quarta-feira, 2 de outubro de 2013

As Tartarugas Também Voam (Lakposhtha parvaz mikonand) 2004



Numa aldeia curda na fronteira do Iraque com a Turquia, os moradores estão ansiosos para instalar uma antena parabólica para que possam entrar em sintonia com as reportagens sobre a iminente invasão dos EUA ao Iraque. Um rapaz de 13 anos manda nos jovens da aldeia, é o jovem "faz tudo" da zona, que é apelidado de Satéllite (Soran Ebrahim). Entretanto, Agrin (Avaz Latif), uma jovem refugiada de outra aldeia chega com o irmão, sem braços, Hengov (Hiresh Feysal Rahman), e o pequeno filho cego, chamando a sua atenção. Hengov, ao que parece, tem o dom de prever eventos futuros, é mais útil do que montar antenas parabólicas, o trabalho de Satélite. Satélite tenta fazer amizade com este estranho e infeliz trio, mas sem sucesso.
Bahman Ghobadi (A Time for Drunken Horses) trabalha melhor com a dor e o sofrimento, é apaixonado por filmar o seu povo (curdo) a partir do interior da sociedade, com o foco nas suas misérias. Turtles Can Fly é motivado por sentimentos anti-guerra e pró-crianças. Não é de admirar que por isso, Hengov, um adolescente que perdeu os dois braços num dos milhares de acidentes com minas terrestres, seja o personagem central no filme, uma presença sombria cujo dom profético faz com que a antena parabólica que os aldeões usam para saber notícias da invasão iminente dos EUA ao Iraque seja um pouco redundante. Não se pode dizer que este filme seja simplista, ou anti esta guerra específica; Ghobadi diz que foi movido para fazer este filme, em parte, quando angustiado pela forma como as crianças são vítimas de guerras e aparentemente ignoradas. O adolescente Hengov permanece como um símbolo do poder destrutivo da guerra e a indestrutibilidade do espírito humano. A falta de piedade, a capacidade de superar as limitações físicas da sua condição são mensagens poderosas, mas não escondem o facto de que está profundamente marcado pela experiência de vida do realizador. Este dom é mais uma maldição do que uma recompensa, a sua vida é reduzida ao essencial da sobrevivência, ainda mais talvez do que os seus conterrâneos. 
Mas, para nós, é a irmã Agrin (Avaz Latif), e o filho de 3 anos cego que têm a maior empatia, e o maior desgosto. Traumatizada e sozinha no mundo, a jovem de 15 ou 16 anos de idade é suicida, no rescaldo de uma vida de dor, e quando a carga de cuidar do filho se intensifica. Uma vítima de violação de um gang quando ela não tinha mais do que 12 ou 13 anos, ressente-se do seu bébé, assim como de todo o mundo. (O filme não é explícito sobre os violadores, mas em flashback parecem ser soldados iraquianos.) É Hengov quem alimenta a criança trágicamente.
Em contraste com a escuridão destes personagens, temos um Satellite energético, efervescente e empresarial, é uma força positiva cujo pragmatismo singular é equilibrado por uma alma sensível.

O nível de interpretações do elenco não-profissional é extraordinário, e na verdade, a linha entre a vida real e a interpretação é tão curta a ponto de ser invisível. O que impressiona cinematograficamente em Turtles Can Fly é a sua estrutura: ao contrário de um filme ocidental que pode ser estruturado com sinais emocionais reconhecíveis, Ghobadi conta a sua história de tal forma que cabe ao público escolher a chave e os elementos. E há muito para escolher.

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