quinta-feira, 28 de maio de 2020

Oh! Amigos Meus... (Amici Miei) 1975

A história de quatro amigos, playboys cinquentões - depois tornam-se cinco - que cultivam o antigo gosto toscano das brincadeiras, às vezes burlescas, às vezes cruéis. Mantêm-se juntos pela vontade de gozar e de não levar nada a sério, nem a si próprios.
"Amici Miei" deveria ter sido o último filme de Prieto Germi, um dos mestres da comédia italiana. Escreveu o argumento, mas não conseguiu dirigir o filme por causa da doença ir já em estado avançado. Faleceu em 1974, um ano antes da estria deste filme, que acabou por ir parar ás mãos de Mário Monicelli, que acabou por fazer um óptimo trabalho. O filme fez um enorme sucesso de bilheteira, que acabou por gerar mais duas sequelas, em 1982 e 1985.
Passado na Toscânia, uma região na Itália conhecida pelo seu humor cruel e sarcástico, o filme segue quatro amigos interpretados por Ugo Tognazzi, Gastone Moschin, Phillipe Noiret, e Duílio Del Petre, aos quais depois se junta outro interpretado por Adolfo Celli, no  seu dia a dia de pregar partidas cada vez mais grotescas. Todos na casa dos cinquenta, eles têm dificuldade em lidar não apenas com as suas esposas, mas também com os seus filhos e familiares, que consideram o seu humor infantil e fútil. Porque muitas das suas piadas dependem da linguagem nonsense italiana, muitas das suas piadas são difíceis para serem percebidas para alguém com conhecimento limitado da língua italiana.

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quarta-feira, 27 de maio de 2020

Insólito Destino (Travolti da un insolito destino nell'azzurro mare d'agosto) 1974

A tirar férias no Mediterrâneo, a rica capitalista Raffaella Pavone Lanzetti (Mariangela Melato) alugou um iate para fazer um cruzeiro. Ela grita ordens a toda a hora, quando não está a tomar posições bem incorretas politicamente. Raffaella descarrega boa parte da sua futilidade em Gennarino Carunchio (Giancarlo Giannini), um siciliano comunista que trabalha na embarcação, exigindo que ele fique mais apresentável. Gennarino desenvolve desprezo pela independência dela, ficando cada vez mais frustrado com as suas ordens. Por causa de um infortúnio vão os dois parar a uma ilha desabitada, isolados e sem as diferenças sociais, Gennarino e Raffaella vão se ver numa situação que nunca iriam imaginar.
Mais um filme realizado por Lina Wertmuller, na sua fase mais criativa. Foi uma obra controversa na altura da sua estreia, pela sua representação ousada das relações de género. Hoje em dia, quando se dá tanta importância ao politicamente correcto, a abordagem e o conteúdo do filme tornaram-se uma maldição. Mesmo o facto do filme ter sido escrito e realizado por uma mulher não permitiu que evitassem o nome impróprio de "misógino".
O filme aborda dois assuntos desafiadores, política e sexo, e fá-lo da forma mais carregada que se possa imaginar, acrescentando violência e subjugação a uma mistura já tóxica de opinião e desafio. É um filme de nervos disfarçado de comédia negra, ou talvez um romance, com Wertmuller a usar o conflito de classes para provocar os espectadores o máximo que pode, fazendo um filme provocativo com uma sensualidade estranha.

