quarta-feira, 29 de abril de 2015

Recursos Humanos (Ressources Humaines) 1999



A semana de trabalho de 35 horas tem toda a França no seu encalço. Franck, um jovem graduado da escola de negócios, regressa à sua cidade natal, na província, para assumir um cargo na fábrica onde o seu pai tem vindo a trabalhar, há 30 anos. Primeiro comete o erro de perguntar aos trabalhadores da linha de montagem pela sua opinião. De seguida a gerência manipula os seus resultados para demitir os trabalhadores. Isto vai abrir uma enorme fenda, não apenas entre patrões e empregados, mas também entre pai e filho.
Resistente, e suficientemente subtil para ser tão cativante na segunda visualização como na primeira, "Recursos Humanos", de Laurent Cantet, é um filme que causaria inveja tanto a Godard como a Ken Loach. Combinava dois temas eternamente fascinantes de um modo muito interessante: a relação pai-filho, em lados diferentes da barricada, com o eterno conflicto entre trabalhador e patrão. Relações industriais são uma escolha brava para o tema da sua primeira longa-metragem, filmado em modo quase documental e com um baixo orçamento, que tornava o filme pouco atraente para as grandes audiências.
No seu modo mais simples, "Recursos Humanos" celebra e expõe a sangue-frio os problemas do capitalismo, mas tudo isso é apenas política. O dilema de Franck é muito mais interessante, e é o coração do filme. Com Franck a lutar contra pensamentos e emoções contraditórias, identificando-se com os trabalhadores, mas não completamente. Ele vê-se a si mesmo acima deles, e sente-se culpado por isso.
Grande parte do elenco deste filme era composto por actores amadores, mas isso não limita de modo este filme. Alguns anos depois Cantet ganharia uma Palma de Ouro em Cannes, com o filme "Entre les Murs", também ele formado com um elenco de amadores.
 
E agora a visão sobre este filme, do Bruno - convidado do M2TM:



Quando perguntamos a alguém despreparado acerca da proveniência do lucro, frequentemente respondem que a origem está na compra de matérias primas ou de uma outra mercadoria e consequente venda por valor superior. A resposta está correcta, mas somente à superfície. Indo mais a fundo à raiz do fenómeno da criação de valor, a resposta está no trabalho humano. É o trabalho humano que cria riqueza. Daí que quando há uma greve, as coisas ficam claras, e o processo de geração de riqueza pára.

A própria expressão Recursos Humanos acusa o cariz da coisa. Os humanos são um recurso. Mas é com cinismo que ela surge nas empresas. O próprio realizador do filme, Laurent Cantet, explicou o título do filme como uma denúncia desse mesmo cinismo: “recursos humanos” não é mais que a gestão de homens e mulheres como mercadoria ou capital.

Recursos Humanos, não mãos do capital, é também um meio de amortecer o choque de classes nas empresas. É tudo feito na ilusão de que um trabalhador é um colaborador - e não um explorado - e que a empresa é amiga no melhor que lhe é possível. E é “amiga” até ao momento que já não precisa do “colaborador”. Isto é tudo muito mais claro nas grandes empresas, onde a folha de Excel se sobrepõe facilmente às relações humanas, enquanto que nas pequenas a empática e amizade se desenvolvem com frequência entre patrão e empregado, o que entra em contradição com a relação humana da lógica do mercado: “preciso de lhe baixar o ordenado mas gosto dele e tem ainda os filhos”. Nestas empresas não há secção dos RH nem calhamaços da disciplina RH nas estantes…

Há neste cinismo todo um desejo irrealizável de conciliação entre classes. E como não está à superfície das coisas esta conclusão de que classes antagónicas são antagónicas na sua essência, a ilusão é alimentada por largas camadas de indivíduos de ambas as classes sociais: os explorados não gostam de se imaginar como explorados, e os exploradores não gostam de se imaginar como exploradores, imaginam-se como empreendedores, como se não fossem sobretudo os trabalhadores a empreenderem o seu suor para os senhores do capital. Um pouco por tudo isto, é que Frank, protagonista no filme, é na sua ambição apenas um oportunista, também conhecido por… cabrão de merda. Não está para estar bem com Deus e com o Diabo. A sindicalista intransigente, que enerva qualquer “moderado”, torna-se uma figura… A vida dará razão a esta mulher?

Esta luta das 35 horas de trabalho semanais, que é transversal em todo o filme, e a toda a luta trabalhista. Ao forçar que a jornada de trabalho diário se reduza pelo mesmo salário, é o mesmo que pedir que o salário aumente por outra via. Aumentaria a qualidade de vida da maioria dos trabalhadores. Em Portugal, ultimamente, há uma guerra aberta entre os funcionários públicos e o governo, após este ter decretado o um aumento de 5 horas semanais à função pública – escusado dizer que é um governo lacaio dos grandes grupos económicos nacionais e transnacionais -, aumento que será a antecâmara para aumento da jornada de trabalho para todos os restantes trabalhadores.

O mais triste nisto tudo é que no século passado viveu-se uma diminuição considerável da jornada de trabalho por este mundo fora. Não basta a tecnologia aumentar a produtividade do trabalho, que resulta frequentemente em mais desemprego, mas é preciso mudar as relações de propriedade e dar mais poder à classe trabalhadora. Basta lembrar que a União Soviética foi o primeiro país do mundo a instaurar a jornada de trabalho de 8 horas (a partir de 1956 foram implementados os dias de trabalho de 7 horas e de 6 horas, bem como a semana de cinco dias). Mas a balança de poder entre os o capital e o trabalho voltou a estar desequilibrada. É urgente ter consciência de classe, noção concretizada de que a unidade faz a força, que não ocorra o que se sucede entre o pai e o filho deste nosso filme.

Só mais um ponto: há neste filme uma personagem que muda de lado na barricada da noite para o dia, assim de repente. Não conheço nenhum caso assim, a mudança de ideais numa pessoa ao ponto de passar da direita para a esquerda radical, é um processo lento e doloroso. Há coisas que segundo a minha experiência de vida só acontecem mesmo nos filmes.
por Bruno - Leitura Capital*



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