sábado, 18 de janeiro de 2014

Eles (Ils) 2006



Clémentine e Lucas são um jovem casal francês que têm vivido em Bucareste à vários meses. Ela trabalha como professora, ele é escritor. Vivem numa mansão isolada, a milhas da cidade mais próxima. Uma noite, Clémentine é acordada por um barulho estranho. Convencidos de que alguém invadiu a casa, ela acorda Lucas que sai para explorar no escuro. Como temia, Lucas encontra provas de intrusos, mas eles parecem estranhamente relutantes em se mostrar. O pesadelo está apenas a começar...
Supostamente baseado numa história verdadeira, Ils é um exemplo superlativo do género psycho-thriller/horror que se tornou popular na década de 70 e ganhou alguma respeitabilidade com "Shining", de Stanley Kubrick (1980). O realizador John Carpenter desenvolveu o género para o que hoje denominamos o "thriller de terror" através da introdução de violência gráfica com o seu filme Halloween (1978). Recentemente, o género tornou-se cada vez mais sangrento e repugnante. Ils dá um passo ou dois para trás de todo este derramamento de sangue gratuito, e mostra que um thriller muito, muito mais eficaz pode ser alcançado como resultado.
É interessante notar que até recentemente este era um género que era excepcionalmente raro no cinema francês. O único filme semelhante, de nota, era "Alta Tensão", de Alexandre Aja (2003), embora este se desvie dos excessos do filme de Aja, e apareça involuntariamente engraçado em algumas de suas sequências mais violentas. Por contaste, Ils é muito mais contido, com menos violência retratada na tela do que encontramos, por exemplo, num episódio de "Tom & Jerry". A razão pela qual o filme é tão eficaz e tão absolutamente convincente, é porque a maioria do horror das experiências dos espectadores, enquanto vê o filme vem de da sua própria imaginação. O terror é muito mais terrível quando se trata das profundezas obscuras da nossa própria consciência. Este, afinal, é o lugar onde nascem os pesadelos.
A leve abordagem adoptada pelos realizadores em estreia David Moreau e Xavier Palud (reparem que até agora todos os filmes deste sub-ciclo têm sido realizado por estreantes) para este filme, na verdade, serve o tema do filme muito bem. O verdadeiro inimigo que os dois protagonistas enfrentam aqui é o seu medo, não os seus perseguidores humanos. A incapacidade de lidar com o medo e lidar com a ameaça que os enfrenta de forma racional é o que os impulsiona a sua condenação. Na maioria dos filmes deste tipo, as vítimas são atormentadas por alguém do mal quase sobre-humana, alguém que (incrivelmente) sabe todos os seus movimentos e tem um talento especial implausível de saber exatamente em que canto se esconder. Aqui, as vítimas são seus próprios algozes. É o medo cego que os leva a entrar em pânico e mergulha-los num pesadelo vivo, tornando a sobrevivência de uma impossibilidade virtual. Ils é um filme impressionante que nos lembra o quão perigoso e destrutivo pode ser o medo, se nós permitirmos que ele tome conta de nós.


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