terça-feira, 18 de setembro de 2018

A Palavra (Ordet) 1955

Agosto de 1925, numa quinta Dinamarquesa. O patriarca viúvo Borgen, que é bastante proeminente na comunidade, tem três filhos: Mikkel, um agnóstico de bom coração, cuja esposa está grávida; Johannes, que acredita que é Jesus; e Anders, jovem, e apaixonado pela filha do alfaiate Peter Peterson, que pertence a um movimento religioso rival. Apesar das diferenças entre os dois, Borgen tenta chegar a um acordo com Peterson, que permanece inflexível. Só deixa a filha casar com o rapaz se o pai deste aderir à sua religião.
O realizador dinamarquês Carl Theodor Dreyer está creditado como tendo realizado dois dos maiores filmes da história do cinema, e ambos estão ligados ao mesmo tema, a religião, mais propriamente, o poder da fé. O primeiro era "La Passion de Jeanne D'Arc" (1928), uma espantosa representação do julgamernto e execução de Joana D'Arc, considerado por muitos como o maior de todos os filmes mudos.O segundo era este "Ordet", já realizado na parte final da sua carreira, baseado numa peça do pastor dinamarquês Kaj Munk (que foi executado pelos Nazis por recusar honrar Hitler acima de Cristo). Indiscutivelmente uma obra prima, "Ordet" não é apenas um pedaço de cinema soberbamente composto, como também um trabalho que consome o seu espectador, de uma forma que só as grandes peças de arte conseguem fazer, oferecendo uma experiência que não nos pode deixar imunes. Seja qual for a nossa religião ou crenças religiosas, é um filme que alcança o nosso íntimo e nos faz pensar profundamente sobre a natureza e os valores da existência humana.
O cinema de Dreyer é conhecido pela sua rigorosa simplicidade, cenários austeros, número limitado de shots, e fotografia minimalista. Este filme também beneficia do facto de ter uma grande história. É sobre fé, religião, vida e morte, ciência versus fé, e quaisqueres outras discussões e perspectivas diferentes das coisas que este filme traz. A esse respeito, parece ser mais um filme de Ingmar Bergman do que de Carl T. Dreyer. Ambos os realizadores, no entanto, sempre mostraram algumas semelhanças entre os seus filmes, e os seus temas, estilo e personagens. É obviamente baseado numa peça de teatro, que pode observar-se pela forma como o filme está contado e a história é contada.
Filme escolhido pela Sandra Bettencourt. 

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sábado, 15 de setembro de 2018

A Teia de Aranha (The Spider Woman) 1944

Sherlock Holmes  toma conta de um caso que a imprensa apelidou de "pajama suicides". Homens que estão a ir para a cama na segurança dos seus próprios lares, com tudo aparentemente normal, e sem nada que o pudesse prever, cometem suicídio durante a noite. Holmes simula a sua própria morte com a esperança que isso lhe dê uma ajuda nas investigações, porque ele está convencido de que uma mulher, uma Moriarty do sexo feminino, como ele a gosta de chamar, está por detrás destas mortes. 
Sétimo de uma esplêndida série de 14 filmes que juntou Basil Rathbone e Nigel Bruce como Sherlock Holmes e o Dr. Watson, este filme de 1944 é um dos da série de maior entretenimento.Também é o mais próximo que o frachise conseguiu adaptar a história de Sir. Arthur Conan Doyle, “The Adventure of the Speckled Band”, um eterno favorito. Mas o filme vai buscar partes a várias histórias de Sherlock Holmes, e não apenas a esta mencionada em cima. Realizado por Roy William Neill, o realizador da maioria dos filmes desta série, e argumento de Bertram Millhauser, vamos encontrar um Sherlock Holmes já não mais como o detetive vitoriano de Arthur Conan Doyle, mas sim como um detective dos tempos modernos. 
Um dos elementos mais fortes deste filme, é que a vilã de serviço é muito mais do que um partido para os nossos heróis. Gale Sondergaard é uma Moriarty do sexo feminino como já referido em cima, com uma aparente rede de capangas, brilhando a grande altura. Era já uma actriz de créditos firmados, tendo vencido o Óscar de Melhor Actriz Secundária por Anthony Adverse (1936).
Filme escolhido pelo Ricardo Miguel Mendes.

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sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Os Rapazes da Geral (Les Enfants du Paradis) 1945

