quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Verão Violento (Estate Violenta) 1959

Depois da sua primeira longa metragem, Zurlini passou três anos desempregado devido à reputação dele ser um homem difícil com quem se trabalhar. Durante este tempo absorveu a cultura do seu país, uma cultura com quem antes se tinha sentido distanciado. "Verão Violento" foi o produto desta aprendizagem, uma história de amor rica em observações sociais e profundas vicissitudes históricas.
Passado no Verão de 1943, quando o império de Mussolini estava a desmoronar, e a Itália estava prestes a mergulhar numa guerra civil. Um grupo de italianos de famílias abastadas está festa familiar. Carlo (Jean-Louis Trintignant) é um jovem bonito e charmoso na casa dos vinte anos, bem vestido e cheio de palavras que as mulheres gostam de ouvir. Anda envolvido com Rosanna (Jacqueline Sassard), uma linda e sensual morena. Uma mulher mais velha, na casa dos trinta chama-lhe a atenção, Roberta, (Eleonora Rossi Drago), uma recente viuva de um heróico tenente naval, que tenta sobreviver ao seu novo modo de vida. Presa entre o compromisso vazio com um falecido marido com o qual ela não tinha muita ligação, e os avanços do jovem Carlo, com o qual a mãe não simpatiza de modo nenhum.
Passado em volta da cidade costeira de Riccione, na costa adriática, o caso de amor começa lentamente com a rejeição da mais bela e jovem, pela outra mais velha e experiente. Ficamos a saber que Carlo é um trapaceiro, filho de um influente fascista, que em breve irá ser forçado a saír da sua enorme casa da praia, para o exército. Isto adicionado ao comportamento furtivo de Roberta em relação à mãe, por causa da desaprovação da relação dos dois, torna o filme num crescendo emocionante, até às cenas finais.
"Verão Violento" não é um romance épico em tempo de guerra. É um filme menor do que isso, mais silencioso, reflectindo nos motivos das pessoas, nas acções e nas verdades. O "background" e a valorização da estética visual são óbvios. Gente bonita a passear na praia, uma partitura musical assombrosa, que envolve as pessoas na história e na situação sócio-política do país, são prova suficiente da declaração do próprio Zurlini: "Eu sempre acreditei que as coisas feitas com grande sinceridade, com a simplicidade de meios, e uma profunda honestidade, são aquelas que permenacerão".

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quarta-feira, 24 de agosto de 2016

As Raparigas de San Frediano (Le Ragazze di San Frediano) 1955

As escapadelas amorosas de um bonito mecânico chamado Andrea Sernesi aka "Bob". O primeiro nome no caderno negro de Bob é a tempestuosa Tosca. Em pouco tempo o nosso heroi passa dos braços de Tosca para os de Mafalda, uma dançarina, depois Silvana, uma professora, depois Bice, uma costureira. Entretanto, Gina, uma jovem que vive no mesmo bloco de apartamentos do que Bob, secretamente desenvolve uma paixão pelo mecânico.
A estreia de Zurlini nas longas metragens seria o seu único filme mais ligeiro, embora também seja tingido com alguma angústia. Vagamente baseado num conto de Vasco Pratolini (o autor de "Cronaca Familiare"), fala dos interlúdios amorosos de um jovem florentino, cuja alcunha é Bob, em homenagem a Robert Taylor.
Palavras do Catalogo Bolaffi del cinema italiano: "The jovial representation of the characters and its taking place in a timely and particular historical moment-lively and bustling Florence-already highlight the qualities of this new director. He is a sensitive scholar of psychologies, especially those of women, and an attentive painter of natural settings and countrysides. The narrative freshness, the freedom of his style, and the wonderful types of irony give him a fresh and new film".

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terça-feira, 23 de agosto de 2016

8 ANOS DE THOUSAND MOVIES

Muitos de vós provavelmente nunca o conheceram, ou já não se lembram dele, mas se fosse vivo o My One Thousand Movies faria hoje oito anos. Isto quer dizer que a comunidade "thousand movies" está hoje de parabéns. Obrigado a todos que ainda andam aí por esse lado.



A Estação (La Stazione) 1952

Uma das obras iniciais de Valerio Zurlini, uma curta-metragem documental sobre a Estação Termini de Roma, no estilo de cinema verité.
Um filme sem palavras, cinema avant-garde, incluindo os sons e os apitos dos comboios, e um olhar sobre os passageiros à espera de um comboio, capturando peões que parecem atrasados, revelando uma complacência, uma aceitação involuntária sobre uma ordem vigente estabelecida. Um retrato do dia a dia de uma estação ferroviária, onde a grande massa da humanidade espera por um comboio, ou atravessa a estação para chegar a uma reunião, ou caminha para mais um dia sem sentido.
Zurlini começou a sua carreira a dirigir uma série de curtas-metragens de não-ficção que lhe permitiram adquirir confiança e desenvolver o seu próprio estilo. Mais tarde confessou que estes documentários não foram feitos para ele ser notado, comentário que denunciava uma exagerada modéstia, pois alguns deles foram premiados e mostravam claramente algumas características de um talento emergente. "La Stazione" é o único destes filmes disponíveis, e vai ser com ele que iniciamos este ciclo.
Legendas em Inglês.