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segunda-feira, 25 de maio de 2020

Perfume de Mulher (Profumo di donna) 1974


Um antigo capitão do exército italiano viaja de Turim para Nápoles para reencontrar um amigo que, como ele, ficou cego depois da explosão de uma granada. Ciccio, um jovem soldado destacado pelo exército, acompanha o capitão nessa viagem. A braços com um homem fanfarrão e irascível que afirma reconhecer uma mulher bonita apenas pelo cheiro, Ciccio está longe de imaginar que a finalidade daquela viagem é cumprir um pacto de suicídio feito entre os dois oficiais. 
Nova reunião entre Dino Risi e Vittorio Gassman, uma dupla que rendeu alguns títulos interessantes, como "Il Sorpasso" ou "Em Nome do Povo Italiano", e que aqui estava de volta para uma obra cujos resultados foram acima do merecido. Foi um êxito comercial, foi muito bem sucedido a nível de prémios, tendo sido nomeado para dois Óscares (Filme Estrangeiro e Argumento), e Gassman ter sido vencedor do prémio de Melhor Actor em Cannes. Mais tarde, um remake inferior, também garantiu um Óscar a Al Pacino. 
Uma odisseia com sabor a clássicos como "Don Quixote" ou "Jacques le Fataliste" com um capitão do exército italiano e o seu Sancho Pança a viajarem por cidades como Roma, Turim, Génova e Nápoles. A força do filme reside em Gassman, que dá uma profundidade à personagem que é difícil de se encontrar. 

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sábado, 23 de maio de 2020

Tão Amigos Que Nós Éramos (C'eravamo Tanto Amati) 1974

Três italianos, Gianni (Vittorio Gassman), Nicola (Stefano Satta Flores) e Antonio (Nino Manfredi) tornam-se muito amigos durante o ano de 1944 enquanto combatem os nazis. Cheio de ilusões, eles estabelecem-se depois da guerra. Os três amigos idealistas têm agora de lidar com as inevitáveis desilusões da vida no pós-guerra da Itália. Ettore Scola compõe um painel que segue 30 anos da vida italiana recortada pelo envolvimento destes três homens, completamente diferentes entre si, que se desencontram numa outra batalha, a de conquistar o amor de uma mulher, Luciana (Stefania Sandrelli). Ela torna-se a inspiração das estratégias que eles constroem para reconhecer a quem ama e nisso os quatro desencontram-se sem perder a amizade.
Ettore Scola teve em meados da década de 70 o seu período mais criativo, começando com este "C'eravamo Tanto Amati", realizado em 1974.Algumas cenas são pura poesia: a mudança repentina de preto e branco para uma imagem colorida (sublinhada por uma banda sonora), a conclusão dramática de uma noite na Piazza de Spagna, o sentimento geral de nostalgia que atravessa todo o filme. É um filme que envelhece como um bom vinho.
O filme é dedicado a Vittorio de Sica e tem cameos de Fellini e do próprio De Sica, além de ter clipes de filmes de outros realizadores, como Antonioni, Rosellini e Visconti.

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sexta-feira, 22 de maio de 2020

Queremos os Coronéis (Vogliamo i Colonnelli) 1973

Uma sátira à política, a partir de uma tentativa imaginária de golpe de Estado por alguns militares do tempo do fascismo. Convencidos de que precisam salvar a Itália da fragilidade da democracia, os militares da reserva planeiam tomar o poder, cantando hinos como se a Segunda Guerra Mundial ainda não tivesse acabado e como se Mussolini não estivesse morto. Não podem imaginar que os seus esforços serão amplamente manipulados pelos políticos italianos, que pretendem tirar proveito da desastrada tentativa de golpe em interesse próprio.
A partir de meados da década de sessenta, o cinema italiano tradicionalmente escapista começou cada vez mais a incluir conotações de natureza politica, com referências abertas, ou ocultas, a eventos reais. É o caso deste filme, que retrata não uma, mas duas, tentativas de golpe de estado que foram planeados em Itália entre 1964 e 1970, que quase foram postas em funcionamento, falhando apenas por razões que não foram muito claras. 
Mário Monicelli, é claro, interpreta estes eventos ao puro estilo "comédia à italiana" gozando com todo o exército italiano e os seus mais altos escalões senis, expondo o oportunismo e o amadorismo do personagem italiano, com Ugo Tognazzi, no papel principal, a roubar o show. O filme foi exibido no Festival de Cannes de 1973.