"Desde a sua estreia triunfante numa França recém libertada, em 1945, "Les Enfants du Paradis" nunca deixou de ser considerado um dos maiores filmes franceses de todos os tempos. A obra é o pináculo do chamado "realismo poético" - muito embora "romantismo pessimista" fosse uma denominação mais adequada - e da parceria que aperfeiçoou esse género: a do argumentista Jacques Prévert e do realizador Marcel Carné. Juntos formaram uma dupla peculiar. Enquanto Prévert, um dos melhores poetas populares franceses do século passado, era sociável, emotivo e empenhado politicamente, Carné distinguia-se pela sua instrospecção e por um perfeccionismo frio e distante. No entanto, ao colaborarem, os dois artistas criaram magia no grande ecrã, magia essa que nenhum deles foi capaz de emular, depois de se terem separado. "Les Enfants du Paradis" foi o seu último grande êxito. 
A produção do filme durou dezoito meses e envolveu a construção dos maiores cenários da história do cinema gaulês: a fachada de uma rua de quatrocentos metros, que reproduzia detalhada e escrupulosamente o Boulevard du Crime, a zona parisiense dos teatros, na década de 30 e 40 do século XIX. Mesmo em tempo de abundância, semelhante empreendimento seria arrojado. Imagine-se agora em período de guerra e durante a ocupação alemã. Tratou-se de um feito sem dúvida heróico, dado que escasseavam, entre outras coisas, materiais, transporte e guarda-roupa. Os co-produtores italianos abandonaram o projecto, quando da capitulação de Itália, e o primeiro produtor francês fez o mesmo, quando começou a ser investigado pelos alemães. Um dos actores principais, apoiante Nazi confesso, fugiu para a Alemanha, após o dia D, e foi substituído à última hora. O cenógrafo Alexandre Trauner e o compositor Joseph Kosma, ambos judeus, foram obrigados a trabalhar clandestinamente, transmitindo as suas ideias ao cineasta, mediante o uso de intermediários.
Apesar de tantos sobressaltos, "Les Enfants du Paradis" é uma obra perfeita com toda a riqueza e complexidade de um grande romance novecentista. Nas cenas de multidão, passadas no buliço do boulevard, foram empregues 1500 figurantes que, numa profusão desordenada, enchem todos os cantos do ecrã com vida e pormenor. Muito embora a França estivesse ocupada, o filme não tem medo de exaltar o teatro Gaulês e de nos oferecer uma meditação, a vários níveis, sobre a natureza da representação, da fantasia e da máscara. Todos os diálogos são enfatizados e todas as acções são encenadas com mestria. Os três protagonistas masculinos dão vida a artistas: Lemaitre (Pierre Brasseur), o grande actor romântico, Debureau (Jean-Louis Barrault), o insigne mimo; e Lancenaire (Marcel Herrand), o dramaturgo falhado, que se transforma em dândi e mestre do crime. Essas três personagens existiram realmente, mas a mulher que amam, a grande horizontale Garance (o papel mais sublime de Arletty), é pura ficção. Não é um ser de carne e osso. É antes o ícone do eterno feminino, ilusório e infinitamente desejável.
Apesar das suas mais de três horas, "Les Enfants du Paradis" nunca parece ser demasiado longo. Para além de celebrar o teatro, enquanto arte popular do século XIX (função que o cinema preenche no século XX), o filme combina farsa, romance, melodrama e tragédia numa narrativa empolgante.Carné era, antes de mais, um director de actores soberbo, e a sua obra brinda-nos com um festim de desempenhos memoráveis, que se deixam acompanhar pelo humor, graça, paixão, e por uma atmosfera de trasitoriedade - a melancolia característica de toda a arte romântica."
Texto de PK. Legendas em inglês.
Filme escolhido pelo Luís Vintém.

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quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Os Pescadores de Sargaços (Finis Terrae) 1929

 A história centra-se num pequeno grupo de homens que colhe algas na costa francesa, quando um deles fica com o polegar infectado. O título do filme é o antigo nome da região de Finistère, onde a história se passa, e que significa "Fim da Terra". É filmado em estilo de documentário, com actores não profissionais, e usando muitas vezes a câmara na mão. 
"“Finis Terrae” do Epstein rasga, rompe, abre todo o caminho que o cinema levará, rolará e pasmará e desbravará para sempre como tudo se desbrava na ferida do mundo como da ferida no dedo de Ambroise brotará toda a maldição que aquela garrafa partida lançará com ele até que a navalha perdida julgada roubada seja encontrada e tudo e todo e qualquer impossível seja tentado, como naquele momento final do “Tabu” do Murnau em que Matahi tudo luta e tudo e tanto nada para num esforço final e inglório alcançar o barco que lhe leva a sua amada, também aqui, “Finis Terrae” ou terra final de que mil metáforas possam ser feitas, em que, mais que a coragem e a firmeza em salvar Ambroise, se irrompe a ânsia e o propósito da remissão de Jean-Marie. E na maldição se mergulha, ainda que nos ritos e nos usos e costumes daquele povo se erga a grande (ou uma das grandes) objectividade de “Finis Terrae”, na comoção laboral que do orgulho e da destreza tudo virá como deles tudo ruirá para bem perto da morte caminhar, é da remissão que tudo e toda a alma de Ambroise se glorificará, fim do tormento nascido do engano, fim da escuridão e da solidão e da acção errante do homem, coisas que ao vento se dão para no vento voltarem como da névoa e da tempestade tudo brotará e toda a raça e destreza e vontade e determinação do homem em fazer e singrar a justeza das coisas e do mundo que do impossível tudo se ergue e tudo se faz tal qual o Matahi do Murnau fez..."
Filme escolhido, e texto, pelo Álvaro Martins.

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quarta-feira, 12 de setembro de 2018

O Mundo do Vício (Le Bas-Fonds) 1936

Um ladrão carismático faz amizade com um barão falido que vem morar para a zona do ladrão. Enquanto isso, o ladrão procura o amor de uma jovem mulher, que é mantida cativa emocionalmente pela família do seu senhorio. 
A meio da década de trinta Jean Renoir já estava totalmente comprometido pelos ideiais do Comunismo e, em comum como a maioria da população, via a ideologia Marxista-Leninista como solução para a França, tanto do ponto de vista tanto político como económico. Tendo demonstrado a sua simpatia pela ala esquerda em filmes como "La Vie est à Nous" (1936) ou "Le Crime de Monsieur Lange" (1936), Renoir mostrou todo o suporte por esta ala política no seu próximo filme, "Le Bas Fonds". Renoir descreveu o filme como "um poema realista sobre a perda da dignidade humana", um filme que retratava solidariedade entre os oprimidos, e opressão entre os ladrões da sociedade, jogadores, prostitutas e alcoólicos. Isto foi o mais próximo que Renoir alguma vez chegou ao realismo social, mesmo que o o optimismo do realizador diminuísse a desolação do assunto. 
"Le Bas-Fonds" era baseado num popular livro de 1902 chamado "Na Dne" do famoso escritor russo Maxim Gorky ( que foi posteriormente adaptado por Akira Kurosawa em "Donzoko" (1957)) Renoir foi facilmente persuadido a fazer o filme pelo produtor Alexandre Kamenka, tentado não só pela inclinação da obra pela ala esquerda, mas também para trabalhar com dois dos monstros mais sagrados do cinema francês da altura: Jean Gabin e Louis  Jouvet). Renoir tinha algumas reservas em relação ao livro, mas o seu argumentista adaptou tudo para os tempos modernos. 
Ganhou o prémio Louis Delluc, no seu primeiro ano.
Este é um filme escolhido pelo Alexis Skredkeiro.