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sábado, 20 de agosto de 2016

Valerio Zurlini

De todos os realizadores italianos dignos de nota que se estrearam nos anos 50 - Ermanno Olmi, Francesco Rosi, Dino Risi, e Marco Ferreri - o menos conhecido é Valerio Zurlini. Um dos mais literados e sensíveis realizadores europeus do seu tempo, realizou apenas 8 longas-metragens até à sua morte prematura em 1982. Sendo ele um pós-realista, Zurlini era um mestre nos dramas intimistas, que estava muito em voga antes do radical Novo Cinema Italiano dos anos sessenta, de que fariam parte os realizadores mencionados em cima. Ele ficou como o único resistente de uma geração perdida, e talvez por isso nunca é mencionado nos livros sobre a história do cinema. 
Nascido em Bolonha, em 1926, foi marcado para a vida pela guerra e pela arte. Em 1943 alistou-se no corpo italiano de libertação e passou dois anos a lutar contra os Nazis no movimento da Resistência. A guerra viria a ser o cenário central de dois dos seus mais importantes filmes: "Verão Violento" e "La Soldatesse". Como muitos dos seus contemporâneos aderiu ao Partido Comunista, mantendo-se como um católico praticante. Um devoto apaixonado pela pintura e estudante da história da arte, tornou-se um amigo próximo de dois artistas notáveis, o grande pintor Giorgio Morandi e Ottone Rosai, cujo ponto de vista da cidade de Florença iria influenciar outra obra de Zurlini, "Cronaca Familiare". Entrou para o cinema com uma série de curtas e documentários, estreando-se nas longas metragens com "Le Ragazze di San Frediano", uma comédia agradável, e o seu único trabalho mais leve, apesar de ser tingido com melancolia.
"Verão Violento" (1959), foi um dos raros filmes a abordar um tabu de longa data no cinema italiano: a representação do dramático ano de 1943, que viu a queda de Mussolini, e o início da guerra entre fascistas e anti-fascistas.
As próximas duas semanas serão dedicadas a este realizador italiano. Um ciclo que já planeava a algum tempo, mas só recentemente consegui as suas oito longas metragens (além de uma curta). 
Vão ser duas semanas de descoberta. Espero que gostem. Até segunda-feira.

 

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

The Glass Menagerie (The Glass Menagerie) 1973

Amanda Wingfield (Katharine Hepburn) é uma mãe dominadora presa às histórias do seu passado e possui planos irrealistas para o futuro dos filhos. Os seus projetos para a vida das crianças ameaçam até mesmo sufocar a tímida Laura Wingfield (Joanna Miles) e o aspirante a escritor Tom Wingfield (Sam Waterson).
Terceira adaptação desta peça de Tennessee Williams, desta vez para televisão. Três anos depois de  trabalharem juntos em "The Lion in the Winter", Katharine Hepburn e Anthony Harvey voltaram a trabalhar juntos, e num telefilme com um elenco recheado de estrelas. Aqui contava-se ainda Sam Waterston, Joanna Miles e Michael Moriarty. 
Por esta altura, em 1973, já Katharine Hepburn tinha conquistado grande parte dos media, e da indústria de entretimento - excepto a televisão. Já tinha ganho três Óscares (embora nunca tivesse aceitado nenhum), interpretou inúmeros clássicos, triunfou em dramas da Broadway, em comédias, e até mesmo num musical, mas nunca tinha representado para a televisão. . A sua lógica era misteriosa, será que ela propositadamente evitava a pequena tela por considerá-la insignificante, ou será que evitava tornar-se numa estrela ainda maior? Quando o produtor David Susskind lhe sugeriu aparecer numa adaptação para televisão de Tennessee Williams, Hepburn ergueu as suas barreiras habituais. Mas depois do produtor insistir e de lhe garantir todas as suas exigências criativas, Hepburn acabou por aceitar. Ela assinou perante um grande mediatismo, apesar da sua estreia na televisão não ter gerado as audiências que a ABC antecipava. Ainda assim o seu desempenho foi muito interessante. 
Apesar do diálogo poético e do desfecho assombroso, "The Glass Menagerie" foi uma peça que não envelheceu tão bem como outras obras de Williams. Diz-se que Williams se baseou na sua própria família para escrever a peça, o que explica a sua tão rica caracterização. 

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quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Choque (Boom!) 1968

A incrivelmente rica escritora Sissy Goforth (Elizabeth Taylor) vive sozinha com as suas criadas e enfermeiras numa ilha do Mediterrâneo, onde cria as suas próprias regras. Os seus dias consistem em ditar a sua biografia e implorar por injeções.É então que chega à ilha Chris Flanders (Richard Burton), conhecido como “o anjo da morte”, um homem com bastante charme, que tem o hábito de “visitar” mulheres infelizes pouco antes das suas mortes. E também lhe aparece o seu vizinho, conhecido como “A Bruxa de Capri” (Noel Coward), e juntos eles partilharão um jantar que mudará as suas vidas…
"Boom!", de Joseph Losey, é um dos filmes mais mal amados e criticados do final dos anos sessenta. O orçamento previsto de 3,9 milhões de dólares foi largamente ultrapassado, tendo ultrapassado os 10 milhões, em parte para pagar o salário do casal maravilha, Elizabeth Taylor e Richard Burton, e vestir Taylor com os seus maravilhosos fatos Tiziani (muitos desenhados de propósito por Karl Lagerfeld) e jóias Bulgari, além da construção de um cenário fabuloso. Os críticos não gostaram de todas estas extravaganzas, e desprezaram o filme. Muitos espectadores saíram dos cinemas antes do filme terminar, completamente perplexos com o que tinham acabado de ver. 
Na verdade o filme deve ser visto como realmente é: um "Camp Classic" da mais elevada ordem (portanto, menor). Alegadamente, consta-se que toda a gente estava bêbada enquanto decorriam as filmagens. Noel Coward sorri de forma pouco adequada várias vezes durante o filme, e Burton parece estar intrigado com o absurdo de falar as suas linhas ridículas. Baseado na peça de Tennessee Williams chamada "The Milk Train Doesn’t Stop Here Anymore", que também foi o autor do argumento, acabaria por custar caro ao escritor, pois até à sua morte em 1983 nunca mais viu uma história sua ser adaptada a um filme de série A em Hollywood. Mesmo assim, aqui fica ele para ser visto.

