1946. Um detective pitoresco investiga os assassinatos de três irmãs numa pequena ilha japonesa. Lá ele encontrará uma comunidade fechada e suspeita de forasteiros, na qual acontecem uma série de assassinatos planeados a sangue frio, e que estão para além da razão.
Kon Ichikawa a revisitar o nundo de Kosuke Kindaichi neste "The Devil´s Island". Era a terceira de cinco vezes que o faria, mas será o último filme da série que veremos neste ciclo. "The Devil´s Island" seria adaptado de uma forma confusa do segundo livro da série de Kindaichi, e passa-se alguns anos antes da adaptação anterior de Ichikawa, "The Devil´s Ballad". O facto de ambos os filmes se chamarem "The Devil´s" é pura coincidência.
Como nas duas adaptações anteriores de Kindaichi, Ichikawa mantém o cenário imeadiato no pós-guerra, embora desta vez a guerra seja anterior e de fundo, pois a nossa história passa-se em solo profano, uma ilha pirata que já foi o lar dos criminosos mais hediondos exilados do Japão. Como se pode supor, a história não está longe dos livros de Agatha Christie, e vale a pena pela curiosidade, e por também ter feito um enorme êxito nos cinemas japoneses da altura.
Kôsuke Kindaichi é um detective privado um tanto peculiar que está de visita a uma cidade isolada. Lá ele conhece um detective, e juntos começam a investigar um crime não resolvido com vinte anos, e, de repente, uma nova vaga de crimes começa a acontecer. Kindaichi deve descobrir o que aconteceu no passado, para saber quem é o assassino.
Kon Ichikawa regressa a Kôsuke Kindaichi o popular personagem de Seishi Yokomizo, depois do enorme sucesso do filme do ano anterior, "The Inugami Family". Kindaichi foi a estrela de 77 histórias diferentes e dezenas de adaptações cinematográficas, um detective inteligente mas humilde, uma vez mais interpretado por Kôji Ishizaka, em mais uma óptima representação.
Assemelha-se ao filme anterior em muitos aspectos. Muito confuso no início, envolvendo uma maldição antiga, uma música folclórica, antigas rivalidades familiares e duplas identidades. Depois de 40 minutos começa-se a cristalizar uma história envolvente, onde Ichikawa emprega alguns truques estilísticos e uma montagem abrupta, onde mantém os espectadores interessados dando à história alguns solavancos inesperados. Tal como no filme anterior, nem tudo é o que parece.
No que diz respeito aos filmes de mistério era uma obra muito à frente do seu tempo. A quantidade de factos e nomes que se deve processar nos primeiros 40 minutos é avassaladora, portanto a atenção aos detalhes é um pré-requisito muito importante.
O chefe da rica família Inugami morre, e deixa para trás um último desejo que vai desapontar quase toda a gente. O único beneficiário é uma jovem que não faz parte da família, mas há um problema: ela tem que se casar com um dos três netos do velho, e se não o fizer a herança será dividida entre os parentes mais próximos. Naturalmente, as pessoas começam a brigar, e algumas começam a ser mortas. É então que o nosso protagonista, o detective Kindaichi, entra em cena, só que toda a gente mente, e ninguém é o que diz ser...
Ao contrário de muitos dos seus contemporâneos, Kon Ichikawa foi capaz de continuar a trabalhar durante os turbulentos anos 70 e 80, porque estava pronto a assumir projectos puramente comerciais. O sucesso fenomenal e extremamente inesperado de "The Inugami Family" colocou-o numa posição privilegiada durante uns bons anos, durante os quais ele realizou mais quatro filmes interpretados por Kôji Ishizaka no papel do detective Kôsuke Kindaichi, personagem dos livros de Seishi Yokomizo, com cada filme a ser um sucesso comercial, em parte graças à grande estratégica de marketing de Haruki Kadokawa, o produtor, que se iniciava nas lides cinematográficas com o primeiro filme da série.
Um filme que é reminiscente dos trabalhos de Agatha Christie, mas mesmo que "The Unugami Family" seja sem dúvida parte do género de "detective", também há muito mais do que isso. O filme possui ainda elementos notáveis de terror, drama familiar, e até comentário social, mas o argumento inteligente à parte, é a realização de Ichikawa que o eleva acima dos outros do género, com a parte visual, principalmente, a ser deslumbrante.
Seguimos a vida de três amigos no degrau mais baixo da ordem social da Yakuza (muitas pessoas confundem este filme como sendo sobre 3 Ronin, mas definitivamente esse não é o caso, e fica claro na narração de abertura). Os três protagonistas são de facto toseinins, camponeses errantes que abandonaram a família e o lar por uma vida de aventuras e pequenos crimes, viajando entre as casas da Yakuza em busca de abrigo, trabalho e comida. O filme centra-se na vida de Genta, um jovem em conflito entre o desejo (da família e do amor) e a obrigação (para com o código da Yakuza).