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segunda-feira, 10 de setembro de 2018

De Sábado Para Domingo (Ze Soboty na Nedeli) 1931

Mána é uma jovem secretária. Uma noite, ela e a sua colega de quarto acompanham dois ricos cavalheiros mais velhos para um jantar. Depois de um deles lhe oferecer dinheiro, ela apercebe-se das suas intenções, e foge do restaurante em estado de choque. Mais tarde, conhece um homem chamado Karel num café das proximidades. Passam a noite a vaguear pelas ruas chuvosas de Praga, e os dois rapidamente desenvolvem um sentimento forte um pelo outro.
Gustav Machaty começou no cinema mudo como actor, depois aprendeu a realizar em Hollywood como aprendiz de D.W. Griffith e Erich von Stroheim (foi, por exemplo, assistente de Stroheim em "Foolish Wives"). "De Sábado Para Domingo" é o seu primeiro filme falado, uma obra onde ele agarra a nova tecnologia de uma forma muito inventiva, e intensifica esta história da era da Depressão com um humor muito subtil. Apesar de não ser tão gráfico como o notável "Ecstasy" (1933), realizado por Machaty dois anos depois, este melodrama compacto adopta uma abordagem sofisticada ao amor, tratando o sexo com franqueza, e o romance com cepticismo. 
Se a história é invulgar, a narração é soberba. Os personagens são caracterizados com um forte senso de contexto social, e o filme é uma obra prima do cinema falado inicial. Três dos colaboradores do filme foram Jaroslav Jezek, um dos fundadores do jazz da Checoslováquia, o poeta surrealista Vítezslav Nezval, autor do argumento a partir de uma obra sua, e o realizador experimental Alexander Hammid. Sinal de que no período anterior à Guerra os autores de avant-garde checos tinham uma contribuição significativa nas produções mais mainstream. 
Filme escolhido pelo Luis Miguel Oliveira.

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domingo, 9 de setembro de 2018

O Salão de Música (Jalsaghar) 1958

O último representante de uma alta casta insiste em manter o padrão de vida dos seus antepassados, mesmo vivendo numa situação cada vez mais difícil. Uma das coisas da qual não abre mão é a enorme sala de música da sua mansão. O seu amor à música e os seus actos acabam por levar a sua família à ruína. Narra a decadência de um nobre (Roy) que representa a tradição e diante da subida do "status" seu vizinho, um prestador de serviços, convertido rapidamente num novo rico.
Para um realizador que já havia professado por várias vezes que a música era o seu primeiro amor, não seria de surpreender que o indiano Satyajit Ray tenha escolhido a música como tema obrigatório do seu terceiro filme, "Jalsaghar". Ray, que começou na publicidade antes de se dedicar à produção cinematográfica, já se tinha destacado com os seus dois primeiros filmes, a produção independente "Pather Panchali" (1955), e a sua sequela, "Aparajito" (1956), dois filmes que foram largamente aclamados, dois retratos da vida real que ganharam prémios em festivais internacionais, e ajudaram a redefinir o cinema indiano para o resto do mundo. No entanto, "Aparajito" tinha sido um fracasso comercial no país natal de Ray, e na busca de um tema que pudesse ter um maior apelo comercial, foi atraído por um conto muito adorado de 1937, da autoria de Tarashankar Banerjee, sobre o declínio de um Rajá no inicio do século 20, cujo amor pela música foi a sua queda. 
Ray e Banerjee tinham muito em comum: ambos eram naturais da região Oeste de Bengala, na Índia, e ambos concentravam o seu trabalho principalmente na vida das aldeias. Embora este filme fosse uma partida para ambos os artistas, trouxeram à história uma voz caracteristicamente humana e empática, principalmente transformando o que poderia ser uma simples condenação da aristocracia míope num retrato complexo e comovente do fracasso humano. Ray já se tinha estabelecido como um realizador indiano único, cujos dramas calmos e discretos eram o oposto aos típicos melodramas de Bollywood, e com este filme ele definiu a sua arte ao reimaginar o tradicional universo musical indiano. 
Filme escolhido pelo Carlos Natálio.

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sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Número Dois (Numéro Deux) 1975

Uma família de três gerações é soberbamente interpretada por não profissionais que discutem, fazem amor, e gostam da música de Léo Ferré. A esposa (Sandrine Battistella) age como se fosse prisioneira na sua própria casa, enquanto o marido (Pierre Oudrey) vive aprisionado ao trabalho. O filho e a filha questionam o crescimento num país onde o governo é hostil em relação aos trabalhadores, com a filha principalmente interessada em perguntar à mãe sobre questões sexuais. Godard aparece como ele próprio, um intelectual questionador que traça paralelos assustadores entre as paisagens e as fábricas. 
De uma forma provocativa e segura, Godard questiona a realidade social dos tempos, e a forma como é vista por aqueles que sofrem as mais severas mudanças. Não chega a conclusões definitivas, mas abre uma porta para mais pensamentos sobre um mundo estranho, aceite pela maioria só porque é inacreditável. 
"Numéro Deux" marca a colaboração bem sucedida formada por Anne-Marie Miéville e Jean-Luc Godard. É um filme experimental examinando os efeitos do homem contra a máquina, e de uma família da classe trabalhadora francesa composta por pais, filhos e avós. O seu formato invulgar projecta na tela da TV imagens de diferentes proporções, e ecrãs divididos, que são sobrepostas numa imagem de 35 mm depois de ser filmado em vídeo. O argumento de Godard contra as crenças tradicionais, a ética do trabalho, alienação, e a sua posição abertamente controversa sobre o comportamento erótico, contrariando os defensores tradicionais dos valores familiares, empurra as suas fronteiras sexuais e a sua visão radical de que os tempos económicos difíceis aumentam a possibilidade de mais autoconsciência entre as massas. 
Apesar da natureza vanguardista do filme, é surpreendentemente lúcido, e um dos melhores e mais subversivos deste notável realizador.
Filme escolhido pelo Fernando Oriente.

