quarta-feira, 23 de maio de 2018

Os Olhos da Ásia (Os Olhos da Ásia) 1996

Padre japonês da Companhia de Jesus, Julião Nakaura foi, em 1583, um dos quatro jovens embaixadores enviados a Roma pelos Jesuítas, como prova da cristianização do Japão. Cinquenta anos depois dessa gloriosa embaixada, que tanto fascinou as cortes da Europa, Julião é forçado a dar, de novo, prova de fé, desta vez perante a obstinação da milícia e dos tribunais do Shogun, que o querem forçar à apostasia. Julião resiste e será Miguel Chijiwa, um dos seus companheiros de embaixada, que o conduzirá, tragicamente, ao martírio. Traído por Cristóvão Ferreira, que não aguenta o sofrimento da tortura, Julião morre ingloriamente... ou talvez não. Aos olhos da Ásia, Nakaura permanece um dos símbolos mais profundos e indecifráveis do diálogo surdo entre o Oriente e o Ocidente. Daí, a razão deste filme.
"O martírio de Nakamura Julião e a apostasia de Cristóvão Ferreira são dos episódios mais fascinantes das relações luso-nipónicas do século XVII. Três séculos depois, João Mário Grilo foi aí buscar o entrecho central do seu filme. É um feliz regresso do cineasta à prática do cinema, três anos depois de "O Fim do Mundo" - até porque "Os Olhos da Ásia" aborda uma questão assaz ausente do cinema português: a esfera religiosa. Na verdade, mais do que uma hagiografia martiriológica, interessa a João Mário Grilo avançar para o interior das questões de fé. As linhas finais do filme - de um Cristóvão Ferreira assimilado à cultura do Japão dirigindo-se ao "fantasma" de Julião mártir - são, a este respeito, lapidares: "Eram palavras, Julião, eram palavras".
Ao apresentar "Os Olhos da Ásia" perante o público de Locarno, o director do festival, Marco Muller, declarou que ele fora o único filme dos filmes seleccionados que o fizera chorar - o que dá bem a dimensão do impacto que a fita pode provocar. Até pela "ausência do único culpado - Deus", como frisou Jean Rouch numa intervenção entusiasmada no debate que se seguiu à projecção". Expresso 24-08-1996

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