domingo, 27 de janeiro de 2013

A Morte Cansada (Der Müde Tod) 1921

 

A uma jovem mulher do século 19 (Lil Dagover) é oferecido nos seus sonhos três hipóteses de salvar o amante da Morte (Bernhard Goetzke) - 1) na velha Bagdad  2) na Veneza do século 17, 3) na China imperial. É um melodrama sombrio que varia no estilo barroco fantasioso, que tenta mostrar que "o amor é mais forte do que a morte", e é especialmente agradável pela sua criatividade e olhar sedutor. A história divaga num jogo de moralidade e torna-se menos eficaz do que a apresentação visual. É um dos filmes mais fracos de Lang, mas esta fantasia romântica raramente é vista nos filmes do realizador, e deve ser de interesse para os estudiosos de Lang.
A história, parte lenda, parte conto de fadas, é principalmente uma visão-sonho de uma jovem em busca do seu amante desaparecido. O sonho é composto por três episódios, elaboradamente concebidos, envolvendo os jovens amantes que tentam iludir um tirano e cruel assassino, o anjo da morte. Este dispositivo de três histórias-dentro-da-história foi adotapdo, mais tarde, em Waxworks (1924), um dos filmes importantes do expressionismo alemão.
Fritz Lang tinha sido a escolha original para realizador de O Gabinete do Dr. Caligari, mas foi forçado a rejeitar devido a outros compromissos. Para "Der Müde Tod" ele escolheu dois dos designers de arte, Walter Röhrig e Warm Hermann, que tinham trabalhado para o filme do Dr. Caligari. Estes dois, juntamente com Robert Herlth criaram uma memorável decoração cinematográfica. O uso da iluminação por Lang foi tão inovador como as idéias originais de Max Reinhardt. Ambos perceberam a grande extensão a que esculpe o espaço e se transforma a luz. Depois de "A Morte Cansada", a técnica de enfatizar o relevo e o contorno de um objeto tornou-se padrão.
O filme foi inspirado por Intolerância de D.W.Griffith (1916) e usou a mesma mistura de cenários paralelos para contar várias histórias diferentes, de diferentes épocas históricas. Lang rumina sobre a inevitabilidade da morte nesta fábula sobre a lealdade, amor e morte. 

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Genuine: A Tale of a Vampire (Genuine) 1920


Um Senhor mantém uma mulher perigosa e selvagem presa por causa das suas capacidades destrutivas e poder de sedução sobre os homens. No entanto, ela escapa, e ....
Robert Wiene é conhecido principalmente como o realizador do "Gabinete de Dr. Caligari". Este filme é feito aproximadamente o mesmo estilo, o que o torna pelo menos visualmente de interesse. Aqueles que esperam um filme de vampiros convencional vão ficar decepcionados, a personagem-título é mais uma femme fatale/vamp, que é como eram chamados os vampiros naquela época. Os cenários e os figurinos, em grande parte da autoria de César Klein, são a característica de maior destaque no filme. Os cenários continuam o projeto expressionista que foi estabelecido por Wiene, em O Gabinete do Dr. Caligari (1920). São mais detalhados do que no filme anterior, mas continuam a ser fiéis às características expressionistas para denotar um mundo de sonhos.
Aproximadamente quatro bobinas do filme sobreviveram, e hoje um visionamento é comprometido pelos buracos evidente na continuidade da narrativa. Mas o suficiente do filme continua a dar-nos um sentido do alcance da história de Carl Mayer.

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sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

