Dois adolescentes malineses, Bah e Batrou, oriundos de classes sociais diferentes, encontram-se no liceu. Bah é o descendente de um grande chefe tradicional. O pai de Batrou, governador militar, representa o novo poder. Os jovens pertencem a uma geração que recusa a ordem estabelecida e põe em xeque a sociedade, e vão apaixonar-se.
Realizado pelo malinense Souleymane Cissé, "Finye" confronta-nos com problemas centrais da vida mo Mali, e noutros países africanos, questões sobre a eficácia da administração e a falta de democracia nos estados governados por regimes militares, e também o velho confronto entre as idéias de "modernização" e "tradição". O filme também marca uma mudança que ocorre entre "realismo social", reconhecível pelas suas raízes europeias, e um cinema mais "metafísico", alertando para as idéias da cultura africana. Assim, enquanto as autoridades militares cercam estudantes, em cenas familiares do cinema americano ou europeu, o avô do nosso herói está a comunicar com o espírito das árvores.
De acordo com Manthia Diawara (1992) o realismo social do cinema africano tinha um significado um pouco diferente do que se fazia na Europa. Mais uma vez a ênfase sobre questões sociais, mas estes eram para ser vistos a partir da perspectiva de personagens marginalizados, mulheres e crianças, em vez das elites das sociedades modernizadas. Estes filmes recorriam a formas culturais populares, como música e dança, teatro popular, comédia e sátira, para expor a natureza corrupta do processo da modernização. Através destes filmes, falava-se mais directamente com o público africano. Talvez tenha sido por isso que muitos foram reprimidos pelas autoridades durante as décadas de setenta.
Era a primeira vez que um filme de Souleymane Cissé chegava a Cannes, e esta sua obra teve honras de exibição na secção Un Certain Regard. O seu filme seguinte, "Yeelen", ganharia o grande prémio do Júri, no ano de 1987, e a partir daqui o realizador do Mali passaria a ser uma presença regular neste Festival.
Link
Legendas
Imdb
quinta-feira, 9 de junho de 2016
Yol - Licença Precária (Yol) 1982
A história da produção deste filme e do seu criador, o argumentista/realizador Yilmaz Güney, é tão fascinante como as várias histórias do filme, envolvendo prisioneiros a quem é dada uma semana de férias antes de voltarem para a vida atrás das grades.
Um dos principais actores da Turquia, Güney tornou-se realizador em meados dos anos sessenta, e evoluiu para um dinâmico argumentista/realizador/produtor/actor, mas com a liberdade para explorar os seus próprios pontos de vista da política e os problemas sociais da Turquia, até que vieram os problemas com a lei, levando-o para a cadeia várias vezes, tanto por publicar coisas erradas sobre a política do seu país, como por ser o vocal sobre os atritos entre as culturas curdas e turcas, ou disparando sobre um juiz em 1974, a última sentença de Güney para uma estadia de 19 anos na prisão. Durante este longo período, Güney escreveu vários argumentos e dirigiu vários filmes através do seu assistente Şerif Gören, incluindo Yol. Em 1981, Güney fugiu da prisão, e já em França completou este "Yol", que foi lançado em 1982, depois de ter sido agraciado com múltiplos louros conquistados no festival de Cannes. Muitos poderiam pensar que Güney iria beneficiar da sua nova liberdade, mas depois de fazer "The Wall" (1983), morreu de cancro no ano seguinte, com apenas 47 anos.
O conceito de Yol é bastante simples: um retrato duro da Turquia, o seu povo e as autoridades, vistos através das histórias de cinco priosioneiros para quem foram concedidos uma semana de liberdade para visitarem as suas famílias. O filme retrata como a volta à vida "de fora" pode ser complicada..
A saga de Omer (interpretado por Necmettin Çobanoglu) permitiu a Güney filmar um personagem interagindo com a sua família, e as cenas em língua curda, uma linguagem supostamente então ilegal para capturar em filme, enquanto o conto de culpa de Mehmet (Halil Ergün) dava um vislumbre da miséria dos mais pobres e desfavorecidos que não têm nada, excepto manter a honra familiar. A história de Mehmet também permite a Güney descrever aspectos da honra, que se tornam o tema central do terceiro e mais poderoso conto, o de Seyit (Tarik Akan), como ele descobre comportamento errante da sua esposa, e luta contra a vontade de matar a mulher que ama de uma forma clara, e com quem teve um filho.
A frieza das linhas destas história garantem que o filme é muito pesado, mas o que irá provocar a ira do público ocidental é a representação das mulheres na sociedade turca (cerca de 1981), como bens virtuais móveis, e o seu destino amarrado à honra ou desonra dos seus homens.
O filme é, decididamente, visto a partir da perspectiva masculina, e certamente não será lisonjeiro para qualquer personagem feminina, mas os sentidos de Güney queriam criar um docu-drama sobre os graves problemas sociais ligados à manutenção de tradições antiquadas, políticas e costumes conservadores . A parte mais difícil para os telespectadores é se o filme é aceite como um instante de um período descolorido do passado, ou reforça o estereótipo da Turquia como um país brutal. É um artefacto que captura visão parcial do cineasta de uma sociedade com a qual ele estava em combate, com o comentário social destinado a provocar o ultraje público em políticas progressistas, e revisão de antigas práticas culturais.
Link
Imdb
Um dos principais actores da Turquia, Güney tornou-se realizador em meados dos anos sessenta, e evoluiu para um dinâmico argumentista/realizador/produtor/actor, mas com a liberdade para explorar os seus próprios pontos de vista da política e os problemas sociais da Turquia, até que vieram os problemas com a lei, levando-o para a cadeia várias vezes, tanto por publicar coisas erradas sobre a política do seu país, como por ser o vocal sobre os atritos entre as culturas curdas e turcas, ou disparando sobre um juiz em 1974, a última sentença de Güney para uma estadia de 19 anos na prisão. Durante este longo período, Güney escreveu vários argumentos e dirigiu vários filmes através do seu assistente Şerif Gören, incluindo Yol. Em 1981, Güney fugiu da prisão, e já em França completou este "Yol", que foi lançado em 1982, depois de ter sido agraciado com múltiplos louros conquistados no festival de Cannes. Muitos poderiam pensar que Güney iria beneficiar da sua nova liberdade, mas depois de fazer "The Wall" (1983), morreu de cancro no ano seguinte, com apenas 47 anos.
O conceito de Yol é bastante simples: um retrato duro da Turquia, o seu povo e as autoridades, vistos através das histórias de cinco priosioneiros para quem foram concedidos uma semana de liberdade para visitarem as suas famílias. O filme retrata como a volta à vida "de fora" pode ser complicada..
A saga de Omer (interpretado por Necmettin Çobanoglu) permitiu a Güney filmar um personagem interagindo com a sua família, e as cenas em língua curda, uma linguagem supostamente então ilegal para capturar em filme, enquanto o conto de culpa de Mehmet (Halil Ergün) dava um vislumbre da miséria dos mais pobres e desfavorecidos que não têm nada, excepto manter a honra familiar. A história de Mehmet também permite a Güney descrever aspectos da honra, que se tornam o tema central do terceiro e mais poderoso conto, o de Seyit (Tarik Akan), como ele descobre comportamento errante da sua esposa, e luta contra a vontade de matar a mulher que ama de uma forma clara, e com quem teve um filho.
A frieza das linhas destas história garantem que o filme é muito pesado, mas o que irá provocar a ira do público ocidental é a representação das mulheres na sociedade turca (cerca de 1981), como bens virtuais móveis, e o seu destino amarrado à honra ou desonra dos seus homens.
O filme é, decididamente, visto a partir da perspectiva masculina, e certamente não será lisonjeiro para qualquer personagem feminina, mas os sentidos de Güney queriam criar um docu-drama sobre os graves problemas sociais ligados à manutenção de tradições antiquadas, políticas e costumes conservadores . A parte mais difícil para os telespectadores é se o filme é aceite como um instante de um período descolorido do passado, ou reforça o estereótipo da Turquia como um país brutal. É um artefacto que captura visão parcial do cineasta de uma sociedade com a qual ele estava em combate, com o comentário social destinado a provocar o ultraje público em políticas progressistas, e revisão de antigas práticas culturais.