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quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Os Domingos de Cybele (Les Dimanches de Ville d'Avray) 1962

Depois de matar uma criança quando o seu avião caiu numa aldeia Vietnamita, Pierre sofre de stress e amnésia parcial. Regressa a França e vive como um vegetal até conhecer uma jovem que foi abandonada pelo pai colégio interno. Passando pelo seu pai, Pierre tenta encontrar-se com a jovem todos os Domingos para brincar com ela e talvez recuperar a sua memória. A amizade inocente, é mal interpretada por quase todos, até mesmo por pessoas que conhecem bem Pierre.
O tema de um adulto e uma criança a encontrarem uma ligação entre si não é um tema controverso, mas "Os Domingos de Cybéle" atravessou uma linha muito provocativa. Não faz nenhum comentário sobre a proximidade de uma rapariga de 12 anos e o seu problemático companheiro trintão, e os dois nunca cruzam a linha em nada sexual, mas há uma afeição física entre eles. São como dois jovens a brincar às casinhas, com a amizade deles a ser interpretada conforme é observada. O acto de assistir é o que nos convida Serge Bourguignon nos convida, e é ele que fabrica a linguagem visual para enfatizar o acto. 
Embora inicialmente tenha sido criticado por alguns críticos da Cahiers que posteriormente se tornaram cineastas, não deixa de ser uma obra prima humanista que ancora a sua narrativa no desespero do pós-guerra a uma estética predominantemente pós-neo-realista com reflexos do realismo mágico. A rejeição do filme pelos Cahiers provavelmente resultou de uma questão dupla: acharam o filme formalmente menos ousado, inovador e rigoroso do que outros filmes do que outros filmes que estavam a ser feitos ao mesmo tempo, por realizadores como Godard ou Chabrol, e ficaram indignados por o filme entrar no top do ano à frente de "Jules et Jim" de Truffaut, e "Vivre sa Vie" de Godard, tendo sido escolhido como representante Francês na corrida pelos Óscares, que posteriormente ganhou. 
Filme escolhido pelo João Chaves.

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sábado, 1 de setembro de 2018

O Cavalo de Turim (A Torinói ló) 2011

“O Cavalo de Turim” de Béla Tarr é o filme mais desolador que alguma vez eu vi. Assisti-lo pela primeira vez num quarto resguardado da luminosidade diurna, e subir de novo os estores após o fim da sessão causou vertigem e dor real no meu nervo ótico – o vermelho dos telhados, o amarelo das paredes dos prédios, o azul do céu cobáltico, o verde-escuro das árvores e da relva…foi o choque do espetro das cores que me assolou, tal como o choque da luz do bloco de partos deve assolar o recém-nascido que abandona o ventre negro da mãe.
Mais do que um exercício à nossa resiliência como espetadores de cinema, “O Cavalo de Turim” é uma janela impiedosa para o abismo, para o terror inominável que circunda a frágil existência humana. É como se o objetivo do filme fosse recriar essa experiência do episódio que lhe serve de premissa: a da quebra da sanidade de Friedrich Nietzche perante a cena de um cavalo a ser vergastado, quebra essa da qual o filósofo nunca mais recuperou durante a década posterior em que ainda viveu.
Apesar de ser uma explicação mitológica para a condição demente de que Nietzche padeceu (provavelmente ele já se encontrava tomado pela sífilis quando se abraçou ao pescoço do cavalo magoado a chorar copiosamente), não há que negar a força da sugestão do episódio, e a angústia que nos causa imaginar que indescritíveis conclusões se abateram sobre Nietzche nesse fatídico momento, que verdade terrível sobre o Cosmos desabou sobre ele, catalisada por uma simples visão de maus-tratos a um animal.
Nessa perspetiva, “O Cavalo de Turim” pode ser visto como um conto lovecraftiano reduzido ao seu esqueleto, desprovido de quaisquer materializações de horror cósmico para nos confrontar com o vácuo na sua informidade infinita. Um filme que nos transporta lentamente através da última convulsão da entropia, que nos faz observar os últimos estertores da existência antes de se dissolver no zero absoluto. 
Para os corajosos que não temem ser confrontados com a derradeira conclusão da 2ª Lei da Termodinâmica, “O Cavalo de Turim” é uma experiência obrigatória, ainda que potencialmente aterrorizante.
Filme escolhido pelo Sérgio Pelado, que também escreveu este texto.

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sexta-feira, 31 de agosto de 2018

Parada de Malucos (Hellzapoppin') 1941

Olsen e Johnson são dois comediantes de palco que querem transformar a sua peça num filme, mas o realizador não está satisfeito. Têm o apoio de um casal apaixonado, enquanto quebram todas as regras possíveis e imaginárias.
"Hellzapoppin’ é uma das comédias mais tresloucadas do cinema americano e o título mais conhecido dos vários que envolveram a dupla Olson & Johnson, uma das mais bem sucedidas das décadas de 30 e 40 no showbiz norte-americano. Uma comédia cheia de momentos meta-cinematográficos, em que a quarta parede está a ser constantemente deitada abaixo sem dó nem piedade, onde uma história de amor não serve mais do que um pretexto para uma série de piadas, servidas ao ritmo de uma metralhadora em funcionamento. Estamos a rir-nos de uma, e entretanto já se nos escaparam duas ou três! Entre as mais inusitadas punchlines até aos mais suculentos números de humor físico, Hellzapoppin’ é um festim de espetáculo que merece ser descoberto - o que continuará a ser difícil, até que as questões de direitos que têm feito o filme permanecer na semi-obscuridade, nas últimas décadas, sejam resolvidos para conseguirmos ter acesso a cópias mais decentes. É uma jóia que poderá conviver muito bem entre as comédias dos irmãos Marx, e onde percebemos que o nonsense que, mais tarde, seria característico dos Monty Python, teve em Olsen & Johnson um dos seus melhores exemplos."
Filmes escolhido pelo Rui Alves de Sousa, que também escreveu o comentário.

