sábado, 27 de setembro de 2014

A Eternidade e Um Dia (Mia Aioniotita Kai Mia Mera) 1998



Alexandre vai dar entrada no hospital: "Quando as dores se tornarem insuportáveis", tinha-lhe dito o médico. Entretanto arruma a casa. Prepara-se para deixar a velha casa à beira-mar onde sempre viveu. Encontra as cartas de Anna, a sua mulher, morta há muito, e apercebe-se do quanto ela o amava. Um amor que na altura ele tinha como garantido. As recordações começam a voltar como a maré-cheia.
Poucos realizadores polarizam uma opinião tão continental, como o autor grego Theo Angelopoulos, um mestre reconhecido na Europa, mas cujo trabalho é de alguma forma diminuído quando se atravessa o Atlântico, onde os críticos tendem a ofender o seu ritmo lento, embora portentoso. "Eternity And A Day" ganhou a Palma de Ouro em Cannes, no ano de 1998, e logo por unanimidade, depois de vários anos a rondar este tão desejado prémio, mas uma vez mais a sua recepção na américa foi morna, onde os críticos usaram levianamente o nome do filme, de forma depreciativa. 
Num papel primeiramente imaginado para Marcello Mastroianni, Bruno Ganz interpreta o substituto do realizador, um autor referenciado que descobre que tem uma doença terminal, e passa os seus últimos dias vagueando pelo interior da Grécia, observando o mundo com uma visão poética, que lembra o anjo de Ganz em "Wings of Desire". Desejando resolver os seus sentimentos sobre a sua vida pessoal e história nacional, ele revisita uma tarde à beira-mar amarga, com a sua já falecida esposa (Isabelle Renauld), e encontra um poeta do século XVIII, cuja obra inacabada ele pretende completar. Esta viagem metafísica, que é inequivocamente semelhante à de  Victor Sjöström em "Morangos Silvestres", é interrompida por um jovem refugiado albânes (Achileas Skevis), que ele resgata do mercado negro.
Theo Angelopoulos cria uma atmosfera incrivelmente assombrosa, uma fusão de realidade, nostalgia e sonho. Cria uma metáfora visual para o isolamento da alma. Além disso, as imagens recorrentes de edifícios abandonados, fugas repetidas de albaneses através da fronteira, e o poema inacabado, refletem o arrependimento de Alexandre sobre as suas próprias acções. Figurativamente Alexandre também está no exílio - desejando recriar um passado irrecuperável - incapaz de voltar para casa.

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