sexta-feira, 29 de julho de 2016

Amar, Beber e Cantar (Aimer, Boire et Chanter) 2014

Amar, Beber e Cantar é o filme derradeiro de Alain Resnais. Foi estreado no festival de Berlim de 2014, apenas três semanas antes da morte do cineasta, que já não esteve na capital alemã. O filme não foi entendido como uma intenção deliberada de fazer um filme final como sucedeu, por exemplo com Saraband de Ingmar Bergman ou Para Além Das Nuvens de Michelangelo Antonioni. Resnais já tinha planos para continuar a filmar, mas a morte não o permitiu.
Trata-se de uma terceira adaptação de uma peça do dramaturgo inglês Alan Ayckbourn, depois de Smoking/No Smoking e de Corações. Volta a contar com a colaboração de Laurent Herbiet no argumento, mas a adaptação de The Life of Riley (nome original da peça) é muito mais fiel ao original do que nas adaptações anteriores. Ainda em comparação com as outras duas adaptações de Ayckbourn, este Amar, Beber e Cantar, aproxima-se muito mais de um mero divertimento e de uma comédia: nem os finais alternativos a sugerir uma reflexão anti-determinista, como em Smoking/No Smoking, nem o tom sombrio e desolado das vidas transviadas de Corações. O mais curioso e interessante de Amar, Beber e Cantar é que gira em torno de George, uma personagem sempre presente, mas que nunca aparece no filme. Podemos dizer que é um filme sobre George, pela forma como é visto por três casais distintos, amigos entre si (ou quase) e a forma como se relacionaram com ele. Começamos por saber que a George foi diagnosticada uma doença terminal e que apenas lhe restam dois meses de vida. A partir daí vemos desfilar toda a história de George, contada pelos seus amigos e amigas e sentimos que ele é o único objecto das suas conversas. Constatamos de forma divertida, as rivalidades entre as três mulheres, todas evocando um passado misterioso em que parecem ter tido, todas elas, um caso com George e nos cuidados que lhe procuram prestar no presente. Conhecemos as viagens de George, a sua personalidade e os seus gostos e os ciúmes que provoca no sector masculino dos três casais. Através de George, desocultamos as relações entre os três casais que apenas parecem estar unidos pela sua omnipresença. Apesar da sua ligeireza e dos indesmentíveis momentos divertidos, ficamos a pensar se esta figura que nunca surge encarnada numa personagem, não remete antes de mais para um imaginário colectivo comum que atribui algum significado e cor às vidas sem graça destes três casais. A única presença física de George é dentro de um caixão fechado e já morto, com os amigos a despedirem-se. 
Mais uma vez Resnais mantém-se fiel à estrutura teatral dos seus filmes anteriores e ao artificialismo dos cenários de um filme mais uma vez rodado em estúdio, quase integralmente, embora não exactamente como o cineasta teria desejado devido aos elevados custos de produção. Dos habituais actores, mantêm-se apenas Sabine Azemá e André Dussolier, embora tanto Hippolyte Girardot como Michel Vuillermoz já tivessem colaborado com o realizador. O filme foi premiado em Berlim e teve, na generalidade, um bom acolhimento quer da crítica, quer do público, mas essa recepção favorável foi muito exponenciada pela morte do realizador. Claro que devido à sua idade avançada. não pode ser considerada uma surpresa, mas a frescura e jovialidade do seu cinema mais recente, levava-nos a pensar que o realizador, tal como a sua obra, poderiam ter o dom da imortalidade. Não sendo dos meus filmes preferidos de Resnais, não deixa de ser uma forma digna e entusiasmante de terminar uma carreira que não tem paralelo na história do cinema. 
* Texto do Jorge Saraiva

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