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terça-feira, 16 de agosto de 2016

Flor à Beira do Pântano (This Property Is Condemned) 1966

A cidade de Dodson, no Mississippi, na era da Depressão, fica particularmente devastada com a chegada de Owen Legate (Robert Redford), um oficial com o bolso cheio de avisos de demissão para os ferroviários. Alva Starr, interpretada por Natalie Wood, é a namoradeira da cidade, com muitos planos, mas sem ter para onde ir ... até que Legate aparece na sua porta. O inevitável romance enfurece a mãe de Alva (Kate Reid), e causa a furia de toda a cidade.
Robert Redford apareceu em vários papéis no cinema e na televisão no inicio dos anos sessenta, mas foi apenas com o seu primeiro grande sucesso na Broadway, "Barefoot in the Park" (1963), que Hollywood começou a reparar nele. A sua interpretação de bissexual contracenando com Natalie Wood em "Inside Daisy Clover" (1965) deu-lhe um Globo de Ouro como "Best New Star" e a admiração e a amizade de Natalie Wood. No ano seguinte os dois voltariam a contracenar, neste "This Property Is Condemned", baseado numa peça de um só acto de Tennessee Williams.
Elizabeth Taylor era apontada para protagonista, com John Huston a realizar, mas ela queria o marido Richard Burton atrás das câmaras. Huston e Taylor saíram da produção (Taylor era demasiado velha para o papel), que iria parar a Natalie Wood, ela própria uma fã de Tennessee Williams. Natalie Wood acabaria por escolher Robert Redford para contracenar com ela, com o actor a recomendar o seu amigo Sydney Pollack, que tinha apenas realizado o seu filme de estreia, para dirigir.  Redford disse mais tarde ao seu biógrafo que "This Property Is Condemned" teve um desenvolvimento infernal. Segundo ele o argumento foi passando de mão em mão, desde Huston a Francis F. Coppola, incluindo James Bridges, Charles Eastman, e John Houseman, sem que nenhum se apercebesse que isto tinha de ser uma peça de um só acto. Finalmente Pollack fechou-se num quarto de motel com os vários rascunhos do argumento, e, literalmente, cortou-os e colou-os, para depois passar a um novo argumentista, David Rayfiel, para passar a limpo. Reza a lenda que Tennessee Williams ficou tão insatisfeito que pediu para ser removido dos créditos finais, apenas conseguindo que nos créditos finais aparecesse "suggested by a play by Tennessee Williams," em vez do habitual "based on a play by."   
A rodagem também foi muito problemática. Natalie Wood estava a passar por um periodo muito dificil na sua vida, e o argumento mudava de dia para dia. Era uma casa de loucos. Havia muita tensão na produção, e Redford chegou a escrever no seu diário que esperava que Natalie fosse embora da produção do filme. Depois das filmagens terem terminado, por causa de todo o stress da vida familiar e profissional, Wood tomou uma overdose de comprimidos para dormir. 

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domingo, 14 de agosto de 2016

A Noite de Iguana (The Night of the Iguana) 1964

Numa cidade isolada da costa mexicana, um padre com a fé abalada esforça-se para juntar os cacos da sua vida despedaçada. E três mulheres - uma viúva proprietária de um hotel, uma artista etérea e uma adolescente ninfomaníaca - podem ajudar a salvá-lo. Ou destruí-lo! 
Baseado numa peça da Broadway de Tennessee Williams sobre um padre sem hábito que se tornou guia turístico no México, a versão cinematográfica de John Huston foi nomeada para 4 Óscares: Melhor Actriz Secundária ( Grayson Hall), Melhor Fotografia a Preto e Branco, Direcção de Arte e Guarda Roupa. O único Óscar ganho seria pelo Guarda Roupa da autoria de Dorothy Jeakins.
"Night of the Iguana" é essencialmente um estudo de personagem, sobre a crise existencial de um homem (Richard Burton) cujo legado familiar tanto sobre liderança espiritual como irresistíveis "apetites" continuam a assombrá-lo. O restante elenco é pura dinamite, com uma Ava Gardner muito tensa como a infeliz proprietária de um hotel, Deborah Kerr como a visitante sexualmente inexperiente, Sue Lyon num papel bem próximo do que ela havia tido dois anos antes, em "Lolita", e Grayson Hall como a solteirona com um segredo. Burton certamente que tem o seu próprio segredo, e com o avançar da noite mais interessantes as conversas ficam. 
Burton vivia na altura um romance com a actriz Elizabeth Taylor, com quem casaria pela primeira vez pouco depois de terminadas as filmagens. Corriam rumores que a actriz o visitava durante o set, o que colocava a produção do filme constantemente nos jornais. O filme era rodado no México, num local que não aparecia nos mapas, chamado Puerto Vallarta, uma localidade que nem sequer tinha voos comerciais. Depois ficou um local muito conhecido, e hoje em dia tem resorts de luxo que recebe milhares de visitantes todos os anos.

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sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Corações na Penumbra (Sweet Bird of Youth) 1962

Paul Newman é Chance Wayne, um ex-"gigolo" que volta à sua terra natal acompanhado por Alexandra Del Lago (Geraldine Page), uma actriz em decadência. A intenção de Wayne é impressionar Tom Finley (Ed Begley), o cacique local, um político corrupto que o expulsou da cidade. Mas a figura patética de Del Lago, que se afoga em álcool, drogas e sexo com a sua incapacidade de aceitar a passagem dos anos, não é a mais adequada para melhorar a imagem de Wayne. 
Uma das peças mais corrosivas e perturbadoras de Tennessee Williams, "Sweet Bird of Youth" foi um grande sucesso nas mãos de Elia Kazan pelos palcos da Broadway, mas teve uma produção algo problemática a passar para a tela. Por um lado, A MGM sabia que ía ter problemas com o Código de Produção, por causa da sua história: um ex-gigolo com aspirações a se tornar um actor de Hollywood tem uma relação com uma actriz outrora famosa, com um fraco por álcool e haxixe. Quando o casal visita a terra natal dele alguns segredos são expostos. O terrível final da peça original tinha Chance a ser castrado por vários durões. A versão cinematográfica não podia ser tão explicita, e Richard Brooks teve de reescrever completamente o final para algo muito mais optimista.
Por sorte, quatro dos principais membros do elenco da peça da Broadway concordaram entrar no filme: Paul Newman, Geraldine Page, Rip Torn, e Madeleine Sherwood, todos concordaram recriar os seus papéis na Broadway. Newman estava a tornar-se numa estrela de Hollywood muito rapidamente, contando já com duas nomeações para o Óscar de melhor actor (uma por "Cat on a Hot Tin Roof"(1958) e outra por "The Hustler"(1961)). Embora o seu desempenho em "Sweet Bird of Youth" seja louvável, é Geraldine Page quem rouba o filme, no papel de Alexandra del Lago, uma personagem originalmente inspirada em Tallaluh Bankhead, uma amiga próxima de Tennessee Williams.
 Foram três os actores nomeados para Óscares neste filme: Ed Begley, Geraldine Page e Shirley Knight, mas apenas o primeiro conseguiu levar uma estatueta para casa.

