terça-feira, 19 de julho de 2016

Mélo (Mélo) 1986

Mélo (abreviatura de Melodrama) foi realizado por Alain Resnais a partir de uma peça de Henri Bernstein de 1929. A sua transposição cinematográfica teve várias versões, podendo a de Resnais ser considerada definitiva. É um filme que não pode ser dissociado do seu anterior, Amor Eterno, não só pela temática abordada (as relações entre o amor e a morte), mas também por alguns artifícios de realização semelhantes e ainda pela mesma presença dos mesmos quatro actores do filme que o precedeu. 
 Mélo é o filme de Alain Resnais que mais se aproxima do melodrama e quando o vemos não podemos deixar de evocar os grandes mestres do género, nomeadamente Douglas Sirk. Trata-se de uma enésima variação de um triângulo amoroso, com o vértice superior a ser desempenhado por Romaine (Sabine Azéma) dividida entre um marido que ama (Pierre - Pierre Arditti) e um amante (Marcel - André Dussolier) que não consegue abandonar. Os dois homens partilham uma antiga amizade forjada na aprendizagem musical que simultaneamente os aproximou e afastou. Pierre, homem modesto, compreende rapidamente as limitações do seu talento musical, enquanto que Marcel se torna num violinista famoso. A relação de intensa paixão entre os três, transporta-se de forma inebriada para todo o filme. Há aqui uma serena perversidade ao longo de toda a história. O marido enganado é a única personagem feliz. Desconhecendo a verdade. não sabendo da relação entre a sua mulher e o seu melhor amigo, Pierre é o único que tem a consciência tranquila. Marcel, pelo contrário, vive com o peso do remorso. A fama não lhe abranda a paixão, mas também o peso da culpa. E por isso, toda a sua relação com Romaine é tão irresistível, quanto infeliz. E também por isso, as frequentes digressões funcionam, em simultâneo, como um bálsamo e uma tortura, esta ambiguidade e duplicidade que perpassa em todo o filme e que se transforma no seu ponto central. O amor é sempre limitado pela moral, por mais transbordante que seja. Essa duplicidade reflecte-se de forma magistral em Romaine, a personagem central do filme. Estamos longe a heroína tradicional, tão abundante no cinema de Hollywood. Uma mulher indecisa, vacila a cada momento, enche-se de dúvidas. que paralisam a possibilidade de escolha. O peso da paixão esbarra com uma dedicação ao marido e o sentimento de que ele não merecia esta traição. Resnais aproveita de forma magistral os extraordinários diálogos, para criar um ambiente de tensão crescente, reforçada pelo extraordinário trabalho dos actores. Não chega, desta forma a ser surpreendente que Romaine, dilacerada pelas suas contradições internas, encontre no suicídio a forma de delas se libertar e encontrar a ansiada paz. Voltamos, tal como em Amor Eterno, a ter o suicídio como elemento central da estrutura argumentativa. Mas, ao contrário do filme anterior, Mélo é demasiado emotivo para grandes divagações filosóficas e por isso a justificação do suicídio encontra-se na própria trama do filme sem quaisquer explicações adicionais. Mélo termina de forma absolutamente brilhante. Finalmente atormentado pela sombra da dúvida, procurando uma explicação para um acto que não compreende, Pierre procura Marcel, três anos depois, para que este lhe revele a verdade. Marcel, mente-lhe, procurando nessa mentira uma expiação de uma culpa. Será ele o único a sofrer e o final em desespero resignado, em que ambos executam a peça musical preferida de Romaine, é disso o mais eloquente testemunho. 
Mélo é um dos mais belos filmes da história do cinema, no caso vertente da obra de Alain Resnais, talvez só superado por O Último Ano em Marienbad. É o seu filme mais próximo do teatro e vive tanto da beleza do texto, como da elegância da realização e do desempenho dos actores. Como quase sempre sucede em Resnais, que tinha capacidade de transformar em ouro todos os géneros em que tocava, estabeleceu o paradigma definitivo sobre o melodrama no cinema. 
*Texto do Jorge Saraiva
Legendas em inglês.

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