sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Divórcio à Italiana (Divorzio All'italiana) 1961



O barão Fefe Cefalù é um nobre siciliano chateado com a vida e com a esposa Rosalia: e apaixona-se pela jovem e bela prima Angela, que passa os verões no mesmo palácio que ele. Como o divórcio é impossível na Itália da década de 1960, decide matar a esposa, sabendo que a sentença seria muito leve, se ele provar que cometeu um homicidio por uma questão de honra, ou seja, por encontrar a esposa com outro homem. Por isso, começa a magicar um amante para Rosália, usando Carmelo Patané, um pintor conhecido dela para o assunto.
Assim, o conceito central do filme e as suas piadas e estruturação social são um plano egocêntrico para explorar a compreensão cultural já exploradora que uma mulher que desonra merece a morte. De nenhuma modo Ferdinando (Marcello Mastroianni) quer proteger a sua "honra", já que ele claramente não tem nenhuma, o que sugere que todo o plano é apenas uma desculpa para sustentar uma forma cada vez mais fora de moda do machismo patriarcal. Na sua essência, Divórcio à Italiana é uma farsa sobre como os homens podem se tornar caricaturas dispostas a tudo o que é mau sobre a masculinidade, o que é particularmente evidente na narração em voice-over de Ferdinando, que, por vezes, tem lapsos de humor em monólogos interiores.
A este respeito, o desempenho de Mastroianni é crucial para o sucesso do filme, especialmente porque ele estava no topo da sua carreira durante a década de 1960, como um modelo da sexualidade masculina italiana. Um ano antes ele já tinha interpretado um jornalista playboy em La Dolce Vita (1960) de Fellini, que tem uma participação especial divertida em Divórcio à Italiana. De certa forma, Ferdinando é um riff do personagem de Mastroianni de "La Dolce Vita" - o que acontece quando o playboy finalmente se acalma? Ele torna-se miserável e fica ansioso para voltar aos seus caminhos errantes. A ironia em Divórcio à Italiana é que o sistema cultural/social que se destina a reforçar a vida familiar, honra e fidelidade é virado de cabeça para baixo pelo plano sorrateiro de Ferdinando para se livrar da esposa atirando-a para os braços de outro homem (que por acaso é um ex-namorado).
O realizador Pietro Germi é praticamente desconhecido fora de Itália, embora tivesse ganho um Oscar pela co-autoria do argumento deste filme. É seguramente um dos mais influentes realizadores do cinema italiano (Fellini, De Sica, Visconti, etc), mas manteve-se praticamente desconhecido nos Estados Unidos, e consequentemente no resto do mundo. Por vezes é comparado a Billy Wilder ou Preston Sturges, apesar desta ser a sua primeira comédia. Surpreende que tivesse levado tanto tempo a entrar neste campo, porque ele tem uma fantástica sensibilidade cómica, que vai desde a brincadeira espirituosa, com o diálogo, para gradualmente construír e sustentar piadas visuais, com o uso do cabelo de Ferdinando como um barómetro visual do seu estado emocional.
Germi começou a sua carreira cinematográfica a fazer filmes neo-realistas na década de 1940, depois da qual ele se concentrou principalmente em dramas e thrillers. O seu olho de realizador é evidente, com este filme a corresponder à sua sagacidade verbal e nitidez temática, com uma bela fotografia e enquadramentos precisos. As raízes neo-realistas de Germi serviram-no bem.

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