segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

O Ensaio Audiovisual

"No dia em que poderá dispor de um certo material cinematográfico como se dispõe de citações em literatura, nesse dia, o projecto de Godard poderá efectivamente ser realizado, e eu desejo isso com todo o meu coração."

Jean Mitry em 1979 a propósito do, ainda por “redigir”, Histoire(s) du cinéma de Jean-Luc Godard

"O futuro da reflexão, crítica e académica, sobre o cinema passará inevitavelmente pela criação de uma caneta-câmara que permita uma escrita realizada directamente sobre as imagens. Godard, que nunca deixou de se assumir como um crítico de cinema, dizia que as imagens eram complementos de ideias. Ora, o ensaio audiovisual propõe despertar essas ideias na pele das próprias imagens. Roland Barthes referia a actividade da crítica como um embate com a insuficiência, ou os limites, da linguagem. Filomena Molder afirma que a obra contém em si as condições da sua própria criticabilidade.

O que este ciclo propõe é fornecer as ferramentas para se construir ou desconstruir um edifício, bloco a bloco, no contacto directo com os materiais dessa construção ou desconstrução. Ao cinema o que é do cinema? Em 1979, Jean Mitry antevia no projecto louco de Godard, de fazer um filme não sobre mas que contivesse a sua visão particular da história do cinema, a possibilidade de formação de um cinema que ensinasse cinema. Através do ensaio audiovisual, promete-se, assim, a concretização de uma crítica imanente tal como a formulou Benjamin na sua colecção de citações ou montagem paracinematográfica que é O Livro das Passagens. Se outrora citar directamente a imagem de um filme era um problema técnico e epistémico demasiado problemático para ser encarado, hoje as novas tecnologias impõem um pensamento não tanto sobre as imagens, mas já “entre elas”, “com elas”. Uma nova metodologia ou, mais, uma nova epistemologia afirma-se, já que com o acesso a um conhecimento (um argumento, uma tese, uma ideia ou um conjunto de ideias) revelado em si, estaremos no limiar da pura crítica: “a pura crítica por citações”, escreveu Benjamin com desencanto e ansiando a mudança, “permanece ainda inteiramente por elaborar”.


O My Two Thousand Movies foi convidado para realizar este ciclo em conjunto com o Curso Livre O Ensaio Audiovisual e a Escrita sobre Cinema, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, da Universidade Nova de Lisboa, e pretende ser uma espécie de guia mediático para o ciclo, apresentando os filmes essenciais para este curso. Percorreremos os antepassados do ensaio audiovisual, num caminho que nos levará a conhecer alguns realizadores vanguardistas, como Joseph Cornell, Ken Jacobs, Martin Arnold, Peter Tscherkassky, Gustav Deutsch, Bill Morrison, entre outros.
Fiquem atentos, e poderão começar a ver os filmes já a partir de amanhã. 

2 comentários:

cristina barbosa disse...

Só vi agora fantástico, vou ver os 3 , e acho muito bom o teu blogue ter essa interacção com Institutos ou faculdades de jeito claro, sou suspeita, estudei historia na nova lol, porque a realidade é que o teu trabalho é mesmo um serviço público já era continua e temos sempre que evoluir e conectarmo-nos nessa evolução. Parabéns Chico o resto não digo já sabes. Maria

My One Thousand Movies disse...

Hehe, muito obrigado Maria. Beijinhos :)