domingo, 21 de maio de 2017

Why Don't You Play in Hell? (Jigoku de Naze Warui) 2013

Hirata é um jovem ambicioso que sonha se tornar num grande cineasta. Enquanto ele prepara a realização do seu primeiro filme, uma violenta disputa entre dois clãs da Yakuza começa a escalar mas redondezas: a esposa do grande chefe Muto massacra o gang do rival Ikegami e é presa, sacrificando a carreira da filha Michiko, que sonha em ser uma actriz famosa. Dez anos depois, Muto resolve provar para a esposa, prestes a sair da cadeia, que Michiko se tornou numa estrela. É então que os caminhos de Hirata e da Yakuza se cruzam numa verdadeira orgia de cinema e sangue.
O título do filme, o alto volume de carnificina sangrenta, e parte do argumento ser sobre a vingança, sugerem uma brutalidade chocante, mas Sion Sono faz uma aproximação a este material de uma forma totalmente diferente. O Sarcasmo e a sátira ganham em relação ao sangue, e isso é uma coisa boa de se ver. O cenário é tão cómico como sangrento, e há um piscar de olhos para a indústria cinematográfica.
Eventualmente, há uma sequência de acção interminável e infinitamente inventiva na qual todas as tramas do filme são resolvidas, embora com uma enorme determinação sangrenta. É como se Sion Sono tivesse visto o final de "Kill Bill Vol. 1" e decidisse superá-lo. 
O filme teve honras de estreia no Festival de Veneza, em 2013, e passou por alguns dos Festivais mais importantes: Toronto, Austin, Sitges, e Fantasporto, onde ganhou a secção Orient Express. 

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sábado, 20 de maio de 2017

The Land of Hope (Kibô no Kuni) 2012

Inspirado nos acontecimentos de Fukushima, o filme mostra o terremoto no Japão que provoca um tsunami e a explosão de uma usina nuclear. Os habitantes das cidades da região têm de abandonar as suas casas, no entanto, Yasuhiko insiste em continuar a viver no mesmo lugar com a sua esposa Chieko, a despeito dos riscos da radiação, contrariando as autoridades locais e o próprio filho.
"Não deixa de ser irónico como um evento real, infelizmente trágico e alarmante, conseguiu melhorar a concepção dramática das sinuosas e histriónicas ficções de Sono, ficções essas que vinham ultimamente sendo praticadas em piloto automático, com súbitas mudanças de ritmo e cadência psicológica num mundo impregnado de personagens psicopatas, cruéis e instáveis. Pois bem, aqui encena-se um desastre radioactivo em tudo semelhante ao de Fukushima, mas acontecendo logo depois deste. Se bem que algumas referências (sobretudo espaciais) tinham sido já feitas no seu filme passado, Himizu, a verdade é que neste Land of Hope o foco está totalmente virado para as coreografias de abandono da terra em virtude de uma pseudo-segurança, lá onde não existe radioactividade. Nesse sentido, por se aproveitar de uma situação exterior, imposta, com um grau de realidade próxima de nós e em tudo estranha e neurótica (qual o conhecimento que nos assegura não estarmos infectados?), a radicalidade nas acções e a depressão emocional dos seus típicos personagens é-nos muito mais perceptível e nela nos fiamos. Também o chefe de família (bom papel de Isao Natsuyagi), acompanhado pela sua mulher senil, tem um desafio pela frente: sair implica morrer, o êxodo significa não voltar mais. É sobretudo por causa dessas cenas finais (um fechar do círculo perfeito para um resto, às vezes, redundante, televisivo, e facilitista em termos de imagem) que se pode dizer que Sono, passando a mesma mensagem de duas formas distintamente diferentes, a de que o amor torna possível a redenção, torna significativo o que quer transmitir, principalmente para os seus contemporâneos japoneses, que, de alguma forma, necessitam de ver o seu esforço recompensado em celulóide. Mesmo o compositor que tinha chacinado em Guilty of Romance, Mahler, aparece aqui com o seu peso devido e real, próximo de uma tragédia convincente e não um exercício de sadismo auto-indulgente pelo acto de criar e pelos seus personagens. Falta, porém, algum sintetismo."
Texto de Miguel Patricio, daqui.  

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My Two Thousand Movies no Instagram

A partir de agora já podem seguir o My Two Thousand Movies no Instagram, através da página M2TM. (https://www.instagram.com/mytwothousandmovies/)
Esta conta serve para partilhar prints de filmes que serão publicados em breve no blog, outros que já foram publicados anteriormente, e anunciar futuros ciclos. Muito cinema, portanto. Sigam.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Himizu (Himizu) 2011

Sumida e a sua colega Keiko são dois jovens de 14 anos que vivem que têm uma existência distópica, onde cada um dos seus pais tem esperança e os encoraja e morrer. Situado nas zonas afectadas pelo tsunami em Maio de 2011, no Japão, cujo cenário é usado como pano de fundo, a história segue a do manga do mesmo nome, em que Sumida luta frequentemente com o seu pai, é abandonado pela mãe, e rejeita qualquer tentativa de aproximação amigável. Eventualmente, mata o seu pai, e de seguida, assumindo que a sua vida está arruinada, tentando melhorar a sociedade matando "pessoas más".  
Originalmente concebido como uma versão bem próxima da fonte original, uma manga de Minoru Furuya, Sion Sono reescreveu o argumento depois do desastre, não só para incluir cenas de destruição, mas também para se apoiar nele para os temas centrais do filme. Talvez tenha sido um pouco oportunista, mas o timing é tudo na vida. Tal como acontece no filme de Spike Lee pós 11/9, "25th Hour", onde a história se passa com um pano de fundo de um evento catastrófico, o resultado aqui é igualmente emocionantemente poderoso. 
Os dois jovens protagonistas têm interpretações notáveis, e o filme não poderia ter funcionado tão bem sem eles. Shôta Sometani lida com o complexo do seu personagem com uma intensidade enorme, combinando os níveis necessários para acompanhar o tom do filme. Apesar do tom sombrio e pesado de desespero e agressão, Sono também consegue imbuir no filme uma mensagem de esperança e inspiração. É um trabalho ousado de puro brilho absolutamente perturbador mas profundamente edificante ao mesmo tempo. É tudo menos directo ou coerente, mas isso nem importa. 

