domingo, 31 de março de 2013

O Pagador de Promessas (O Pagador de Promessas) 1962



Zé é um cidadão simples que vê o seu burro - bicho pelo qual tem grande estima - ficar muito doente. Sendo assim, ele faz uma promessa: se o burro ficar bom, ele carregará uma cruz até à cidade como sacrifício pelo "milagre". O burro então fica bom e Zé tenta cumprir a promessa... até à chegada na igreja, quando o padre recusa-se a deixá-lo entrar ao saber o motivo do sacrifício.
Ao mesmo tempo em que consegue pintar um retrato atemporal de sociedades ávidas em conferir um contexto político até a uma das manifestações menos políticas de todas, a religiosa, "O Pagador de Promessas" também é o triste retrato de como a insensibilidade religiosa e o preconceito a cultos distintos pode sugar toda a força de vontade de um homem bondoso que apenas queria agradecer pelo dom da vida. 
O segundo filme dirigido por Anselmo Duarte, é um caso único no cinema brasileiro. Constitui um dos filmes-ponte entre a tentativa de se fazer um cinema industrial, vigente ao longo dos anos 1950, e a proposta revolucionária do então nascente Cinema Novo. "O Pagador de Promessas" foi talvez o ápice do “velho” cinema brasileiro, neorrealista, convencional, baseado em regras de verossimilhança e continuidade.
A estratégia do realizador e do produtor Oswaldo Massaini deu absolutamente certo. Concorrendo com Fellini, Visconti, Antonioni, Buñuel, De Sica e Bresson, este filme ganhou a Palma de Ouro de Cannes, o maior prémio internacional já recebido por um filme brasileiro até hoje, além de ganhar mais quatroprémios fora do país, e uma nomeação para melhor filme em lingua estrangeira, no ano seguinte.
A Palma de Ouro gerou uma das histórias mais lamentáveis dos bastidores do cinema brasileiro. Grande parte do Cinema Novo renegou o filme. Glauber Rocha, que antes o havia elogiado, acusou Duarte de filmar uma realidade de esquerda com ideologia de direita. O elogio da simplicidade do homem comum foi visto como uma celebração do atraso, do conformismo e da derrota, em lugar do espírito revolucionário. Como resultado dessa rejeição, o filme caiu em relativo esquecimento. Não merecia. É um clássico incontestável e desperta admiração até hoje.

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