quinta-feira, 30 de abril de 2015

Os Emissários de Khalom (Os Emissários de Khalom) 1988



"Este é o filme de ficção científica português por excelência. Não só porque seja o único que eu saiba, mas pela qualidade do seu argumento que aguenta o teste do tempo, normalmente inclemente para este género. Os Emissários de Khâlom desenrola-se em duas épocas paralelas. No final do século XIX a comissão real das minas reúne-se para decidir a continuação da exploração de uma mina que ameaça ruir. Parece assunto de pouca monta, mas o bom senso científico choca com os interesses económicos que visam manter a minha aberta a todo o custo. No futuro (que, agruras da ficção e do tempo, é agora o nosso passado) um grupo de cientistas portugueses ao tentarem evitar a previsível aniquilação atómica à escala planetária envia ao passado um ser artificial, mas uma instabilidade desconhecida divide-o em dois, provocando um nível elevado de incerteza no fluxo temporal e o risco de desaparecimento de um dos cientistas, descendente directo do presidente da real comissão que um dos emissários tenta assassinar por vários meios.
O aparentemente banal momento do século XIX é na verdade um ponto focal na história. Da continuidade da mina depende a assinatura de um contrato que irá criar uma firma obscura que irá gerar os maiores conglomerados económicos e industriais do século XX. Os dois emissários, o original e a cópia que provoca interferências (criada num assomo passional por um dos investigadores do futuro) estão no passado para auxiliar ou travar a decisão fulcral, mas também no futuro onde se envolvem com os cientistas. E no passado profundo, numa civilização utópica milenar desaparecida há milénios. Só nos momentos finais do filme nos apercebemos qual é o emissário "mau"... e na verdade esse epíteto não se aplica, uma vez que são ambos faces de um mesmo conceito, uma dicotomia animus/anima com implicações esotéricas.
Sendo um filme de António de Macedo, podemos esperar um surpreendente e complexo argumento, cheio de linhas narrativas que colidem nos momentos cruciais do filme. O humor corrosivo do cineasta também se revela em pormenores hilariantes, como o conde inválido que todos os dias vai praticar com pouca pontaria tiro, incapaz de acreditar que o adversário para um duelo que devia ter acontecido anos antes tinha falecido de causas naturais. A fiel criadagem alimentava-lhe as pistolas com pólvora seca. Ou a visão particularmente corrosiva da ciência aplicada, com sugestões de produtos da pesquisa científica de utilidade duvidosa. Ou ainda, num pormenor pequeno que diz volumes sobre a história das mentalidades portuguesa, um sacristão que tenta em vão exorcizar aquilo que pensa ser um demónio enquanto bate em retirada, disfarçando o susto com esgares santificados.
O filme também se distingue pelo cuidado visual nos cenários. A caracterização do século XIX foi muito bem conseguida, mergulhando-nos na Belle Époque portuguesa. O futuro, inevitavelmente, surge ao olhar contemporâneo como um passado dos anos 80 do século XX, mas o aspecto futurista do centro de pesquisas surpreende apesar de pormenores que ficam inexoravelmente datados, como os computadores típicos dos anos 80. Curiosamente, temos nestes computadores de época (com as suas gloriosas diskettes de 5") um pormenor presciente. Uma modificação feita por um dos emissários permite aos computadores do centro de pesquisa comunicar com o computador em casa de um investigador, isolado numa tempestade de neve na Serra da Estrela. Uma inesperada antevisão avant la lettre da internet?
Junte-se a isto a habitual riqueza estética dos filmes deste cineasta, com a sua atenção à cor e enquadramentos, e temos um filme divertido e intrigante que marca um lugar na história do cinema português pela sua temática, originalidade e qualidade. E, fiel à tradição do conto de ficção científica, não deixa de ter um curioso plot twist no final, quando os últimos movimentos de câmara revelam a razão dos nomes de Verónica e Valdemar, os emissários da distante Khâlom/constructos digitais de software." Por Artur Coelho

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