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quarta-feira, 17 de maio de 2017

Guilty of Romance (Koi no Tsumi) 2011

"Nesse filme de 2011 , "Guity of romance", ele investe em uma história real, sobre o assassinato de uma Economista de uma grande empresa em Shibuya, Tokyo, e que de noite se prostituia por prazer. O crime ocorreu em 97 e chocou a mídia. Sono pega essa história e cria uma ficção livremente inspirada nesse crime. No filme, acompanhamos 3 histórias: uma, de um crime, onde partes do corpo de uma mulher foram encontrados. Logo depois, em flashback, acompanhamos a historia de 2 mulheres: Izumi e Mitsuko. Izumi é a esposa de um famoso novelista erótico. Ela é frígida, e serve a seu marido como uma escrava, dominada pela sua rotina sem sal. Um dia, ela é convidada a posar nua, e a partir daí, ela descobre a sua sexualidade e vai enlouquecendo aos poucos, sem limites paa extravazar sua libido. Mitsuko é uma professora em uma Faculdade, e de noite se deixa levar pelos instintos mais selvagens da prostituição. O filme obviamente remete a "À procura de Mr Goodbar" e "A bela da tarde", dois clássicos sobre o tema da prostituição. Mas o cineasta Sion Sono sempre foi um mestre de provocar repulsa e constrangimento ao espectador, e jamais poupou seus filmes de mostrar cenas extremamente violentas, ou até fetiches sexuais humilhantes. Sono sabe o público que tem. Seus filmes são perturbadores, e em "Guilty of romance" ele não deixa por menos. Exibido em Cannes 2011, na Mostra Quinzena dos realizadores, causou furor pela sua crueza. O filme foi lançado em duas versões: 144 e 112 minutos. Logo depois desse filme, Sono viria com dois dramas pesados sobre sobreviventes de Fukushima, : "Himizu" e "A terra da esperança". Um cineasta autoral que vale super a pena conhecer. Ousado, está na mesma linha de Takashi Miike e Takashi Kitano, outros estetas da violência que trazem o drama do ser humano em seus momentos mais sórdidos. Excelente trabalho das atrizes que interpretam Izumi e Mitsuko."
Texto retirado daqui.

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terça-feira, 16 de maio de 2017

Cold Fish (Tsumetai Nettaigyo) 2010

Quando o gerente de uma loja apanha a filha de Syamoto a roubar, um generoso homem de meia-idade ajuda-os a resolver a situação. O homem e a sua mulher oferecem-se para que a filha rebelde passe a trabalhar na loja de peixe deles. Mas não demora muito para que Syamoto descubra a verdade por trás da perfeição aparente do casal.
Promovido como sendo baseado numa história verdadeira, foi provavelmente revelado como tal por causa do factor choque. Está claro desde o inicio que algo não está totalmente bem com Murata, um homem abertamente amigável que se oferece para contratar a filha de Syamoto, explicando que o trabalho lhe ensinará a responsabilidade e curá-la-à do seu modo de vida. A partir daqui Sion Sono muda o ponto de vista, e seguimos os negócios de Murata como se estivéssemos escondidos dentro do armário. Murata e a sua esposa são dois abutres viciosos que matam sempre que lhes convém, e quando Syamoto se envolve num plano que termina no assassinato e desmembramento de um parceiro de negócios, nos últimos 30 minutos desenrola-se uma série de eventos que ficam mais estranhos e mais sangrentos a cada minuto que passa. 
"Cold Fish" é um thriller psicológico de horror que fica algures entres as profundezas humanas mais escuras, a violência desesperada, e o grindhouse gore de um filme de Takashi Miike, mas não pertence a nenhuma destas categorias. O que Sono pretende mostrar aqui é que a violência pode ser (e neste caso, é) catalisadora para revigorar a vida de alguém, o que é preocupente, mas também é uma observação atenta sobre a nossa cultura, onde a violência é um mal comum e aparece-mos diariamente nas notícias e na nossa vida. Na sequência final Sono faz algumas comparações interessantes entre a juventude e o poder, que pode ser lido como um aviso de deixar uma geração jovem assumir o controle, antes de estarem prontos ou compreenderem plenamente as repercussões dos seus caminhos selvagens.

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domingo, 14 de maio de 2017

Be Sure to Share (Chanto Tsutaeru) 2009

Shiro tem 27 anos de idade, e é atormentado pelo diagnóstico de cancro terminal ao seu pai. Vemos a relação entre pai e filho, como tomou forma e evoluiu, as dificuldades, e a forma como o pai age como treinador do filho e instrutor. 
Sion Sono é mais conhecido como um provocador, que conseguiu chamar as atenções do Ocidente quando atirou 54 estudantes para o suicídio em "Suicide Club". Desde então foi mantendo a sua reputação com filmes como "Exte", sobre extensões de cabelos assassinas, ou "Love Exposure", sobre Deus, a religião, a Virgem Maria, sexo e pornografia. O que não sabíamos é que Sono também era conhecido como um poeta no seu país de origem, e o lado mais suave da sua personalidade fica bem exposto neste "Be Sure to Share".
Protagonizado pela estrela pop Akira, da banda Exile, numa das suas primeiras representações, pensava-se que seria um desses filmes descartáveis para os fãs da banda, mas Sono transforma este filme numa meditação silenciosa sobre a morte e a relação entre pais e filhos. O pai é interpretado pelo realizador e actor Eiji Okuda. Agora diagnosticado com cancro está preso no hospital, e a sua esposa e filho (Akira), passam os dias a visitá-lo tentando animá-lo. 
Saltando para trás e para a frente no tempo, "Be Sure to Share" não é um melodrama fácil de ser visto, sobre pais e filhos. Sono faz do filme uma espécie de ensaio, colorindo-o com dor, sobre como passamos o tempo a correr uns atrás dos outros sem nunca os alcançarmos. Sobre as pequenas coisas que fazemos todos os dias sem pensar que estes momentos insignificantes compõem as nossas vidas. Talvez este filme parta o coração do espectador, mas Sono recusa-se a objectar um sentimento tão fácil. Quando o filme terminar, vão sentir como se o vosso pescoço tivesse sido partido em dois. 

