segunda-feira, 27 de abril de 2015

Matewan (Matewan) 1987


Mingo County, West Virginia, 1920. Um grupo de mineiros tenta formar um sindicato, sendo este contra as empresas operadoras da extração de carvão e os homens armados da agência Baldwin-Felts. Negros e mineiros italianos são trazidos pela companhia para substituir os mineiros grevistas, e são apanhados no meio das duas forças. O organizador do sindicato, Joe Kenehan (Chris Cooper), está determinado a juntar as três forças juntas: os locais, os mineiros italianos, e os negros.
Talvez um dos melhores filmes dos anos 80, "Matewan" de John Sayles leva-nos de volta até à década de vinte, tempos perigosos para a vida de mineiro em West Virginia. Recriação meticulosa de tempo e lugar, reforçada por grandes interpretações, particularmente por Chris Cooper (em estreia cinematográfica, passando a ser, a partir daqui, um habitual colaborador do realizador), e o majestoso James Earl Jones, interpretando um mineiro chamado "Few Clothes" Johnson. O elenco contém ainda outros habituais do realizador, como Mary McDonnell, Will Oldham, David Strathairn, Kevin Tighe, Bob Gunton, entre outros. O filme conta ainda com fotografia do lendário Haskell Wexler, providenciando visuais sumptuosos e um climax catártico, envolvendo o sangrento e histórico tiroteio que colocou Matewan no mapa, e que pode ser um dos momentos mais altos da carreira de Sayles.
O filme foi extremamente bem recebido na altura da sua estreia, mas houve uma série de historiadores que se queixaram que a batalha de Matewan foi pintada de um tom muito negro para as suas sensibilidades. Estamos a lidar com a ganância corporativa de uma empresa da extração de carvão, numa altura em que os trabalhadores eram muito mais explorados do que são hoje em dia, por isso, dificilmente este quadro não seria fiel aos acontecimentos reais.
Conseguiu uma nomeação para os Óscares, pela fotografia de Haskell Wexler. Era a sua quarta nomeação, tendo já ganho a estatueta por duas vezes.

E agora a visão sobre este filme, do Bruno - convidado do M2TM:


Lembram-se de Tom Joad do primeiro filme do ciclo, de Vinhas da Ira? O espectro dele está de volta na pele de Joe Kenehan, um sindicalista da United Mine Workers. A grande diferença de Joe (Matewan) comparativamente a Tom (Vinhas da Ira) é o grau de maturidade relativamente a como se luta consequentemente. Este filme tem como protagonista alguém com experiencia suficiente para organizar os mineiros até à vitoria das suas reivindicações. Há um outro paralelismo possível com o segundo filme do ciclo, Il Conpagni, em que o professor Sinigaglia ajudou a organizar os trabalhadores de uma fábrica têxtil de Turim. Mas há sempre diferenças na táctica adequada a empregar, porque cada caso é um caso, e cada situação tem as duas características próprias. Uma mina é diferente de uma fábrica têxtil, Turim é diferente de Matewan, logo Joe e Sinigaglia tinham necessariamente de agir criativamente conforme as diferenças e, mais importante, o conjunto dos trabalhadores saber interpretar as manobras sujas do inimigo e responder objectivamente em unidade.

Um elemento que me recordo bem do meu visionamento deste filme é o comportamento da Polícia. Algo que levanta alguma surpresa pelo posicionamento de classe que acaba por ter. Mas, lembra-nos que nem sempre a polícia se deixa destacar em favor da classe dominante, isto é, da burguesia. A ligação dos polícias aos homens da terra deu-lhes um sentido de justiça que vai além das ordens superiores. Não que não tenham hesitado, mas as armas não se viraram para os mineiros, ao contrário do que é mais frequente. Que mais sugere esta situação? Que as instituições, tal como o Estado, não é neutro, nem é sempre instrumentalizado maioritariamente em prol da classe dominante; as coisas mudam, e o Estado burguês de hoje pode virar o Estado proletário de amanhã… mas isso é um assunto que não cabe aqui falar. Até a religião…

Relativamente a outros tópicos do filme que poderia evidenciar, já quase todos foram de alguma forma tema de filmes anteriores do ciclo. Mas há um que gostaria de referir ao de leve: o preconceito anticomunista. Sei de experiência própria que a maioria das pessoas quando falam do comunismo, não falam do comunismo, mas da caricatura que têm criada nas suas cabeças. O papão criado à volta dos “vermelhos” é o que é suposto que aconteça, a classe dominante, com necessidades antagónicas à classe trabalhista, como em qualquer guerra, ela diaboliza o seu inimigo. Há várias cenas no filme que sem se ser tão directo se percebe a confusão, medo e preconceito relativamente ao sindicalista, mesmo entre os mineiros. Isso demonstra que o primeiro embate político é sempre ideológico, e também por isso que é tão importante um ciclo como este. Passo a passo até à consciência de classe e à consciência do papel da nossa classe na História.

por Bruno - Leitura Capital*

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