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quinta-feira, 21 de maio de 2020

Filme de Amor e Anarquia (Film d'amore e d'anarchia) 1973

Itália, inicio dos anos trinta. Em "La Maison" de madame Ainda (Pina Cei), um "bordel" destinado aos sonhos proibidos dos prazeres da carne e do amor, é o local onde se cruzam os destinos de Salomé (Mariângela Melato), uma anarquista que deseja vingar a execução do seu noivo, morto injustamente por uma multidão enfurecida, de Tonino (Giancarlo Giannini, um ingénuo camponês que também procura vingança pela morte de um grande amigo e de Tripolina (Lina Polito), uma menina que, de alguma forma, quer vingar a morte do seu pai falecido durante a guerra. Três pessoas humildes e sofridas que unidas pela dor, procuram suas vinganças e se entrelaçam no amor e nos sonhos.
Neste filme, Lina Wertmuller incorpora muitos detalhes Fellinescos: o trabalho de câmara de Giuseppe Rotunno, as harmonias características de Nino Rota, prostitutas a fazer música e a vender os seus produtos, e até uma personagem feminina que implora ao seu público que respeite pelo seu passado de estrelato (tal como a Mademoiselle Fifi em "8 e 1/2"), mas o objectivo da realizadora dificilmente poderia ser mais diferente de Fellini. Basta observar "Amarcord" e depois este "Filme de Amor e Anarquia" para perceber quanto diferentes podem ser duas vozes narrativas com articulações estilísticas semelhantes. 
Wertmuller deriva muito do seu poder de misturar política com as emoções universais desagradáveis. Ela criou o oposto do épico, trabalhando a partir de detalhes psicológicos caseiros, com a grandiosidade épica a ser reservada para representar os fascistas. Retratando o medo e a vulnerabilidade Wertmuller encontra novas dimensões, uma exploração mais completa da relação entre política e vida do que em "O Conformista", de Bertolucci, com o qual este filme foi comparado.
Gincarlo Giannini ganhou o prémio de Melhor Actor no festival de Cannes.

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terça-feira, 19 de maio de 2020

O Jogo da Fortuna e do Azar (Lo Scopone Scientifico) 1972

Bette Davis interpreta uma milionária excêntrica viciada num jogo de cartas, e em ganhar a jogadores que não têm dinheiro para apostar. Todos os anos ela vai a Roma com o seu secretário e ex-amante (Joseph Cotten) para jogar com Peppino (Alberto Sordi) e a sua esposa Antonia (Silvana Mangano), uma empregada de limpeza que vive num bairro pobre com o marido e os seus cinco filhos. 
A milionária oferece um milhão de liras ao casal para jogar com ela e com o seu secretário num jogo chamado "scopone", ao qual ela é apaixonadamente dedicada e ao qual Antónia é uma campeã. Mesmo precisando desesperadamente de dinheiro o casal costuma deixar-se vencer para agradar à milionária, mas este ano Antónia está determinada a vencer. 
"Lo Scopone Cientifico" é uma obscura comédia negra do realizador Luigi Comencini que lida com com a eterna luta entre classes de uma forma invulgar, mas ainda assim bem divertida. Para além da luta de classes, temos ainda uma luta entre actores de países diferentes, com duas velhas glórias do cinema americano, Bette Davis e Joseph Cotten por parte dos Estados Unidos, e Alberto Sordi e Silvana Mangano por parte dos italianos. Os americanos representam os ricos, e os italianos os pobres. Luigi Comencini e o argumentista Rodolfo Sonego colocam em destaque o cinismo e o egoísmo das classes mais ricas e a brecha inaceitável que existe entre os mais pobres e os mais ricos. 
Sordi e Mangano ganharam os David Di Donatelo para Melhor Actor e Actriz, os prémios correspondentes a Melhor Actor e Actriz.

