quinta-feira, 21 de julho de 2016

Quero ir Para Casa (I Want to Go Home) 1989

Quero Ir Para Casa é o filme que marca o tributo de Alain Resnais a uma das suas grandes paixões: a banda desenhada. Homem de interesses múltiplos, Resnais trouxe para o mundo do cinema, a sua paixão por outras expressões artísticas: a literatura, adaptando vários escritores consagrados; a pintura, nas suas curtas iniciais dedicadas a Gaugin, Picasso e Van Gogh; o teatro, sobretudo pela forma dramatúrgica de grande parte dos seus filmes; e a música, em particular, a partir dos sus filmes dos anos 90.
Resnais foi um dos maiores coleccionadores privados de banda desenhada em toda a França. Em Quero Ir Para Casa adapta uma obra do escritor e cartonista Jules Feiffer e quer trazer esta expressão artística para dentro do cinema. O filme centra-se na figura do veterano autor de banda desenhada norte americano Joey Wellman, que relutantemente resolve abandonar provisoriamente Cleveland, para se deslocar a Paris, a pretexto de uma exposição sobre a sua obra a decorrer na capital francesa. Move-o a curiosidade da homenagem num país que se encontra bastante longe das suas referências culturais, estritamente americanas; mas quer aproveitar para reencontrar a sua filha, que há dois anos estuda em Paris e que despreza o trabalho do pai que considera menor, face ao estudo dos clássicos literários franceses, especialmente Flaubert, a que se dedica. O filme gira em torno de duas linhas de força essenciais: uma de cariz social e antropológico sobre as diferenças entre as culturas francesa e americana; e a outra de natureza estética sobre as relações entre as diferentes artes e sobretudo a tentativa de desmistificação da ideia comum de que existem artes maiores e menores, sendo a literatura uma das primeiras e a banda desenhada empurrada para o grupo das menores. Sobretudo no que diz respeito ao primeiro tema, o filme é marcado por várias cenas de humor, com a estranheza de Joey Wellman face às diferenças entre hábitos entre franceses e americanos em coisas tão simples como a necessidade de aquisição de um cartão para se poder fazer chamadas telefónicas. Resnais estende a sua admiração pela banda desenhada à própria forma do filme, com a inserção de comics e com a inclusão de Adolph Kinder como protagonista e com a banda sonora assinada de John Kander, dois nomes maiores da cinema musical soa Estados Unidos.
Quero Ir Para Casa foi mal recebido pela crítica, embora tivesse algumas referências positivas no Festival de Veneza de 1989. Em muitos países nem chegou a ser estreado comercialmente e só o prestígio do realizador permitiu a sua recuperação para o mercado de vídeo. A primeira vez que vi achei-o desastroso e ainda hoje penso que é provavelmente o menos conseguido dos filmes de Alain Resnais. Mas um novo visionamento permitiu-me encontrar alguns méritos no filme que atenuaram a ideia inicial. A ideia de fazer uma comparação entre o valor intrínseco das diferentes formas de arte, comparando a literatura clássica francesa e o mundo da banda desenhada, é interessante, mas arriscada. E o risco, segundo o próprio Resnais, é que o mundo da banda desenhada, em particular o americano, não interessa particularmente ao público europeu e, aliás, pode ser considerado um tema demasiado distante dos temas mais sérios abordados nos filmes do realizador. Daí que ao insucesso do filme junto da crítica se deva acrescentar que foi um dos seus filmes menos apreciados pelo público em geral, com a agravante, para o público f
rancês de ser falado maioritariamente em inglês. Sem ser um mau filme (acho que a expressão «mau filme» nunca poderá ser aplicada a Resnais) está muito longe de ser entusiasmante e destina-se especialmente aos incondicionais do realizador.
* Texto de Jorge Saraiva
Não tenho o filme em condições, por isso este post não tem filme.

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