"The Wanderers" pretende ridicularizar qualquer código, uma vez que códigos rígidos frequentemente comprometem a nossa própria moralidade e humanidade. A única personagem que realmente é mostrada a rejeitar um código é a jovem, Okumi, que foge do seu "dono" para ficar com Genta. Ela rejeita firmemente o papel que lhe é dado pelas regras da sociedade para fazer o que é certo, não só para si própria, mas também para os seus três amigos.
O filme foi lançado numa época em que o Japão buscava valores para orientar a sua juventude, e o código Yakuza era muito usado e oferecido como modelo nos filmes daquele período. O ponto principal de Ichikawa era de ridicularizar esses valores, mostrando a Yakuza como um bando de andarilhos de mente pobre, covardes indignos que seguem regras sem nunca as questionar. O ponto de vista de Ichikawa é esclarecido ao longo do filme, sem usar grande ênfase.
"As Olimpíadas de Tóquio" (Tokyo Orimpikku) é um documentário profundamente humanista de Kon Ichikawa sobre os Jogos Olímpicos de 1964, em Tóquio, no Japão, que esteve quase para não ser feito. Inicialmente rejeitado pelo Comité Olímpico Japonês por ser artístico demais, que procurava um documentário mais noticioso num estilo mais tradicional, focado nos vencedores de medalhas japoneses e na recém modernizada cidade de Tóquio, o documentário de Ichikawa acabou por se ver envolvido numa encruzilhada que se centrava num dos grandes paradoxos do cinema documental: o realizador está ali simplesmente para gravar, ou para interpretar?
Felizmente, a obra-prima de Ichikawa sobreviveu à provação que parecia um pouco ridícula, dada a natureza magnífica do filme. Não convencional, sim. Mas é essa natureza não convencional de Ichikawa que vem da sensibilidade única do realizador como cineasta japonês do pós-guerra, que torna o filme tão memorável e único. Todas as Olimpíadas encomendam um filme oficial, e a maioria deles são reportagens intercambiáveis sobre quem ganhou o quê. Poucos destes documentários chegam às Olimpíadas e comemoram não só o objectivo real dos jogos, reunir pessoas de todas as nacionalidades e etnias em competições de boa vontade, mas também mostram a humanidade dos competidores. As câmaras de Ichikawa procuram e elucidam não apenas atletas de grande talento, mas também as dolorosas dimensões humanas da competição, o que significa que o filme se foca nos perdedores com a mesma frequência que dos vencedores.
Visualmente o filme é uma maravilha das técnicas cinematográficas, muitas das quais eram inovadoras na altura naquilo que era aceitável para um documentário desportivo. Nunca satisfeito em apenas capturar o evento em filme, Ichikawa procurou transmitir mais minuciosamente a experiência das Olimpíadas. Por exemplo, ele emprega a câmara lenta durante as corridas, para que possamos ver todos os músculos dos atletas, a tensão nos seus rostos, o desejo nos seus olhos. Para fazer a transição para a ginástica ele dá-nos uma imagem abstrata de uma única ginasta contra um fundo preto, usando câmara lenta e múltiplas exposições para destacar ainda mais a beleza dos movimentos físicos.
Mas, de certa forma, o Comité Olimpíco Japonês estava absolutamente certo em rejeitar "Tokyo Orimpikku". Enquanto que eles queriam um documentário rigoroso e objectivo sobre o que aconteceu naqueles 17 dias em Tóquio, Ichikawa deu-lhes um poema visual e pessoal sobre a natureza humana. Quem ganhou com isso? Todos nós.
Este post já tem uns anitos. Cinco, para falar a verdade, mas hoje resolvi passa-lo para o topo porque muitos dos novos visitantes do blog talvez não o conheçam, e convém ser visitado de vez em quando para que os links não se percam. Disfrutem à vontade.