O Golem (Der Golem, Wie er in die Welt Kam) 1920


Século 16, Praga. Enquanto estudava as estrelas através do seu telescópio, o velho rabbi Loew prevê um momento conturbado à frente do seu povo. O Imperador Luhois emite um decreto expulsando todos os judeus da cidade. Para salvar o seu povo, o rabbi convoca  o demónio Astaroth para dar vida a uma estátua de barro que construiu. Quando convidado para o palácio do Imperador para colocar um pouco de animação numa festa, Loew leva consigo a sua criação, o Golem. O rabbi evoca imagens do passado dos judeus, mas quando os espectadores riem de gozo, o palácio começa a ruir. O Golem salva o Imperador e os habitantes do palácio, impedindo o telhado de desabar. O Imperador mostra a sua gratidão com a rescisão do decreto, permitindo que os judeus fiquem na cidade. Com o trabalho do Golem feito, o rabbi remove o amuleto mágico que o trouxe à vida, e junta-se aos judeus nos festejos. Entretanto, o assistente do rabbi, Famulus, reanima o Golem para se vingar do seu rival, Florian, mensageiro do imperador...
 Um dos filmes de terror mais antigos e influentes da história do cinema, "O Golem" é uma mistura confusa de misticismo judaico, expressionismo alemão, e romantismo europeu. Contém todos os ingredientes do filme de terror clássico, e foi dirigido por Paul Wegener, um actor de teatro com alguma reputação, que ficou fascinado com a arte do cinema na década de 1910, década em que a experimentação artística e exploração comercial eram forças igualmente potentes no desenvolvimento deste novo meio. Tendo dirigido um filme de sucesso, Der Student von Prag (1913), Wegener fez o que seria legitimamente citado como o primeiro filme de terror, Der Golem (1914), inspirado numa lenda judaica que tinha aprendido enquanto tinha vivido em Praga. O sucesso do filme levou Wegener a fazer uma sequela, Der Golem und die Tanzerin, em 1917. Em ambos os filmes, Wegener fez ele próprio o papel do Golem - uma decisão que foi justificada pela compleição física do realizador (tinha dois metros de altura) e pela personalidade forte. Wegener repetiu o papel no filme de 1920, O Golem (aka: Der Golem, wie er in die Welt kam), em que conta a história das origens do golem. Este é o único dos filmes de Wegener, dos três "Golem", que sobreviveu às marcas do tempo, na sua totalidade, e é regularmente considerado como um dos melhores filmes de Wegener como realizador.
O Golem foi lançado no mesmo ano de "O Gabinete do Dr. Caligari", outro filme de fantasia e terror que clamou a visão artística do expressionismo alemão. Ambos os filmes estão em conformidade com a fórmula de terror clássico (uma monstruosidade deformada que se liberta da influência do seu mestre e acaba aterrorizando uma pequena comunidade), mas são estilisticamente filmes muito diferentes. Os explícitos, e exagerados, motivos expressionistas de Caligari são menos evidentes no filme "O Golem", embora os dois usem ângulos de câmera perturbadores e uma iluminação atmosférica de grande efeito. É verdade que, enquanto Wegener foi influenciado pelo expressionismo, não estava tão comprometido com ele como alguns dos seus contemporâneos. Isto permitiu-lhe uma maior liberdade para experimentar outras técnicas e experiências com efeitos especiais, o resultado é um filme que, embora falte um pouco de coerência artística, é visualmente deslumbrante. 
Wegener teve a sorte de ter como diretor de fotografia Karl Freund, que mais tarde iria trabalhar nos Estados Unidos em alguns dos filmes clássicos de terror da Universal, nomeadamente "Dracula" (1931). como diretor de fotografia e "The Mummy" (1932) como realizador. Para o argumento, Paul Wegener teve a ajuda de Henrik Galeen que ficou famoso por Nosferatu, de FW Murnau (1922), outro filme de terror que se tornou um marco. 
Hoje em dia, é fácil ridicularizar o retrato de Wegener sobre o Golem. A sequência onde a criatura sai para fazer compras, com uma cesta no braço, tem tanto de ridícula com está cheia de emoção. Wegener transmite o poder de um monstro irracional, através do seu corpo e força, mas também revela a tragédia interior de uma criatura que tem sido manipulada e abusada pelo homem. Como o monstro de pedra, o filme é um pouco desajeitado do ponto de vista da narrativa, mas consegue contar a história com pungência e um grande sentimento humano. Este retrato de Wegener do Golem, influenciou diretamente James Whale, quando este realizou Frankenstein (1931), um filme que tem muito mais do que uma semelhança passageira com esta obra de Wegener.

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O Gabinete do Dr. Caligari (Das Cabinet des Dr. Caligari) 1920


