quinta-feira, 8 de maio de 2014

Peregrinação Exemplar (Au hasard Balthazar) 1966



A triste vida e a morte de Balthazar, um burro, desde uma infância feliz cercada de crianças, até à idade adulta, onde era tratado como uma besta de carga. A sua vida é contada em paralelo com o da jovem que lhe deu o nome, e enquanto a vemos ser humilhada pelo amante sádico, vemos Balthazar a ser espancado pelo dono. Mas ele encontrará uma certa paz quando vai parar ás mãos de um moleiro, que o trata como a reencarnação de um santo...
De certa forma, um burro poderia ser a perfeita encarnação bressoniana, porque o realizador tinha o hábito de desencorajar os seus actores de exprimirem qualquer emoção, obrigando-os a repetirem a mesma cena vezes sem conta, até eles simplesmente pararem de representar, e serem eles próprios. Isto poderia tornar os seus personagens aborrecidos, mas o efeito é o contrário, porque o espectador assim é obrigado a procurar e encontrar emoção nos diálogos, nas situações, e na história. Os pequenos detalhes tornam-se muito importantes, e os temas recorrentes na filmografia de Bresson, como o Amor, a Morte, o Sofrimento, e a Redenção contam tudo o que é preciso contar sobre a vida, inclusivé a vida de um simples burro.
Este filme, é com La Passion de Jeanne d'Arc (1928), de Carl T. Dreyer, um grande exemplo do cinema transcendente. Os dois são obras primas de uma pureza inigualável, filmes pungentes, que utilizam a linguagem do cinema para expressar de modo mais directo as mais básicas verdades da experiência humana. Ambos invocam a Paixão de Cristo, num caso através do martírio de Joana D'Arc, e no outro através da vida de sofrimento de um burro, mas o seu interesse não se limita apenas ao foco religioso. O que estes dois filmes nos mostram, é que o sofrimento é uma parte essencial da nossa existência, e que nos permite em ser muito mais do que meras criaturas de carne e osso. Negando a nossa capacidade de sentir dor física e emocional, o que seria de nós seres humanos?
As alusões bíblicas são numerosas, e a sensibilidade católica estava sempre bem presente nos filmes de Bresson, que, tal como Kubrick, recusava-se a explicar os seus filmes, mas deixava que eles falassem por si. Um dos hábitos dos filmes do realizador, é falar do poder do transcendental num mundo imperfeito e por vezes cruel. Ou seja, ele está preocupado com a graça, com a crença num amor divino,fazendo-nos suportar a dor, com a crença de que algo melhor irá acontecer num mundo seguinte.
Ganhou três prémios no Festival de Veneza de 1966.

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Um comentário:

alexandre mourão disse...

que filme tocante!