quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

João Botelho - Os Primeiros Filmes

João Botelho, hoje um realizador de prestígio e muito conceituado, começou a sua carreira como ilustrador de livros infantis e artes gráficas, a partir de 1970, tendo ainda passado pela Escola Técnica de Matosinhos, como professor. A Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra, a Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto e a Escola de Cinema do Conservatório Nacional são as instituições que fazem parte do seu percurso académico.
Fundador da revista M, foi crítico de cinema em jornais e revistas. Inicia-se na realização com duas curtas-metragens para a RTP e com o documentário de longa-metragem “Os Bonecos de Santo Aleixo” para a cooperativa Paz dos Reis. Aliás, da sua imensa obra, destacam-se: “Conversa Acabada”, de 1980; “Um Adeus Português”, de 1985, sobre a experiência da Guerra Colonial; “Tráfico”, de 1998; “A Mulher que Acreditava Ser Presidente dos Estados Unidos”, de 2003; “A Terra Antes do Céu”, de 2007. Mais recentemente, foi responsável pela elaboração de um documentário em torno de Guimarães 2012, Capital Europeia da Cultura e pela curta-metragem “A Valsa” para a Companhia Nacional de Bailado.
Os seus filmes arrebataram já inúmeros prémios em vários festivais de cinema: Figueira da Foz, Antuérpia, Rio de Janeiro, Veneza, Berlim, Salsomaggiore, Pesaro, Belfort, Cartagena, entre muitos outros, conquistando por duas vezes o prémio da OCIC, da Casa da Imprensa e dos Sete de Ouro. Hoje vamos conhecer os seus três primeiros filmes.




Tempos Difíceis(Tempos Difíceis) 1988

Actualidade. A cidade de Poço do Mundo, através de três famílias: os Cremalheira  - cujo pretencioso patrono ambiciona ser deputado; Grandela - um industrial prepotente, porventura de origens humildes; Sebastião - um operário patético e infeliz com a mulher. Uma vivência emergente de conformismo ou frustração, de humilhações ou prepotências, de renúncia ou rídiculos, de infâmias ou mediocridade. Entre títeres e pervertidos, exploradores e humilhados...
Na sua terceira longa-metragem, João Botelho adaptou o romance homónimo de Charles Dickens, mas o mundo do escritor victoriano é facilmente identificado com a realidade portuguesa ("Tempos Difíceis, Este Tempo"). Num lugarejo, o "Poço do Mundo", que é um microcosmo social, convivem a riqueza e a pobreza mais extrema, a cultura e a ignorância, a perversidade e a inocência. De Dickens a Botelho, o filtro é de D.W. Griffith, com um rosto feminino, Julia Britton, que parece saída de um dos melodramas do mestre americano. A fotografia, num preto e branco rasante, é um trabalho notável de Elso Roque.

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Um Adeus Português (Um Adeus Português) 1986

África Portuguesa, 1973. Nos últimos tempos da Guerra Colonial um pequeno grupo de soldados avança no mato. Um soldado morre vítima do rebentamento de uma mina. Em Lisboa, doze anos depois, Raul e Piedade, pequenos agricultores do Minho, visitam Alexandre, o filho mais novo, e Laura, a viúva do filho mais velho que morreu em Àfrica na guerra. A família volta a estar junta, mas nunca será o que foi. Há uma pequena dor, serena e amarga, que o tempo não esbateu. Raul e Piedade regressam à terra. Alexandre e Laura não têm lugar para regressar. Nem para esquecer.
A ação desta longa-metragem desenvolve-se em dois planos que se entrecruzam habilmente: no primeiro, acompanha-se o percurso trágico de um grupo de militares em território africano, em combate na Guerra Colonial; no outro, assiste-se à vivência perturbada de uma família, longe do teatro de operações.
Um Adeus Português é, assim, uma reflexão, mais existencial do que política, sobre o sacrifício e o sofrimento. O seu interesse reside no facto de abordar o tema da Guerra Colonial portuguesa, acontecimento histórico recente que, por esta altura, começava a ser tratado na criação artística, nomeadamente na literatura.

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Conversa Acabada (Conversa Acabada) 1982

No início deste século, em profunda crise política e moral da sociedade portuguesa (uma confusa I Républica, com restos de uma monarquia podre), um encontro e um momento de catástrofe: Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro Reinventam a língua, o modo de dizer, pagando os riscos da sua aventura. Um rebenta a solidão no fogo dos heterónimos, que lhe permitem prolongar a existência; o outro despedaça o corpo e a própria vida, na vertigem dispersa de poemas e novelas. A história desse encontro - os textos, a amizade e a morte...
Tirando o melhor partido do ecrã virtual (tal como existia há trinta anos), este é um filme indissociável de todo uma assumida teatralidade que passa, não apenas pelo artifício das composições, mas também pelo peso específico das palavras. Afinal de contas, de Manoel de Oliveira a Jacques Rivette, passando por David Lynch, essa tetralidade é essencial para compreender algumas das vias fundamentais do cinema moderno.

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