Sentado num banco do parque, um homem ainda jovem, Francis, conta a um homem mais velho a trágica história da sua noiva. Tudo começou há alguns anos, quando ele e o seu amigo, Alan, estavam apaixonados pela mesma mulher, Jane ... Um dia, Francis e Alain decidem visitar uma feira itinerante em que uma das exibições é a do gabinete do Dr. Caligari. Uma caixa em forma de caixão contém um homem inconsciente todo vestido de preto. Caligari desperta o homem, Cesare, e diz ao público que ele esteve a dormir por mais de 20 anos, e através do tempo ele adquiriu a capacidade de prever o futuro. Alain pergunta ao sonâmbulo quanto tempo ele tem para viver. Cesare responde que ele será morto na madrugada seguinte. A previsão estava certa: Alan é a segunda vítima de um serial killer. Na noite anterior, um trabalhador municipal foi esfaqueado até à morte. Francis está convencido de que Caligari tem algo a ver com os assassinatos e assim começa a sua própria investigação...
É inquestionável que "O Gabinete do Dr. Caligari" é uma obra-prima do cinema expressionista alemão. Enquanto esse epíteto é sem dúvida verdadeiro, não faz justiça à importância histórica do filme, nem ao seu grande valor artístico e originalidade. Foi o primeiro filme importante a apropriar-se do estilo expressionista alemão, que teve origem na pintura e no teatro e, consequentemente, deu à luz a um novo estilo de cinema. O filme expressionista alemão, que se distingue por seus angulos de câmera, interpretações estilizadas e uso exagerado de luz e sombra, foi inspiração para cineastas de toda a Europa e da América, evoluindo gradualmente para o distintivo "filme noir" dos anos 1940. O sucesso de Caligari contribuíu para o período de mais fulgor artístico e de mais sucesso no cinema alemão, impulsionado por obras semelhantes, como Nosferatu, de Murnau (1921) e Metropolis, de Fritz Lang (1927).  
Assim, "O Gabinete do Dr. Caligari" pode justamente ser classificado como um dos mais importantes filmes da história do cinema. É também uma obra surpreendentemente acessível, uma vez que combina uma técnica narrativa convencional com alguns dispositivos altamente inovadores. Esta esquizofrenia construída, fusão de vanguarda com o comercial, espelha a história do filme, que lida principalmente com o tema da extrema desordem psicológica ou, dito de forma mais sucinta, a loucura. Os cenários expressionistas, com janelas deformadas, escadas em espiral tortas e uma sensação geral de desarmonia, adicionam a impressão de um mundo permeado por terror subconsciente e instabilidade mental. O factor medo é agravado pelos desempenhos extremamente estilizados de Werner Krauss e Conrad Veidt, que interpretam respectivamente Caligari e Cesare, os dois vilões arrepiantes do filme. Ambos gozaram  grande fama e carreiras de sucesso como resultado de participarem neste filme.
Originalmente foi planeado pelos seus autores (Hans Janowitz e Carl Mayer) para ser uma agressão flagrante a todas as formas de autoridade, uma reacção popular para o desastre sócio-económico e a tragédia humana que foi a Primeira Guerra Mundial. Na sua história, o Dr. Caligari representa o porta-estandarte da velha guarda, o homem de idade iludido, que usa o seu assessor sonambulo para perpetrar actos de maldade grotescos.

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quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

O Expressionismo Alemão

Expressionismo é o movimento nas artes plásticas que enfatizavam a expressão do interior e a angústia de ser realista sobre o mundo e a vida. Expressionismo foi uma reacção ao impressionismo que projectava duras e absolutas realidades. Os expressionistas procuravam inverter esta tendência nas artes e queriam retratar mundos alegóricos como metáforas para o que as pessoas passavam na época. Originalmente começou como um movimento na pintura e na escultura, que rapidamente se espalhou para a indústria do jovem cinema na Europa, onde o expressionismo tinha começado. A maioria dos filmes expressionistas vieram da Alemanha, embora houvesse numerosos realizadores que transmitiam temas expressionistas, mas não eram alemães.
A Alemanha tinha acabado de recuperar das consequências da Primeira Guerra Mundial. Tal como a maioria da população, os realizadores expressionistas sentiam-se desiludidos com a realidade e o mundo ao seu redor. Como resultado, eles fizeram filmes que pareciam deformados e distorcidos e eram extremamente surreais. Os realizadores expressionistas levaram a sua desilusão um passo mais à frente, criando sombras pesadas,  histórias deprimentes e obscuras, e personagens corruptíveis. Como muitos alemães se sentiram traídos pelo seu governo, quando a Primeira Guerra Mundial terminou, muitos realizadores alemães expressionistas projetaram figuras de autoridade como vilões para transmitir uma sensação de como ninguém podia ser confiável no mundo em que viviam. Por exemplo, no filme "O Gabinete do Dr. Caligari" o principal antagonista era médico. Além disso, com a sua mise en scene, os realizadores expressionistas queriam os espectadores a olhar para além dos personagens no ecrã, e analisar o mundo onde eles interagiam.