Link
Imdb
quarta-feira, 8 de junho de 2016
A Noite de São Lourenço (La Notte di San Lorenzo) 1982
A noite de San Lorenzo, a noite das estrelas cadentes, é a noite em que os sonhos se tornam realidade no folclore italiano. Em 1944, um grupo de italianos foge da sua cidade toscana de St Martino depois de ouvirem rumores de que os Nazis pretendem fazê-la explodir, e que os americanos estão quase a chegar para os libertar. Esta história de sobrevivência é contada por Concetta (Moragarita Lozano), uma adorável mãe, que relembra estes acontecimentos quando tinha 6 anos. Embora a morte e o sofrimento sejam proeminentes nas suas memórias, estas por vezes também se transformam em sonhos surreais cheios de amor e jovens heróis, pintados como guerreiros gregos.
Os irmãos Taviani construiram aqui um relato épico de eventos históricos e experiências pessoais, um belo casamento de elementos realistas e poéticos que eram uma homenagem à rica tradição do neorealismo. A pedir emprestados temas de "Paisá", de Rossellini, os irmãos Taviani abrem o caminho para um avanço no cinema contemporâneo. Misturam o tema realista do passado com o elemento naturalista inerente ao seu trabalho, infundindo no filme flashes de surrealismo. É um filme cuja riqueza é sintetizada pela perfeição estética da sua imagem, e da intensidade emocional provocada pelo retrato abrupto da guerra e pelo calor que caracteriza os seres humanos.
Fotografando em cores ricas a paisagem italiana da toscânia, e complementada por uma banda sonora melancólica de Nicola Piovani, "As Noites de São Lourenço" apresenta uma visão sublime do cinema. Os irmãos Taviani tinham ganho a Palma de Ouro cinco anos antes com "Padre Padrone", e agora estavam de volta, para tentar ganhar a segunda.
Link
Imdb
Os irmãos Taviani construiram aqui um relato épico de eventos históricos e experiências pessoais, um belo casamento de elementos realistas e poéticos que eram uma homenagem à rica tradição do neorealismo. A pedir emprestados temas de "Paisá", de Rossellini, os irmãos Taviani abrem o caminho para um avanço no cinema contemporâneo. Misturam o tema realista do passado com o elemento naturalista inerente ao seu trabalho, infundindo no filme flashes de surrealismo. É um filme cuja riqueza é sintetizada pela perfeição estética da sua imagem, e da intensidade emocional provocada pelo retrato abrupto da guerra e pelo calor que caracteriza os seres humanos.
Fotografando em cores ricas a paisagem italiana da toscânia, e complementada por uma banda sonora melancólica de Nicola Piovani, "As Noites de São Lourenço" apresenta uma visão sublime do cinema. Os irmãos Taviani tinham ganho a Palma de Ouro cinco anos antes com "Padre Padrone", e agora estavam de volta, para tentar ganhar a segunda.
Link
Imdb
Hammett, Detective Privado (Hammett) 1982
Frederic Forrest interpreta o escritor Dashiell Hammett, a viver em São Francisco, e a escrever histórias para a revista "Black Mask", por um pouco de dinheiro. Entretanto aparece o velho amigo Jimmy Ryan (Peter Boyle), um detective que ensinou a Hammett tudo o que ele sabe. Hammett deve-lhe favores, e chegou a altura de lhe pagar. Vai ter de encontrar uma jovem chinesa desaparecida, e para isso vai ter de voltar para as ruas de Chinatown.
"Hammett" era o filme de estreia de Wim Wenders na America, e uma homenagem aos filmes de série B, e aos noirs que o influenciaram desde miúdo. O seu filme seguinte, "O Estado das Coisas", foi inspirado pelas suas experiências a dirigir "Hammett" e a trabalhar dentro do sistema de estúdio americano, tendo o filme sido quase inteiramente re-filmado por Francis Ford Coppola, creditado como produtor (era uma produção da Zoetrope, filmada quase ao mesmo tempo de "One From the Heart"). A repetição inconsistente das filmagens originais são tristemente evidentes, naquela que, de outra forma, podia ter sido uma excelente revisitação ao género "noir".
Desde os personagens decadentes, tudo no filme evoca a atmosfera de "The Maltese Falcon", e todo o género "noir", mas o seu amor ás fontes originais, e o facto do filme ter sido tirado das mãos de Wenders, levou a que o filme tivesse sido um fracasso a vários níveis. Já em "Chinatown", de Roman Polanski, tinha ficado provado que adaptações do género ainda podiam ser eficientes, se a fonte original fosse um pouco refrescada e adaptada para os tempos modernos. Mas tal não aconteceu com "Hammett", que ficou demasiado colado aos noir originais.
Um sugestão interessante, é tentarem ver este filme em conjunto com "O Estado das Coisas". Fez parte da seleção Oficial do Festival de Cannes.
Link
Imdb
"Hammett" era o filme de estreia de Wim Wenders na America, e uma homenagem aos filmes de série B, e aos noirs que o influenciaram desde miúdo. O seu filme seguinte, "O Estado das Coisas", foi inspirado pelas suas experiências a dirigir "Hammett" e a trabalhar dentro do sistema de estúdio americano, tendo o filme sido quase inteiramente re-filmado por Francis Ford Coppola, creditado como produtor (era uma produção da Zoetrope, filmada quase ao mesmo tempo de "One From the Heart"). A repetição inconsistente das filmagens originais são tristemente evidentes, naquela que, de outra forma, podia ter sido uma excelente revisitação ao género "noir".
Desde os personagens decadentes, tudo no filme evoca a atmosfera de "The Maltese Falcon", e todo o género "noir", mas o seu amor ás fontes originais, e o facto do filme ter sido tirado das mãos de Wenders, levou a que o filme tivesse sido um fracasso a vários níveis. Já em "Chinatown", de Roman Polanski, tinha ficado provado que adaptações do género ainda podiam ser eficientes, se a fonte original fosse um pouco refrescada e adaptada para os tempos modernos. Mas tal não aconteceu com "Hammett", que ficou demasiado colado aos noir originais.
Um sugestão interessante, é tentarem ver este filme em conjunto com "O Estado das Coisas". Fez parte da seleção Oficial do Festival de Cannes.
Link
Imdb
terça-feira, 7 de junho de 2016
Morrer aos 30 Anos (Mourir à 30 ans) 1982
Um documentário biográfico sobre Michel Recanati, um líder militar durante os motins de Maio de 1968, em Paris. O filme conta-nos a história de dois amigos através dos grupos de esquerda em Paris, entre 1966 e 1978, quando Michel desaparece e é descoberto mais tarde que cometeu suicídio.É uma história pessoal e ao mesmo tempo um olhar profundo na cena política francesa durante esses anos.
Grande parte do material original foi filmado ao longo de 10 anos antes do filme ter sido terminado. Era a primeira obra de Romain Goupil, então um jovem com 30 anos. O seu pai, Pierre Goupin, era cameraman, e armou o filho com uma câmara de Super 8, que filmou algumas manifestações de estudantes e reuniões a partir desse momento, em Paris.
Vamos encontrar imagens do discurso de Alain Krivine, líder do movimento Trotskyist em França, e membro da Liga Comunista Revolucionária, conhecida pela sigla LCR. Outras figuras chaves do movimento de esquerda francês são entrevistados ao longo do documentário, incluindo o jornalista Maurice Najman, ou Henri Weber.
As filmagens mais antigas combinam perfeitamente com as novas. É uma grande reconstrução do passado ainda recente, que sofre apenas pela nossa incapacidade de manter o controlo de todos os grupos de esquerda e direita envolvidos, bem como muitas das questões que eles lutaram tão apaixonadamente.
Será o único filme que veremos neste ciclo da Semana Itnernacional da Crítica. Em 1983, ganhou o César (Óscares franceses) de melhor primeira obra.
Link
Imdb
Grande parte do material original foi filmado ao longo de 10 anos antes do filme ter sido terminado. Era a primeira obra de Romain Goupil, então um jovem com 30 anos. O seu pai, Pierre Goupin, era cameraman, e armou o filho com uma câmara de Super 8, que filmou algumas manifestações de estudantes e reuniões a partir desse momento, em Paris.
Vamos encontrar imagens do discurso de Alain Krivine, líder do movimento Trotskyist em França, e membro da Liga Comunista Revolucionária, conhecida pela sigla LCR. Outras figuras chaves do movimento de esquerda francês são entrevistados ao longo do documentário, incluindo o jornalista Maurice Najman, ou Henri Weber.