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Ferido na Honra (Mimì Metallurgico Ferito Nell'onore) 1972

Mimi (Giancarlo Giannini), durante as eleições, vota no candidato do partido comunista em vez do candidato da máfia. Sendo assim, a máfia faz um boicote para que ele não encontre emprego. Mimi é forçado a sair da Sicília, deixando mulher e filhos, para ir tentar a vida em Turim. Lá, ele consegue emprego, mas é obrigado a fingir ser um mafioso porque em Turim existe mais corrupção do que no lugar de onde veio. Começa a viver com uma mulher vendedora de rua, e activista comunista, com quem tem um filho. No entanto, ele recebe uma oferta irrecusável em sua cidade natal...
Chegou a altura de vos introduzir a mais um nome grande da Commedia All'Italiana: a realizadora Lina Wertmuller. Corajosos, políticos e satíricos são os filmes da realizadora italiana, dos anos 70, que podem ser emocionantes do ponto de vista intelectual, desafiando o espectador com ideias filosóficas e socioeconómicas, e são apresentados com uma paixão avassaladora. 
A maioria dos filmes da realizadora concentram-se em actos sexuais específicos, geralmente indutores de constrangimento. Os seus personagens trocam e retêm relações sexuais como moeda, mas neste "Ferido na Honra", o primeiro dos seus filmes com Giancarlo Giannini como protagonista, e a sua primeira farsa regional, o "eu" corporal é menos uma mercadoria do que uma herança: determina o quanto uma pessoa pode arriscar na vida.
Apesar de não ser o seu primeiro filme, esta seria a obra de revelação de Lina Wertmuller, que se tornaria num dos nomes mais importantes do cinema italiano da década de 70, tendo inclusive sido a primeira mulher a ser nomeada para o Óscar de Melhor Realizadora. Vamos ver vários filmes seus neste ciclo.

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segunda-feira, 18 de maio de 2020

A Minha Mulher é Um Violonsexo (Il Merlo Maschio ) 1971

O violoncelista Nicholas Vivaldi sente-se preso na sua carreira e até mesmo ridicularizado pelos seus colegas, e negligenciado pelo seu condutor. Um dia Vivaldi começa a fotografar a sua bela esposa Constance de uma forma cada vez mais ousada, e, de seguida, mostra as fotografias ao seu melhor amigo, Cavalmoretti, e, depois, para os colegas, num crescendo de exibicionismo.
Durante a década de setenta surgiu um novo tipo de comédia dentro da já popular "commedia all'italiana", era a comédia de cariz sexual, que por causa da sexualidade se tornou um êxito. É uma vertente que eu não vou mostrar muito neste ciclo, mas do qual ainda tenho alguns filmes, como este de Pasquale Festa Campanile, um realizador e argumentista pouco conhecido fora do país, mas reconhecido interinamente.
"Il Merlo Maschio" era uma obra que ficava conhecida basicamente por ter sido um filme-veículo para a actriz Laura Antonelli, com umas das melhores prestações da actriz no campo da comédia. Ela participou em várias destas comédias ao longo da década de setenta, como por exemplo: "Um Deputado Mulherengo", "Pecado Venial", "Meu Deus, ao Que Eu cheguei…" ou "Com Elas, Todo o Cuidado é Pouco…", em que contracenava com Ursula Andress, Sylvia Kristel e Monica Vitti. Como podem ver, os nomes não podiam ser mais sugestivos, a eles juntando ainda este "A Minha Mulher é um Violonsexo". 

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Em Nome do Povo Italiano (In Nome del Popolo Italiano) 1971