Havia outros motivos comuns neste movimento do cinema. Filmes como "Metropolis" transmitiam um crescente sentimento de cepticismo em relação ao industrialismo e os papéis em que a sociedade tinha colocado os seus cidadãos. Outros filmes projetaram uma sensação de perseguição que certas minorias étnicas sentiam e testemunhavam, como a Alemanha estava a tentar recuperar e reconstruir depois da Grande Guerra. No filme "The Golem", uma comunidade judaica sente-se tão perseguida e discriminada que criam um golem para os proteger. Isto destaca a crescente perseguição religiosa e a intolerância que muitas minorias enfrentavam neste momento, especialmente na Alemanha. Foram todas estas situações que trouxeram um componente de fantasia que permitiu que o realizador ao estilizar e destacar o que sentia fazia um trabalho que era digno de nota. Foi essa componente de fantasia que também libertou o realizador criativo dando-lhe assim um reino livre para definir a sua história, em qualquer momento ou em qualquer lugar. 
Infelizmente, o Expressionismo Alemão foi um movimento de curta duração no cinema (de 1920 a 1933). A razão para isto acontecer foi simples. Na década de 1930, um certo ditador chegou ao controle completo do governo alemão, e desacreditou o Expressionismo Alemão como arte degenerada e propaganda, estabelecendo um novo estilo dominante de fazer cinema na Alemanha. No entanto, isto não marcaria o fim dos expressionistas. Como resultado da sua perseguição muitos realizadores expressionistas deixaram o seu país de origem e encontraram refúgio na terra do brilho e do glamour: Hollywood, Califórnia. Enquanto o cinema mudo alemão era, sem dúvida, muito à frente do cinema de Hollywood, em termos de cinematografia e diferentes tons de humor, os realizadores alemães encontraram os estúdios de cinema americanos dispostos a abraçá-los e produzir os seus projectos de cinema.
Durante a próxima semana, e a começar já sexta-feira, vamos ter aqui uma série de filmes ligados a este movimento. Vou começar este ciclo ligeiramente mais cedo, porque queria incluir um pouco mais do que os 10 filmes habituais, e alguns deles bem raros. Até sexta. 

O Quinteto Era de Cordas (The Ladykillers) 1955


Lançado em 1955, a comédia negra "The Ladykillers", foi a última das grandes comédias da Ealing (embora mais duas, muito menores, tivessem sido lançadas ainda depois). Foi também o último filme do realizador Alexander Mackendrick na Grã-Bretanha, antes de partir para águas ainda mais escuras em Hollywood, com uma obra-prima do cinismo, "The Sweet Smell of Sucess" (EUA, 1957). 
A história - cinco criminosos, disfarçados de músicos, realizam com sucesso um assalto, mas de seguida, são derrotados pela sua senhoria, aparentemente inofensiva, mas levando-os a destruirrem-se uns aos outros - surgiu a partir de um sonho do escritor William Rose (que também escreveu o filme anterior de Mackendrick, "The Maggie" (1954)), e Mackendrick foi imediatamente levado pelo seu humor negro.
Alec Guinness tem mais uma enorme performance cómica como o cada vez mais desequilibrado criminoso, e mentor, Professor Marcus. O papel foi originalmente destinado a Alastair Sim, mas Guinness desempenharia o papel com aquele seu toque especial. Mas o filme, na verdade, era roubado por uma velha senhora de 77 anos de idade, Katie Johnson, como uma velhota aparentemente inofensiva, mas totalmente incansável, a senhora Wilberforce. 
O elenco é perfeito a toda a linha: Herbert Lom, no seu primeiro papel cómico é a ameaça genuína como Louis, enquanto Cecil Parker como o major, e o enorme ex-boxeador Danny Green, também como um ex-boxeador Round One, seria díficil imaginar outros actores nestes papéis. Peter Sellers conseguiu o seu primeiro grande papel como Harry (também expressou o papagaio da senhora Wilberforce). Sellers e Lom, mais tarde, viriam a contracenar juntos em vários filmes da Pink Panther.
Como os filmes anteriores de Mackendrick, "The Man in the White Suit" (1951) e "Mandy" (1952), o significado de "The Ladykillers" era o conservadorismo do embrutecimento contemporâneo na Grã-Bretanha. A sra. Wilberforce e as pessoas com idade semelhante representam o peso contínuo da Inglaterra Vitoriana, atrasando o progresso e a inovação (esta inovação é representada aqui como um roubo e um crime e dá alguma indicação da ambiguidade da visão de Mackendrick). 
"The Ladykillers" foi um grande sucesso na Grã-Bretanha e nos EUA, onde foi nomeado para o Oscar de Melhor Argumento. William Rose, no entanto, deixou o filme com a produção a meio, depois de acessas discussões com Mackendrick e o produtor Seth Holt, deixando-lhes a tarefa de completar o guião. Quando finalmente viu o filme, passados três anos, foi forçado a admitir que os resultados melhoraram muito em relação à sua própria visão. 