The Maltese Falcon (1941, John Huston) - ImdbLink
Double Indemnity (1944, Billy Wilder) - ImdbLink
The Big Sleep (1946, Howard Hawks) - ImdbLink
Sunset Boulevard (1950, Billy Wilder) - ImdbLink
The Third Man (1949, Carol Reed) - ImdbLink
M (1931, Fritz Lang) - ImdbLink
Notorious (1946, Alfred Hitchcock) - ImdbLink
Touch of Evil (1948, Orson Welles) - ImdbLink
Cris Cross (1949, Robert Siodmak) - ImdbLink
Strangers on a Train (1951, Alfred Hitchcock) - ImdbLink
Out of the Past (1947, Jacques Tourneur) - ImdbLink
The Big Combo (1955, Joseph H. Lewis) - ImdbLink
The Night of the Hunter (1955, Charles Laughton) - ImdbLink
The Killing (1956, Stanley Kubrick) - ImdbLink
Key Largo (1948, John Huston) - ImdbLink
The Killers (1946, Robert Siodmak) - ImdbLink
I Am a Fugitive From a Chain Gang (1932, Mervyn Le Roy) - ImdbLinkLegenda
Ace in the Hole (1951, Billy Wilder) - ImdbLink
Laura (1944, Otto Preminger) - ImdbLink
White Heat (1949, Raoul Walsh) - ImdbLink
The Lost Weekend (1945, Billy Wilder) - ImdbLink
Angels With Dirty Faces (1938, Michael Curtiz) - ImdbLink
Du Rififi Chez Les Hommes (1955, Jules Dassin) - ImdbLink
Sweet Smell of Success (Alexander Mackendrick) - ImdbLink
The Blue Dahlia (1946, George Marshall) - ImdbLink
Night and the City (1950, Jules Dassin) - ImdbLink
The Set-Up (1949, Robert Wise) - ImdbLinkLegenda
Scarface (1932, Howard Hawks) - ImdbLink
Shadow of a Doubt (1933, Alfred Hitchcock) - ImdbLink
The Big Heat (1953, Fritz Lang) - ImdbLink
The Asphalt Jungle (1950, John Huston) - ImdbLink
Nightmare Alley (1947, Edmund Goulding) ImdbLinkLegenda
Body and Soul (1947, Robert Rossen) - ImdbLink
In a Lonely Place (1950, Nicholas Ray) - ImdbLink
The Lady From Shangai (1947, Orson Welles) - ImdbLink
Ossessione (1943, Luchino Visconti) - ImdbLink
The Woman In the Window (1944, Fritz Lang) - ImdbLink
Pickup on South Street (1953, Samuel Fuller) - ImdbLink
Scarlet Street (1945, Fritz Lang) - ImdbLink
Kiss of Death (1947, Henry Hathaway) - ImdbLink
Gun Crazy (1950, Joseph H. Lewis) - ImdbLinkLegendas
Mildred Pierce (1945, Michael Curtiz) - ImdbLink
Where the Sidewalk Ends (1950, Otto Preminger) - ImdbLink
The Naked City (1948, Jules Dassin) - ImdbLink
Gilda (1946, Charles Vidor) - ImdbLink
Murder, My Sweet (1944, Edward Dmytryk) - ImdbLink
Kiss Me Deadly (1955, Robert Aldrich) - ImdbLink
Sudden Fear (1952, David Miller) - ImdbLink
This Gun for Hire (1942, Frank Tuttle) - ImdbLink
Dark Passage (1947, Delmer Daves) - ImdbLink
The Postman Always Rings Twice (1946, Tay Garnett) - ImdbLink
Fury (1936, Fritz Lang) - ImdbLink
Leave Her to Heaven (1945, John M. Stahl) - ImdbLink
D.O.A. (1950, Rudolph Mathé) - ImdbLink
Kansas City Confidential (1952, Phil Karlson) ImdbLink
Force of Evil (1948, Abraham Polonsky) ImdbLink
Crossfire (1947, Edward Dmytryk) - ImdbLink
The Strange Love of Martha Ivers (1946, Lewis Milestone) - ImdbLink
House of Strangers (1949, Joseph L. Mankiewicz) - ImdbLink
The Wrong Man (1956, Alfred Hitchcock) - ImdbLink
Odds Against Tomorrow (1959, Robert Wise) - ImdbLink
Raw Deal (1948, Anthony Mann) - ImdbLinkLegendas
Act of Violence (1948, Fred Zinnemann) - ImdbLink
The Stranger (1946, Orson Welles) - ImdbLink
You Only Live Once (1937, Fritz Lang) - ImdbLink
Angel Face (1952, Otto Preminger) - ImdbLink
Pitfall (1948, André de Toth) - ImdbLink
Detour (1945, Edgar G. Ulmer) - ImdbLink
On Dangerous Ground (1951, Nicholas Ray) ImdbLink
Panic in the Streets (1950, Elia Kazan) - ImdbLink
Human Desire (1954, Fritz Lang) - ImdbLink
Fallen Angel (1945, Otto Preminger) - ImdbLink
Cry of the City (1948, Robert Siodmak) - ImdbLink
Dead Reckoning (1947, John Cromwell) - ImdbLink
T-Men (1947, Anthony Mann) - ImdbLink
Party Girl (1958, Nicholas Ray) - ImdbLink
Clash By Night (1952, Fritz Lang) - ImdbLink