Um obscuro magistrado italiano suspeita que a morte de uma jovem drogada foi provocada por um poderoso industrial. Decide investigá-lo e levá-lo a juízo, independente de ter provas para acusá-lo. Em nome do poder que o povo italiano lhe conferiu, esse juiz tem direito de agir assim? O filme discute a ação da justiça, que nem sempre se detém em seus limites. 
Este ataque selvagem ao sistema judicial italiano é uma obra-prima desconhecida, com o realizador Dino Risi e os actores Ugo Tognazzi e Vittorio Gassman no topo da sua forma. Embora necessariamente muito falado e pesado, o ponto forte do filme é a forma como trata vários pontos densos e relevantes sobre o estado do país na altura, dentro dos limites de um filme de suspense e comédia. O resultado final é uma caracterização estimulante (colocando duas postas uma contra a outra (Tognazzi como magistrado obstinado e Gassman como suspeito de assassinato industrial) com algumas vinhetas memoráveis, e muitas vezes cáusticas, denunciando burocracia, grandes empresas e diferenças de classe e geração.
Na melhor tradição da comédia italiana, o argumento é realizado de uma forma grotesca, que acaba por ser emocionante, deixando um sabor amargo no final.

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sábado, 16 de maio de 2020

Ciúme, ciúmes e ciumentos (Dramma della gelosia) 1970

Um triângulo amoroso na Roma do inicio da década de 70. Oreste, um trabalhador da construção civil, e a sua noiva, Adelaide, conhecem Nello, o cozinheiro de uma pizzaria. Os três costumam ir a comícios comunistas e gostam da praia imunda de Ostia. Será que este ambiente hostil poderá levar ao caminho dos ciúmes?
Realizado por Ettore Scola, de quem já tínhamos falado no inicio deste ciclo, por ter sido argumentista de filmes como "Il Mattatore", "Il Sorpasso", "La Marcia Su Roma", ou "I Mostri".  Depois de se estrear na realização, e depois dos seus primeiros filmes não terem sido muito relevantes, acabaria por se tornar um dos grandes mestres da "comédia à italiana" durante a década de setenta. Começando por este "Drama Della Gelosia", uma história tragicómica de ciúmes românticos, ressentimento de classe  e emoções exageradas que tanto gozam como prestam homenagem à grande tradição cinematográfica da "commedia all'italiana".
Scola partiu para este filme com um trio de actores com o qual seria difícil de falhar: Marcello Mastroianni, numa das suas melhores prestações, com a qual ganhou o prémio de Melhor Actor em Cannes, Monica Vitti e Giancarlo Giannini. O argumento também era da autoria da famosa dupla Incrocci e Scarpelli, argumentistas de filmes como "Gangsters Falhados", "Seduzida e Abandonada" e "O Bom, o Mau e o Vilão".

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Uma Aventura nas Cruzadas (Brancaleone alle Crociate) 1970

O filme começa onde "L'armata Brancaleone" termina.  Bracaleone da Norcia, novamente interpretado por Vittorio Gassman, é um pobre mas orgulhoso cavaleiro da Idade Média, liderando o seu bizarro exército de azarados. No entanto, acaba por perder todos os seus "guerreiros" numa batalha, e encontra uma encarnação da Morte (uma parábola a "O Sétimo Selo", de Bergman). Tendo conseguido mais tempo para viver, forma mais um exército de esfarrapados, com o qual irá ter mais uma missão, e viver mais uma série de episódios hilariantes.
Depois do grande êxito que foi "L'Armata Brancaleone", era de prever que houvesse uma sequela, e foi assim que chegou "Brancaleone alle Crociate", feito pela mesma equipa: realizador (Monicelli), argumentistas e protagonista. Seguimos o nosso herói medieval quixotesco no seu caminho para a Terra Sagrada durante as Cruzadas, juntando-se a uma equipa de loucos, e pelo caminho encontra gente ainda mais louca, que inclui um cruzado alemão traiçoeiro, uma princesa disfarçada de leprosa, uma bela bruxa (Sandra Sandrelli) e um rei que fala apenas em rima (Adolfo Celli). 
Embora não esteja ao nível do primeiro filme, o que seria difícil, e embora alguns erros ao longo do caminho, este filme tem uma grande vantagem: a mistura espirituosa de falsos dialectos (que só podem ser verdadeiramente apreciados se dominarem bem o dialecto italiano). Produção de grande orçamento, filmada em exteriores na Argélia, e algumas piadas maravilhosas, algumas delas parafraseadas ou a absolutamente roubadas pelo Monty Phyton, em filmes como "The Holy Grail",  "Life of Brian", ou "The Meaning of Life".  Um exemplo, a parte do Grim Reaper é roubada directamente deste "Brancaleone".