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The Titfield Thunderbolt (The Titfield Thunderbolt) 1953


Esta é uma das comédias da Ealing menos conhecidas e embora não seja tão amada como os filmes mais famosos do estúdio, não deixa de ter a sua mordidela satírica, além de ser uma divertida e suave aventura que não irá chamar a atenção apenas aos amantes de comboios. 
Como é típico para a Ealing, é um conto sobre o espírito de comunidade. Quando os moradores de Titfield percebem que a sua aldeia idílica está prestes a ser arruinada por uma nova auto-estrada, devido ao serviço ferroviário britânico querer acabar com a linha local, decidem governar eles próprios a linha. Inevitavelmente uma combinação do seu próprio amadorismo, sabotadores que trabalham para a empresa de autocarros local e inspectores do governo rigorosos tornam a tarefa difícil, mas será que eles vão ter sucesso e salvar as suas casas?
Charles Crichton, de "Hue & Cry" e "The Lavender Hill Mob", colaborou mais uma vez com Tibby Clarke em "The Thunderbolt Titfield", lançado em 1953. A fotografia de Douglas Slocombe foi, no entanto, muito evocativa do interior de Inglaterra utilizado Technicolour pela primeira vez numa comédia da Ealing.
Feita já no periodo final das comédias desta produtora tem muitos dos seus atributos tradicionais - comédia satírica, alegria, a pequena-versus-grande história - mas envelheceu muito mais do que muitos dos seus "primos". Isto acontece porque o filme foi feito na Inglaterra rural, pouco antes desta mudar para sempre. Possui belos exteriores e uma aldeia estereotipada de personagens que parecem muito com o que era normal em 1953, mas que praticamente não existem hoje. Ainda assim é um título a ser visto.
Legendas em espanhol.

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terça-feira, 22 de janeiro de 2013

O Homem do Fato Claro (The Man in the White Suit) 1951


Em 1951, os Ealing Studios produziram "O Homem do Fato Claro", a história de um cientista, Sidney Stratton (interpretado pela estrela Alec Guinness), que inventa uma fibra super-resistente, que poderia revolucionar a indústria têxtil e vestir toda a gente para a eternidade. Encontramos o nosso jovem herói no laboratório da fábrica têxtil de Corland, como uma figura anónima a trabalhar, aparentemente, às custas do proprietário, Michael Corland (Michael Gough). Quando as notícias sobre o sucesso de Stratton vêm a público, toda a indústia se sente ameaçada por um caos que tanto as fábricas como os sindicatos tentam evitar a todo custo. Unindo esforços, decidem que o fabrico de Stratton jamais será comercializado.
Típica comédia para a Ealing - e especialmente para o realizador Alexander Mackendrick - é uma história ferozmente satírica e bastante obscura que é contada de uma forma deliciosamente acolhedora. Aqui os males e perigos do capitalismo são explorados e, embora o humor por vezes ronde o dos desenhos animados (por exemplo a forma como uma explosão química não faz mais nada às suas vítimas além de rasgar as roupas e denegrir os rostos), ainda tem personagens que, apesar de serem amplamente desenhadas, são completamente críveis e simpáticas. O desempenho de Guinness é, como sempre foi, espetacularmente bom, e tem o público ao seu lado desde o início, com o equilíbrio magistral de humor e emoção. Na verdade, nas mãos de qualquer outra pessoa Stratton poderia ter sido uma personagem profundamente antipática. E no clímax do filme, que o vê perseguido por uma multidão enfurecida, como os moradores do filme de Frankenstein, ele prova mais uma vez que, como comediante físico era mais do que uma ameaça para Chaplin ou Buster Keaton.
Valeu uma nomeação para o Óscar de Melhor Argumento.

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segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Roubei um Milhão (The Lavender Hill Mob) 1951