Mystery Street (1950, John Sturges) - ImdbLink
Niagara (1953, Henry Hathaway) - ImdbLink
While the City Sleeps (1956, Fritz Lang) - ImdbLink
Beyond a Resonable Doubt (1956, Fritz Lang) ImdbLink
The Big Steal (1949, Don Siegel) - ImdbLink
Black Angel (1946, Roy William Neill) - ImdbLink
Born to Kill (1947, Robert Wise) - ImdbLink
Brute Force (1947, Jules Dassin) - ImdbLink
Call Northside 777 (1948, Henry Hathaway) - ImdbLink
Caugh (1949, Max Ophüls) - ImdbLink Cry Danger (1951, Robert Parish) - ImdbLink Follow Me Quietly (1949, Richard Fleischer) - ImdbLink Journey Into Fear (1943, Norman Foster) - ImdbLink Lady in the Lake (1947, Robert Montgomery) - ImdbLink My Name is Julia Ross (1945, Joseph H. Lewis) - ImdbLink Nightfall (1957, Jacques Tourneur) - ImdbLink Pushover (1954, Richard Quine) - ImdbLink The Shanghai Gesture (1941, Josef Von Sternberg) - ImdbLink Side Street (1949, Anthony Mann) - ImdbLink Stranger on the Third Floor (1940, Boris Ingster) - ImdbLink The Dark Corner (1946, Henry Hathaway) - ImdbLink The Hitch-Hiker (1953, Ida Lupino) - ImdbLink The Mob (1951, Robert Parish) - ImdbLink The Seventh Victim (1943, Mark Robson) - ImdbLink They Live by Night (1946, Nicholas Ray) - ImdbLink Thieves Highway (1949, Jules Dassin) - ImdbLink Whirpool (1949, Otto Preminger) - ImdbLink
Boomerang (1947, Elia Kazan) - ImdbLink Detective Story (1951, William Wyler) - ImdbLink House of Bamboo (1955, Samuel Fuller) - ImdbLink House by the River (1950, Fritz Lang) - ImdbLink Killer's Kiss (1955, Stanley Kubrick) - ImdbLink Kiss Tomorrow Goodbye (1950, Gordon Douglas) - ImdbLink Railroaded (1947, Anthony Mann) - ImdbLink Secret Beyond the Door... (1948, Fritz Lang) - ImdbLink Shock (1946, Alfred L. Werker) - ImdbLink Suddenly (1954, Lewis Allen) - ImdbLink The Big Clock (1948, John Farrow) - ImdbLink The Blue Gardenia (1953, Fritz Lang) - ImdbLink The Desperate Hours (1955, William Wyler) - ImdbLink The Glass Key (1942, Staurt Heisler) - ImdbLink The Letter (1940, William Wyler) - ImdbLink The Reckless Moment (1949, Max Ophüls) - ImdbLink The Spiral Staircase (1945, Robert Siodmak) - ImdbLink The Unsuspected (1945, Michael Curtiz) - ImdbLink The House on 92nd Street (1945, Henry Hathaway) - ImdbLink The Racket (1951, John Cromwell) - ImdbLink
Kon Ichikawa a homenagear o grande Kabuki onnagata Kasuo Hasegawa, que comemorava aqui a sua 300ª aparição no cinema, com um papel especialmente concebido para ele. Kabuki é um dos estilos clássicos de teatro no Japão, que era conhecido por não usar mulheres nos papéis femininos, mas sim actores masculinos altamente treinados, chamados de "onnagata", e que por vezes eram mais convincentes do que muitas mulheres.
Nesta história, passada em 1836, Yukinojo (Kasuo Hasegawa) é um "onnagata" a viajar para Edo vestido de mulher. Na viagem reconhece três comerciantes implacáveis que arruinaram o negócio do pais, levando-os ao suicídio. Empenhado em vingar a morte dos pais, segue-os, e com a ajuda de um misterioso bandido chamado Yamitaro (interpretado pelo mesmo Hasegawa), irá tentar cumprir a promessa, mesmo que isso signifique a destruição da filha de um dos comerciantes, que se apaixona por ele.
Kon Ichikawa foi designado para realizar este filme, um remake de um outro de 1935 também com Hasegawa como protagonista, como punição pelos fracassos comerciais dos seus filmes mais recentes. Ainda assim acabou por se tornar num dos filmes mais marcantes do realizador. O filme começa e acaba num teatro, reservando o seu conto de vingança com performances, e colocando o público num lugar confortável para nos lembrar que tudo aquilo é entretenimento, e assim deve ser desfrutado. Com reviravoltas lúdicas e visuais audaciosos, é um filme a não perder.