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quinta-feira, 11 de agosto de 2016

A primavera em Roma de Mrs. Stone (The Roman Spring of Mrs. Stone) 1961

Karen Stone (Vivien Leigh) é uma atriz de meia-idade decadente que perde o marido ao sofrer um enfarte durante uma viagem de férias a Roma. Sentindo-se solitária, Karen envolve-se com Pablo di Leo (Warren Beatty), um jovem gigolo italiano. 
Baseado em mais um romance de Tennessee Williams, "The Roman Spring of Mrs. Stone" contava com Vivien Leigh no principal papel, também ela uma actriz decadente de meia idade, que regressava ao cinema depois de uma ausência de seis anos, no seu penúltimo papel de protagonista, contracenando com Warren Beatty, um jovem jovem 24 anos mais novo e que se estreava no grande ecrã neste ano. O seu outro filme deste ano era "Splendor in the Grass", de Elia Kazan. A realização estava a cargo de José Quintero, a única obra para cinema de um homem virado para o teatro. 
É dito que a novela original de Tennessee Williams se passa no período logo após a grande guerra, e o seu subtexto poético permanece o mesmo na adaptação para o cinema, feita por Gavin Lambert ("Bigger than Life" e "Bitter Victory"). Dez anos separam a peça original e esta versão cinematográfica, e infelizmente esses dez anos fazem muita diferença. Nem a peça original, nem o filme são tão brilhantes como outras obras do dramaturgo, mas com um elenco e uma equipa destas era impossível o filme passar despercebido.
Vivien Leigh já tinha ganho uma Óscar a interpretar personagens de Williams, mas atravessava um dos períodos mais negros da sua vida. A passar por um processo de divórcio no preciso momento da rodagem do filme, soube durante um jantar que o seu marido pretendia casar-se com outra actriz, Joan Plowright. Leigh estava desolada quando terminou a rodagem do filme, e o seu olhar de desolação e de tristeza que seguimos durante o filme era verdadeiro. A sua interpretação, mesmo assim, ficou fora das nomeações para os Óscares, mas outra actriz foi nomeada como secundária, Lotte Lenya, como condessa Magda Terribili-Gonzales.

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quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Bruscamente no Verão Passado (Suddenly, Last Summer) 1959

Uma jovem é internada num hospital psiquiátrico, depois de testemunhar a morte do primo. A tia, que a internara, quer uma intervenção cirúrgica para acabar o que parecem ser alucinações, mas o neurocirurgião que a trata percebe que se tratam de alucinações reais. A história gira à volta de uma personagem misteriosa, (Sebastian Venable, o primo), cuja figura só conseguimos ver em breves flashbacks, o que dá maior poder à narrativa, porque tentamos compreender exactamente o que causou a sua morte horrível, e porque a sua mãe está tão determinada a esconder a verdade sobre o seu enigmático filho.
Adaptação de uma peça de Tennessee Williams de 1957, de um único acto,dirigida de uma forma tensa por Joseph L. Mankiewicz (Dragonwyck/Cleopatra). Este chocante melodrama lida com temas bastante pertinentes, como a loucura, prostituição homossexual, incesto e canibalismo. Levamos muito tempo até chegar à revelação final, mas, quando esta chega, é bastante eficaz. Gore Vidal escreve o argumento, e consegue mantê-lo menos contundente do que a peça, cheio de insinuações ocultas, que vamos descobrindo à medida que o tempo vai passando. Com um slogan bastante efectivo: "...suddenly last summer Cathy knew she was being used for something evil!", o filme acabaria por fazer bastante sucesso nas bilheteiras, como já era habitual nas obras adaptadas das peças de Williams. 
Desde os anos 30 que a MPAA, o organismo de auto-censura da indústria cinematográfica, tinha sido criado para impor o seu código de produção, regulando o que podia e não podia ser visto. No final dos anos 50 os padrões tinham ficado mais frágeis, e as fronteiras estavam a ser empurradas, com os filmes a abordarem cada vez mais temas que outrora eram tabu, como o sexo e as drogas. "Suddenly, Last Summer" (1959) foi uma das produções mais ousadas deste periodo, e servia como prenuncio ao que viria na década de sessenta.
Como já era habitual, os filmes de Williams eram excelentes veículos para as suas actrizes. Mais uma vez valeu nomeações ao Óscar, aqui ex-aqueo para as suas duas actrizes principais Katherine Hepburn e Elizabeth Taylor. Taylor ainda não tinha 30 anos e já conseguia a sua terceira nomeação, segunda consecutiva graças a obras de Tennessee Williams. Neste ano a concorrência era muito forte, e a estatueta foi para alemã Simone Signoret.

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terça-feira, 9 de agosto de 2016