As filmagens mais antigas combinam perfeitamente com as novas. É uma grande reconstrução do passado ainda recente, que sofre apenas pela nossa incapacidade de manter o controlo de todos os grupos de esquerda e direita envolvidos, bem como muitas das questões que eles lutaram tão apaixonadamente.
Será o único filme que veremos neste ciclo da Semana Itnernacional da Crítica. Em 1983, ganhou o César (Óscares franceses) de melhor primeira obra.
Link
Imdb
segunda-feira, 6 de junho de 2016
Intolerância (Intolerance: Love's Struggle Throughout the Ages) 1916
A intolerância e os seus terriveis efeitos, são examinados em quatro diferentes eras históricas. Na Babilónia antiga uma rapariga da montanha está presa na rivalidade religiosa que leva à queda da cidade. Na Judeia, o hipócrita Pharisees condena Jesus Cristo. Na Paris de 1952, sem saber do massacre eminente do massacre do Dia de São Bartolomeu, dois jovens preparam-se para o casamento. Finalmente, na América moderna, reformadores sociais destroem a vida de uma jovem mulher e do seu amado.
Filme mais ambicioso e mais caro de D.W. Griffith, é um dos marcos históricos, não só da era do cinema mudo, como do cinema em geral. Griffith inspirou-se a fazer este filme depois de ver o épico italiano "Cabiria" (1914), do realizador Giovanni Pastrone. Foi um empreendimento colossal com cenários monumentais, trajes de época luxuosos e mais de 3000 figurantes. O filme era composto por quatro histórias distintas, mas paralelas, que demonstravam a intolerância da humanidade ao longo das eras.
Foi um filme enormemente influente, particularmente entre os realizadores europeus e soviéticos. Muitos dos assistentes de realização neste filme tornaram-se realizadores importantes de Hollywood, como Erich von Stroheim, Tod Browning, Woody Van Dyke , e o filme foi parodiado alguns anos mais tarde por Buster Keaton, em "Three Ages" (1923).
Nos anos 80, o Museu de Arte Moderna (MOMA) reconstruiu o filme com uma grande despesa, uma tarefa difícil, em parte devido ao estado do negativo original. O filme abria a edição de Cannes de 1982 com grande pompa e circunstância, e recordamos que em 1982 não era fácil o visionamento deste filme.
Faz este ano 100 anos que este filme viu pela primeira vez a luz do dia.
Link
Legendas em português
Imdb
Filme mais ambicioso e mais caro de D.W. Griffith, é um dos marcos históricos, não só da era do cinema mudo, como do cinema em geral. Griffith inspirou-se a fazer este filme depois de ver o épico italiano "Cabiria" (1914), do realizador Giovanni Pastrone. Foi um empreendimento colossal com cenários monumentais, trajes de época luxuosos e mais de 3000 figurantes. O filme era composto por quatro histórias distintas, mas paralelas, que demonstravam a intolerância da humanidade ao longo das eras.
Foi um filme enormemente influente, particularmente entre os realizadores europeus e soviéticos. Muitos dos assistentes de realização neste filme tornaram-se realizadores importantes de Hollywood, como Erich von Stroheim, Tod Browning, Woody Van Dyke , e o filme foi parodiado alguns anos mais tarde por Buster Keaton, em "Three Ages" (1923).
Nos anos 80, o Museu de Arte Moderna (MOMA) reconstruiu o filme com uma grande despesa, uma tarefa difícil, em parte devido ao estado do negativo original. O filme abria a edição de Cannes de 1982 com grande pompa e circunstância, e recordamos que em 1982 não era fácil o visionamento deste filme.
Faz este ano 100 anos que este filme viu pela primeira vez a luz do dia.
Link
Legendas em português
Imdb
domingo, 5 de junho de 2016
Reviver Cannes 1982
Começamos hoje uma nova experiência, em relação a ciclos. Nas próximas duas semanas vamos viajar no tempo até ao festival de Cannes de 1982, e recordaremos uma série de filmes que passaram na edição desse ano. Da Selecção Oficial, da selecção Un Certain Regard, da Semana da Crítica, e outros que foram mostrados fora de competição.
No fim, analisaremos os vencedores, e vou pedir a vossa opinião sobre qual teria ganho. Passados 34 anos temos uma percepção muito maior das coisas, do que tínhamos na altura em que os filmes saíram. Peço que não façam batata, e não consultem os dados e os participantes desse ano, para que possam seguir o ciclo com mais interesse.
Esta era a 35ª edição do festival, e teve lugar entre 14 e 26 de Maio. Os membros do júri deste ano eram os seguintes:
Presidente: Giorgio Strehler (director de Ópera)
Membros:
- Jean Jacques Annaud (realizador)
- Suso Cecchi d'Amico (argumentista e actriz)
- Geraldine Chaplin (actriz)
- Gabriel García Márquez (escritor, argumentista e jornalista)
- Florian Hopf (actor)
- Sidney Lumet (realizador)
- Mrinal Sen (realizador)
- Claude Soulé (jogador de hóquei)
- René Thévenet (produtor)
No fim, analisaremos os vencedores, e vou pedir a vossa opinião sobre qual teria ganho. Passados 34 anos temos uma percepção muito maior das coisas, do que tínhamos na altura em que os filmes saíram. Peço que não façam batata, e não consultem os dados e os participantes desse ano, para que possam seguir o ciclo com mais interesse.
Esta era a 35ª edição do festival, e teve lugar entre 14 e 26 de Maio. Os membros do júri deste ano eram os seguintes:
Presidente: Giorgio Strehler (director de Ópera)
Membros:
- Jean Jacques Annaud (realizador)
- Suso Cecchi d'Amico (argumentista e actriz)
- Geraldine Chaplin (actriz)
- Gabriel García Márquez (escritor, argumentista e jornalista)
- Florian Hopf (actor)
- Sidney Lumet (realizador)
- Mrinal Sen (realizador)
- Claude Soulé (jogador de hóquei)
- René Thévenet (produtor)
Voltar (Voltar) 1988
"Sendo um dos filmes da série de TV "Fados", aliás selecionado para abrir a sua exibição na RTP, "Voltar é a pequena história de um homem que volta da prisão para reencontrar a mulher que amara. Histórias simples, contada de forma directa, poucas palavras, montagem ao bater dos tambores, música ao bater da noite, ritmo, eficácia e desenvoltura. Fixamos na memória Alexandra Leite, o jeito de Rui Reininho, o rosto de Norton de Matos, e o naturalismo de Pedro Efe (que "repete" o seu camionista de "Matar Saudades), sublinhamos o apontamento de Sinde Filipe, confirmamos Daniel Del-Negro e António Emiliano. Em suma: "Voltar" é mais uma contraprova de que uma novíssima e emancipada geração está pronta para o primeiro plano do cinema português. Aguarda-se tão-só o render da guarda." Jorge Leitão RamosEra o segundo filme de Joaquim Leitão, feito logo no ano seguinte a "Duma Vez Por Todas".
Link
Imdb
A Colt is my Passport (Koruto wa ore no Pasupooto) 1967
Kamikura (Jô Shishido) é um assassino que é contratado para matar um chefe da Yakuza que está a ficar ganancioso. O senhor do gang rival que contratou Kamikura e o seu motorista Shun paga-lhes e arranja estadia num hotel durante uma noite, enquanto lhes arranja passagem para um navio. O filho do homem morto vai ter com o seu rival e oferece-lhe dinheiro e uma parceria em troca da vida de Kamikura. Kamikura agora passa a ser perseguido por dois gangs, e uma empregada no hotel onde estão ajuda Kamikura e Shun a fugirem...
A história é simples, o diálogo é mínimo e a acção é escassa. Narrativamente, e até cinemagráficamente, o filme deve muito à Nouvelle Vague, mas principalmente a Jean-Pierre Melville. Soltam-se ecos do seus films noir minimalistas, Jô Shishido parece encarnar o ar de coolness de Jean Paul Belmondo ou Alain Delon.Esta influência parece preceder uma vaga de filmes que viria uns anos mais tarde, com "The Killer", de John Woo e uma série de outros filmes cheios de derramamento de sangue. Embora este filme de Takashi Nomura não retrate elementos tão trágicos e tão extremos como Melville ou Woo, todos os três fazem canalizar os mesmos ideais para o seu protagonista: um homem que segue o seu próprio código estrito, mesmo que isso possa trazer a sua morte. Perante qualquer situação, estes homens nunca irão quebrar e irão manter sempre, o mesmo ar de confiança.