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sexta-feira, 15 de maio de 2020

Vejo Tudo Nu (Vedo Tudo) 1969

"Neste filme, um dos mais divertidos de Dino Risi, o realizador retoma a sua fórmula de comédia em episódios, traçando o retrato da Itália dos anos 60 através de ousadas histórias que giram em torno do sexo. No episódio mais kitsch, a actriz Sylva Koscina pretende socorrer um ferido mas acaba por provocar uma tal loucura no hospital, com a sua roupa quase inexistente, que vira para si todas as atenções e o pobre homem acaba por morrer. Num outro, um culturista muito míope espia uma bela mulher nua que, afinal, não é mais que uma ilusão de óptica provocada pelo seu reflexo no espelho. Há ainda um homem que trai a sua mulher com um comboio, um fetiche que acaba por se tornar uma obsessão partilhada. E se Ornella é o mais sensível retrato de um amor homossexual feito pelo cinema italiano, em "Audiência À Porta Fechada" conta-se a história do julgamento de um lavrador que abusa de uma galinha, recorrendo a todos os elementos da grande comédia à italiana. 
O filme conta ainda com a extraordinária interpretação de Nino Manfredi, que fecha o filme com a história de um publicitário que, à força de despir as mulheres, passa a vê-las sempre nuas."
* texto RTP

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A Rapariga da Pistola (La Ragazza con la Pistola) 1968

Assunta (Monica Vitti) é uma jovem habitante da tradicional região da Sicília. Um dia, ela sucumbe ao charme de um homem conquistador, e perde a virgindade com ele. No dia seguinte, o rapaz abandona-a e parte para a Inglaterra. Furiosa, Assunta pega numa arma e segue em busca do rapaz, para forçá-lo a casar-se com ela, e manter assim a sua honra. 
O cinema italiano tem um talento especial para encontrar humor em assuntos sérios, e abordá-lo da forma mais ridícula. Em “A Rapariga da Pistola”, Mario Monicelli pega num assunto com muita virtude, e vira-o de cabeça para baixo. No centro deste filme está uma jovem cuja virtude é posta em causa, e a única forma de redimir-se aos olhos da família é ou casando ou matando o homem responsável. Embora seja este o assunto que coloca em andamento todo o filme, é no final, com a transformação de Assunta, que acaba por se revelar o mais potente. 
Uma produção bem vistosa em todos os aspectos, sobretudo com o aproveitamento de excelentes cenários. Mónica Vitti tem uma grande prestação à frente de um elenco com vários actores britânicos, como Stanley Baker, Corin Redgrave e Anthony Booth, e não esquecer que o filme seria nomeado para o Óscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira. 

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quinta-feira, 14 de maio de 2020

O Capitão Brancaleone (L'armata Brancaleon) 1966

Os costumes da cavalaria medieval através da sátira, mostrando um jovem aristocrata chamado Brancaleone (Vittorio Gassman) que, educado no código de cavalaria da ética, deve reivindicar uma alegada herança que consiste num feudo. Por isso, Brancaleone recorre ao apoio de um punhado de bandidos mal armados e muito temerosos, que só procuram fugir das agruras do banditismo sem correr grandes riscos, e a quem o protagonista da fantasia chama seriamente de "meu exército" (chamado armata em italiano). A ingenuidade e a falta de coragem de Brancaleone e seu temido "exército" causam situações irónicas e humorísticas, enquanto o grupo de aventureiros mal equipados busca realizar a sua missão. 
Uma década antes de "Monty Phyton and the Holy Grail" , apareceu um, agora, filme obscuro, mas muito famoso na sua altura, antecipando o humor da famosa troupe de actores ingleses, e estabelecendo um novo sub-género, que poderíamos chamar de "sátira medieval". Um sucesso tão grande que, quatro anos mais tarde, viria a originar uma sequela.
Era um filme difícil de exportar para fora de Itália, porque a parte mais engraçada estava na linguagem usada, uma mistura de vários dialectos italianos com o latim da idade média, e era também mais um episódio da ascenção de Mario Monicelli como o grande poeta da comédia italiana. 