Gata em Telhado de Zinco Quente (Cat on a Hot Tin Roof) 1958

Harvey Pollitt (Burl Ives) é um rico proprietário de terras, além de possuir uma fortuna de US$ 10 milhões. Harvey festeja o aniversário e é visitado pelos dois filhos, mas ignora que tem um cancro inoperável, pois o médico tinha lhe dito que estava recuperado. Gooper (Jack Carson), um dos filhos, e a sua esposa (Madeleine Sherwood) tiveram algumas crianças e cobiçam poder herdar os milhões do "Velho". Por outro lado Brick (Paul Newman), o seu filho preferido, é um alcoólatra e ex-estrela de futebol americano, que vive um casamento infeliz. Esta situação deixa Maggie (Elizabeth Taylor), a sua esposa, muito frustrada, porque ama o marido apesar de ser desprezada por ele. 
A peça "Cat on a hot Tin Roof" foi um êxito da Broadway na primavera de 1955, e não demorou muito para que a MGM comprasse os direitos para a sua adaptação ao cinema, com James Dean e Grace Kelly apontados para os papéis principais, de Brick e Maggie. A peça de Tennessee Williams vencedora de um prémio Pulitzer, revelou-se ser mais complicada do que parecia, e foram precisos três anos para que a MGM conseguisse uma adaptação do do argumento que conseguisse satisfazer os standards do Código Hays, e quando o argumento ficou pronto já Dean tinha morrido e Kelly era uma princesa na vida real. O argumento ficou sem qualquer referências à homossexualidade do protagonista, e foi-lhe retirado bastante narrativa para tornar o filme fluído para um público mainstream. Tennessee Williams não ficou muito satisfeito com todas estas alterações, e chegou a desencorajar as pessoas a verem o filme, mas apesar disso foi um dos grandes sucessos de bilheteira do ano, para além de ter conseguido seis nomeações para o Óscar (incluindo Filme, Realizador, Actor, Actriz e Argumento), acabando por perder tudo. 
Apesar de toda a inépcia da MGM em lidar com críticas a valores da sociedade americana (homofobia, mentira, avareza, são apenas três dos pontos que o autor aponta o dedo nesta peça), o filme é compensado pela electrificante presença de Paul Newman e Elizabeth Taylor. É incrível pensar que poucas semanas depois de iniciar a rodagem deste filme, Taylor tinha perdido o marido num acidente de avião. Poucas foram as vezes que a actriz tinha conseguido uma prestação tão arrepiante. Taylor e Newman representavam duas escolas de interpretação muito diferentes, ela era muito instintiva, ele era muito devoto ao "método", com o confronto entre os dois a ser brilhante.
O filme era originalmente para ter sido dirigido por George Cuckor, mas este acabou por ser substituído por um muito menos experiente Richard Brooks quando se apercebeu nos problemas que seriam levantados pelos censores. Brooks já era um dos autores do argumento, e a sua decisão de ensaiar o filme como se fosse uma peça de teatro assegurou-lhe a intensidade claustrofóbica da fonte original, e ainda amplificava o poder das interpretações, como não havia mise-en-scéne ou trabalho de câmera para nos distrair. 

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terça-feira, 2 de agosto de 2016

A Rosa Tatuada (The Rose Tattoo) 1955

Uma viúva obcecada com a morte do marido (Anna Magnani) enclausura-se e afasta qualquer possibilidade de retomar a sua própria vida, levando a filha consigo no seu martírio. Quando menos espera, um camionista italiano desperta novamente a sua paixão adormecida, enquanto a filha descobre a sexualidade à própria maneira. 
Ana Magnani foi a musa do dramaturgo Tennessee Williams durante muitos anos, sendo eles amigos de longa data com Williams a escrever pelo menos três peças para ela. "The Rose Tattoo" foi escrito expressamente para Magnani, e apesar dela não ter entrado na versão teatral da Broadway, entrou no filme, tendo ganho com ele o seu único Óscar. Era o segundo Óscar que Williams proporcionava ás suas actrizes, depois de Vivien Leigh ter vencido em "Um Eléctrico Chamado Desejo".
Algures entre os trabalhos que colocaram Williams no mapa, "A Streetcar Named Desire" (1951) e "The Glass Menagerie" (1950), e as versões para cinema de "Cat on a Hot Tin Roof" (1958) e "Suddenly Last Summer" (1959), este filme oferecem-nos variações dos seus temas habituais como a opressão familiar, o amor proibido, o luto, o alcoolismo e a loucura.
Tal como outras personagens de luto na obra de Williams, Serafina está obcecada com a beleza do seu sofrimento, com o seu amante morto a ser idolatrado de todas as perspectivas. Este amante morto, aparece muitas vezes na obra do dramaturgo, como o Fred de "Night of the Iguana", o Sebastian de "Suddenly Last Summer" ou até mesmo em "Cat on a Hot Tin Roof". Serafina está condenada a lamentar o seu homem perdido na forma do marido. Na sua mente ele foi congelado em algum ponto da juventude viril.
Daniel Mann era o homem atrás das câmaras.

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segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Um Eléctrico Chamado Desejo (A Streetcar Named Desire) 1951

Depois de perder o trabalho e a sua casa no Mississippi, Blanche Dubois desloca-se para New Orleans, para visitar a irmã, Stella. Blanche mal consegue acreditar no nível em que Stella caiu. Vive num apartamento apertado num bairro decadente da cidade, casada com um brutamontes chamado Stanley, que parece saído directamente da idade da pedra. Não demora muito até que o seu ar de senhora e o seu criticismo exagerado a tornem numa visita pouco desejada, e Stanley começa a acreditar que ela esconde alguma coisa...
Adaptação de Tennessee Williams de uma peça sua vencedora de um Pulitzer em 1947, estava rodeada de controvérsia desde o primeiro minuto, mas tornou-se num filme marcante no modo como mudava o retrato do sexo no cinema americano. Apesar de algumas alterações à peça original de Williams, e alguns cortes de última hora para cumprir com os Códigos de Produção de Hollywood, o filme foi devastado com uma enorme onda de criticismo, para não falarmos em total condenação, pelas suas conotações eróticas e evidentes referências sexuais. Mesmo assim foi um grande sucesso, tendo conseguido 12 nomeações ao Óscar, tendo apenas ganho quatro (incluindo Melhor Actriz e Melhor Actor/Actriz Secundários).
Foi realizado pelo cineasta independente Elia Kazan, que já tinha dirigido a primeira adaptação teatral da peça. O elenco era constituído na sua maioria por actores que tinham colaborado na adaptação teatral de Kazan, principalmente Marlon Brando, que aqui participava na sua segunda obra cinematográfica. A principal mudança era a inclusão da actriz Vivien Leigh, como Blanche, repetindo o papel que tinha interpretado na primeira adaptação inglesa da mesma peça, dirigida na altura pelo então marido Laurence Olivier. Era o seu papel mais icónico desde a sua participação em "Gone With the Wind", como Scarlett O´Hara. Doze anos passaram entre estes dois filmes, que valeram dois Óscares a Vivien Leigh.
O que é tão impressionante neste filme, mesmo hoje em dia, é a intensidade sensual e o realismo, em vez da prosa altamente estilizada da peça, e, como é óbvio, os cenários teatrais. O cenário claustrofóbico (que quase faz lembrar uma cela num asilo), e a fotografia quase noir criam um sentimento sufocante de opressão, que reflecte e acentua a crescente tensão sexual na casa dos Kowalski, e a descida à degradação mental de Blanche. Até a música é profundamente evocativa, sugestionando a atmosfera de um bordel barato de Paris.