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quinta-feira, 30 de agosto de 2018

As Crianças (Les Enfants) 1985

As Crianças foi o último filme realizado por Marguerite Duras (1914-1996), uma das escritoras e intelectuais mais influentes do século XX. Tratando-se de cinema, ela é frequentemente lembrada pela escrita de Hiroshima, Meu Amor (1959), clássico de Alain Resnais, pelo qual recebeu indicação ao Oscar de melhor roteiro original. Sua própria obra cinematográfica, iniciada uma década depois, é constituída de filmes ousados, radicais, originais, dentre os quais têm destaque: Nathalie Granger (1972), A Mulher do Ganges (1974), India Song (1975), O Caminhão (1977) e Agatha e as Leituras Ilimitadas (1981). Nathalie Granger é o filme de Duras já presente aqui no blog My Two Thousand Movies. Discorre sobre tema muito semelhante ao de As Crianças: a inadaptação de uma criança à escola regular e a reação da família à situação. 
 O roteiro de As Crianças é de Duras, Jean Mascolo e Jean-Marc Turine. Foi baseado no conto Ah! Ernesto, escrito por ela e já previamente adaptado no curta-metragem En Rachâchant, de Danièle Huillet e Jean-Marie Straub. Inicia com um diálogo entre Ernesto (Axel Bougousslavski) e sua mãe (Tatiana Moukhine), onde ele lhe comunica que não vai voltar para a escola porque na escola lhe ensinam coisas que não sabe. Decisão tomada pela criança em um bosque para o qual se dirige ao sair de um colégio retratado deserto. Sob uma árvore, ele tem uma visão da criação do universo e conclui que neste mundo em que tudo se criou de uma só vez, “nada vale a pena” — frase muito presente na obra de Duras, cujo primeiro filme solo, filmado após o maio de 68, foi sintomaticamente chamado de Destruir, Disse Ela (1969). A mãe lhe pergunta se a escola não vale a pena. Ele responde que não, ela saberia disso melhor do que ninguém. Jeanne (Martine Chevallier), a irmã (que logo depois também desistirá da escola), lhe questiona: “nem a música vale a pena?” Após breve hesitação, Ernesto responde que a música também não vale a pena. A mãe e o pai (Daniel Gélin, ator que já havia trabalhado com Duras justamente em Destruir, Disse Ela) respeitam e acatam a decisão do filho e vão à escola para comunicar ao professor a resolução tomada pela criança. Revelo aqui o inusitado: Ernesto e Jeanne têm aparência de adultos e são interpretados por atores com idade superior a 30 anos. A mãe explica ao professor que o filho tem sete anos, mas é muito grande, parece um bispo, um professor de filosofia, alguém que não se pode forçar a nada. As Crianças tem um tom cômico incomum na obra de Duras, tão marcada pela dor. As reações do professor e de um jornalista que tentam compreender as motivações de Ernesto reforçam esse traço divertido da obra. Os pais — estrangeiros, à margem, habitantes do subúrbio — são os cúmplices dos filhos. O cotidiano doméstico é singular. Grande parte do filme se passa na cozinha, onde a mãe se dedica a tarefas rotineiras, como descascar batatas. Esse ambiente, contudo, é de subversão: um refúgio, um espaço de resistência ao Estado e à sociedade organizada. As crianças confrontam tais instituições, questionando o papel educativo da escola formal. Cabe dizer aqui que em dois de seus livros com fortes matizes autobiográficas — O Amante (1984) e O Amante da China do Norte (1991) — a personagem que corresponde a Duras não tem nome, é apenas “a criança”. Nessas obras literárias, violência e sentimentos incestuosos também permeiam o espaço íntimo. Em Chuva de Verão (1990), livro escrito por Duras baseado no filme As Crianças (ela diz que o fez por não conseguir abandonar esses personagens), o erotismo entre os irmãos é explícito. No filme, se de fato presentes, as insinuações sexuais são muito tênues. Nesse formato, no plano sentimental, Duras nos fala mais de medo de abandono, tema igualmente caro a ela. As Crianças é um de seus filmes mais compreensíveis, sem nenhum radicalismo na estruturação da narrativa. As típicas disjunções entre imagens sonoras e visuais presentes em A Mulher do Ganges e India Song inexistem aqui. Quase todas as vozes ouvidas fora de cena correspondem aos personagens, com exceção da característica voz de Duras narrando justamente a partida de Ernesto, já um sábio, para a América. 
 A mãe de Duras foi professora primária. Seu pai, professor de matemática. Ambos franceses, decididos a viver a aventura colonial na Indochina. Duras e seus irmãos nasceram próximo a Saigon e o pai morreu quando ela tinha 4 anos. A mãe foi enganada por funcionários da administração colonial na compra de uma terra incultivável, inúmeras vezes alagada pelas águas do Pacífico. Viveram — Duras, a mãe e os irmãos — em situação de extrema pobreza e sofrimento familiar. Para incrementar os proventos financeiros, a mãe tocava piano em um cinema e com muita dificuldade garantiu a escolaridade de seus filhos. Duras se mudou para Paris aos 17 anos para estudar Matemática, Direito e Ciências Políticas. Foi membro da Resistência Francesa durante a Segunda Guerra, filiada ao Partido Comunista Francês e ativa nos movimentos de maio de 68. Todos esses episódios foram refletidos em sua obra. Em Nathalie Granger, Moderato Cantabile e Agatha e as Leituras Ilimitadas existe uma certa obstinação das mães com a educação de seus filhos, particularmente com a necessidade de aprendizado do piano. A mãe de Nathalie Granger diz que se a filha não se dedicar à música estará perdida, visto que na escola convencional a menina apresentava comportamento violento. Anne Desbaresdes, a mãe de Moderato Cantabile (livro que foi adaptado em roteiro por Duras e filmado por Peter Brooks), diz a seu filho: “É preciso aprender piano, é preciso”. Em Agatha e As Leituras Ilimitadas, obra que aborda o amor incestuoso entre irmãos, Agatha pede ao irmão para que comunique à mãe sua vontade de não estudar mais o piano e a mãe a liberta dessa obrigação. Em As Crianças, vê-se situação semelhante: o filho não quer mais ir a escola, a irmã o segue na mesma decisão, os pais compreendem. 
A trilha sonora de As Crianças é do argentino Carlos d’Alessio, compositor do inesquecível tema de India Song. O filme recebeu Menção Honrosa do Júri Internacional na Berlinale. Após 1985, Duras voltou a se dedicar apenas à literatura.
O filme foi escolhido pela Carla Oliveira, que também escreveu este texto. 