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quarta-feira, 13 de maio de 2020

Senhoras e Cavalheiros (Signore & Signori) 1966

Os costumes e a vida da região de Veneto, na Itália da década de 60, representados por três histórias distintas. A primeira envolve um homem que confidencia um segredo ao seu médico, que prontamente repassa a informação para alguns amigos que não conseguem ficar de boca calada; a segunda explora a vida de um bancário que acaba de perder a mulher e a amante; e a terceira é a história de um grupo de rapazes que se aproveita da ingenuidade de uma jovem, cujo pai fará de tudo para colocá-los na cadeia. 
O casamento italiano anda sob ataque constante de Pietro Germi, desde que o seu “divorcio à italiana” concluiu que o assassinato era mais fácil e mais conveniente do que o divórcio. Principalmente porque a Itália não permite o divórcio, mas se um marido matar a sua esposa enquanto ela estiver nos braços de um amante, o que pode um juiz fazer contra ele? 
Germi começa com opiniões partilhadas por todo o italiano que se preze, e depois, astuciosamente, leva-as ao resultado mais lógico. Foi assim em “Divórcio à Italiana”, e também em “Seduzida e Abandonada”, os dois filmes que com este “Senhoras e Cavalheiros” fazem parte da chamada trilogia provincial. “Senhoras e Cavalheiros goza com as atitudes dos italianos perante o casamento, o divorcio, a castidade, e também o amor. Germi destrói os tribunais, a polícia, a igreja, a família e o estado. Os filmes de Germi estão cheios de puro amor ao movimento e à acção, e poderiam ser descritos como “slapstick”, não fossem eles descritos com tanta força e direcionados tão directamente para alvos satíricos. 
Ganhou a Palma de Ouro em Cannes, no ano de 1966, ex-aqueo com “Um Homem e uma Mullher” de Claude Lelouch, algo inesperadamente, já que era raro comédias ganharem prémios tão importantes. Nessa edição do festival participavam filmes como: “A Religiosa” de Rivette, “Doutor Jivago” de David Lean, “Morgan” de Karel Reisz, “Passarinhos e Passarões” de Pasolini, ou “Seconds” de John Frankenheimer. Também foi nomeado para o Globo de Ouro de Melhor Filme em Língua Estrangeira.

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Io la Conoscevo Bene (Io la Conoscevo Bene) 1965

Adriana é uma jovem do interior, que é apanhada nas tentações tempestuosas da cidade grande. Está convencida de que tem o que é preciso para ser uma estrela de cinema, e só precisa de conhecer o produtor certo que reconhecerá o seu talento e iniciará a sua carreira. Mas, na Cidade Eterna, os homens que ela atrai apenas querem saber das curvas do seu corpo. Alguns são bandidos e traficantes, outros são camaleões ricos que vivem vidas duplas há anos. 
Embora Antonio Pietrangeli seja menos conhecido do que os seus contemporâneos, o seu envolvimento no cinema italiano entendeu-se desde o inicio do neo-realismo até ao aos anos 50 e 60, quando esse movimento evoluiu intelectualmente para a dissecação da recuperação económica do pós-guerra e as consequências sociais e políticas que resultaram da prosperidade e uma rejeição das normas sociais tradicionais. Como argumentista, Pietrangeli colaborou com Visconti (“Ossessione”, 1943, “La Terra Trema” 1948) e Rosselini (“Europa´51”, 1952, “Viaggio in Italia” 1954), entre outros. Como alguns destes filmes indicam, uma característica marcante do trabalho do realizador era o interesse e preocuupação pela experiência das mulheres nessas décadas de transição. 
Pietrangeli escreveu o argumento em conjunto com Ruggero Maccari e Ettore Scola, e apesar de ter os seus interludios cómicos é um filme que tingido por uma sensação de angústia numa sociedade que explora incansavelmente os vulneráveis. O ponto de comparação óbvio é “La Dolce Vita” (1960) de Fellini, e conta com uma grande presença da actriz Stefania Sandrelli, então com apenas 19 anos e já um punhado de filmes inportantes em carteira, além de um punhado de grandes actores como co-adjuvantes: Mario Adorf, Jean-Claude Brialy, Nino Manfredi, Ugo Tognazzi ou Franco Nero (tentem lá descobri-lo). 

