um assassino em série assassinando e mutilando jovens mulheres, geralmente prostitutas, anda a aterrorizar Nova Iorque nos anos 80, tal como Jack, o Estripador o tinha feito algumas décadas anteriormente, em Londres. O tenente da polícia Fred Williams está a seguir o caso e recebe ajuda do psiquiatra e professor universitário Paul Davis. Quando uma estudante sobrevive a um ataque do estripador as entrevistas com ela levam a um suspeito, uma figura sombria com a mão direita deformada. Mas será que é mesmo ele o assassino?
Tal como a maioria dos giallos desta era, testemunhamos os crimes do ponto de vista do assassino, sabendo muito pouco sobre a sua identidade, além de uma certa particularidade - o assassino gosta de falar como um pato. Também gosta de fazer telefonemas ameaçadores e fazer grasnidos como o Pato Donald enquanto faz o seu trabalho. É um dos aspectos mais estranhos do filme. 
"O Estripador de Nova Iorque" funciona com qualquer típico filme de crime e mistério, mas com Lúcio Fulci ao leme já sabemos que podemos contar um estilo único e uma estética visual. Há uma mistura fascinante de terror clássico italiano dos anos 70, com algumas cenas absolutamente cheias de cor, e uns exteriores sujos de Nova Iorque que nos remetem a "Taxi Driver" ou aos primeiros filmes de Abel Ferrara. São dois estilos muito diferentes, cuja mistura satisfaz bastante o espectador.
O nível de violência, especificamente a violência sexualizada, causou uma grande agitação entre os censores, principalmente no Reino Unido, que provocou que o filme fosse banido em muitas salas e dificultou o seu lançamento em VHS. Também seria dos últimos grandes lançamentos de Fulci, que a partir daqui dedicar-se-ia sobretudo a filmes de baixo orçamento.

Link
Imdb

quarta-feira, 6 de março de 2019

Tenebre (Tenebrae) 1982

O escritor de best-sellers de mistério Peter Neal (Anthony Franciosa) viaja de Nova Iorque para Roma para promover o seu novo livro, "Tenebre".  Um assassino obcecado por Neal começa uma série de brutais assassinatos tal como estão descritos no livro. São seguidos por notas enigmáticas tiradas do livro, endereçadas ao autor. Quem vai investigar será o capitão dos homicídios Germani (Giuliano Gemma), e a inspectora Altieri (Carola Stagnaro), que suspeitam de todos, inclusive do escritor.
Em 1982, exausto com a experiência que foi fazer "Inferno", Dário Argento voltaria mais uma vez ao giallo puro, com "Tenebrae", um termo latino que significa escuridão ou sombras. Segundo relatos, uma das inspirações de Argento para este filme foi um stalker que o perseguiu na vida real, durante a rodagem de um filme anterior. Outras das inspirações foram "Sherlock Holmes" de Arthur Conan Doyle e "The Red Shoes", de Michael Powell e Emeric Pressburger. 
De um ponto de vista narrativo, "Tenebrae" não se desvia da impressão deixada com "O Pássaro com Plumas de Cristal", e tal como "Deep Red" usa flashbacks / memórias do ponto de vista do assassino. Mas, mesmo assim nenhum giallo de Argento, até agora, se tinha afastado tanto do tema, como este "Tenebrae". 
Do ponto de vista visual, raramente há um momento em que o filme não ostente habilmente o seu trabalho de câmara acrobático e composições difíceis. Um dos momentos mais memoráveis inclui uma jovem que está a ser aterrorizada por um cão feroz, e sem saber como vai parar ao covil do assassino.
Destaque especial para o elenco, que para além de Franciosa e Gemma, contava com um bom naipe de secundários, que incluíam John Steiner, Lara Wendel, Ania Pieroni, e um tal de Jogh Saxon, que Argento foi buscar directamente ao primeiro giallo, "A Rapariga que Sabia Demais", talvez por alguma razão.

Link
Imdb