A partitura musical completamente aleatória de Jerry Fujio evoca imagens de Elvis Presley, que influenciou fortemente os primeiros filmes de acção da Nikkatsu, no final dos anos cinquenta. A banda sonora, obviamente, teve influência dos spaghetti westerns, mas tem uma grande importância no filme.
Legendas em inglês.
Link
Imdb
A história é simples, o diálogo é mínimo e a acção é escassa. Narrativamente, e até cinemagráficamente, o filme deve muito à Nouvelle Vague, mas principalmente a Jean-Pierre Melville. Soltam-se ecos do seus films noir minimalistas, Jô Shishido parece encarnar o ar de coolness de Jean Paul Belmondo ou Alain Delon.Esta influência parece preceder uma vaga de filmes que viria uns anos mais tarde, com "The Killer", de John Woo e uma série de outros filmes cheios de derramamento de sangue. Embora este filme de Takashi Nomura não retrate elementos tão trágicos e tão extremos como Melville ou Woo, todos os três fazem canalizar os mesmos ideais para o seu protagonista: um homem que segue o seu próprio código estrito, mesmo que isso possa trazer a sua morte. Perante qualquer situação, estes homens nunca irão quebrar e irão manter sempre, o mesmo ar de confiança.
A partitura musical completamente aleatória de Jerry Fujio evoca imagens de Elvis Presley, que influenciou fortemente os primeiros filmes de acção da Nikkatsu, no final dos anos cinquenta. A banda sonora, obviamente, teve influência dos spaghetti westerns, mas tem uma grande importância no filme.
Legendas em inglês.
Link
Imdb
sábado, 4 de junho de 2016
A Marca do Assassino (Koroshi no Rakuin) 1967
Depois de fracassar numa missão por causa dos seus sentimentos por uma mulher, um assassino profissional, o número 3, passa a ser perseguido pelo fantasmagórico assassino número 1, de quem ele não conhece a identidade.
"O filme, a história de um matador de aluguel, Número 3, que falha em uma missão e passa a ser perseguido pelo Número 1, não é apenas puro exercício formal, na medida em que vemos a queda, a transformação de um personagem. A insanidade e o profissionalismo do assassino Hanada (Jo Shishido) vão ruindo em paralelo com o delírio visual da mise-en-scenepsicotrópica de Suzuki; o visual surrealista prende o espectador em seu interessante contraste de luz e sombras. Cria, portanto, a (i)lógica própria do filme. Porém, não há de se perder de vista, o verdadeiro desejo de Suzuki é entreter, fazer o que bem quiser com os elementos fílmicos, a possível reflexão sobre perda de identidade do assassino parece ser apenas uma âncora pra todo esse delírio visual.
À época, Suzuki estava ligado à produtora Nikkatsu. Fazia filmes sobre a yakuza, uma das especialidades dessa produtora de filmes B. A Marca do Assassino opera um ruptura tão intensa com toda aquela produção, que o cineasta acabou por ser afastado da produtora, vindo a ficar por 10 anos em litígio até ganhar na justiça o direito à deposição de cópia de todos os seus filmes na Cinemateca Japonesa, uma indenização, além de um pedido público de desculpas por parte da Nikkatsu.
Talvez o mais radical de sua geração, trilhando ora americanismo e a cultura Pop, ora a estética dos mangá, Suzuki arregaça com tudo, pretende um cinema sem amarras com o verossímil, com o próprio cinema. Um cinema de clima, sensorial, alucinante. É visível a influência em Jarmush – a forma como utiliza a música, além de uma cena de Ghost Dog, além de Tarantino – alguns momentos de Kill Bill I e seu uso de grafismos. Um cinema pulsante, intenso e único. Adjetivar A Marca do Assassino é, sobretudo, reconhecer o talento de Seijun Suzuki em ser criterioso apenas com si mesmo." Texto de Allan Kardec Pereira
Link
Imdb
"O filme, a história de um matador de aluguel, Número 3, que falha em uma missão e passa a ser perseguido pelo Número 1, não é apenas puro exercício formal, na medida em que vemos a queda, a transformação de um personagem. A insanidade e o profissionalismo do assassino Hanada (Jo Shishido) vão ruindo em paralelo com o delírio visual da mise-en-scenepsicotrópica de Suzuki; o visual surrealista prende o espectador em seu interessante contraste de luz e sombras. Cria, portanto, a (i)lógica própria do filme. Porém, não há de se perder de vista, o verdadeiro desejo de Suzuki é entreter, fazer o que bem quiser com os elementos fílmicos, a possível reflexão sobre perda de identidade do assassino parece ser apenas uma âncora pra todo esse delírio visual.
À época, Suzuki estava ligado à produtora Nikkatsu. Fazia filmes sobre a yakuza, uma das especialidades dessa produtora de filmes B. A Marca do Assassino opera um ruptura tão intensa com toda aquela produção, que o cineasta acabou por ser afastado da produtora, vindo a ficar por 10 anos em litígio até ganhar na justiça o direito à deposição de cópia de todos os seus filmes na Cinemateca Japonesa, uma indenização, além de um pedido público de desculpas por parte da Nikkatsu.
Talvez o mais radical de sua geração, trilhando ora americanismo e a cultura Pop, ora a estética dos mangá, Suzuki arregaça com tudo, pretende um cinema sem amarras com o verossímil, com o próprio cinema. Um cinema de clima, sensorial, alucinante. É visível a influência em Jarmush – a forma como utiliza a música, além de uma cena de Ghost Dog, além de Tarantino – alguns momentos de Kill Bill I e seu uso de grafismos. Um cinema pulsante, intenso e único. Adjetivar A Marca do Assassino é, sobretudo, reconhecer o talento de Seijun Suzuki em ser criterioso apenas com si mesmo." Texto de Allan Kardec Pereira
Link
Imdb
quinta-feira, 2 de junho de 2016
Tokyo Drifter (Tôkyô Nagaremono) 1966
Tetsuya "Phoenix Tetsu" Hondo é um implacável assassino de uma quadrilha da Yakuza que foi recentemente desativada quando Kurata, o chefe, resolveu aposentar-se. Otsuka, líder de uma quadrilha rival, tenta recrutar Tetsu para o seu lado, mas o assassino nega o convite. Assim, o chefe do crime resolve eliminá-lo.
Alguns filmes apenas têm para oferecer um estilo visual impressionante, mas no caso de Tokyo Drifter (1966), de Seijun Suzuki, isso é mais do que suficiente, e torna-se uma celebração de todo o potencial do cinema. Visto por estes olhos, o filme de gangsters como género torna-se um ponto de partida em que vale qualquer coisa, desde interromper a narrativa para um selvagem e desorientado número de discoteca, homenagear o Oeste americano numa briga de bar entre prostitutas e Yakuzas que combatem com marinheiros americanos. A história, que ziguezagueia da vida nocturna de Tóquio para as vistas rurais cobertas de neve (que pode parecer muito incompreensível numa primeira visão) segue um ex-condenado que tenta endireitar a vida, mas as probabilidades estão contra ele. Perseguido a cada passo por antigos membros de gangues, rivais nos negócios e policias, Tetsu segue o seu próprio código de honra, que o mantém em movimento, atirando os seus inimigos uns contra os outros, enquanto resgata Chiharu, a cantora de um clube noturno (interpretada pela pop star Chieko Matsubara).
Tal como o protagonista de "Tokyo Drifter", Suzuki era um "maverick" que seguiu o seu próprio caminho, mesmo a escrever por linhas tortas. De certa forma, o comportamento auto.destrutivo de Tetsu espelha a própria experiência do realizador na indústria cinematográfica japonesa, e é autobiográfica em espírito. Quando ele foi trabalhar para a Nikkatsu, no final dos anos 50, este estúdio era especializado em filmes de género, mas logo depois da chegada de Suzuki começaram a perceber que a maioria dos sucessos comerciais eram do género Yakuza, muitos deles realizados pelo próprio realizador. Em sete anos Suzuki realizou mais de 25 filmes até conseguir os elogios da crítica em "Youth of the Beast". Com o tempo o realizador cansou-se da Yakuza, e começou a puxar os seus filmes para os limites do género, experimentando em aparência e estilo. Começou a provocar o estúdio que lhe enviou um alerta depois do delírio que foi "Tokyo Drifter", mas Suzuki ignorou os seus avisos fazendo ainda mais dois filmes dentro desta linha, o segundo foi "Branded to Kill" (1967).