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sábado, 13 de maio de 2017

Love Exposure (Ai no Mukidashi) 2008

Yu (Takahiro Nishijima) tem a sua melhor lembrança de infância com a sua mãe a orar na igreja, mas, infelizmente, ela foi-lhe tirada muito cedo, morrendo quando ele ainda era um menino. A última coisa que ela lhe disse foi para encontrar uma mulher como a Virgem Maria, mas isso era uma missão impossível de cumprir. Quando o pai se tornou padre em reação à morte dela, Yu estava destinado a seguir o mesmo caminho, mas esse foi apenas o início dos problemas...
Takahiro Nishijima, membro do grupo musical AAA, protagoniza este tour de force de 4 horas, como Yu Tsunoda, um estudante de 17 anos que procura a aprovação do seu pai sacerdote. Apesar de Nishijima só ter aparecido em pequenos papéis, sobretudo em séries dramáticas, a sua interpretação como Yu é brilhante, captando na perfeição a sua descida aos infernos, da religião até ás lutas de rua e estúdios de pornografia. 
"Love Exposure" acaba por tirar proveito das suas quatro horas de duração. A sua história dá um monte de voltas e reviravoltas que nunca poderiam ser possíveis num filme mais curto. A primeira versão até tinha seis horas, mas depois foi cortada. Algumas idéias e conceitos explorados no inicio do filme irão tornar-se irrelevantes, mas o espectador é obrigado a nunca tirar os olhos da acção.
Para muitos dos seus fãs esta era a sua obra-prima, depois de trabalhar em filmes de género excêntricos nos durante muito tempo, como se este fosse o filme que ele queria mesmo fazer. No entanto, isto também funcionava como uma faca de dois gumes, porque os fãs habituados aos seus filmes habituais não gostaram muito deste registo muito diferente. 
Passou por vários festivais ganhando diversos prémios, entre os quais Berlim, onde venceu o Cagliari Film Award, e o FIPRESCI Prize.

Parte 1
Parte 2
Parte 3
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sexta-feira, 12 de maio de 2017

Exte: Hair Extensions (Ekusute) 2007

Raptada por gangsters que lhe retiraram os órgãos e lhe cortaram os cabelos, uma jovem é agora um cadáver zombie, mantida como refém por um empregado fetichista de uma morgue. Este está fascinado pelo facto de que, mesmo depois da jovem morta o seu cabelo lustroso continuar a crescer em cada orifício corporal. Ele corta o cabelo e vende-o como extensões de cabelo, que vão assassinar o seu novo dono.
"Hair Extensions" é uma partida radical do estilo estilisticamente esquizofrénico usado em "Suicide Club", e ou do estilo sombrio usado em "Noriko´s Dinner Table", por Sion Sono. É uma paródia de terror/comédia ao J-Horror, que leva o conceito de cabelos longos e malvados (por exemplo, visto em "The Grudge" três anos antes) a um outro nível de absurdo. Na verdade, o filme é mais uma comédia do que um filme de terror, já que as sequência de terror raramente são assustadoras, e algumas delas são bastante mal feitas.
Paralelamente a esta história, há uma outra muito mais interessante. Esta segunda fala-nos sobre a vida de Yuko (Chiaki Kuriyama, conhecida de filmes como "Kill Bill" ou "Battle Royale"), uma jovem aprendiz que sonha ser uma estilista de sucesso, mas que na sua juventude viveu atormentada pela sua irmã mais velha. Mesmo assim, a irmã mais velha estava mais interessada em atormentar a sua própria filha.
As duas histórias vão cruzar-se a dado momento, mas este cruzamento não é suficiente para tornar o filme bom. 
Se for visto como uma paródia, e não for levado muito a sério, "Hair Extensions" é um entretenimento interessante. 

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quarta-feira, 10 de maio de 2017

Strange Circus (Kimyô na Sâkasu) 2005

Em Tóquio, a jovem Mitsuko, de doze anos, acidentalmente vê os pais a fazerem sexo no quarto, e a partir daí, Ozawa Gozo, que é o seu pai disfuncional e pervertido, além de ser o director da sua escola, obriga-a a assistir a mais actos com a sua esposa. Depois o pai viola Mitsuko e obriga a mãe a assistir a esta relação incestuosa, com a mãe a sentir ciumes da própria filha. Esta família disfuncional é afectada primeiro por um assassinato, depois por uma tentativa de suicídio. Mas esta história bizarra é, na verdade, um romance escrito pela escritora incapacitada Taeko, que se desloca numa cadeira de rodas. O seu assistente Yuji tem a missão de descobrir a verdade que está por detrás desta história, mas essa realidade pode ser cruel demais para ser suportada...
Se os fãs de Sion Sono achavam que ele tinha chegado aos limites do perverso com "Suicide Club", estavam muito enganados. "Strange Circus" era ainda mais perverso e o seu filme mais perturbador, ao lidar com temas tabus como o incesto, a violação, a pedofilia e a transsexualidade, além de outros temas que qualquer realizador comum jamais ousaria tocar. 
Sono pinta uma tela de sangue vermelho, com alguns dos personagens mais extremistas já testemunhados num filme, além de incluir alguns elementos do teatro Grand Guignol, uma companhia especializada em espectáculos de terror naturalista, e escreve um argumento extremo e totalmente surreal. Ainda compõe uma banda sonora assombrosa para acompanhar as suas imagens grotescas.
Comparado com os seus filmes anteriores, este já tem uns valores de produção bem mais elevados, tal como se pode ver na opulência da cena de abertura, com os seus cenários coloridos e personagens espalhafatosas.  Ganhou um prémio no festival de Berlim, e em Portugal revelou-se com o festival Motelx.