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terça-feira, 12 de maio de 2020

Casanova 70 (Casanova '70) 1965

Sejam elas mulheres fatais, ingénuas ou virtuosas que se fazem passar por mulheres perfeitas, nenhuma resiste a André, o belo oficial da NATO que salta de conquista em conquista, ao sabor das suas colocações. A par das suas fáceis conquistas, o sedutor complica o jogo acrescentando-lhe elementos de perigo. Mas o verdadeiro perigo é uma bela criatura dotada de todas as qualidades que ele virá a encontrar nas montanhas suíças. 
Uma farsa sexual extremamente datada, “Casanova 70 foi muito bem recebido na sua estreia, tendo conseguido uma nomeação para o Óscar de Melhor Argumento Original. Visto hoje, é difícil perceber porque é que o argumento foi tão elogiado, já que todo o filme se baseia numa piada – Marcello Mastroianni é impotente, a menos que haja perigo eminente em torno de qualquer escapadela sexual – e essa piada é repetida várias vezes. Mas há imaginação na forma como os argumentistas conseguem colocar Mastroianni em cada uma das situações perigosas para que ele consiga obter satisfação. 
O filme apresenta um Marcello Mastroianni numa grande interpretação, no auge da sua forma, o que ajuda bastante a manter o interesse dos espectadores, além da presença de óptimas actrizes como Virna Lisi ou Marissa Mell. Mario Monicelli está atrás das câmaras.

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Matrimónio à Italiana (Matrimonio all'Italiana) 1964

Durante a Segunda Grande Guerra, Domenico, um bem-sucedido homem de negócios e com uma grande queda pelas mulheres, encontra a jovem e linda Filumena num bordel. Depois da guerra, aluga um apartamento para ela e os dois tornam-se amantes durante 22 anos. O que Domenico não sabe, é que Filumena tem três filhos que são criados por babysitters, e ao mesmo tempo, ele inicia planos para se casar com uma jovem empregada.
Vittorio de Sica ganhou quatro Óscares de Melhor Filme em Língua estrangeira, e Matrimonio all'Italiana era a sua quinta nomeação, que pela primeira vez perdeu. Com uma dupla de peso como protagonista, Marcello Mastroianni e Sophia Loren, que também foi nomeada para Melhor Actriz, é um filme bastante satisfatório, apesar de estar bem longe em termos de qualidade das grandes obras do realizador, principalmente dos grandes clássicos do neorealismo. 
O filme é descrito como uma comédia, mas é na realidade um drama emocionante com Sophia Loren a atirar fogo pelos olhos. Uma força da natureza, forçada a envelhecer 20 anos durante o filme, e carregando totalmente esse peso. 
Baseado na peça "Filumena Marturano" de Eduardo De Filippo, que alcançou grande êxito em 1951, que o próprio interpretou ao lado da sua irmã. Curiosamente o público Napolitano (a história original passa-se em Nápoles) não ficou muito contente com o facto de Loren e Mastroianni terem sido os escolhidos para os papéis principais, apesar da dupla ter sido elogiada no resto de Itália e um pouco por todo o mundo. Grande parte da história é contada através de flashbacks, que contam o caso de amor entre a jovem Filumena e Domenico, um romance muito amargo.

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