terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Cuidado com Essa Puta Sagrada (Warnung vor Einer Heiligen Nutte) 1971

Nos bastidores da rodagem de um filme, faltam duas coisas: o material e o realizador. É então que os actores e as actrizes, assim como toda a equipa de filmagem, tentam tirar o melhor proveito da situação. Quando o realizador chega, e o material continua a faltar, todos continuam a tentar tirar o melhor proveito da situação. Quando finalmente chega o material, toda a gente envolvida no filme se encontra numa situação estranha. Governam os ciúmes, a a competição e o desespero, e ninguém parece capaz de romper esta atmosfera, e o filme tem de ser feito.
Comparações entre este filme e "O Desprezo", de Godard, e "A Noite Americana", de Truffaut, são muito frequentes, e inevitáveis, e mesmo que este filme não tenha sido tão bem sucedidos como os anteriores, é infinitamente mais engraçado. É dos filmes mais acessíveis de Fassbinder, catalogando a bagagem emocional de um grupo actores presos num hotel à beira-mar. À primeira vista é um filme sobre fazer filmes, mas depois de um olhar mais atento descobre-se que é um filme sobre como Fassbinder faz filmes. Os muitos eventos aqui descritos são variações de episódios sofridos pelos actores durante a rodagem de "Whity", filmado na Andaluzia no ano anterior. O realizador do filme-dentro-do-filme Jeff (Lou Castel, vestindo um casaco de couro com a assinatura de Fassbinder), dorme com homens e mulheres, e tortura todos ao seu redor com uma enorme paixão. Existem personagens demais para que nos possamos concentrar nas suas muitas emoções, mas o objectivo aqui é mesmo a caricatura.
Tal como Warhol andava a fazer nos anos sessenta e inicio dos anos setenta, Fassbinder passou a sua breve carreira na Alemanha a cultivar uma forma livre de estética radical, com um grupo de actores selecionado. Os personagens de "Cuidado Com Essa Puta Sagrada" são todos propensos a ataques emocionais aleatórios, e explosões de esquizofrenia, e, como tal, é quase impossível apreciar o filme sem o conhecimento dos "camp classic" com Paul Morrissey dirigido por Warhol ("Chelsea Girls", "Trash", etc.). Mesmo nos seus momentos mais cómicos os filmes de Fassbinder são sempre sobre o mesmo assunto: a brutalidade humana. Aqui, Fassbinder parece reconhecer os tratamento que ele próprio fazia aos actores que trabalhavam consigo, podendo considerar-se este filme como Cinema com um pedido de desculpas.

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