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segunda-feira, 8 de maio de 2017

Noriko's Dinner Table (Noriko no Shokutaku) 2005

Noriko é uma jovem de 17 anos que se sente infeliz com a família, e que procura refúgio num site frequentado por jovens da sua  idade, de todo o Japão. Pela primeira vez na vida, Noriko sente que alguém a compreende e simpatiza com ela, decidindo assim fugir de casa e partir para Tóquio. Lá, Noriko e Kumiko, outra jovem do site, tornam-se membros de uma corporação que se especializa em oferecer a ilusão de uma família, a todos que não a têm...
Sion Sono a explorar o universo do vazio interior, neste "Noriko's Dinner Table". É uma sequela não oficial de "Suicide Club", apesar de ser perfeitamente visionável sem o conhecimento do último, já que apenas partilha com ele a questão da identidade assim como o sentido e o absurdo da vida, e também algumas referências transversais. A linha cronológica deste filme começa antes de "Suicide Club", parece abranger totalmente esse filme embora só toque nele em pequenos detalhes (como o suicídio em massa, ou o site haikyo.com). Através dos seus quatro personagens principais (a cada um é dado um capítulo próprio), o filme explora a natureza do individuo, perdendo a inocência, as armadilhas da expectativa da família, da sociedade, e do próprio sentido da vida. 
O filme é inerentemente objectivo, uma vez que estamos a olhar para algo que está ali. As narrativas múltiplas têm o efeito de insistir ou lembrar-nos que tudo é filtrado através da memória e percepção (ou talvez mentiras) do seu narrador. Também cria o seu próprio efeito claustrofóbico, uma vez que os seus personagens estão presos na sua própria subjectividade.
Apesar de ser muito bem realizado, sofre de um argumento complicado, bem como uma duração considerável (160 minutos), com ambos a deixarem claro o seu orçamento reduzido. Legendado em inglês.

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domingo, 7 de maio de 2017

Suicide Club (Suicide Club) 2001

54 jovens estudantes atiram-se em frente a uma estação de metro. Este parece ser o início de uma série de suicídios à volta do país. Será que o novo grupo Desert tem alguma coisa a ver com isso? O detective Kurada tenta encontrar a resposta, que não é tão simples como se podia esperar. 
Abrindo com uma sequência de suicidio em massa de 54 estudantes, o filme tem sido muito comentado, analisado e discutido, não apenas como uma peça eficaz de terror, mas também como um comentário profundamente mordaz e assustador sobre a sociedade contemporânea japonesa. Não é um filme imediatamente acessível para qualquer imaginação, a complexidade dos temas pesados apenas aparecem através de visões repetidas. "Suicide Club" é um filme genuinamente assustador com alguns momentos verdadeiramente assustadores. 
Realizado e escrito por Sion Sono, contava com dois pesos pesados como protagonistas ((Ryo Ishibashi e Masatoshi Nagase), "Suicide Club" era um filme estranho, totalmente original e imperdível. Estranhamente estava avaliado para maiores de 15, apesar das suas representações sangrentas dos tipos mais desagradáveis de suicídio possível. Com influências tanto do trabalho de Kiyoshi Kurosawa como dos grandes clássicos do terror moderno, como "Kairo" e "Cure", Sion Sono criou uma visão aterrorizante e francamente apocalíptica onde o futuro parece muito instável. A fotografia é igualmente única, mudando radicalmente de tom para servir algumas cenas totalmente surreais ou imaginadas artisticamente. 
Seria o filme revelação de Sono para o Ocidente, e nos anos seguintes viria a tornar-se um dos realizadores mais originais do Oriente.

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sábado, 6 de maio de 2017

Sion Sono

Sion Sono realizou mais de 40 filmes desde 1984, e é um dos realizadores japoneses mais prolíficos, destacando-se entre o mais grotesco, anormalmente erótico e extremamente violento que pode ser encontrado num filme. É um dos realizadores que mais modernizou o género chamado de J-Horror, transformando-o em algo muito próximo do "ero guro", estilo que, além do horror, também inclui eroticismo, corrupção sexual, e a decadência física e espiritual.
Sono também é um poeta consumado, começou a sua carreira ao ganhar uma bolsa nos prémios PIA, uma competição destinada a financiar, produzir a promover filmes de novos realizadores. Tendo obtido financiamento desse festival ele começou a escrever, dirigir e interpretar "Bicycle Sighs" (1990), filme exibido em mais de 40 locais na Europa e na Ásia, estabelecendo-o como um nome importante a seguir.
Há também um elevado número de temas nos seus filmes, a maioria dos quais tendo a ver com os actores com quem filma. Entre os mais distintos estão alguns recorrentes, como Denden, Yoshihiro Nishimuta (6 filmes cada) e Megumi Kagurazaka (5 filmes), que também é a sua esposa. Sono é também conhecido por escolher actores desconhecidos para os papéis principais, e o renascimento de actores afastados da celuloide, com os seus filmes. A sua carreira já ultrapassou as três décadas, aos longo das quais marcou presença em festivais como Berlim, Deauville, Fantasporto, Veneza, Sitges, Toronto, Tribeca, entre muitos outros.
Vamos apanhar este ciclo já numa fase avançada, o ano de 2001, em que realizou o seu primeiro grande sucesso comercial, e talvez o seu filme mais marcante, "Suicide Club". Depois acompanharemos a sua carreira até perto dos dias actuais.
Espero que gostem do ciclo. Bom fim de semana.


sexta-feira, 5 de maio de 2017

Final do ciclo "Douglas Sirk - Imitações da Vida"

E assim termina o ciclo dedicado a Douglas Sirk. Ao longo do último mês passaram aqui 22 filmes do realizador, sempre acompanhados de belíssimos textos do professor Jorge Saraiva, ao qual agradeço esta magnifica colaboração.
Para finalizar este ciclo, tenho aqui 3 brindes para todos, para que se possam contextualizar ainda melhor com a obra do realizador.