"Tokyo Drifter" foi assim um filme pouco apreciado pelos críticos e cinéfilos na altura da sua estreia, mas com o tempo tornou-se num grande filme de culto, e hoje é apreciado como um dos mais importantes filmes japoneses da década de 60.
Link
Imdb
Alguns filmes apenas têm para oferecer um estilo visual impressionante, mas no caso de Tokyo Drifter (1966), de Seijun Suzuki, isso é mais do que suficiente, e torna-se uma celebração de todo o potencial do cinema. Visto por estes olhos, o filme de gangsters como género torna-se um ponto de partida em que vale qualquer coisa, desde interromper a narrativa para um selvagem e desorientado número de discoteca, homenagear o Oeste americano numa briga de bar entre prostitutas e Yakuzas que combatem com marinheiros americanos. A história, que ziguezagueia da vida nocturna de Tóquio para as vistas rurais cobertas de neve (que pode parecer muito incompreensível numa primeira visão) segue um ex-condenado que tenta endireitar a vida, mas as probabilidades estão contra ele. Perseguido a cada passo por antigos membros de gangues, rivais nos negócios e policias, Tetsu segue o seu próprio código de honra, que o mantém em movimento, atirando os seus inimigos uns contra os outros, enquanto resgata Chiharu, a cantora de um clube noturno (interpretada pela pop star Chieko Matsubara).
Tal como o protagonista de "Tokyo Drifter", Suzuki era um "maverick" que seguiu o seu próprio caminho, mesmo a escrever por linhas tortas. De certa forma, o comportamento auto.destrutivo de Tetsu espelha a própria experiência do realizador na indústria cinematográfica japonesa, e é autobiográfica em espírito. Quando ele foi trabalhar para a Nikkatsu, no final dos anos 50, este estúdio era especializado em filmes de género, mas logo depois da chegada de Suzuki começaram a perceber que a maioria dos sucessos comerciais eram do género Yakuza, muitos deles realizados pelo próprio realizador. Em sete anos Suzuki realizou mais de 25 filmes até conseguir os elogios da crítica em "Youth of the Beast". Com o tempo o realizador cansou-se da Yakuza, e começou a puxar os seus filmes para os limites do género, experimentando em aparência e estilo. Começou a provocar o estúdio que lhe enviou um alerta depois do delírio que foi "Tokyo Drifter", mas Suzuki ignorou os seus avisos fazendo ainda mais dois filmes dentro desta linha, o segundo foi "Branded to Kill" (1967).
"Tokyo Drifter" foi assim um filme pouco apreciado pelos críticos e cinéfilos na altura da sua estreia, mas com o tempo tornou-se num grande filme de culto, e hoje é apreciado como um dos mais importantes filmes japoneses da década de 60.
Link
Imdb
quarta-feira, 1 de junho de 2016
Violência ao Meio Dia (Hakuchû no Tôrima) 1966
Baseado numa história da vida real, Nagisa Oshima analisa o caso do brutal violador Eisuke (Kei Sato), retratando a sua relação com a esposa protectora Matsuko (Akiko Koyama), e a sua última vitima Shino (Saeda Kawagushi). Apesar de viverem num ambiente rural, as cruéis condições de vida que os três personagens principais têm de enfrentar, são retratadas como sendo igualmente abomináveis para as actividades do próprio violador, cujas acções revelam a deterioração amoralidade e corrupção que a sociedade moderna se tem afundado.
Retrato perturbador do pós-guerra do Japão, que deve muito aos filmes de Alain Resnais e Robert Bresson, em termos da sua estrutura não-linear, e o fascínio pela actividade amoral de cidadão "outsider". Agora já bem estabelecido como um dos nomes mais importantes para a Nova Vaga do Cinema Japonês, Nagisa Oshima frequentou a escola de cinema em França, e a sua abordagem fragmentada da narrativa, e as críticas mordazes da sua sociedade nativa na época da ocidentalização eram a antítese do cinema humanista de realizadores como Yasujiro Ozu ou Akira Kurosawa. Vendo o filme tantos anos depois do seu lançamento fica a idéia de que o realizador teve influência em provocadores cinematográficos posteriores, como Nicolas Roeg, Donald Cammell ou Olivier Assayas.
O argumento de Takseshi Tamura, a partir de uma história de Taijun Takeda, salta para trás no tempo para mostrar como o assassino teceu uma teia sensual em torno das mulheres. Oshima e Akira Takada usam inventivas técnicas com a câmara para reflectir os múltiplos pontos de vista, e o sentimento que as mulheres partilham. Não é dos filmes mais conhecidos do realizador, mas é uma pérola a descobrir.
Link
Imdb
Retrato perturbador do pós-guerra do Japão, que deve muito aos filmes de Alain Resnais e Robert Bresson, em termos da sua estrutura não-linear, e o fascínio pela actividade amoral de cidadão "outsider". Agora já bem estabelecido como um dos nomes mais importantes para a Nova Vaga do Cinema Japonês, Nagisa Oshima frequentou a escola de cinema em França, e a sua abordagem fragmentada da narrativa, e as críticas mordazes da sua sociedade nativa na época da ocidentalização eram a antítese do cinema humanista de realizadores como Yasujiro Ozu ou Akira Kurosawa. Vendo o filme tantos anos depois do seu lançamento fica a idéia de que o realizador teve influência em provocadores cinematográficos posteriores, como Nicolas Roeg, Donald Cammell ou Olivier Assayas.
O argumento de Takseshi Tamura, a partir de uma história de Taijun Takeda, salta para trás no tempo para mostrar como o assassino teceu uma teia sensual em torno das mulheres. Oshima e Akira Takada usam inventivas técnicas com a câmara para reflectir os múltiplos pontos de vista, e o sentimento que as mulheres partilham. Não é dos filmes mais conhecidos do realizador, mas é uma pérola a descobrir.
Link
Imdb
Um Fugitivo do Passado (Kiga kaikyô) 1965
O Detective Yumisaka (Junzaburô Ban) tenta encontrar um bando de criminosos. Três homens roubaram uma família em milhões de yenes, assassinaram-nos, queimaram-lhes a casa, e fugiram, enquanto o fogo se espalhava pela cidade. Enquanto isso, um tufão andava pela redondeza, e vira um ferry que transportava milhares de pessoas. Na confusão, os três homens roubam um barco para a fuga, mas no dia seguinte dois corpos dão à costa, e não estão listados entre os passageiros do ferry. São dois dos suspeitos do roubo/homicídio, e o terceiro homem, Takichi Inukai (Rentarô Mikuni), está em fuga, escondendo-se com a prostituta Yae Sugito (Sachiko Hidari). Quando Inukai vê os jornais da manhã, foge, deixando muito dinheiro para Yae. O dinheiro para ela deixar a prostituição e começar uma vida nova, mas acaba por voltar à casa de partida. Durante dez anos Yae e Yumisaka procuram Inukai, ela para agradecer-lhe, ele para o apanhar.
Esta introdução parece ser muito grande, mas, na realidade, as três horas de filme providenciam muita história, muito maior do que está aqui contado. Abrange muito terreno temático, e conhecemos as duras realidade económicas do Japão do pós-guerra, já que o filme começa em 1947, altura em que o mercado negro está a florescer, muitas comodidades são dadas em pequenas quantidades, e o desespero financeiro. Inukai e os dois homens com quem ele estava são cidadão repatriados, e ficamos com uma noção das dificuldades que eles enfrentam. Quando Inukai conta o seu lado da história, temos de decidir se ficamos do seu lado ou não...e não conseguimos ficar indiferentes. Se acreditarmos nele, temos de ponderar sobre que as decisões que tomamos em face da crise. Este é também um filme sobre a culpa e a expiação, sobre a luta das mulheres nas cidades, sobre o karma espiritual, e sobre as obrigações de não podemos deixar de cumprir.
Realizado por Tomu Uchida, um nome que já vinha do cinema mudo, antigo actor e assistente de Mizoguchi na Mikkatsu. Dirigiu comédias antes de se virar para os dramas sócio políticos, com forte influências de esquerda. Aqui vamos encontrá-lo já em fase final de carreira, numa altura em que já não fazia um filme por ano. Esta seria uma das suas últimas obras, antes de falecer em 1970.
