quinta-feira, 22 de agosto de 2013

5 Anos a Partilhar Filmes

Nos anos anteriores esta seria uma data muito especial. Seria o dia em que o My One Thousand Movies faria mais um ano, e este seria o quinto. Mas muita coisa aconteceu desde o último aniversário, e o google apagou-o. Não vou criticar isso, porque sei perfeitamente que era uma coisa que podia acontecer, assim como poderá acontecer com este blog, um dia, mas não vamos falar nisso.
Quando comecei este projecto de partilhar filmes, chamemos-lhe assim, não fazia sequer a ideia que estava a começar um projecto. Fi-lo inocentemente, apenas para partilhar alguns filmes com os meus amigos. Nem vos vou contar qual foi o primeiro filme que partilhei. Não quero dizer com isso que o filme fosse mau, mas seria um que agora não partilharia. Desde aí, já passaram por este computador (sempre o mesmo computador ao longo destes cinco anos), mais de 3500 filmes. Não de todas as nações, mas de muitas delas, e de todos os períodos da história do Cinema.
Nunca foi intenção minha partilhar os melhores filmes do mundo. Ao longo destes anos eu mudei várias vezes o meu conceito sobre o cinema, e sobre isto da partilha de filmes. Neste momento eu penso que todos os filmes devem ser partilhados, comentados, vistos: quer sejam filmes mudos da China, quer sejam os filmes da Troma, pois doutra forma muitos deles nunca poderão ser vistos. Como é que se sente um criador cuja obra não é vista por ninguém? Uma das melhores mensagens que um filme, ou que um género, ou que um movimento, nos podem transmitir, é que atrás deles existe sempre uma história a contar. Uma história que pode ser um retrato de uma geração, um acontecimento importante, ou apenas uma pura banalidade. Interessa que no fim desse filme, fiquemos com algo retido na memória. Acabamos de assistir a um conto, a um pedaço de história, quer esse filme fosse do Tarkovky, quer fosse do Allan Dwan.
Este poder de contar histórias é algo que já se perdeu há muito tempo. Eu, por exemplo, nunca estudei Cinema, nem estudei Política, nem estudei coisa nenhuma. Fiquei-me pelo 12º ano de escolaridade, porque naquela altura não era tão fácil tirar cursos universitários (e eu não tinha paciência para estudar). O que eu aprendi sobre o Cinema aconteceu numa pequena caixa que transmitia imagens, primeiro a preto e branco, depois a cores (sim, ainda sou do tempo das televisões a preto e branco), chamada televisão. O meu mestre, chamava-se RTP, e mostrava-me filmes de um tal de Nicholas Ray, ou de um Akira Kurosawa a um horário nobre, que eu pudesse ver. Essa televisão, ensinava-me que aqueles eram os filmes que deviam ser vistos em primeiro lugar, mas também me mostrava os outros. Foi assim que eu comecei a aperceber-me da diferença entre o bom e o mau. Se bem que também gosto de ver o mau, porque não sou nenhum intelectual, ou pseudo-intelectual, como  alguns gostam de chamar.
Esta coisa que eu falei aqui em cima, já não existe. Agora se quero ver essa tal de televisão, tenho de saber que o Marco deu um pontapé no Jorge, e teve de saír da Casa dos Segredos. Se me quero rir, tenho de saber que aquele tal de Castelo Branco participou naquele programa de se atirarem para a piscina, e teve muita piada. Há 25 anos atrás, eu ria-me com o humor do Jerry Lewis, do Mel Brooks, e dos Monty Python. Hoje tenho de me rir com esse tal de Castelo Branco.
 Acho que já perceberam o ponto onde eu quero chegar. O sentido de serviço público já não existe. Ninguém nos explica o que é a arte do Cinema. Foi a partir deste conceito, que eu idealizei este blog. Este espaço. Não que eu saiba mais do que os outros, até porque como disse, só completei o 12º ano, mas porque eu descobri, li, vi, revi, e por fim disponibilizei para vocês.
Não sei se vou andar por aqui mais cinco mil filmes, mas sinto que ainda vou com o meu trabalho a meio. Ainda há muita história para contar, muito filme para descobrir, muitas obras para partilhar, e muito ciclo para fazer.
Conheci muita gente neste percurso, quer de Portugal, quer do Brasil, ou mesmo de outros países, e foram eles que me foram dando forças para continuar. Foram vocês. Já estivemos perto de isso não acontecer, mas se consegui ultrapassar essa fase, podem ficar tranquilos por muito tempo.

Obrigado a todos


10 comentários:

harrymadox disse...