Kenichi Horie está determinado a desafiar a sua família e as leis da natureza atravessando do Pacífico para a América num pequeno veleiro. Apesar de ter feito um planeamento muito cuidadoso, muitos eventos imprevistos irão testar a sua determinação.
Em 1962, quando o jovem Horie Kenichi completou a primeira viagem marítima pelo Oceano Pacífico, entre Osaka e São Francisco, uma viagem feita num barco sem motor, e com pouca experiência em navegação, as reacções no seu país de origem foram de rejeição, e até vergonha. No Japão da época, as crenças colectivas eram de que nenhum indivíduo deveria perturbar a harmonia de todos, e ao entrar secretamente em tal viagem, sem obter permissão oficial, as acções de Horie eram vistas não como heroicas, mas como acções de um maluco. Era uma conquista vista de um modo diferente por ambas as sociedades, nos Estados Unidos a acção de Horie foi amplamente divulgada e muito celebrada, embora ele tenha sido inicialmente preso por não ter passaporte, mas foi rapidamente libertado e recebeu um visto para um período de 30 dias.
No regresso ao país de origem Horie escreveu um livro sobre a sua aventura marítima, que foi prontamente adaptada para o cinema pelo casal Kon Ichikawa e a argumentista Natto Wada, sua esposa. O filme acabou por conquistar o público de uma forma de que o evento original não o fez, talvez pela forma como o filme é contado, num formato mais associado à aventura e à ficção, com um papel central entregue ao actor Yûjirû Ishihara, um actor que tinha tendência a interpretar psersonagens que perseguiam os seu sonhos, desafiando as regras e a aprovação da sociedade, algo que estava bem identificado com o personagem centrar deste filme.
A maior parte do filme é ocupado pela jornada em si, cuja história de um homem num barco é interrompida por flashbacks de Horie e os preparativos para a viagem, e as conversas com os membros da sua família sobre as suas intenções. Cinematograficamente a natureza épica da viagem é contada com muita eficácia, principalmente com um óptimo trabalho de fotografia da autoria de Yoshihiro Yamazaki.
Seria nomeado para o Globo de Ouro de Melhor filme estrangeiro de 1964, além de ter feito parte da Seleção oficial de Cannes desse mesmo ano.
Hoje os Thousand Movies completam o bonito número de 11 anos. 11 anos a passar filmes para todos vós, uma longa luta que parece não ter fim.
Nesta data especial tenho um pequeno presente para vós, um filme que se estreia hoje online, e que foi co-realizado pelo José Oliveira, a Marta Ramos e o Mário Fernandes. Três velhos amigos aqui deste sitio que em 2012 fizeram este documentário sobre o realizador Manuel Mozos, outro nome bem respeitado aqui por este local.
O nome deste documentário reflete bastante bem o que se passa por aqui: "Times are Changing, Not Me". A verdade é que ao longo deste tempo as coisas não mudaram muito por aqui, mas provavelmente é preciso um espaço assim, e eu acredito no que faço, por isso tenho mantido as coisas sempre assim.
Sobre este filme, o José Oliveira disse o seguinte: "Esta frase é do Pat Garrett & Billy the Kid (Duelo na Poeira, 1973) e resume um pouco o cinema do Mozos, esta relação de resistência. Isto apesar do Xavier, por exemplo, ser um filme completamente moderno, pois está sempre a extravasar, a inventar coisas novas, aquele travelling na Alameda, a construção coral das várias personagens que se cruzam com o Xavier, aquele rodopio. E depois a câmara e a montagem do Manuel vão sempre atrás daquilo com relações ultra complexas. Mas apesar de tudo já ninguém filma assim, ou pouca gente. “Times are changing but not me” é uma crença que se podem ainda utilizar muitas coisas do passado, de um grande cinema, que o Mozos viveu. O Mozos num texto magnifico sobre o Peckinpah fala disso, das grandes salas de cinema, que os filmes dele só se poderiam ver em salas monumentais, com ecrãs monumentais, com cadeiras todas partidas, com a película a partir no meio do filme. Um grande cinema que ele conheceu, esse ritual, essa experiência religiosa de ir ao cinema. Hoje vemos os filmes nos shoppings ou na internet, são novas maneiras. Mas ver o cinema nessas condições do passado importa para muitas coisas. Por exemplo, vês hoje um filme do Manuel ou do Pedro Costa, que viveram esta forma de fazer e ver o cinema, e reparas como as escalas de planos, os detalhes, como se filma um rosto, um corpo, tudo é diferente por causa dessa experiência que tiveram. Por outro lado, a geração de hoje já não filma dessa maneira pois sabe que a dimensão do ecrã em que vamos ver o seu filme é menor. As escalas vão diminuindo ou vão sendo mais dispersas."