Link
Imdb
Esta introdução parece ser muito grande, mas, na realidade, as três horas de filme providenciam muita história, muito maior do que está aqui contado. Abrange muito terreno temático, e conhecemos as duras realidade económicas do Japão do pós-guerra, já que o filme começa em 1947, altura em que o mercado negro está a florescer, muitas comodidades são dadas em pequenas quantidades, e o desespero financeiro. Inukai e os dois homens com quem ele estava são cidadão repatriados, e ficamos com uma noção das dificuldades que eles enfrentam. Quando Inukai conta o seu lado da história, temos de decidir se ficamos do seu lado ou não...e não conseguimos ficar indiferentes. Se acreditarmos nele, temos de ponderar sobre que as decisões que tomamos em face da crise. Este é também um filme sobre a culpa e a expiação, sobre a luta das mulheres nas cidades, sobre o karma espiritual, e sobre as obrigações de não podemos deixar de cumprir.
Realizado por Tomu Uchida, um nome que já vinha do cinema mudo, antigo actor e assistente de Mizoguchi na Mikkatsu. Dirigiu comédias antes de se virar para os dramas sócio políticos, com forte influências de esquerda. Aqui vamos encontrá-lo já em fase final de carreira, numa altura em que já não fazia um filme por ano. Esta seria uma das suas últimas obras, antes de falecer em 1970.
Link
Imdb
terça-feira, 31 de maio de 2016
Pale Flower (Kawaita Hana) 1964
Muraki, um gangster da Yakuza, acaba de ser libertado da prisão depois de cumprir uma pena por assassinato. Revisitando o seu velho vício do jogo ele conhece Saeko, uma mulher notável da classe alta que procura emoções, e cuja presença apimenta os antiquados rituais do antiquado submundo masculino. Muraki torna-se o seu mentor, e simultaneamente envolve-se com ela, levando-o a envolver-se mais com o mundo do crime.
"Pale Flower", de Masahiro Shinoda, abre com uma sequência quase perfeita que diz praticamente tudo o que o filme tem a dizer sobre as personagens principais. Centrado à volta de uma casa de apostas, a câmara move-se à volta de muitas pessoas que tentam a sua sorte, onde se encontram a mulher bonita e o presidiário. É uma sequência virtuosa, mas o que a torna tão inebriante é a fantástica música de Toru Takemitsu, um dos maiores compositores japoneses de todos os tempos.
"Pale Flower" é um dos filmes mais poderosos sobre o mundo da Yakuza, com Masahiro Shinoda a homenagear o film noir americano, embora com algum desespero. Passado na década de 40, vamos encontrar um protagonista solitário com um carácter obsessivo. Shinoda vai buscar muita influência ao Film Noir Americano e à Nouvelle Vague, com uma história sombria, niilista, que não oferece redenção ou qualquer recompensa emocional para os moralmente corruptos protagonistas.
O preço para a liberdade criativa por vezes é elevado, e este filme esteve arquivado durante meses, depois do co-argumentista Masaru Baba acusar o próprio realizador de anarquista, considerando o filme mais preocupado com a parte visual do que com a história. Shinoda acabou por conseguir lançar o seu filme, mas os estragos já tinham sido feitos. O realizador, com outros realizadores que trabalhavam para o Shochiku, acabaram por deixar o estúdio para sempre.
Link
Imdb
"Pale Flower", de Masahiro Shinoda, abre com uma sequência quase perfeita que diz praticamente tudo o que o filme tem a dizer sobre as personagens principais. Centrado à volta de uma casa de apostas, a câmara move-se à volta de muitas pessoas que tentam a sua sorte, onde se encontram a mulher bonita e o presidiário. É uma sequência virtuosa, mas o que a torna tão inebriante é a fantástica música de Toru Takemitsu, um dos maiores compositores japoneses de todos os tempos.
"Pale Flower" é um dos filmes mais poderosos sobre o mundo da Yakuza, com Masahiro Shinoda a homenagear o film noir americano, embora com algum desespero. Passado na década de 40, vamos encontrar um protagonista solitário com um carácter obsessivo. Shinoda vai buscar muita influência ao Film Noir Americano e à Nouvelle Vague, com uma história sombria, niilista, que não oferece redenção ou qualquer recompensa emocional para os moralmente corruptos protagonistas.
O preço para a liberdade criativa por vezes é elevado, e este filme esteve arquivado durante meses, depois do co-argumentista Masaru Baba acusar o próprio realizador de anarquista, considerando o filme mais preocupado com a parte visual do que com a história. Shinoda acabou por conseguir lançar o seu filme, mas os estragos já tinham sido feitos. O realizador, com outros realizadores que trabalhavam para o Shochiku, acabaram por deixar o estúdio para sempre.
Link
Imdb
segunda-feira, 30 de maio de 2016
Cruel Gun Story ( Kenjû Zankoku Monogatari) 1964
Um empresário consegue providenciar a libertação antecipada de Togawa da prisão, dando-lhe hipótese de em troca conseguir uma pequena vingança pessoal contra o homem que tratou mal a sua irmã. Togawa é necessário para um assalto a um camião blindado carregado com 120 milhões de yenes, e assim conseguir dinheiro para uma cirurgia à irmã. O plano parece simples, mas há traições e duplas traições em todo o lado. Será que Togawa consegue dinheiro suficiente para ajudar a irmã e abandonar o Japão?
"Cruel Gun Story" foi realizado em 1964 por Takumi Furukawa, e segue a premissa de "The Killing" de Stanley Kubrick. Quatro gangsters que trabalham para a máfia japonesa são contratados para roubar um carro blindado que transporta o recheio dos lucros de uma pista de corridas. Claro que tudo vai correr mal, e acabam por raptar dois guardas. Pelo caminho irá haver várias traições não só dentro do grupo, como também fora. Desde o advogado desonesto que os contratou, ao chefe dá máfia que não tinha intenção de dividir o produto do roubo com o grupo, com o advogado a ter idéias de formar o seu próprio gang. Irá haver bastantes tiroteios maciços pelo caminho.
A acção é emocionante, e a narrativa mantém-se a um ritmo bastante rápido, impedindo o filme de se acomodar. O último tiroteio fica a dever muito ao último tiroteio de "The Killing", mas não antes do último do último twist, que deixa mais uma preocupação a Togawa. O protagonista é Jô Shishido, o mesmo de vários outros "noirs" deste ciclo.
Legendas em Inglês.
Link
Imdb
"Cruel Gun Story" foi realizado em 1964 por Takumi Furukawa, e segue a premissa de "The Killing" de Stanley Kubrick. Quatro gangsters que trabalham para a máfia japonesa são contratados para roubar um carro blindado que transporta o recheio dos lucros de uma pista de corridas. Claro que tudo vai correr mal, e acabam por raptar dois guardas. Pelo caminho irá haver várias traições não só dentro do grupo, como também fora. Desde o advogado desonesto que os contratou, ao chefe dá máfia que não tinha intenção de dividir o produto do roubo com o grupo, com o advogado a ter idéias de formar o seu próprio gang. Irá haver bastantes tiroteios maciços pelo caminho.
A acção é emocionante, e a narrativa mantém-se a um ritmo bastante rápido, impedindo o filme de se acomodar. O último tiroteio fica a dever muito ao último tiroteio de "The Killing", mas não antes do último do último twist, que deixa mais uma preocupação a Togawa. O protagonista é Jô Shishido, o mesmo de vários outros "noirs" deste ciclo.
Legendas em Inglês.
Link
Imdb
domingo, 29 de maio de 2016
Céu e Inferno (Tengoku to Jigoku) 1963
.Um grande executivo está numa situação crítica. Ele reservou uma verba para resolver problemas da fábrica de sapatos, quando descobre que o seu filho foi raptado. O resgate pedido pelos raptores aproxima-se do dinheiro separado para a empresa e será crucial para os seus negócios. Contudo, quando resolve salvar a vida do filho, acontece algo muito inesperado.