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domingo, 31 de julho de 2016

Tennessee Williams no Cinema

Tennessee Williams foi um dos dramaturgos mais importantes do século XX nos Estados Unidos.
“Porque é que eu comecei a escrever? Porque descobri que a vida é insatisfatória.”
Tennessee Williams

Thomas Lanier Williams, mais conhecido como Tennessee Williams, nasceu no dia 26 de março de 1911, na cidade de Columbus, Mississipi.
Na infância adoeceu com difteria, o que o obrigou a permanecer em casa e ficar ausente da escola por um ano, período em que aproveitou para mergulhar nos livros, descobrir mais sobre si mesmo tornando-se uma criança introspectiva e virada para uma realidade única em que as perturbações familiares lhe serviam como base de criação. Por crescer no seio de uma família onde estas perturbações psicológicas e os vícios resultantes eram o alicerce da sua personalidade, a construção das suas personagens e das suas realidades foi também enriquecida pela vivência do seu eu criador, Rose sua irmã terá sido uma Blanche Dubois evidente.
Tanto o dramaturgo como o homem perseguem temas como: opressão racial, social e sexual,da qual ele mesmo se sentiu vítima. Esta jornada em busca duma noção de justiça básica e crua revela por vezes uma enorme violência na forma simplista como aborda sentimentos e desejos básicos das personagens; é impossível não sentir o negativismo presente nos seus enredos. As suas histórias desenrolam-se, normalmente, na região sul dos EUA, num ambiente tumultuoso onde elas mesmas se sentem deslocadas social e intelectualmente.

Apesar de ter começado no cinema com 26 anos, e sem sucesso algum nessa época, todas as suas principais obras foram objecto de adaptação cinematográfica embora ele não as tenha escrito para o cinema, mas sim para o teatro. Podemos considerar que a sua obra literária apesar de já ser em si mesma excelente, ganhou bastante com a qualidade dos filmes nela baseados sendo alguns deles considerados obras-primas, clássicos do cinema americano. Tal é o caso de Um Eléctrico Chamado Desejo de Elia Kazan, 1951, ou de outro grande sucesso: Gata em Telhado de Zinco Quente de Richard Brooks, 1958. As duas produções que referi inspiraram variadas transcrições cinematográficas, como nos será dado constatar através do ciclo que o "My Two Thousand Movies" agora inicia.
* Texto de José Santos.



Nos próximos dias faremos uma visita pelos filmes de Tennessee Williams. Serão 10 ao todo, mas não esquecer os que já passaram por este blog no passado:

- "Baby Doll" (1956). Post
- "The Fugitive Kind" (1960). Post
- "Senso" (1954). Post

sexta-feira, 29 de julho de 2016

Amar, Beber e Cantar (Aimer, Boire et Chanter) 2014

Amar, Beber e Cantar é o filme derradeiro de Alain Resnais. Foi estreado no festival de Berlim de 2014, apenas três semanas antes da morte do cineasta, que já não esteve na capital alemã. O filme não foi entendido como uma intenção deliberada de fazer um filme final como sucedeu, por exemplo com Saraband de Ingmar Bergman ou Para Além Das Nuvens de Michelangelo Antonioni. Resnais já tinha planos para continuar a filmar, mas a morte não o permitiu.
Trata-se de uma terceira adaptação de uma peça do dramaturgo inglês Alan Ayckbourn, depois de Smoking/No Smoking e de Corações. Volta a contar com a colaboração de Laurent Herbiet no argumento, mas a adaptação de The Life of Riley (nome original da peça) é muito mais fiel ao original do que nas adaptações anteriores. Ainda em comparação com as outras duas adaptações de Ayckbourn, este Amar, Beber e Cantar, aproxima-se muito mais de um mero divertimento e de uma comédia: nem os finais alternativos a sugerir uma reflexão anti-determinista, como em Smoking/No Smoking, nem o tom sombrio e desolado das vidas transviadas de Corações. O mais curioso e interessante de Amar, Beber e Cantar é que gira em torno de George, uma personagem sempre presente, mas que nunca aparece no filme. Podemos dizer que é um filme sobre George, pela forma como é visto por três casais distintos, amigos entre si (ou quase) e a forma como se relacionaram com ele. Começamos por saber que a George foi diagnosticada uma doença terminal e que apenas lhe restam dois meses de vida. A partir daí vemos desfilar toda a história de George, contada pelos seus amigos e amigas e sentimos que ele é o único objecto das suas conversas. Constatamos de forma divertida, as rivalidades entre as três mulheres, todas evocando um passado misterioso em que parecem ter tido, todas elas, um caso com George e nos cuidados que lhe procuram prestar no presente. Conhecemos as viagens de George, a sua personalidade e os seus gostos e os ciúmes que provoca no sector masculino dos três casais. Através de George, desocultamos as relações entre os três casais que apenas parecem estar unidos pela sua omnipresença. Apesar da sua ligeireza e dos indesmentíveis momentos divertidos, ficamos a pensar se esta figura que nunca surge encarnada numa personagem, não remete antes de mais para um imaginário colectivo comum que atribui algum significado e cor às vidas sem graça destes três casais. A única presença física de George é dentro de um caixão fechado e já morto, com os amigos a despedirem-se. 
Mais uma vez Resnais mantém-se fiel à estrutura teatral dos seus filmes anteriores e ao artificialismo dos cenários de um filme mais uma vez rodado em estúdio, quase integralmente, embora não exactamente como o cineasta teria desejado devido aos elevados custos de produção. Dos habituais actores, mantêm-se apenas Sabine Azemá e André Dussolier, embora tanto Hippolyte Girardot como Michel Vuillermoz já tivessem colaborado com o realizador. O filme foi premiado em Berlim e teve, na generalidade, um bom acolhimento quer da crítica, quer do público, mas essa recepção favorável foi muito exponenciada pela morte do realizador. Claro que devido à sua idade avançada. não pode ser considerada uma surpresa, mas a frescura e jovialidade do seu cinema mais recente, levava-nos a pensar que o realizador, tal como a sua obra, poderiam ter o dom da imortalidade. Não sendo dos meus filmes preferidos de Resnais, não deixa de ser uma forma digna e entusiasmante de terminar uma carreira que não tem paralelo na história do cinema. 
* Texto do Jorge Saraiva