Optem sempre por verem os filmes numa sala de cinema, sempre que for possível. Quando não for possível, sabem onde podem vir ter.
Gorô e Chiyo são marido e esposa, com um filho recém nascido chamado Tarô passam pelos altos e baixos de uma vida familiar a viverem num moderno apartamento nos subúrbios de Tóquio. A sua história é contada nos primeiros dois anos de vida de Tarô, e muitos dos seus problemas resultam do facto de Gorô e Chiyo estarem inseguros como pais, principalmente por causa das suas diferentes perspetivas da sua vida futura como pais. Ouvimos a perspetiva de Tarô, através da sua voz interior, e também a vemos através dos olhos dos seus pais.
Muitos anos antes da série de filmes "Look Who´s Talking", Kon Ichikawa já tinha um bébé narrador, menos sarcástico, a relatar as frustrações da criação dos filhos pelos seus pais. O bébé é ouvido frequentemente, mas de forma alguma fornece a narração continua.
Filme simples e doce sobre os primeiros anos de vida de uma criança. Por vezes faz rir (principalmente nas narrações da criança), e por vezes é provocante, mas é um óptimo retrato do que era a vida de ser pai, principalmente durante a década de sessenta.
Kaze é um produtor de televisão casado, que tem várias namoradas ao mesmo tempo, para além da sua esposa. Elas reúnem-se todas com o objectivo de conspirar contra ele e matá-lo, no entanto, cada uma delas pretende secretamente salvá-lo no último momento, e garantir ser ela a única mulher da sua vida. Escusado será dizer que, quando chega a hora do crime acontecer, as coisas ficam realmente complicadas.
Kon Ichikawa, comentarista dos seus tempos, volta o seu olhar irónico para o sexismo inerente da década de sessenta, com uma farsa sobre um marido mulherengo de repente confrontado com a decepção das suas amantes, que de repente se uniram só com um objectivo em mente - a sua morte. Com argumento de Natto Wadda, esposa do realizador e sua colaboradora frequente, até se retirar em 1965, "Ten Dark Women" é uma comédia absurda e tímida sobre 10 mulheres que amam tanto um homem que até o querem ver morto, ou, pelo menos, não com as outras.
Nos anos sessenta o termo "comédia negra" tornou-se popular nos cinemas americanos, e é por aqui que este filme se qualificaria. Mas, aqui, ao remover o factor raiva ou vingança da história, também é removido todo o melodrama, e o filme também não funciona como uma comédia. Ninguém age da forma que é esperado, dado a configuração da trama. Sendo um pouco diferente da orientação cinematográfica de Ichikawa, é também um filme bastante interessante.
Passado em 1926, quando a tradição japonesa era muito mais forte, este drama de Kon Ichikawa analisa o funcionamento interno de uma família japonesa padrão, principalmente a relação entre uma irmã e um irmão.
"Ototo" é principalmente uma fatia da vida japonesa que se concentra nos valores e tradições familiares. O cuidado incondicional e o amor pela ovelha negra da família que causou problemas até ao fim, embora não sem frustrações nem sentimentos negativos, é muito impressionante.
O filme tem muito melodrama e uma velocidade muito lenta, além de vários enredos secundários que nem lhe fazem muita falta. Felizmente a recompensa vinda deste filme é gratificante, e em certos momentos "Ototo" é um trabalho esmagadoramente emocionante, mas é muito verdade que os acontecimentos aqui retratados podem acontecer a qualquer família.
Exibido no festival de Cannes de 1961, ganhou uma menção especial.
Um conjunto de três contos sobre mulheres modernas, realizados por realizadores diferentes. Na primeira história (de Yasuzô Masumura) encontramos uma jovem mulher que trabalha num clube nocturno em Tóquio. Ela tem um bom plano para o que parece ser um futuro financeiro forte. Por um lado, está a investir numa empresa, por outro está a tomar medidas para casar com o filho do dono da empresa. Na segunda história, (de Kon Ichikawa), uma jovem é empregada por um agente imobiliário para convencer clientes do sexo masculino a investirem em propriedades sem valor, tomando banho com eles. Na última, de Kôzaburô Yoshimura, encontramos uma gueixa viúva sem preocupações financeiras, mas ao se envolver com um falsário acaba por ter problemas na família e na sociedade.
Um excelente filme antológico composto por três histórias decididamente não sentimentais, sobre a luta de três mulheres modernas. Apesar de já terem passado quase 60 anos da sua produção parece um filme notavelmente moderno na sua representação de mulheres a fazerem o seu próprio caminho no mundo, e a sua franqueza sexual. Fraqueza essa muito à frente da maioria dos filmes americanos da altura.