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segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Throw Away Your Books, Rally in the Streets (Sho o suteyo machi e deyou) 1971


Seguimos um jovem sem nome, a quem o realizador chama Watashi ("Eu") e cuja família é um desastre disfuncional completo. A irmã tem uma relação doentia com o coelho de estimação, a avó é uma ladra, e o pai um frustrado que leva o filho ao bordel. A história é completamente não linear, misturando estranhas colagens fantasmagóricas, vídeos de musica e imagens surreais.

"Throw Away Your Books, Rally in the Streets" é o primeiro filme experimental de Shuji Terayama, um poeta, dramaturgo, realizador "avant-garde" que também era um ávido seguidor de boxe (o seu amor pelo boxe é mencionado várias vezes neste filme, por exemplo.
A mensagem do filme é apresentada sem rodeios no título. Terayama diz aos académicos que a sua abordagem a este filme não é necessária, e o filme deve ser vivido como uma experiência e não analisado, e as pessoas devem passar mais tempo nas ruas e não gastá-lo num cinema ou a ler livros. Esta visão é sustentada por todo o filme, citações de famosos pensadores grafiteiros nas paredes, um intelectual que chateia a sua companheira até à morte num restaurante, entre outras coisas, que nos levam a pensar que a resposta a tudo isto é algo muito simples.
O filme começa com um tela preta desconfortavelmente longa, quando de repente o protagonista aparece a perguntar o que estamos a fazer em frente a uma tela preta, e depois goza com o público porque eles estão escondidos num cine-teatro enquanto ele pode fazer o que quiser, como acender um cigarro. No final voltamos a esse ecrã preto, mas antes disso, o protagonista, rodeado de toda a equipa, faz um discurso sobre as fronteiras do cinema: Polanski, Oshima, Antonioni...tudo isto é apenas um mundo que desaparece quando a luz é ligada.
Filme escolhido pelo Julio Costa.

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domingo, 26 de agosto de 2018

A Ilha Nua (Hadaka no Shima) 1960

A vida dura e intolerável de uma família de quatro pessoas, os únicos habitantes de uma pequena ilha japonesa no arquipélago de Setonaikai. Eles cultivam uma colheita de batatas e trigo para comer e vender, mas a cruel ironia é que na ilha em que vivem não têm água potável para beber e irrigar os campos.
"A Ilha Nua" foi o improvável primeiro sucesso internacional do prolífico autor japonês Kaneto Shindô, que já tinha dirigido 14 longas metragens na década anterior, incluindo o provocador "Children of Hiroshima" (1952), que disputou a sexta edição do Festival de Cannes. Esta 15ª longa-metragem de Shindô é apresentada no formato de documentário sobre a luta diária de uma pequena família para cultivar um terreno árido numa ilha isolada, que tornou essa ilha conhecida para o mundo, depois de ter ganho o Grand Prix do Festival de Moscovo, e tornar-se um sucesso de bilheteira imprevisto, que acabou por salvar a produtora de Shindô, a Kindai Eiga Kyokai. Mesmo assim o filme ainda teve algumas críticas de japoneses, que estavam preocupados com o retrato de uma família camponesa isolada, que dava uma imagem primitiva do Japão.
"Hadaka no Shima" é a verdadeira essência do cinema minimalista. Não existem realmente diálogos no filme, e é pouco preciso na história. Shindô pretendia que o filme fosse uma espécie de experiência, uma tentativa de fazer um poema cinematográfico que transmitisse a vida camponesa rural, sem recorrer ao diálogo, e nesse aspecto é realmente bem sucedido. 
Shindô viria mais tarde a ser conhecido por "Onibaba" e "Kuroneko", dois filmes que já passaram por aqui.
Filme escolhido pela Joelle Ghazar.

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sexta-feira, 24 de agosto de 2018

Warm Water Under the Red Bridge (Akai Hashi no Shita no Nurui Mizu) 2001

Um conto impossível. Taro, um idoso que morre sem abrigo em Tóquio, contou a Yosuke, um desempregado, sobre uma estátua de ouro que deixou anos atrás, numa casa perto do mar, em Noto. Yosuke vai até lá, e conhece Saeko, uma mulher que vive na casa onde Taro deixou a estátua. Ela tem um estranho problema: a água acumula-se nela, e só consegue livrar-se de duas formas: ou cometendo actos perversos, como furtar numa loja, ou atingindo o orgasmo no acto sexual.
Realizado em 2001, adaptando o livro de Yo Henmi,  “Warm Water Under a Red Bridge” foi a última longa metragem do japonês Shohei Imamura. Depois deste ele apenas dirigiu mais um projecto antes da sua morte, em 2006, um segmento do projecto “11’09”01 – September 11.”No entanto, no que refere apenas a longas metragens, “Warm Water” era uma comovente despedida do realizador, combinando a comédia romântica com o seu original estilo, para fazer uma fábula moderna imaginativa.
"Warm Water Under a Red Bridge" é um retrato cativante da excentricidade provinciana, e uma generosa homenagem à fecundidade feminina, incorporando várias sub-tramas peculiares, e personagens secundárias, como o treino de um estudante africano para uma maratona, ou a competição de Yosuke pelo tesouro. O filme também consegue voltar a reunir o casal de "Unagi", Kôji Yakusho e Misa Shimizu, que foi um dos filmes com que Imamura conseguiu ganhar a Palma de Ouro. Concorrendo de novo para este galardão, não conseguiu ganhar graças a uma concorrência fortissima: "O Quarto do Filho", "A Pianista", "O Elogio do Amor", "Mullholand Drive", entre outros.
Foi um filme escolhido pelo Kinta Jarreto.