Depois do enorme sucesso de "Rashomon" em 1950, o filme que literalmente abriu os olhos do mundo para o cinema japonês, Akira Kurosawa passou a maior parte do tempo a fazer jida-geki, ou filmes dramáticos passados no passado, que incluía uma longa série de filmes de samurais, como "Os Sete Samurais" (1954) ou "Yojimbo" (1961). No entanto, durante este tempo ele também fez um punhado de gendai-geki, filmes dramáticos passados no Japão contemporâneo. Em cada um deles Kurosawa explorava questões pertinentes, morais e sociais, como o significado de viver (Ikiru), o medo da aniquilação nuclear (I Live in Fear), ou a prevaricação corporativa (The Bad Sleep Well).
Enquanto "Céu e Inferno" se encaixa perfeitamente neste segundo grupo de filmes, também se destaca como um thriller de mistério habilmente trabalhado, cuja história de um rapto e as suas consequências é tecida através de um retrato particularmente agudo da decadência do Japão Moderno. A idéia da moralidade e da honra debaixo de fogo, eram uma constante nos filmes de Kurosawa, mas nunca tinham sido tão vis e caóticas como aqui, principalmente no último terço do filme, passado nas favelas de Yokohama. Kurosawa tinha feito algo semelhante em "Cão Danado" (1949), um procedimento policial que era tanto sobre a natureza sórdida do submundo do crime como era sobre o seu mistério central, mas aqui assume uma febre ainda mais apertada do que anteriormente.
Foi nomeado para o Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro em 1964.
Link
Imdb
Depois do enorme sucesso de "Rashomon" em 1950, o filme que literalmente abriu os olhos do mundo para o cinema japonês, Akira Kurosawa passou a maior parte do tempo a fazer jida-geki, ou filmes dramáticos passados no passado, que incluía uma longa série de filmes de samurais, como "Os Sete Samurais" (1954) ou "Yojimbo" (1961). No entanto, durante este tempo ele também fez um punhado de gendai-geki, filmes dramáticos passados no Japão contemporâneo. Em cada um deles Kurosawa explorava questões pertinentes, morais e sociais, como o significado de viver (Ikiru), o medo da aniquilação nuclear (I Live in Fear), ou a prevaricação corporativa (The Bad Sleep Well).
Enquanto "Céu e Inferno" se encaixa perfeitamente neste segundo grupo de filmes, também se destaca como um thriller de mistério habilmente trabalhado, cuja história de um rapto e as suas consequências é tecida através de um retrato particularmente agudo da decadência do Japão Moderno. A idéia da moralidade e da honra debaixo de fogo, eram uma constante nos filmes de Kurosawa, mas nunca tinham sido tão vis e caóticas como aqui, principalmente no último terço do filme, passado nas favelas de Yokohama. Kurosawa tinha feito algo semelhante em "Cão Danado" (1949), um procedimento policial que era tanto sobre a natureza sórdida do submundo do crime como era sobre o seu mistério central, mas aqui assume uma febre ainda mais apertada do que anteriormente.
Foi nomeado para o Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro em 1964.
Link
Imdb
Homem Mau Dorme Bem (Warui Yatsu Hodo Yoku Nemuru) 1960
Um jovem tenta utilizar-se da sua posição no coração de uma empresa corrupta para expor os homens responsáveis pela morte do seu pai. No dia do seu casamento, vários rumores e comentários circulam entre os presentes, que cinco anos antes, o pai de Nishi morrera após cair de uma janela do andar do edifício da empresa. Muitos duvidam de um suicídio. Nishi, tentará investigar sobre um possível assassinato de seu pai.
O título deste filme de Akira Kurosawa, "Homem Mau Dorme Bem" (Warui yatsu hodo yoku nemuru), evoca com perfeita clareza a visão cínica do filme, e do mal que corre no mundo moderno. Enquanto os bons lutam e sofrem para fazer o que é certo, os maus dormem em conforto, sabendo que não só a sua ganância e fraudes não pagarão dividendos, como estarão seguros na sua teia de corrupção. É aqui que o filme revela o seu sentido mais agudo de amargura, cumprindo a tarefa de mostrar que no mundo corporativo moderno o fim justifica os meios, principalmente se os poderosos permanecerem no poder. Apesar de ter sido feito à tantos anos, e no ambiente japonês do pós-guerra, pode ser mais relevante do que nunca.
Kurosawa tenta recriar um Hamlet contemporâneo, segundo o estilo assumido do noir americano dos anos 40, mas tem outras coisas em mente para poder ser considerado 100% noir. Era a primeira produção independente para a companhia do realizador, que infelizmente não durou muito tempo. O argumento era escrito segundo um livro de Ed McBain, e manipulado por um grupo de argumentistas que incluía o próprio Kurosawa e uma equipa formada por Shinobu Hashimoto, Eijirô Hisaita, Ryuzo Kikushima e Hideo Oguni.
Link
Imdb
O título deste filme de Akira Kurosawa, "Homem Mau Dorme Bem" (Warui yatsu hodo yoku nemuru), evoca com perfeita clareza a visão cínica do filme, e do mal que corre no mundo moderno. Enquanto os bons lutam e sofrem para fazer o que é certo, os maus dormem em conforto, sabendo que não só a sua ganância e fraudes não pagarão dividendos, como estarão seguros na sua teia de corrupção. É aqui que o filme revela o seu sentido mais agudo de amargura, cumprindo a tarefa de mostrar que no mundo corporativo moderno o fim justifica os meios, principalmente se os poderosos permanecerem no poder. Apesar de ter sido feito à tantos anos, e no ambiente japonês do pós-guerra, pode ser mais relevante do que nunca.
Kurosawa tenta recriar um Hamlet contemporâneo, segundo o estilo assumido do noir americano dos anos 40, mas tem outras coisas em mente para poder ser considerado 100% noir. Era a primeira produção independente para a companhia do realizador, que infelizmente não durou muito tempo. O argumento era escrito segundo um livro de Ed McBain, e manipulado por um grupo de argumentistas que incluía o próprio Kurosawa e uma equipa formada por Shinobu Hashimoto, Eijirô Hisaita, Ryuzo Kikushima e Hideo Oguni.
Link
Imdb
sábado, 28 de maio de 2016
Cão Danado (Nora Inu) 1949
Murukami (Toshirô Mifune), um jovem detetive de homicídios, é roubado nos transportes públicos e perde a sua pistola. Atordoado e envergonhado tenta recuperar a arma, mas não obtem sucesso até ter a ajuda de um detetive mais velho e mais sábio, Sato (Takashi Shimura). Juntos, irão rastreiam o culpado.
"Com mesclas do noir americano e uma bela referência a um filme de King Vidor, Cão Danado (1949) aparece como a provável primeira grande obra de Akira Kurosawa, um penúltimo passo (se excluirmos Escândalo, seu filme seguinte) antes de sua obra-prima primeva, Rashomon.
A construção relativa acima certamente se aplica a muitos leitores e fãs do “Luminoso”, mas no meu caso, ela é menos nebulosa, pois contemplo Cão Danado como um verdadeiro filme-trampolim para o Kurosawa Master dos anos 1950, e entendo-o realmente como a primeira grande obra do cineasta japonês.
Em Cão Danado, já é possível perceber um amadurecimento patente das nuances mais recorrentes de Kurosawa, como o trabalho com a matéria natural (em especial, a chuva), a disposição em múltiplos ângulos no mesmo cenário, e o lado sentimental e humano que se faz presente em qualquer situação. Neste caso, a postura passional de um jovem investigador de polícia é quase toda a matéria do filme, e o drama policial gira em torno de um tormento particular e da criminalidade na periferia de Tóquio.
Duas das primeiras coisas que se destacam no filme são a fotografia e a direção de arte, que logram transmitir uma forte sensação de calor ao espectador (o filme se passa durante dias terrivelmente quentes), bem como de uma “poluição visual” do cenário, sempre com takes em ambientes abarrotados de coisas, e em sua maior parte, muito pequenos, intensificando ainda mais a sensação de calor e dando espaço para uma interpretação claustrofóbica da história que está sendo contada. Ambos os setores técnicos foram premiados no Mainichi Film Concours de 1949, que também deu a Fumio Hayasaka o prêmio de melhor trilha sonora e a Takashi Shimura o de melhor atuação (também por seu papel em Duelo Silencioso)."
Texto de Luiz Santiago, podem ler mais aqui.
Link
Imdb
"Com mesclas do noir americano e uma bela referência a um filme de King Vidor, Cão Danado (1949) aparece como a provável primeira grande obra de Akira Kurosawa, um penúltimo passo (se excluirmos Escândalo, seu filme seguinte) antes de sua obra-prima primeva, Rashomon.