Kon Ichikawa colaborou nesta trilogia com a segunda história.
Tamura (Eiji Funakoshi), o herói de "Fogo na Planície", de Kon Ichikawa, pode ser o herói mais solitário da história do cinema. Mais solitário do que os peregrinos espirituais de Bresson, Bergman ou Dreyer. É um soldado de um exército que, na derrota, lhe virou as costas.
Estamos em 1945, na ilha de Leyte, nas Filipinas. As forças do Japão foram tão derrotadas que abandonaram qualquer pretensão de solidariedade e camaradagem, da responsabilidade básica dos homens em guerra se protegerem mutuamente. Na primeira cena do filme, Tamara, um soldado com tuberculose, que foi dispensado, ainda doente, de um hospital da campanha, porque não há espaço suficiente para os doentes e a equipas de médicos, é informado pelo seu líder de esquadrão que deve regressar ao hospital, porque a sua própria unidade não tem forma de sustentá-lo naquele estado de debilidade. E mais, se o hospital não o receber de volta, ele deve se matar.
Depois desta sequência pesada, Tamura inicia uma viagem através de uma paisagem inimaginavelmente hostil. O exército americano controla as estradas, os filipinos odeiam os japoneses por terem transformado os seus terrenos num campo de batalha. E os colegas soldados de Tamura estão tão desesperados e famintos que alguns, numa total retirada de toda a sua humanidade, recuam para a linha que separa a humanidade da selvajaria, e matam outros homens por comida.
No livro de 1952, de Shohei Ooka, no qual este filme se baseia, Tamura reflecte: "Para pessoas como nós, viver o dia e a noite à beira do perigo, o instinto normal de sobrevivência parece atacar por dentro, como uma doença, distorcendo a personalidade e removendo todos os motivos que não sejam do puro interesse próprio". Tamura, consumista, faminto, e muitas vezes delirante, perambula numa espécie de atordoamento moral. Ele sabe que está no Inferno, mas não está pronto para se alistar no exército dos condenados, e enquanto luta contra o inimigo também está a lutar contra o inimigo voraz que tem dentro de si.
"Fogo na Planície" é, naturalmente, um filme antiguerra. Um dos mais persuasivos e poderosos de todos os tempos. Mas também é mais do que isso: não apenas uma série de quadros vívidos e chocantes, mas também uma investigação lúcida e estranhamente pura sobre os misteriosos trabalhos da vontade humana. Todos os homens são ilhas, e Ichikawa faz com que as distâncias entre elas pareçam incrivelmente vastas. É um visão íntima e incrivelmente clara do apocalipse.
Um velho especialista em antiguidades (Ganjiro Nakamura), de Kyoto, no Japão, tenta ressuscitar a sua virilidade em decadência, ao apresentar a sua linda e mais nova esposa (Machiko Kyo), ao namorado da filha (Tatsuya Nakadai).
"Odd Obsession", como é conhecido internacionalmente, de Kon Ichikawa, seria a primeira de muitas adaptações para o grande ecrã do livro de Tanizaki, "Kagi", cujo assunto seria irresistível para muitos realizadores dos chamados "pinku movies", filmes com uma grande carga sexual, assim como fonte para um dos melhores filmes de Tinto Brass. É um filme extremamente perverso, até pervertido, ainda por cima feito debaixo da censura vigente em 1959.
Mas os filmes japoneses eram muito mais abertos do que os americanos quando o assunto era o sexo, durante o final da década de cinquenta, tanto que seria comercializado em 1961 com o slogan: "the most daring motion picture ever made". Mas não era um filme sobre nudez, ou sexo dissimulado, o sexo aqui era uma obsessão, mas também era uma arma e uma armadilha para todos os personagens envolvidos.
Como as motivações das personagens nunca são claras, nunca sabemos o que esperar delas, e assim, ficamos em suspenso do principio ao fim. A personagem de Kyo é particularmente inescrutável, nunca sabemos o quanto ela sabe dos planos do marido, e o argumento do filme nunca nos deixa prever o que se passa pela sua cabeça, ao contrário do livro, que vai alternando entre a narração do marido e da mulher.
Por esta altura Ichikawa já gozava de enorme sucesso internacional. O filme ganhou o grande prémio do Júri no Festival de Cannes de 1960, e ganhou o Globo de Ouro de Melhor Filme em Língua Estrangeira, que partilhou em conjunto com outros 4 filmes, entre os quais "Morangos Silvestres" e "Orfeu Negro".