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quinta-feira, 23 de agosto de 2018

10 Anos de Thousand Movies


Faz hoje exactamente 10 anos que tudo começou. Um blog que comecei na brincadeira, para partilhar uns filmes com os meus amigos, e que com o tempo se tornou em...Para falar a verdade, não sei bem no que se tornou, mas uma coisa é certa: cá continuamos, e o mais importante é fazermos aquilo em que acreditamos. Eu acredito neste projecto dos thousand movies, e é por isso que aqui continuo.
Como diz a música do vídeo que vou colocar a seguir:

Vamos em frente, olho por olho, dente por dente, ó capitão!
Vamos em frente, olho por olho, dente por dente, ó capitão!
Vamos em frente, olho por olho, dente por dente, ó capitão!
Vamos em frente, olho por olho, dente por dente, ó capitão!


quarta-feira, 22 de agosto de 2018

Iluminação (Iluminacja) 1973

Acompanhamos a educação de um jovem adulto, desde a sua entrada na universidade até ao doutoramento, ao mesmo tempo que acompanhamos a sua formação interior e a entrada na vida adulta, a sua aprendizagem sobre a vida, família, sexualidade e valores morais e espirituais.
Os anos do pós-guerra foram um período de enorme criatividade para todo o cinema Europeu, e Krzysztof Zanussi destacava-se de entre os grandes cineastas polacos da altura. "Iluminação" era uma viagem profunda e cerebral através da vida de Franciszek Retman (Stanislaw Latallo) na sua incessante busca pela iluminação, com tremenda destreza formal. Era o início de um período particularmente inventivo na carreira de Zanussi, o filme é uma obra-prima idiossincrática, explorando a humanidade ao estilo "cinema verité".
Em "Iluminação", em vez de simplesmente contar a história da vida de uma personagem, Krzysztof Zanussi queria apresentar os estados mentais de desenvolvimento dessa personagem. Para fazer isso, teve de fugir à forma de narrativa tradicional, em vez de moldar o seu filme num ensaio. O filme apresenta eventos cruciais e cenas quotidianas da vida de Franciszek, mas essas passagens narrativas padrões são reduzidas ao mínimo. Preenche as lacunas com esse "cinema verité", filmagens de discussões académicas e experiências, e imagens de diagramas médicos, gráficos científicos e close-ups do corpo humano. 
Zanussi admirava os físicos porque a disciplina deles permitia que fossem pensadores livres numa época em que a doutrina marxista se infiltrara na maioria das outras áreas académicas, incluindo a Biologia. O realizador tinha originalmente incluído uma cena em que Franciszek participa nas manifestações estudantis de 1968, na Universidade de Varsóvia, mas os censores forçaram a cortá-la. Depois perdido, este material não pode ser incluído na versão restaurada.
Filme escolhido pela Rita Mota.

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terça-feira, 21 de agosto de 2018

O Pão Nosso de Cada Dia (City Girl) 1930

Filme produzido logo após o desaparecido Os quatro diabos e o fabuloso Aurora, O pão nosso de cada dia demonstra a maturidade de um cineasta em acensão. As imagens deste filme de 1930 nos mostra toda a riqueza da construção fílmica de um diretor que aprendeu a fazer um cinema clássico e universal. Desde os primeiros momentos de O pão nosso de cada dia fica claro ao espectador a simplicidade da trama de Murnau, assim como a complexidade emocional que se desenvolve por trás dela. Mais uma vez o diretor alemão nos presenteia com um filme sobre amor, sobre a relação entre pessoas. O trato que devemos ter uns com os outros.
 O filme abre com a imagem de um trem cortando uma paisagem rural. Dentro dele está um homem jovem que logo descobrimos ir para a cidade a pedido de seu pai para fazer um negócio. A moça sentada no banco ao lado vê o garoto tirar de dentro do paletó uma quantidade considerável de dinheiro e tenta flertar com ele, que não nota e deixa a moça de lado. Desde estes primeiros momentos, O pão nosso... fará o desenvolvimento da simplicidade do comportamento deste personagem vindo da e criado na fazenda e que não se ilude nem busca as maravilhas da cidade. Ao invés de ir ao vagão restaurante, ele prefere comer os sanduíches que sua mãe lhe preparou. O que irrita a mulher que tentava flertar com ele é, na verdade, a afirmação de que aquele personagem se contenta com a sua origem - o contrário do que o amontoado de dinheiro que ele carrega poderia sugerir.
Na cidade, o jovem vai almoçar num restaurante cheio. São sempre muito curiosas as composições de cenário na cidade. Os quadros são sempre cheios de pessoas fora de foco que passeiam de um lado para outro, ao fundo. Dentro do restaurante, elas ficam de pé atrás de quem está comendo junto ao balcão, à espera de seu momento para sentar e poder comer também. Estas composições de imagem concedem ao filme certa energia. A cidade é envolvente, é agitada, chama para si a alegria (é o que primeiro acreditamos). Mas todo este envolvimento se perde quando começamos a notar o comportamento daquelas pessoas que se sentam ao lado no balcão do restaurante. Os fregueses constantemente flertam com a garçonete, pegam em sua mão, fazem-lhe propostas. O cenário da cidade, aparentemente cheio de vida, torna-se impessoal. A garçonete, Kate, sente calor por toda aquela agitação e aquela aglomeração de pessoas ao seu redor. Mas o ventilador é para espantar as moscas da comida, não para ela.
 Seduzida por um ideal do que seria a vida no interior, longe da agitação de Chicago, Kate se encanta por Lem, o jovem vindo da fazenda para fazer negócios em nome da família: vender a colheita de trigo. Ela é simpática a ele, e ele demonstra à ela tudo aquilo que ela sonha. Desenvolvem uma paixão imediata, que vira chacota dos demais que escutam a conversa no restaurante. A compreensão da humanidade individual perante à turba se esvai. O amor vira piada, e o apaixonar-se, uma infantilidade. Assim, esta movimentação logo ganhará seus reais contornos. As casas de valores, as bolsas, entrarão em crise e o valor do trigo despencará rapidamente. Lem vende a colheita muito abaixo do preço que seu pai havia estipulado com medo de perder mais dinheiro do que já havia perdido. - E esta é uma das cenas mais fabulosas do filme: Lem sai do restaurante em que Kate trabalha com um jornal em mãos. A notícia é filmada em primeiro plano por Murnau. Lem está devastado com as informações. A câmera recua. A movimentação das pessoas na rua deixa de ser o simples ir e vir urbano para se transformar no caos dos sentimentos do personagem, na confusão que é a vida em comunidade: o trabalho da colheita é reduzido a números que representam a miséria financeira.
Kate e Lem se casam ainda naquela mesma semana e se mudam para a fazenda dos pais dele. Se ela acreditava que o comportamento dos homens hostis em relação a uma mulher se dava somente pela cidade, ela passa a testemunhar a mesma atitude no campo. Não em relação a seu marido, mas em relação ao pai de Lem e aos seus empregados. Kate é um belo pedaço de carne cobiçado por uns e rejeitado por outros. Tudo o que ela quer é a vida em paz com Lem. Mas descobre da pior maneira possível que o problema do homem (ou da humanidade) não é a localização, mas o seu próprio comportamento. - seria uma indireta do cineasta alemão (homossexual) filmando em Hollywood?
 Por fim, Murnau nos mostra que não é Kate quem deve se redimir e mostrar aos outros quem ela é e como deve ser e merece ser tratada, mas os outros perceberem que ela deve ser tratada com a dignidade devida. Se na primeira parte na cidade o protagonismo do filme ficava a cargo de Lem, neste segundo fica a cargo de Kate. Sempre a visão do estrangeiro, do estranho. Mas se na cidade Lem fora bem recebido, na fazenda Kate não é. Lem demonstra-se impotente frente ao autoritarismo de seu pai, e Kate não consegue de seu amado as promessas que lhe foram feitas.
Em mais um de seus filmes humanistas, Murnau nos mostra que o homem pode ser incivilizado em qualquer ambiente. O que o torna civilizado é seu comportamento, não sua localização. Se na cidade esta pessoalidade das relações humanas se esvai com as grandes quantidades de gente - os homens enquanto gado -, na zona rural ela se esvai por um senso de pertencimento. De objetificação do outro. Mas no fim, são todos humanos buscando sua cota de respeito e paz para suas vidas, e querem encontrá-la independente de onde estiverem. Texto, daqui
O filme foi escolhido pelo Yves Marcel, que também é o autor do texto.