A construção relativa acima certamente se aplica a muitos leitores e fãs do “Luminoso”, mas no meu caso, ela é menos nebulosa, pois contemplo Cão Danado como um verdadeiro filme-trampolim para o Kurosawa Master dos anos 1950, e entendo-o realmente como a primeira grande obra do cineasta japonês.
Em Cão Danado, já é possível perceber um amadurecimento patente das nuances mais recorrentes de Kurosawa, como o trabalho com a matéria natural (em especial, a chuva), a disposição em múltiplos ângulos no mesmo cenário, e o lado sentimental e humano que se faz presente em qualquer situação. Neste caso, a postura passional de um jovem investigador de polícia é quase toda a matéria do filme, e o drama policial gira em torno de um tormento particular e da criminalidade na periferia de Tóquio.
Duas das primeiras coisas que se destacam no filme são a fotografia e a direção de arte, que logram transmitir uma forte sensação de calor ao espectador (o filme se passa durante dias terrivelmente quentes), bem como de uma “poluição visual” do cenário, sempre com takes em ambientes abarrotados de coisas, e em sua maior parte, muito pequenos, intensificando ainda mais a sensação de calor e dando espaço para uma interpretação claustrofóbica da história que está sendo contada. Ambos os setores técnicos foram premiados no Mainichi Film Concours de 1949, que também deu a Fumio Hayasaka o prêmio de melhor trilha sonora e a Takashi Shimura o de melhor atuação (também por seu papel em Duelo Silencioso)."
Texto de Luiz Santiago, podem ler mais aqui.
Link
Imdb
O Anjo Embriagado (Yoidore Tenshi) 1948
Depois de uma batalha com um gang rival, um pequeno gangster é tratado por um jovem médico alcoólico no Japão do pós-guerra. O médico diagnostica tuberculose ao jovem gangster e convence-o a iniciar o tratamento. Os dois começam a desfrutar de uma amizade inquieta, até que o antigo chefe do gangster é libertado da prisão e volta para o seu gang mais uma vez. O jovem doente perde o estatuto de líder e torna-se condenado ao ostracismo, envolvendo-se numa luta com o ex-líder até à morte.
Se não for por outras razões, "O Anjo Embriagado" é um marco na história do cinema, por ter sido a primeira colaboração entre Akira Kurosawa e Toshiro Mifune, uma colaboração que se prolongaria por mais 15 filmes, ao longo de duas décadas. Kurosawa reconheceu imediatamente o poder da volatilidade de Mifune em acção, e lança-o como um jovem bandido chamado Matsunaga. Curiosamente, a última colaboração dos dois seria em 1964, no filme "O Barba Ruiva", no qual Mifune interpreta um médico que guia um jovem protegido na busca da maturidade espiritual.
O filme tem lugar nas favelas de Tóquio do pós-guerra, e foca-se na escória da sociedade - tanto nos pobres como nos criminosos que se alimentam deles. Kurosawa literaliza a corrupção social, centrando a maior parte da acção em volta de um esgoto no meio de uma praça do mercado negro. A fossa, que se torna um personagem importante, constantemente em ebulição, é a primeira coisa que vemos no filme. Kurosawa usa-a frequentemente como objecto de transição, e mesmo quando não é um objecto principal, está sempre lá no fundo, lembrando-nos em termos puramente visuais, de tudo o que é venenoso e destrutivo.
"O Anjo Embriagado" também é um filme importante na carreira de Kurosawa. Foi feito com os seus próprios meios, e mesmo que tenha sido obrigado a ceder em alguns elementos para se desviar dos censores dos americanos ocupantes, ainda é uma visão singular da corrupção da sociedade japonesa no pós guerra da Segunda Guerra Mundial. Kurosawa já tinha explorado este terreno antes, e vai continuar a fazê-lo por mais alguns anos, usando a luta dos bons personagens por entre as ruínas de Tóquio e os seus crescentes mercados negros, como uma forma de enfrentar as memórias remanescentes da derrota, e os desafios que se impõem da reconstrução.
Link
Imdb
Se não for por outras razões, "O Anjo Embriagado" é um marco na história do cinema, por ter sido a primeira colaboração entre Akira Kurosawa e Toshiro Mifune, uma colaboração que se prolongaria por mais 15 filmes, ao longo de duas décadas. Kurosawa reconheceu imediatamente o poder da volatilidade de Mifune em acção, e lança-o como um jovem bandido chamado Matsunaga. Curiosamente, a última colaboração dos dois seria em 1964, no filme "O Barba Ruiva", no qual Mifune interpreta um médico que guia um jovem protegido na busca da maturidade espiritual.
O filme tem lugar nas favelas de Tóquio do pós-guerra, e foca-se na escória da sociedade - tanto nos pobres como nos criminosos que se alimentam deles. Kurosawa literaliza a corrupção social, centrando a maior parte da acção em volta de um esgoto no meio de uma praça do mercado negro. A fossa, que se torna um personagem importante, constantemente em ebulição, é a primeira coisa que vemos no filme. Kurosawa usa-a frequentemente como objecto de transição, e mesmo quando não é um objecto principal, está sempre lá no fundo, lembrando-nos em termos puramente visuais, de tudo o que é venenoso e destrutivo.
"O Anjo Embriagado" também é um filme importante na carreira de Kurosawa. Foi feito com os seus próprios meios, e mesmo que tenha sido obrigado a ceder em alguns elementos para se desviar dos censores dos americanos ocupantes, ainda é uma visão singular da corrupção da sociedade japonesa no pós guerra da Segunda Guerra Mundial. Kurosawa já tinha explorado este terreno antes, e vai continuar a fazê-lo por mais alguns anos, usando a luta dos bons personagens por entre as ruínas de Tóquio e os seus crescentes mercados negros, como uma forma de enfrentar as memórias remanescentes da derrota, e os desafios que se impõem da reconstrução.
Link
Imdb
quinta-feira, 26 de maio de 2016
Kurosawa e o Noir
Akira Kurosawa uma vez disse: "Gosto muito de Georges Simenon, e queria fazer alguma coisa ao seu jeito". Simenon era um autor francês da década de 30, famoso pelas suas novelas de crime e ficção fortemente influenciadas pelo film noir francês. A influência de Simenon podia ser vista através da sua escrita, que minimizava a violência e a acção em troca de uma atmosfera visual escura. Ao afirmar a sua admiração por Simenon, Kurosawa identificava a sua influência no film noir.
Os filmes de Akira Kurosawa onde se pode aplicar o termo "noir" são os que têm as mesmas fontes literárias que os clássicos de Hollywood, misturados com o estilo do expressionismo alemão. Kurosawa gostava dos dois, então os filmes que conhecemos dentro deste estilo talvez sejam mais uma evolução paralela do que propriamente uma homenagem ou tributo.
Dentro do ciclo do "Film Noir Japonês" vamos criar uma nova caixa, e nos próximos dias poderão seguir mais um ciclo dentro deste ciclo, onde poderão ser vistos os quatro "Noirs" realizados pelo famoso realizador japonês. Quatro filmes, todos de superior qualidade.
- "Drunken Angel" (1948)
- "Cão Danado" (1949)
- "Homem Mau Dorme Bem" (1960)
- "Entre o Céu e o Inferno" (1963)
Poderão ver tudo no fim de semana.
Os filmes de Akira Kurosawa onde se pode aplicar o termo "noir" são os que têm as mesmas fontes literárias que os clássicos de Hollywood, misturados com o estilo do expressionismo alemão. Kurosawa gostava dos dois, então os filmes que conhecemos dentro deste estilo talvez sejam mais uma evolução paralela do que propriamente uma homenagem ou tributo.
Dentro do ciclo do "Film Noir Japonês" vamos criar uma nova caixa, e nos próximos dias poderão seguir mais um ciclo dentro deste ciclo, onde poderão ser vistos os quatro "Noirs" realizados pelo famoso realizador japonês. Quatro filmes, todos de superior qualidade.- "Drunken Angel" (1948)
- "Cão Danado" (1949)
- "Homem Mau Dorme Bem" (1960)
- "Entre o Céu e o Inferno" (1963)
Poderão ver tudo no fim de semana.
Subscrever:
Mensagens (Atom)

