Histórias sobre o crime perfeito a correr mal (por exemplo, Double Indemnity) têm sido muito exploradas na ficção e no cinema. As comédias do mundo do crime são quase tão antigas como o próprio cinema, mas existe um sub-género dentro das comédias de crime chamado caper-gone-wrong (caper crime eram filmes sobre assaltos, por isso "caper-gone-wrong" seriam assaltos que correm mal) que deve ter sido inventado por volta de 1950, nos Ealing Studios da Grã-Bretanha, mais conhecidos pelas suas comédias peculiares do pós-guerra. Algumas das comédias clássicas da Ealing eram histórias de crimes subversivos, e a maioria contava com Alec Guinness. Três filmes cumpriam estes critérios: "Kind Hearts and Coronets", "The Lavender Hill Mob", e "The Ladykillers".
Qualquer um destes filmes são enormes, e cada um tem os seus defensores como sendo o melhor das comédias da Ealing. Provavelmente o mais popular hoje é o primeiro, "Kind Hearts and Coronets", que também deve ser o mais obscuro e o mais subversivo, com a história de um herdeiro descontente que tem de matar os seus parentes para receber um título da nobreza .  
The Lavender Hill Mob" é o mais universal dos três, com foco num cidadão normal, aparentemente íntegro, e consciente empregado de um Banco de Londres chamado Henry Holland (Alec Guinness), cujas funções incluem supervisionar barras de ouro. Ao longo dos anos Holland vem fazendo duas coisas: ganhar a confiança dos superiores do Banco, e procurando uma maneira de liquidar o ouro que supervisiona depois de roubá-lo.  
Quase todos nós, mesmo os mais honestos, notamos de tempos a tempos o quanto vilneráveis são as instituições à nossa volta, e o quanto fáceis são de enganar. Em parte, isto deve-se a algo que fazemos para testar o quanto seguro somos, ou o quão segura é a nossa sociedade. O argumentista T.E.B. Clarke, que ganhou um Óscar por "The Lavender Hill Mob", foi ele próprio um ex-policia, e quando se sentou para escrever sobre um funcionário de um banco, de confiança, que rouba um milhão de libras de ouro, aproximou-se do Banco do Inglaterra para pedir conselhos, e uma maneira plausível de cometer um assalto perfeito - um pedido que o Banco respondeu com entusiasmo, fazendo uma investigação informal sobre o assunto.
Muita da comédia deste filme vem da inversão de estereótipos, com o homem bem-educado, da classe média, aspirante ao papel de mestre do crime. E enquanto este género tem sido demasiado reproduzido nas últimas décadas, The Lavender Hill Mob evita a maior parte do que se tornaram os clichés do género. Cenas memoráveis ​​incluem a maneira divertida como Holland e o seu parceiro, Stanley Holloway, propagandam para depois recrutar dois criminosos mais experientes, uma sequência vertiginosa, tipo Vertigo, na escada da Torre Eiffel, e uma outra hilariante envolvendo um policia violento. Também digno de nota é um pequeno papel, da então desconhecida Audrey Hepburn, ainda em principio de carreira. Atrás das câmeras está Charles Crichton.

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domingo, 20 de janeiro de 2013

Oito Vidas por Um Título (Kind Hearts and Coronets) 1949



É tanto uma jóia finamente polida de inteligência literária com uma visão sátirica e impiedosa do privilégio da vida, o conflito de classes, e a moral Edwardiana, "Kind Hearts and Coronets" desmente o título(original) aparentemente gentil, concentrando-se num jovem determinado a matar no seu caminho para o ducado onde ele sente é a sua primogenitura. Feito nos anos negros depois da Segunda Guerra Mundial, "Kind Hearts and Coronets" rompeu com o tom mais quente e suave da maioria dos filmes produzidos nos famosos Ealing Studios, com uma visão barbaramente abatida da natureza humana.
A mãe de Louis Mazzini (Dennis Price, que representa a essência da urbanidade refinada com uma mente assustadoramente sociopata) é banida da sua herança familiar régia por causa do grave pecado de se casar por amor, e não pela riqueza e posição. Isto deixa Louis sem a pretensão da sua herança familiar. Preso num trabalho sem perspectivas e rejeitado pela sua antiga namorada Sibella (Joan Greenwood) por um bronco implacável com mais potencial financeiro (John Penrose), Louis decide matar pelo seu caminho, até eliminar os oito membros da família d'Ascoyne que se interpõem entre ele e o ducado. 
Numa façanha de mestre, o incomparável Alec Guinness foi escolhido para interpretar todos os oito membros da família d'Ascoyne, que variam desde um padre a um almirante ridiculamente orgulhoso, passando por um playboy e até mesmo uma feminista agitadora. Guinness, embora não apareça em cena por muito tempo com cada personagem, ainda consegue dotar cada uma deles com bastantes traços e personalidades únicas para torná-los instantaneamente memoráveis. Guinness já tinha deixado a sua marca há vários anos em duas adaptações de clássicos de Charles Dickens por David Lean, Oliver Twist e Grandes Esperanças, e "Kind Hearts and Coronets" não deixa qualquer dúvida sobre a sua versatilidade única.
No entanto, apesar de Guinness ser tão grande, não domina completamente "Kind Hearts and Coronets", um filme cuja leve crueldade se torna no seu traço mais duradouro. O realizador Robert Hamer consegue minar toda a moral e os valores convencionais, de tal forma que, nunca se sente que o próprio filme seja tão depravado como realmente é. "Kind Hearts and Coronets" é mais frequentemente descrito como uma comédia de humor negro, mas não é cómica, no sentido usual da palavra, mesmo para os refinados padrões britânicos. Na realidade, "Kind Hearts and Coronets" é, provavelmente, o melhor filme já criado para ilustrar a teoria de Alfred Hitchcock, em que o público deve se identificar com qualquer personagem na tela, não importa o quão vil ela seja. Louis Mezzini é o retrato de um malandro muito amoral, não só nas suas atividades assassinas, mas também no tratamento de todos ao seu redor como uma série de peões para serem manipulados para alcançar o seu próprio fim.