Ensaio, "The Vanity Tables of Douglas Sirk", de Mark Rappaport
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Livro "Sirk on Sirk", de Jon Halliday
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Livro "Douglas Sirk (Edinburgh Film Festival´72)"
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Espero que tenha sido do vosso agrado.
Bom fim de semana.

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Imitação da Vida (Imitation of Life) 1959

Imitação de Vida é o derradeiro filme realizado em Hollywood, antes de regressar à Alemanha, agora que os motivos que o tinham feito emigrar (o nazismo) se tinham totalmente dissipado. Como em quase todos os filmes de Sirk, as reacções entre a crítica e o público divergiram. Se, por um lado, foi um sucesso de bilheteira, situando-se entre os mais vistos desse ano, a crítica torceu o nariz. Imitação de Vida era um remake de um filme de John Stahl de 1934 baseado na novela de Fanny Hurst Leave Her To Heaven, escrita no ano anterior. Posteriormente, o que também é comum nas suas obras, particularmente da década de 50, o filme foi reavaliado e há quem o considere como a sua obra prima. 
Imitação de Vida apresenta algumas alterações ao padrão geral dos seus filmes anteriores. Embora se trate de um melodrama, as relações amorosas não desempenham aqui um papel central, substituídas pelas relações entre mães e filhas e pela amizade entre duas mulheres, aparentemente destinadas a não serem amigas, dado as diferenças sociais e culturais entre ambas. Por outro lado a habitual profusão de cor e os cenários quase irreais, são aqui substituídos por uma direcção muito mais sóbria. Parece que Sirk quis fazer um filme centrado sobretudo na força do argumento e dos diálogos. E este é provavelmente um dos melhores melodramas da história do cinema. A complexidade das personagens e respectivas interacções e a densidade da estrutura narrativa, contribuem decisivamente para o afastar dos melodramas comuns com enredos simplistas e disputas e desencontros amorosos banais. Mais impressionante ainda, é a forma como Sirk aborda o problema do racismo de uma forma razoavelmente explícita, numa altura em que o tema era tabu em largas faixas da sociedade americana e no próprio poder político. É certo que os tema sociais já tinham surgidos em filmes anteriores (a deficiência física, ou as diferenças sociais, por exemplo) que contribuíram para a sua reputação de realizador de esquerda, o que deve ser relativizado, face ao contexto da produção de Hollywood. Mas Imitação de Vida parece mandar um recado a todos os Estados Unidos e à sua moral preconceituosa e conservadora do final dos anos 50: todas as pessoas têm sentimentos e aspirações, amam e sofrem, independentemente da cor de pele. Se isto hoje é para muita gente um puro lugar comum, na época e contexto em que o filme foi realizado, seguramente era impressionantemente arrojado. 
Imitação de Vida termina de forma majestosa. Uma velha mulher (Juanita Moore que foi nomeada para o Óscar de melhor actriz, embora não tivesse ganho) que passou a vida a servir os outros, guardou o pouco dinheiro que foi amealhando, para ter um funeral requintado e solene. Soa como uma despedida que poderemos associar à do próprio cineasta, que não voltaria a filmar. Se em 1937, Sirk tinha abandonado a Alemanha, receando o que poderia acontecer à sua mulher judia, agora estava na hora de voltar e deixar para trás uma carreira brilhante. 
*Texto de Jorge Saraiva

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quarta-feira, 3 de maio de 2017

