quarta-feira, 19 de junho de 2013

O Circo das Almas (Carnival of Souls) 1962



Mary Henry (Candace Hilligoss) é uma passageira num automóvel, que atravessa o Kansas com três amigas quando são incomodadas por um grupo de jovens noutro carro que querem impressioná-las com uma corrida. A motorista tenta fugir, mas o outro carro continua a importuna-las até que passam uma ponte sobre um rio largo, e um terrível acidente acontece. Em pânico, a motorista perde o controle do veículo e atravessa a barreira caindo na água. Algumas horas depois, o rio está a ser dragado para encontrarem o corpo das jovens, com uma pequena multidão a juntar-se à volta, mas ficam todos chocados ao ver a figura lamacenta de Mary a saír para fora da água. Ela parece ter sido a única sobrevivente ...
Depois de uma estreia humilde como um filme regional independente, Carnival of Souls construiu uma forte reputação ao longo dos anos, como um dos mais duradouros, e até mesmo influentes, favoritos de culto da sua geração. Foi concebido pelo produtor e realizador Herk Harvey e escrito por John Clifford, os dois foram criadores de filmes institucionais, e quem cresceu a ver filmes sobre informação pública sabe o quanto assustadores eles podem ser. O ar amador nunca deixa o filme, e, para falar a verdade, até o melhora. 
Assim como nas curtas de Harvey, este filme é um conto de advertência, embora o modo como aprendemos as suas lições podem ser um pouco mais obscuros. Tal como acontece em outras curtas do realizador, o filme apresenta um acidente de carro, mas é como se o realizador quissesse ir mais longe num mundo onde o perigo e, por vezes a morte, espreita a cada esquina, e os incautos é melhor terem cuidado. Mary gradualmente desafia tudo o que está bem no mundo, quando é perseguida por uma entidade que quer que ela aceite algo sobre o qual está em negação, mas a história evita quaisquer explicações simples.
Pode ser o velho conto que nos trouxe Ambrose Bierce, "Occurence at Owl Creek Bridge" mas há um anseio metafísico sobre Carnival of Souls que se eleva acima do seu estilo, decididamente não-profissional. Uma vez que Mary entra na cidade, verifica-se que ela é um organista da igreja, mas não religiosa porque ela não tem fé. É uma alma deslocada em muitos aspectos, preferindo estar só do que estar com outras pessoas com quem ela sente pouca ligação, ou seja, até que ela perceba que pode ficar sozinha para sempre, se não tiver cuidado. Tomando um novo emprego numa cidade diferente, ela muda-se para uma pensão que compartilha com um vizinho lascivo e alcoólico, o Sr. Linden (Sidney Berger) e uma intrometida senhoria, a Sra. Thomas (Frances Feist).  
Harvey consegue criar um ambiente sensivelmente assustador com um mínimo de recursos. O orçamento do filme foi de aproximadamente US$ 30.000 e Harvey consegue fazer muito através de decisões inspiradas na banda sonora. O trabalho de câmera por vezes é amador, mas isso é compensado regularmente pelos tons assustadores de um órgão de igreja. Especialmente nas sequências na cidade prolongadas onde Mary de repente se torna surda e invisível, acabam por se tornar a peça central do filme e mostrar a influência alienante da vida na cidade moderna. Harvey aumenta a tensão com ângulos estranhos e distorcidos, e uma abordagem interessante na montagem. O baixo orçamento, ocasionalmente, chama a atenção e, por vezes, as interpretações são menos do que satisfatórias. Mas isso pode ser perdoado pelo puro sentimento de pavor e medo evocado pelas visitas espectrais que atormentam Mary na sua jornada por um território desconhecido.

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