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Whisky Galore! (Whisky Galore!) 1949



O período das comédias da Ealing começou com "Hue and Cry", em 1947, e "Whisky Galore!" tornou-se um dos mais importantes desta série de filmes. Seria a estreia do realizador Alexander Mackendrick, que viria a realizar cinco destas magníficas comédias. Começou com um storyboarder e foi andando até começar a dirigir filmes. Nascido americano, eventualmente regressou ao seu país de origem, a Escócia, depois de descobrir que fazer filmes em Hollywood não era coisa muito fácil.
Numa pequena ilha nas Hébridas Exteriores, chamada Todday, a Segunda Guerra Mundial continua a ser um evento bastante distante. Isto até um triste dia de 1943, quando o fornecimento de whisky esgota. As consequências são terríveis, já que naquela ilha havia pouco mais acção do que beber whisky no bar da cidade. Onde quer que se olhasse lá estava um homem triste, de luto, pela perda do que vale a pena viver, a água da vida. Então um raio de esperança ilumina-os na forma de um acidente. Um cargueiro, o SS Cabinet Minister, não consegue navegar no meio da neblina e encalha ao largo da ilha de Todday. Quando dois dos habitantes da ilha remam até ao navio para ajudar a tripulação ficam a saber que a carga é composta por 50.000 garrafas de whisky. Os dois homens contam a todos os habitantes de Todday o valor da carga inestimável, mas o Capitão Paul Waggett (Basil Radford), o comandante da guarda inglesa no local, impede os habitantes da ilha de saquear o navio, e dá ordens a um sargento para garantir que ninguém bote as mãos no alcool. Mas é claro que os habitantes da ilha não vão desistir tão facilmente. 
A história foi inspirada em eventos reais, e faz o divertimento lúdico da animosidade tradicional entre escoceses e ingleses, onde as nossas simpatias caem obrigatoriamente sobre os escoceses e não com os frios ingleses cujos deveres da Guarda se tornam mais um obstáculo para a vida na ilha do que uma defesa eficaz contra os alemães. É um filme muito charmoso, simples, que praticamente evita a comédia slapstick (excepto perto do final) a favor de piadas mais discretas. Observar os moradores de Todday é um prazer, graças ao elenco magnífico, mas Basil Radford também está perfeito como o sério capitão que tenta manter alguma aparência da ordem e da autoridade sobre a ilha. O filme é bem tranquilo e apresenta várias sequências divertidas que ilustram o quão triste e posteriormente alegres as pessoas de Todday podem ser, consoante a falta, ou não, do whisky.
 
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Hue & Cry - Grito de Indignação (Hue and Cry) 1947