Tempo Para Amar e Tempo Para Morrer (A Time To Love and a Time To Die) 1958

Tempo Para Amar, Tempo Para Morrer (A Time To Love and a Time To Die), é um filme sem paralelo na obra de Douglas Sirk. Trata-se da adaptação de um romance homónimo do seu compatriota Erich Maria Remarque de 1954. Foi o cineasta a persuadir o escritor a fazer a adaptação cinematográfica do filme e parece que os dois se entenderam perfeitamente.
É uma nova incursão de Sirk sobre o cenário de guerra como já tinha acontecido em The Battle Hymn. Desta vez, no entanto na Segunda Guerra Mundial em vez da Guerra da Coreia. De algum modo, este filme é um dos mais profundos e perturbantes de toda a carreira de Sirk. A dimensão horrível da guerra é apresentada sem quaisquer tipos de subterfúgios. Uma das mais importantes cenas surge logo no início quando por retaliação à morte de um tenente alemão, um pelotão de soldados fuzila quatro civis. Devemos ter consciência moral («afinal desde quando é que soldados matam civis?»), ou limitamo-nos a cumprir ordens? Acompanhamos o soldado Ernst Graeber (John Gavin) que recebe uma licença de três semanas da frente russa, para poder voltar à sua aldeia natal. No regresso encontra os pais desaparecidos e a sua terra destruída pelos bombardeamentos deixando um rasto de desolação e morte. Aquilo que ele pensava ser um bálsamo do tempo de guerra, transforma-se numa busca incessante pelo paradeiro da família. A Time To Love and a Time To Die acaba por ser menos um filme sobre a frente de batalha (que surgem apenas no princípio e no fim) e mais sobre a forma de sobreviver aos bombardeamentos constantes. Esta perspectiva permite-nos perceber melhor o ambiente vivido na Alemanha no período da guerra. A dor e o desespero das pessoas comuns sem família nem bens. O aparecimento de uma camada ligada ao nazismo que usufrui de todos os luxos e lucra com a guerra. A presença da sempre poderosa da Gestapo que continua a reprimir ferozmente todo o sinal de descrença. É um filme de contrastes. Ao mesmo tempo que procura a família, Ernst encontra o amor na filha do médico da sua família, também ele deportado para um campo de concentração. O aspecto mais fascinante deste filme, é que o seu amor será tão intenso quanto breve e mesmo que ela consiga sobreviver aos incessantes bombardeamentos, será quase impossível que ele tenha a mesma sorte quando regressar à frente russa. Ambos o sabem, e por isso, cada dia que vivem juntos, é como se encerrasse toda a eternidade. Do ponto de vista temático, este é um dos mais poderosos filmes sobre guerra que tive oportunidade de ver. Não pela violência dos combates, mas pela crueldade com que se apresentam todo o seu envolvimento e consequências. Mais do que bombas ou tiros, Sirk filma a dor, a opressão e o desespero. As ruínas dos edifícios que se coadunam com as ruínas humanas. Toda a gente perdeu alguém. A este luto geral, associa-se a incompreensão. Com os motivos da guerra e a insanidade do nazismo. Quando Elizabeth evoca a possibilidade de fugirem, a questão põe-se de uma forma cruel: para onde? Os alemães são odiados por todo o lado. Do ponto de vista estético, o filme (rodado em Berlim) é absolutamente primoroso com uma reconstituição precisa dos tempos de guerra, os ângulos abertos da câmara facilitada pela utilização do Cinemascope e a utilização magnífica da cor. 
Este filme recebeu uma crítica inflamadamente entusiástica de Jean-Luc Godard. O caso não era para menos. A Time To Love And a Time To Die é uma obra prima e um dos melhores filmes de Sirk. No seu regresso à Alemanha, toca nas feridas profundas do período mais negro da sua história. Numa altura em que o cinema alemão posterior à guerra queria esquecer-se de todo o horror e uns anos antes do novo cinema alemão ter finalmente procurado analisar o trauma, já Sirk, embora numa produção americana, fazia este filme para avivar a memória. Porque há coisas que nunca se esquecem. 
* Texto de Jorge Saraiva.

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segunda-feira, 1 de maio de 2017

O Meu Maior Pecado (The Tarnished Angels) 1957

O Meu Maior Pecado (The Tarnished Angels) é o antepenúltimo filme de Douglas Sirk. Mais uma vez o cineasta resolveu surpreender os espectadores. Sirk que tinha reinventado a cor no cinema, desta vez optou pelo preto e branco. A razão prende-se com o facto de ser uma adaptação de Pylon, um romance de 1935 de William Faulkner adaptado por George Zuckerman. Sirk justificou esta opção baseado na intenção de querer respeitar o mais possível quer o ambiente da época em que o romance foi escrito, quer a altura em que o mesmo se passa, o início dos anos 30. Faulkner gostou tanto do filme que o considerou como a melhor adaptação ao cinema de uma obra sua.
The Tarnished Angels é, provavelmente, o mais sombrio e amargurado de todos os filmes de Sirk. O cineasta volta a reunir o mesmo trio de actores que já tinha colaborado em Escrito No Vento: Rock Hudson (naquela que seria a sua última participação num filme do realizador), Robert Stack e Dorothy Malone. Curiosamente ao revê-lo, encontrei algumas semelhanças com The Lusty Man (Idílio Selvagem) de Nicholas Ray de 1952. Só que aqui, em vez do mundo dos rodeos, temos o das acrobacias aéreas, ambas actividades perigosas e que põem em risco a vida de quem neles participa. O filme centra-se na história de um piloto que foi herói da primeira guerra mundial, mas que agora ganha a vida em corridas aéreas. A personagem, representada por Robert Stack, é uma das mais amarguradas de toda a obra de Sirk. Tem uma mulher (Dorothy Malone) que parece ser cobiçada por todos, mas a quem ele trata com frieza e distanciamento. Aparentemente de forma fortuita, conhecem um jornalista (Rock Hudson) à procura de um qualquer «furo» que lhe permita contar uma boa história. No entanto, a curiosidade jornalística inicial vai-se transformando num envolvimento afectivo com a mulher do piloto, ela também uma mulher desencantada com o rumo que a sua vida levou. Por isso, Tarnished Angels é um filme de solidão e de memórias. Cada personagem, a que poderíamos acrescentar a do mecânico que acompanha inseparavelmente o piloto, mas que está silenciosa e resignadamente apaixonado pela sua mulher, vive enclausurada no seu próprio mundo. O casal vive de memórias que não são forçosamente comuns. Ele, dos tempos gloriosos da sua prestação na guerra e das noites boémias de Paris; ela, da paixão precoce que teve pelo aviador, que a fez sair de casa em busca da concretização do seu amor que nunca foi inteiramente correspondido. Essas memórias, nem sempre gratas, são realçadas no filme pelo uso do flashback do período e das circunstâncias em que ambos se casaram. Para além da realização virtuosa de Sirk (com destaque para a forma como filma as corridas de aviões), o que ressalta mais neste filme é a extraordinária qualidade dos diálogos, obviamente por mérito do argumentista George Zuckerman, mas principalmente por William Faulkner, provavelmente o maior escritor americano de todo o século XX. A vida destes andarilhos, ela saltando de pára-quedas, de pernas nuas por 20 dólares e ele encarniçado em manobras perigosas em que o vencedor ganha tudo e os perdedores nada, é descrita de uma forma brilhante, a um tempo distante e terna. A forma como o filme termina, sem happy-end, mas também sem desesperança, é um momento mágico. Tarnished Angels só poderia ter este final. 
 Este é um dos melhores filmes de Sirk. Na altura em que foi lançado foi muito mal recebido por grande parte da crítica e não teve muito sucesso de bilheteira. Sirk já estava à espera que isso acontecesse. Um filme com uma história sombria e triste, com um final ambíguo e sem o uso exuberante da cor que tanto havia enriquecido os melodramas anteriores, nunca poderia ser um grande êxito. Hoje é reconhecido como uma obra prima de forma praticamente unânime. Pode não ser o melhor dos seus filmes, mas é aquele que tem o melhor argumento. 
* Texto de Jorge Saraiva.