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quinta-feira, 28 de julho de 2016

Vocês Ainda Não Viram Nada (Vous n'avez Encore Rien Vu) 2012

Vocês Ainda Não Viram Nada é o penúltimo filme de Alain Resnais e foi um dos mais injustiçados, já que na minha opinião é o melhor filme do cineasta francês de todo o século XXI. Infelizmente só foi estreado em Portugal após a sua morte e juntamente com Amar, Beber e Cantar que, sendo mais popular e reconhecido como testamento final do realizador, acabou por o ofuscar imerecidamente. Trata-se da adaptação de duas peças do dramaturgo Jean Anouilh (Eurydyce e Cher Antoine Ou L`Amour Raté) que foram fundidas num único argumento por Resnais e Laurent Herbiet, que já tinha colaborado em As Ervas Daninhas.
Renais quis afastar de imediato a ideia de que queria fazer deste filme uma espécie de testamento e nem por o tema mais uma vez se relacionar com a morte, deveria ser visto como uma espécie de premonição para um cineasta que tinha 90 anos na altura da sua realização. «Se fosse uma espécie de testamento nunca teria a coragem e a energia para fazer o filme», afirmou o cineasta na altura da sua apresentação no Festival de Cannes. Pelo contrário, deve ser entendido como uma homenagem a Jean Anouilh cuja peça Eurydice de 1942, teve um forte impacto no então jovem Resnais. O filme tem uma construção elíptica por trás de uma simplicidade desarmante. Inicia-se com uma série de telefonemas feitos pela mesma pessoa para um conjunto de actores que são tratados pelos próprios nomes. Trata-se do mordomo do célebre dramaturgo a anunciar a morte do seu patrão e a convocá-los para um último encontro em sua casa, para conhecerem o seu desejo final. Movidos pela tristeza e pela curiosidade nenhum deles falta e reúnem-se na ampla casa do dramaturgo, com reminiscências vagas ao palácio onde decorre a acção de O Último Ano em Marienbad. Os actores vão assistir a uma nova representação de Eurydice, por uma companhia de teatro constituída por jovens actores que lhe tinham enviado uma gravação. Os actores mais veteranos constituiriam uma espécie de plateia crítica que apreciaria o desempenho dos seus colegas mais novos. Entre os actores/espectadores havia duas gerações que consistiam em duas representações da peça em épocas distintas. Somos colocados perante dois focos de atenção complementares: a do desempenho dos actores mais jovens e a reacção dos mais velhos. O que é absolutamente assombroso neste filme é que, a partir de certa altura, os actores mais velhos, que ainda se recordam do texto da peça, começam, primeiramente quase em surdina, depois de forma cada vez mais aberta, a representar o texto. A partir de certa altura, nenhum deles fica preso às cadeiras em que estava sentado e transformam o auditório em que placidamente assistiam à representação, num novo palco. O trabalho de interacção entre os três grupos (um no vídeo e dois no auditório) é absolutamente assombroso. Resnais consegue fazer interagir os diferentes momentos de representação sem que se perca o fio à meada da peça, o que não é tarefa fácil. Mas o que é absolutamente notável, é o tom comovente do grupo que vive a representação como um retorno a memórias passadas. Resnais baralha intencionalmente os planos, pondo deixas de um dos planos de representação que são respondidos por outro. A veia insubmissa do velho mestre sempre a funcionar...
Em Vocês Ainda Não Viram Nada regressa em força, talvez mais do que nunca, a sua paixão pelo teatro, como componente estruturante do seu cinema. É um filme sobre a memória, sobre as relações entre a realidade e a ficção por um lado e os diversos níveis da própria ficção, por outro, sobre o papel da imaginação. E é um filme sobre a vida e a morte, mas, em momento algum, é um filme autobiográfico ou uma espécie de testamento. Aos 90 anos Resnais estava mais jovem do que nunca.... 
*Texto de Jorge Saraiva

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terça-feira, 26 de julho de 2016