Parabéns Chico! Pessoalmente aguardo com bastante expectativa o ciclo do Mike Leigh. Ab.

alucardscorner disse...

Chico antes de mais Parabéns, nunca saquei um único filme do teu blog, pois não gosto de DD's lol (tiques, todo nós temos). Mas acompanho religiosamente os teus ciclos, e sempre que aparece um filme interessante(que regra geral deve-se as tuas criticas pois pelos nomes muitas vezes não vou lá) por aqui vou procura-lo em outro sitio se for necessário.

E sem dúvida que dizes-te tudo aqui:

"Neste momento eu penso que todos os filmes devem ser partilhados, comentados, vistos: quer sejam filmes mudos da China, quer sejam os filmes da Troma, pois doutra forma muitos deles nunca poderão ser vistos"

Infelizmente nem toda a gente pensa como tu.

Abraço
Ricardo

Anónimo disse...

Está de parabéns este nosso amigo, com 5 anos de um precioso trabalho: divulgar cultura do Cinema, daquele que não passa pelas capas de revista que não alimenta o negócio das pipocas, que não passa ja na televisão. É a divulgação de Cinema, não pela ganância do lucro, ou pela mesquinhez da partilha gratuita para minar o negócio, mas pela pura abnegação de partilhar o saber e o prazer do Cinema com os outros. Como já alguém escreveu sobre este bolg, e sobre o fantástico trabalho deste nosso amigo, se não fosse assim a quase totalidade destes filmes seria ainda mais desconhecida, simplesmente ignorada. Este blog, e o trabalho do nosso amigo, mostram-nos e ensinam-nos que há muito mais Cinema por aí, do que parece à primeira vista. Mostra as linhas com que se cozem os percursos, ora lineares ora sinuosos, dos realizadores, actores e argumentistas de todo o mundo, e a forma como essas vidas se reflectem nas obras que criaram. Mostra, sobretudo, que há muitas outras formas de contar histórias, e que há muitas mais histórias para conhecer.
Obrigado!

My One Thousand Movies disse...

Muito obrigado a todos, pessoal :)

ajanelaencantada disse...

Chico, sou um dos que te segue atentamente, e revejo-me nas tuas palavras.

Há mais de um ano meti na cabeça uma ideia estranha, ver todos os filmes de terror da Hammer, só porque sim. Já conhecia bastantes, mas faltavam-me muitos.. Procurei, vi, revi, e tentei anotar ideias sobre eles. Então uma pessoa amiga disse-me "porque não fazes um blog sobre isso?". E lá para Outubro fiz... e não parei na Hammer... cá continuo.

Pouco tempo depois chegava-me a notícia que o teu MOTM tinha sido cancelado. Fiquei atento e conheci esta versão 2, que acho absolutamente imperdível. Partilho dos teus propósitos, identifico-me com o que dizes. Só discordo que não saibas muito. Sabes sim, e eu aprendo com isso. O teu é, para mim, um exemplo a seguir.

Continua sempre! Com a humildade e generosidade que tens. És uma verdadeira cinemateca para muitos de nós.

E obrigado pelo filme que me "deste" hoje. :)

jmnpm disse...

Muito obrigado a ti!

My One Thousand Movies disse...

Obrigado eu, amigos. E José Carlos, se precisares de ajuda para mais algum filme é só pedires.

Abraço

Jorge Teixeira disse...

Muitos parabéns pela marca e, sobretudo, pela motivação que incutes a ti próprio e aos outros a ver e ver sempre mais cinema.

Cumprimentos,
Jorge Teixeira
Caminho Largo

Celso Lungaretti disse...

Chico,

por coincidência, também acabo de comemorar 5 anos do meu principal blogue. E minhas reflexões foram parecidas com as suas.

Houve um tempo em que, com enormes dificuldades, uns poucos idealistas editávamos coletâneas literárias e as vendíamos aos amigos a preço de custo, apenas para fazer idéias e sonhos circularem.

Hoje, com a internet, ficou mais fácil plantarmos nossas sementes. São como garrafas com mensagens que atiramos num vasto oceano. E, às vezes, elas frutificam onde menos esperávamos, até mesmo do outro lado do mundo.

Parabéns por seu belíssimo trabalho e por sua perseverança após o ataque dos bárbaros. Há um clássico da música popular brasileira que diz: "Ali onde eu chorei,/ qualquer um chorava./ Dar a volta por cima que eu dei,/ quero ver quem dava".

São versos que caem muito bem para ti.

Um forte abraço.

My One Thousand Movies disse...

Muito obrigado Celso, e Jorge :)