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Os Amantes de Salzburgo (Interlude) 1957

Interlude, (Os Amantes de Salzburgo, mais um incompreensível baptismo em português), marca o regresso de Douglas Sirk à Alemanha, onde não trabalhava desde que resolveu fugir para os EUA. No conjunto dos grandes melodramas da segunda metade da década de 50, este é o menos conhecido e que raramente é citado entre as suas obras primas. Durante décadas quase nem entrava nas contas dos filmes de Sirk. Havia apenas algumas referências e mesmo a Wikipedia limita-se a referências ligeiras, ao contrário dos seus grandes melodramas da época, que são alvo de abundante informação. 
O crítico do New Yorker, Richard Brody, chama-lhe uma obra prima escondida (hidden masterwork) e tem absoluta razão. O filme adapta de forma muito livre o livro Serenade de James McCain e é praticamente todo filmado em Munique, excepto uma curta, mas significativa, incursão em Salzburgo. Do ponto de vista visual e de realização é o filme mais belo de Sirk, com excepção de Escrito No Vento. É também o único melodrama desta fase em que os temas sociais e uma possível leitura política, se encontram totalmente ausentes. Mas esteticamente é um filme absolutamente primoroso e o trabalho de realização, contidamente emotivo, está entre os melhores que Sirk fez. Ao regressar à Alemanha, filma a música como nunca tinha feito anteriormente, nalguns casos em planos longos, o que era raro ver no cinema da época. Vemos assim desfilar excertos de obras de Schumann, Wagner, Brahms e Mozart. Ou seja, quase que se aproveita o filme, para evocar a cultura alemã e austríaca, neste caso, através da sua vertente musical. O argumento foi entendido pelo referido crítico, como uma espécie de declaração de amor ao seu país, subitamente interrompido pela ascensão de Hitler ao poder e que nunca poderá ser retomado da mesma forma. Por isso a forma desencantada com que o filme termina. O amor pode ficar, mas nunca poderá ser concretizado quando esbarra com princípios morais inultrapassáveis. Talvez essa sensação de amargura e de frustração tenha contribuído para a pouca aceitação de Interlude. Aqui não há nenhum happy end, como era tão comum nos filmes da época. O amor entre um maestro famoso e uma jovem anónima americana que vai trabalhar para a delegação cultural do seu país em Munique, nunca se poderá concretizar. Não se trata, como noutros filmes de realçar as diferenças sociais e de formas de vida do par. Nesse sentido, Interlude surge na perspectiva quase calvinista (curiosamente numa região onde impera o catolicismo) de sacrifício pela renúncia. Tudo parece aproximar os dois amantes, apesar do tom desdenhoso da parte dele no início do filme (o artista famoso que é importunado pela incógnita funcionária americana) e das reservas dela (como é que alguém tão famoso se pode apaixonar por mim). Mas se ela tem de lidar com um compatriota médico por si apaixonado e que lhe propõe casamento e o regresso à América, ele tem que lidar com uma esposa à beira da loucura e que depende dele em exclusivo. Este dilema da existência de uma esposa que não se pode abandonar e que remete a fama para a solidão e a descoberta de um novo amor, vamos encontrando situações de avanço e recuo e a transformação das personagens como é típico do cinema de Sirk. A cena chave do filme, primorosa e poderosamente filmada, em que a amante salva a esposa de se suicidar por afogamento, coloca o ponto final em todos os devaneios. Afinal e parafraseando o título de um dos mais famosos filmes de Fassbinder (um dos seus mais indefectíveis admiradores) se o amor é mais frio do que a morte, a moral e o sentido de dever (como Kant o postulou) é mais forte do que o amor. Daí, nesta polaridade de oposições, o espírito prevalece sobre os sentidos, a moral deontológica impera sobre a liberdade, se esta não for entendida como uma submissão a uma conduta do Bem e do dever. Por isso, fica a renúncia e o desencanto com que o filme termina e a brusca separação dos dois amantes. A efemeridade do amor, o trânsito e a fragilidade das relações afectivas são a nota que dá corpo a esse desencanto. Sobrevive apenas a ambiguidade da memória. Woody Allen (outro admirador de Sirk) resumiu-o de forma magistral na cena final da sua obra prima, Uma Outra Mulher: não sei se uma recordação é alguma coisa que se tem ou uma coisa que se perdeu. 
Interlude é uma obra prima, um dos melhores filmes de Douglas Sirk. Só por ele, valia a pena fazer este ciclo. 
* Texto de Jorge Saraiva.

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domingo, 30 de abril de 2017

