sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Shohei Imamura

Imamura rejeitou o cinema convencional e idealista do Japão da década de 1950, para produzir e dirigir a sua própria visão do povo oprimido pela sociedade japonesa. Explorando a antítese da classe média da sociedade da sua juventude, Imamura ficou fascinado por marginais, criminosos e prostitutas que coloriram o seu mundo quando ele era um comerciante do mercado negro na Segunda Guerra Mundial. Como um estudante de sociologia japonês, fez comédias obscuras e contos pungentes de tabus culturais sobre a sobrevivência da pobreza - tanto como ficção, como documentário.

 Imamura nasceu a 15 de Setembro de 1926, em Tóquio, como o terceiro filho de um médico. Estudou na elite do ensino japonês na companhia dos filhos dos privilegiados. Em vez de seguir as atitudes dos seus colegas, rejeitou as suas curtas visões de espírito e desprezo pelas classes mais baixas. Imamura desprezava a opressão das sociedades que mais tarde viriam a ser o foco dos seus filmes.  
Andava impressionado com a liberdade expressa nos filmes do pós-guerra, como "Rashomon" de Akira Kurosawa. Depois de se formar pela Universidade de Waseda, em 1951, juntou-se aos Shochiku FilmsEntrou como assistente de realizador com o objectivo de trabalhar com Keisure Kinoshita. Nesse período ajudou vários realizadores, como Masaki Kobayashi, Yuzo Kawashima, e Nomura Yoshitaro, mas a sua passagem mais marcante foi como aprendiz de mestre Yasujiro Ozu. 
Trabalhou em três filmes memoráveis ​​de Ozu: "Early Summer", 1951; "Flavor of Green Tea over Rice", 1952; e "Tokyo Story", 1953. Mas, foi no terceiro que Imamura se sentia mais frustado e revoltado. Sentia que o trabalho de câmera de Ozu era rígido e sem imaginação, e que os actores foram instruídos para ser demasiado empolados e organizados, e que o sistema de promoção da produtora asfixiava a criatividade.
 Imamura opôs-se à visão conservadora e idealizada de Ozu da vida japonesa perfeita, com actores passivos e formais. Queria produzir filmes que retratassem o conflito dos verdadeiramente corajosos para a sociedade da vida japonesa. Na Shochiku, ele gostava de trabalhar com Yuzo Kawashima, que fez filmes sobre a vida das classes mais baixas. Kawashima também se rebeliou contra as políticas do estúdio Shochiku, assim, em 1954, os dois mudaram-se para os Nikkatsu Studios.

Imamura entrou no programa de treino dos Nikkatsu Studios, que recrutava novos talentos e oferecia salários mais altos. trabalhou como argumentista e assistente de realização de Kawashima numa série de comédias. Em 1955, Imamura recebeu pela primeira vez crédito como assistente de realização. Durante este período desenvolvia a sua própria abordagem sobre o cinema. 
Em 1958, Imamura fez a sua estreia na realização com "Stolen Desire", uma comédia de humor negro sobre uma trupe de atores itenerante. Era o início do seu fascínio pelas correntes da sociedade e um desejo de desafiar a percepção de valores morais. Recebeu um prémio de Novos Talentos para este filme,  e naquele ano, fez mais duas obras: "Nishi Ginza Station" e "Endless Desire".


Com o sistema antigo dos estúdios japoneses a entrarem em declinio, talentosos jovens realizadores chegavam à tona. O Bagu Nuberu, ou New Wave, nomeado a partir da Nouvelle Vague francesa, caracterizou a nova geração de cineastas que surgiram na década de 50. Imamura e os seus contemporâneos, como Nagisa Oshima e Masahiro Shinoda, com quem ele já tinha trabalhado na Shochiko, rejeitaram a fórmula estabelecida por Ozu, de eufemismo tranquilo para celebrar as correntes primitivas da vida japonesa. A visão dos novos realizadores veio a espelhar a sociedade do pós-guerra, com a pobreza, mercados negros, corrupção, e proscritos.  
Imamura focou-se nas classes mais baixas, a que estava ligado durante os seus anos da escola. Abraçou temas tabus, como o incesto e a prostituição. Muitos dos seus filmes concentravam-se em comportamentos japoneses culturais, como a superstição e as atitudes em relação ao sexo, e a desafiar os seus espectadores para transcender os valores tradicionais.  
O primeiro filme a marcar distintamente a obra de Imamura foi "Pigs and Battleships", de 1961, uma sátira sobre traficantes que vendiam animais que foram alimentados com o lixo deixado por bases americanas estacionadas no Japão. O filme, que causou um escândalo, continha um dos temas populares do cinema de Imamura, do homem como animal. Não só os americanos eram vistos como porcos, mas também os comerciantes do mercado negro japones, que faziam fortunas com o que faziam.
Em 1965, Imamura criou a sua própria companhia de produção independente, a Imamura Productions, para que pudesse continuar a produzir filmes que caracterizaram a sua análise original do Japão, do seu povo e da sua cultura.
A carreira de Imamura prolongou-se por mais de 40 anos. Nos anos 70 esteve mais virado para os documentários, mas regressou em grande durante a década de 80. A partir da década de 80 assumiu uma carreira mais séria, tendo ganho a tão pretendida Palma de Ouro do Festival de Cannes, por duas vezes.Pertence ao grupo de realizadores muito restrito que conseguiu esta proeza.
Neste ciclo, vamos ver cinco dos filmes da primeira fase de Imamura, que é a minha preferida, e depois, mais cinco filmes da fase posterior. 
Espero que gostem. Até amanhã.

1 comentário:

O Narrador Subjectivo disse...

Eu leio isto e o meu respeito por este homem, já de si elevado, cresce, mas devo dizer que os seus filmes me deixam a desejar por mais e não tenho grande explicação para isso. Ainda ontem vi o Unagi e, depois de um início brutal, o filme vai perdendo força.