As Ervas Daninhas (Les Herbes Folles) 2009

As Ervas Daninhas marca o regresso de Alain Resnais aos espaços exteriores depois dos seus filmes anteriores terem sido praticamente rodados em estúdio. Trata-se da adaptação da novela L´Incident de Christian Gailly, a primeira vez que Resnais adaptou uma novela em toda a sua carreira e na qual o escritor não participou na sua tradução cinematográfica.
O filme é construído sobretudo para dois actores: Sabine Azemá e André Dussolier, mas trazendo, como é costume, novos actores que nunca tinham trabalhado com o realizador, embora em papéis secundários, como é o caso de Mathieu Amalric e de Emmanuelle Devos. O argumento parte de uma casualidade: uma mulher, dentista de profissão, perde uma carteira que é encontrada por um homem que para além da entregar à polícia, fica fascinado tanto pela fotografia que encontra no seu interior, como pelo facto de ela, tal como ele, parecer ter uma atracção especial por aviões, como o comprova a existência de uma licença de pilotagem. Todo o argumento é marcado pela duplicidade nas relações entre as personagens e a transformação das mesmas à medida que a acção decorre. George que parece ter um passado obscuro (embora nunca revelado), move-se inicialmente por uma espécie de dever de cidadania, de devolver a carteira que acidentalmente encontrou. Mas, embora pareça ter uma vida estável (casado com uma mulher bastante mais nova e com dois filhos adultos). rapidamente esse episódio trivial vai desestruturar toda a sua vida afectiva que percebemos ser bastante menos equilibrada do que à primeira vista se supunha. A sua necessidade de conhecer a misteriosa dona da carteira, leva-o a pretextar motivos fúteis e a expor-se ao ridículo da recusa e da indiferença. Não são menos interessantes as mudanças de comportamento de Marguerite: inicialmente vai sentir-se reconhecida pelo gesto altruísta de George, mas à medida que este se torna insistente, adopta um ar de superioridade e de indiferença. Acaba, no entanto, por reconhecer a sua própria solidão e a curiosidade sobrepõe-se à hostilidade. Este é um dos aspectos mais interessantes do filme: o elogio da irracionalidade nas relações humanas. Não chega a haver paixão nem de um lado nem do outro, mas há uma espécie de início de desafio a um status quo tão confortável, quanto insatisfatório: ele na sua família estabilizada e ela na sua profissão bem sucedida. 
A pedra de toque do filme é o seu final. Sem que nada o faça prever, mas vindo de quem vem não chega a ser surpreendente, As Ervas Daninhas tem dois finais alternativos: num deles, há quase um happy-end com Marguerite a passear de avião com George e a mulher e todos parecer viver momentos de felicidade. No outro, o avião despenha-se e ninguém sobrevive. Mais do que o regresso aos finais alternativos de Fumar/Não Fumar, há aqui o retorno ao conceito de obra aberta que caracterizou os primeiros anos da carreira de Alain Resnais, sobretudo O Último Ano em Marienbad e que tanta controvérsia provocaram. Este final ambíguo, em que duas possibilidades são apresentadas de forma quase tão natural como intencional sem nos deixarem qualquer pista sobre a mais provável das soluções, é um sinal de frescura e de vitalidade de um cineasta que perto dos 90 anos continua a surpreender. Mas, esta liberdade criativa que é deixada ao espectador para interpretar o filme, pode constituir um exercício de auto-citação, mas não deve ser entendido como um exercício gratuito. É que todo o filme «pede» um desenlace destes. Porque há coisas que não se explicam de forma linear, nem podem ser reduzida a sequências convencionais. As Ervas Daninhas é um grande filme de um grande cineasta, mas ainda não seria a sua derradeira palavra... 
*Texto de Jorge Saraiva.

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Corações (Coeurs) 2006

Corações é a segunda incursão de Alain Resnais no universo literário do escritor inglês Alan Ayckbourn, de quem tinha adaptado doze anos antes, o díptico Smoking/No Smoking e que agora se debruça sobre a peça Private Fears In Public Places. Para os mais ortodoxos seguidores de Resnais, o filme é considerado uma obra prima e um regresso a um universo mais identificável com os trabalhos anteriores do cineasta, depois das derivações musicais dos dois filmes anteriores. 
No entanto, excluindo a parte musical, há claros pontos de contacto com É Sempre A mesma Cantiga. Um conjunto de seis personagens de meia idade (três homens e três mulheres) que vão vivendo os seus desencontros afectivos e se vão cruzando para construir uma teia que remete frequentemente para a desolação a que a solidão conduz. Como é costume, não há aqui personagens que sejam enquadráveis nas categorias de Bem ou de Mal. Há uma visão sobre a vida de todos eles, com as suas virtudes e fraquezas que, nem pelo facto de parecer eminentemente amoral, deixa de ser profundamente afectiva. Acompanhamos o percurso de um soldado desempregado, com o casamento em ruínas e que tem como principal confidente um empregado de bar. Encontra uma outra mulher, insegura e vacilante que vive com o irmão, um agente imobiliário que procura uma casa para o casal cuja relação está a desintegrar-se. Com este agente imobiliário trabalha uma mulher, cristã quase fanática, e que vai a casa do barman tomar conta do seu pai, enquanto trabalha. E assim se fecha o círculo das seis personagens. O tom, por vezes é ligeiro, mas vai ganhando uma tensão crescente, naquele que é um dos filmes menos optimistas de Resnais. Há aqui uma densidade proveniente do desencanto, uma espécie de fatalismo resignado, que afasta Resnais do estilo mais ligeiro e espontâneo de Rohmer, que passou a vida a filmar encontros e desencontros emocionais entre as pessoas. O tom de Resnais é claramente mais grave e circunspecto. Mesmo quando existem situações que podem fazer rir, o panorama geral é sempre mais pesado. Para isso serve-se de uma forma particularmente engenhosa de filmar: o filme é quase sempre um diálogo a dois, raramente estando mais ou menos personagens a ser filmadas em simultâneo. É certo que já o tinha feito em Smoking/No Smoking, onde Azemá e Arditti se desdobravam numa série de papéis diferentes, mas cujas personagens nunca se sobrepunham ou coabitavam. Só que aqui nenhum actor representa mais do que uma única personagem, pelo que há uma vontade propositada de fazer conduzir toda a fluidez do argumento, através dos diálogos entre as personagens. Num ambiente depurado e austero, mais uma vez integralmente rodado em estúdio, vemos uma cidade de Paris gelada, com interlúdios de neve entre os diálogos, repetindo, embora de forma ainda mais artificial, o mesmo efeito visual de Amor Eterno. 
O filme foi apresentado a concurso no Festival de Veneza de 2006, mas perdeu o Leão de Ouro para Natureza Morta de Jia Zhang-ke. Em contrapartida, Resnais foi contemplado com o Leão de Prata, prémio para o melhor realizador. André Dussolier, Pierre Arditti e Lambert Wilson integram o lote de actores masculinos, todos já habituais nos seus filmes.; Sabine Azemá, esposa de Resnais, é a única repetente, sendo os outros dois papéis femininos desempenhados por Isabelle Carré e Laura Morante, que nunca tinham filmado com o realizador.. 
Muitos críticos consideram Corações como o melhor dos cinco filmes que Resnais realizou no século XXI. Seja o melhor ou não, aqui está o exemplo de um cineasta que se reinventa a cada novo filme e que quase cinquenta anos depois de Hiroshima Mon Amour, continua a ser capaz de surpreender.
*Texto do Jorge Saraiva.