Abnegação (The Battle Hymn) 1957

Abnegação (The Battle Hymn) marca a incursão de Douglas Sirk nos filmes de guerra, que viria a retomar, embora num outro contexto, em Tempo de Amar, Tempo de Morrer. Trata-se do relato da vida do coronel da Força Aérea Dean Hess. Na altura foi também publicado um livro autobiográfico cujos lucros o autor resolveu doar a instituições de apoio a órfãos de guerra.
Ao contrário de outros filmes, Sirk não se pôde queixar da falta de meios. A Universal possibilitou a utilização do Cinemascope e, embora as filmagens tivessem ocorrido no Arizona e não na Coreia, houve uma preocupação de reproduzir o mais fielmente possível todo o ambiente de guerra, particularmente o modelo de aviões de combate daquela época. O filme marca uma interrupção dos melodramas de Sirk, embora o tema da culpa e da remissão já existente em Sublime Expiação, ressurja neste Battle Hymn. O coronel carrega o fardo de ter bombardeado por engano um orfanato alemão durante a segunda guerra mundial que provocou a morte de 37 crianças. Amargurado, torna-se pastor protestante, mas não consegue acalmar os seus remorsos. Decide então abdicar dessa actividade e aceitar um convite para se tornar instrutor de pilotos no início da guerra da Coreia. Aí vai ser confrontado com o drama das crianças órfãs de guerra, expostas a ataques militares e à fome e por quem ele se vai esforçar com a ajuda de alguns militares e de altruístas coreanos a encontrar um local seguro onde possam estar a salvo. Numa primeira leitura o filme parece ser maniqueísta e até historicamente pouco verdadeiro. Os americanos são apresentados como os bons, os que ajudam desinteressadamente as populações, enquanto que os do Norte são invasores sem escrúpulos que bombardeiam aldeias e não têm piedade por ninguém, seja militar ou civil. Sabemos que as coisas não se passaram assim. Aliás nunca se passam desta forma. Não há inocentes entre beligerantes. Mas uma leitura mais fina (e em Sirk é sempre necessário fazer uma segunda leitura dos seus filmes) a ideia principal que emerge é a da inutilidade da guerra, seja ela qual for e seja quais forem os motivos que a justifiquem. O filme apresenta um contexto moral que ultrapassa o próprio âmbito político em que se possa enquadrar. A guerra é sempre uma barbaridade e as crianças são as suas maiores vítimas. Não há aqui nenhum resquício de lamechiche, até porque o filme não explora de forma intensiva esse aspecto. Os chamados danos colaterais que matam muitos inocentes que nada têm a ver com o conflito (e temos inúmeros exemplos recentes) são encarados pelos responsáveis militares como um mal menor e inevitável. Aliás há um diálogo muito significativo entre Hess e um seu velho companheiro da segunda guerra mundial, com o coronel ainda a expiar a culpa do seu erro, a negar a inevitabilidade e a menorização dos chamados danos colaterais. 
Parece que Sirk não ficou totalmente satisfeito com os resultados do filme. No seu início há uma apresentação da figura de Hess feita por outro militar que foi inserida à sua revelia. O filme apresenta sensíveis mudanças em relação ao livro, a mais importante das quais é a transformação da protectora das crianças de uma mulher de meia idade, numa jovem muito atraente a ponto de chegarmos a pensar que haverá um envolvimento entre ela e o coronel, o que nunca chega a suceder, para descanso da sagrada instituição chamada matrimónio. Parece que Sirk não gostou especialmente dessas mudanças, mas o sistema de Hollywood é mesmo assim, até para cineastas que sempre tiveram fama de serem ciosos da sua independência, como é o seu caso. Em resumo, Battle Hymn não está entre os melhores filmes de Sirk, mas, ainda assim, é muito interessante. 
* Texto de Jorge Saraiva

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sábado, 29 de abril de 2017

Escrito no Vento (Written on Wind) 1956

Escrito No Vento é considerado por muitos sirkianos, entre os quais eu me incluo, como a quintessência do melodrama e provavelmente o seu melhor filme de sempre. Claro que esta designação é sempre discutível, porque Sirk tem outros grandes filmes no mesmo período, tudo dependendo do gosto subjectivo de cada espectador.
É a sexta colaboração entre Sirk e Rock Hudson, num elenco absolutamente fabuloso que contaria com Robert Stacke e Dorothy Malone que voltariam a participar em filmes posteriores e uma inusitada presença de Lauren Bacall. Embora Sirk fosse um perfeccionista e um maníaco dos pormenores, não há nenhum filme que o expresse de forma tão esplendorosa como Escrito No Vento. Nunca os cenários pareceram tão exagerados, como uma espécie de distorção da realidade. Nunca a utilização da cor, ora forte e carregada, ora em tons desmaiados, mas quase sempre antinatural, pareceu tão apropriada, como neste filme. Nunca a banda sonora, a cargo de Frank Skinner e a canção que abre o filme e interpretada pelo grupo vocal Four Aces (que quase resume todo o enredo, ou, pelo menos, antevê-o) está tão bem integrada. E se o argumento, baseado numa novela de Robert Wilder de 1945, parece relativamente banal, com histórias de amores cruzados, uma visão maniqueísta entre os bons, justos e honestos e os maus, depravados e inúteis, essa simplicidade é apenas aparente. Análises posteriores, vêem em Sirk uma subliminar crítica `a sociedade americana e à burguesia que vive de forma opulenta esbanjando dinheiro. Nesse aspecto, Escrito No Vento é provavelmente o filme politicamente mais corrosivo e subversivo do cineasta alemão. Mas, sempre de uma forma subtil, o que levou um crítico a dizer que os filmes de Sirk são mais complexos do que os de Ingmar Bergman, uma vez que os melodramas servem muitas vezes como pretextos para expressar um aguçado sentido crítico, muitas vezes de difícil percepção para o espectador comum. Houve quem visse em Escrito No Vento uma antecipação das séries de grande sucesso como Dallas. Mas, para além da localização texana e da descrição da burguesia, há em Sirk uma subtileza e uma profundidade que a soap opera dos anos 70 nunca atingiu. A cena final, considerada uma das mais emblemáticas de toda a obra de Russell, com Lauren Bacall (Lucy) de vestido cor de rosa, a abandonar a mansão num carro na companhia de Rock Hudson (Mitch), enquanto Dorothy Malone (Marylee) os observa de uma janela entre a inveja e o desespero, é absolutamente deslumbrante.
Quando se pensa na idade de ouro do cinema americano, associamos de imediato nomes como Ford, Capra, Preminger, Mankiewicz e mais alguns. mas não podemos deixar de pensar em Douglas Sirk e neste maravilhoso Escrito No Vento.
* Texto de Jorge Saraiva.

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