quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Dillinger Morreu (Dillinger è Morto) 1969

Dillinger è morto é o nono filme de Marco Ferreri, um nome que ecoa num tom sussurrado na vaga de cinema do final dos anos 60. Realizador de olhar critico, elevado por uma visão que deambula sobre o sentido do absurdo, sobre o espírito satírico do humor e a consciência politico/social que o transmite marcadamente. Ferreri foi um "criador" intensamente pessoal e pouco influenciado por vagas, criticado e aclamado, banhado pela eterna controvérsia que acompanha os génios.
Houve quem considerasse " Dillinger è morto" a sua obra-prima e como em todas as obras primas, golpearam-se criticas mais ferozes que o conotaram como sendo um dos filmes mais incendiários da época.
É no abraço deste realizador de complexo intelecto e de Michel Piccoli, o eterno "Paul Javal", que surge esta pintura cinematográfica, ideológica e existencial, simbolicamente embrulhada por um papel de jornal antigo, impresso pela noticia "Dillinger morreu".
A historia começa por nos sugerir a vida entorpecida de um engenheiro que trabalha na manufactura de máscaras de gás e que vive simultaneamente numa casa sufocada pela suprema impessoalidade que cruza personagens e cenários num traço firme e diagonal.
A mulher do protagonista encontra-se na cama com uma conveniente dor de cabeça, encarnada pela apatia. Uma gravação revela-nos que o casamento está no limbo da ruptura mas a breve troca de palavras entre o casal é leve e cordial. A sensual e vulgar empregada que se cruza nos pontuais olhares de sedução, desenha-nos a passividade do sexo e o vazio das palavras. Os cenários primam pelos elementos decorativos descontextualizados temporalmente, em total harmonia com a historia.
Ao longo da trama o entorpecimento desconstrói-se, o tempo preenche-se com o prazer dos vícios humanos, a loucura pontua vontades, os corpos são livres e impessoais, a forma como o silencio (musical) se preenche, ocupa o tempo e o espaço e leva-nos a encadear cada um dos gestos da personagem de uma forma lógica.
A solidão acompanha-nos ao longo do filme, mas é uma solidão incorporada, de carácter assumido, interno, planeada e gradualmente libertadora, sem qualquer tipo de melancolia ou tristeza. É a lenta transição para um fim inesperado e simultaneamente inevitável.
* texto escrito pela Isabela Falcão Vaz em exclusivo para este ciclo.

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