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domingo, 19 de agosto de 2018

Atracção Básica (Hexed) 1993

"From deep within the realms of absurdism comes a rather unserious take on modern love. Alan Spencer's Hexed is unquestionably one of the funniest films I have seen in years.
 Claudia Christian – whose face may be familiar even if her name is not – has had a truly bizarre career playing a string of characters clearly considered by filmmakers to be sexually deviant: lesbians, transsexuals and the like. 
 Here, as the exotic supermodel Hexina, Christian portrays a full-out female grotesque – and she is absolutely magnificent. 
 The plot starts with a sad-sack porter (Arye Gross) in a rundown hotel. He is a compulsive fantasist and liar. In walks Hexina, the object of his desire, hiding out in America while she deals with some shady blackmail business. 
 Once these two become entangled in an outlandish web of criminal activity, the film gears up to its furiously funny set-pieces – including a riotous sex scene where Christian gives the comic performance of her life. 
 This is a highly original and inventive film, unafraid to go out on the limb of its own wild excesses. Not since the great days of Jerry Lewis as The Bellboy (1960) has a comedy been so determined to milk every possible visual and verbal gag out of a set, a situation or a plot premise. 
 Not every joke works, of course, but the several hundred laughs remaining make this a treat not to be missed." Daqui.
Filme escolhido pelo crítico Adrian Martin, com o seu próprio texto. Legendas em inglês, em anexo.

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Legendas em inglês
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sábado, 18 de agosto de 2018

O Barão Aventureiro (Baron Prásil) 1962

Quando um jovem astronauta aterra na Lua, descobre-a habitado por várias figuras literárias, incluindo o grande mentiroso Baron Munchausen. Acreditando que este visitando céptico precisa de aprender e aproveitar a vida, o Barão leva-o numa viagem ao que parece ser a Terra do Século XVIII. Lá, os dois visitam a corte Otomana, resgatam uma nobre em cativeiro, escapam da frota turca, são engolidos por um grande peixe, entre muitas outras aventuras.
"Baron Prásil", lançado em 1962, é mais identificado com o seu título alternativo, "The Fabulous World of Baron Munchausen". Entre os fãs da aventura sensacional, Munchausen talvez apenas tenha paralelo com o próprio Capitão Nemo. Muito vagamente baseado na história real do nobre Hieronymus Carl Friedrich Baron von Munchausen, as histórias das suas façanhas fantásticas tornaram-se folclore quando ele apareceu por volta de 1780, como personagem central de vários contos de aventuras de um livro chamado "Vademecum fur lustige Leute". Como as histórias foram traduzidas de uma língua para outra, a grandiosidade e a natureza absurda das façanhas de Munchausen cresceram, como costuma acontecer com os heróis de folclore, e em pouco tempo ele visitava a lua e passeava pelos campos de batalha montado numa bala de canhão.
Embora Karel Zeman realmente nunca evoque qualquer percepção de que Munchausen seja um herói, ele preenche o filme com uma sensação de deleite do Barão com a vida, a sua imaginação maravilhosa, e o seu tremendo senso de diversão. Além disso, todos os vários dispositivos com que o realizador anima o seu filme ajudam a despertar no espectador uma apreciação absolutamente maravilhosa das coisas pelo simples prazer que despertam.
Karel Zeman foi um dos maiores mestres do stop-motion, misturando muitas vezes live-action com animação, que é o que acontece neste filme. "Baron Prásil" é talvez o seu melhor filme. 
Filme escolhido pelo Lino Ramos. 

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