"Hue and Cry" tornou-se na primeira, das que depois ficaram conhecidas como as comédias da Ealing, embora na altura não se tivesse percebido que representava o início de um género. O escritor de "Hue and Cry" era Tibby Clarke, um antigo jornalista e policia de Londres na altura da guerra, que também arranjou tempo para ser comissário de bordo num navio e editor e escritor num semanário australiano de mulheres, entre muitos outros trabalhos improváveis. Ele tinha convencido Balcon a deixá-lo escrever o diálogo adicional para uma das curtas de  Dead of Night (The Golfing Story) e agora, com Henry Cornelius como produtor associado e Charles Crichton como realizador, foi-lhe dada a tarefa de formar uma história em torno de uma misteriosa maçonaria de rapazes. O jovem líder, Joe, interpretado por Harry Fowler, o jovem actor londrino de "Went the Day Well?", tem mais imaginação do que a maioria e fica convencido duma história de arrepiar os cabelos, que ele está a ler, sobre um gang de criminosos, e que as páginas de uma banda desenhada estão a ser utilizadas por ladrões, como meio de comunicação. Primeiro convence os amigos, conta as suas teorias para a polícia, mas estes respondem com desprezo e assim os rapazes decidem por eles mesmos apanhar os ladrões.  
"Hue and Cry" foi anunciado com o slogan "The Ealing film that begs to differ", uma frase que mais tarde foi adoptada como uma espécie de lema não-oficial para os estúdios. Mudou o rumo dos estúdios para uma nova direção, usando exteriores brilhantemente como pano de fundo para uma história com alguma originalidade. O personagem das comédias da Ealing talvez pudesse ser descrito como um fantasiasta realista, com eventos fantasiosos que ocorrem num ambiente meticulosamente credível, nas miseráveis ruas do pós-guerra londrino. O conceito de que o filme tomou formou-se a partir da sequência no final do filme, com a aglomeração de rapazes, que ilustra uma ideia que Cornelius queria expressar. Muitos dos rapazes não tinham experiência a interpretar, incluindo um pequeno jovem, cujo talento especial era para reproduzir o barulho de praticamente qualquer coisa que lhe viesse à mente, e que, no filme oferece uma grande abundância de efeitos sonoros, mas nem uma palavra de diálogo. A presença no elenco dos actores adultos era necessária para dar alguma coragem aos jovens actores, mas Jack Warner e Alastair Sim são especialmente eficazes.
Seriam precisos mais dois anos para saír outra comédia de sucesso dos estúdios, mas "Hue and Cry" foi um grande sucesso, e também agradou bastante os críticos. 
Legendas em espanhol.

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sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

As Comédias dos Estúdios Ealing

É virtualmente impossível pensar nos Ealing Studios, sem acrescentar a palavra "comédia". Já passou mais de meio século desde que as cortinas fecharam sobre o período clássico desta produtora, as comédias Ealing são uma das marcas mais poderosas do cinema britânico, e os seus únicos sérios rivais são os filmes de terror da Hammer ou as séries James Bond ou "Carry On". É difícil de acreditar, mas, o ciclo que trouxe estas duas palavras juntas teve pouco mais do que 10 filmes,  ao longo de menos do que nove anos - desde o lançamento de Hue and Cry  (D. Charles Crichton) em Fevereiro de 1947 até Dezembro de 1955, quando "The Ladykillers" (d. Alexander Mackendrick) teve a sua estreia no cinema.
Em 1947, uma comédia sobre um grupo de jovens detetives que descobre uma conspiração criminosa que usava livros aos quadrinhos para passar mensagens secretas, "Hue and Cry" foi um sucesso inesperado, e encorajou o estúdio com Michael Balcon à cabeça para investir mais em filmes cómicos. Seriam precisos dois anos até que o estúdio fosse recompensado com outro sucesso, mas valeu a pena esperar. Entre Abril e Junho de 1949 os Estúdios Ealing lançaram mais três filmes - Passport to Pimlico (D. Henry Cornelius), Whisky Galore! (D. Alexander Mackendrick) e Kind Hearts and Coronets (d. Robert Hamer) - que definiram a nova direção do estúdio.
Estes três filmes foram escritos pelo jornalista e ex-policia TEB "Tibby" Clarke - que também escreveu Hue and Cry - que fez mais do que qualquer outro para estabelecer a reputação de humor gentil, excêntrico ou lunático que ficou ligado ao estúdio desde então. Mas a comédia Ealing também teve o seu lado mais sombrio. Em "Kind of Hearts and Coronets", um homem jovem, deserdado pela sua família aristocrática por causa da decisão da mãe de se casar com um plebeu italiano, determina matar todos os parentes que ficam entre ele e o ducado, já que considera seu o direito de primogenitura. O realizador Robert Hamer fez uma análise elegantemente selvagem da classe e da sociedade Edwardiana, que não perdeu nada da sua sagacidade  - o crítico de cinema Philip French chamou-o de um dos "mais perfeitos" filmes já feitos na Grã-Bretanha.
Mais prolífico - mas não menos cínico - foi o realizador nascido na américa,  mas de raça escocesa  Alexander Mackendrick, que chegou a fazer cincos das famosas comédias para este estúdio.
Ao todo foram doze ou treze filmes, que ficaram frescos, mesmo depois de meio século, os seus temas eternos, o humor ainda inconfundivelmente britânico. Foram redescobertos e apreciados em cada nova geração e esta semana serão recordados aqui neste blog. Neste ciclo passarão 7 das mais famosas comédias da Ealing. Espero que gostem. Bom fim de semana.