Vagamente baseado num livro de Yukio Mishima, que por sua vez era inspirado num evento real que chocou a nação em 1950, "Enjo" detalha as dificuldades e a desilusão de Goichi, um jovem gago enviado para servir no templo mais famoso de Kioto, e do Japão. O seu pai era um padre muito fraco, a sua mãe uma mulher adúltera, para não deixar de mencionar que cresceu durante a Segunda Guerra Mundial, e tudo isto isto já eram razões suficientes para o jovem crescer com problemas emocionais. Apesar dos outros estagiários gozarem com ele por causa da gaguez, a dedicação e a devoção de Goichi chamam a atenção do padre chefe, que lhe quer pagar uma educação adicional. Mesmo assim, Goichi logo descobre que esse padre também está longe de ser perfeito, aparentemente mais interessado na sua gueixa e ganhar tanto dinheiro quanto possível dos visitantes do tempo, principalmente dos turistas americanos, do que fazer os seus deveres.
Não encontrando nenhuma forma de expressar o seu tumulto interior, ele queima o templo. É aqui que vamos encontrar este nosso filme. Através de uma série de flashbacks, enquadrados com um interrogatório policial, desvendamos a história da sua obsessão com o templo, desde a sua juventude.
Raizô Ichikawa ganhou o prémio de Melhor Actor no Festival de Veneza, no papel do perturbado Goichi, que o catapultava para lá das fronteiras do ídolo adolescente que era na altura, enquanto que Tatsuya Nakadai, que viria a ser um dos actores mais importantes do cinema japonês, se revelava aqui no papel de um aleijado. Era o primeiro filme de Kon Ichikawa em Widescreen, e mais uma maravilha a preto e branco, trabalho de Kazuo Miyagawa, director de fotografia de "Ugetsu" "Rashomon", e "Yojimbo", que aqui também fazia o seu primeiro trabalho em Widescreen.
Ichikawa contra a história de uma forma facturada e onírica, com o filme a passar de um período para outro sem aviso prévio. As memórias de Goichi tornam-se mais díspares e intensamente focadas à medida que a sua saúde espiritual se deteriora. Ichikawa tenta capturar um pouco da claustrofobia interna de Goichi através da arquitectura opressiva do ambiente do templo, mas não consegue se aproximar do senso de pavor do livro de Mishima. "Enjo" é a dissecação da auto-imolação de um homem da sua própria desintegração espiritual, mas é também uma condenação do mundo moderno corrupto que permite que tal poluição aconteça.
Katsumi é um estudante universitário que não tem respeito nem pelos seus pais trabalhadores, nem pelos professores, nem mesmo pelos amigos. Ajuda um amigo a obter um financiamento para uma dança, humilhando o seu pai no banco onde este trabalha. Depois droga e viola Akiko, uma das suas colegas estudantes, que se apaixona por ele, embora ele pareça indiferente. Ele gosta de incitar um gang rival num salão de bilhar, mas acabar por ir longe demais a tentar provar a sua coragem…
Tal como "Rebel Without a Cause", "Kids", e outros filmes populares sobre adolescentes em fúria que mostram os jovens a portarem-se muito, muito mal, "Punishment Room" causou um enorme tumulto quando foi estreado no Japão. Os conservadores tentaram bani-lo, organizaram piquetes junto dos salas onde o filme era exibido, para além dos debates públicos que tentavam salientar os seus deméritos. Mas ao contrário de outros filmes que perderam muito do seu impacto ao longo do tempo, este mantém toda a sua brutalidade. A sequência onde o protagonista viola a sua colega estudante ainda é chocante, mas ainda mais interessante é a resposta da jovem. E a prolongada sequência final, de onde provém o título internacional do filme, pode muito bem ter servido de inspiração para uma famosa sequência de "Reservoir Dogs", de Tarantino.
Mas, para lá do valor da violência e do choque, a importância de "Punishment Room" reside no seu estilo duro e impiedoso. A realização habilidosa de Ichikawa e o estilo niilista construídos em cenários pouco iluminados, centrados em jovens desencantados, levaram o filme a ser uma importante influência para a chamada "Nova Vaga" do cinema japonês, da qual fariam parte filmes como "Cruel Story of Youth", de Nagisa Oshima. Este filme também seria do mesmo ano que "Crazed Fruit", de Kô Nakahira, considerado o primeiro filme desse movimento, e que já passou pelos Thousand Movies, para os mais atentos.
Mizushima é um soldado no exército japonês em Bruma, na Segunda Guerra Mundial. É um bom soldado, e frequentemente toca a sua harpa para entreter os seus colegas soldados. Quando a guerra chega ao fim, é solicitado pelos ingleses para ir para as montanhas tentar convencer um grupo de soldados a renderem-se. Com apenas 30 minutos para o fazer, acaba por não ter sucesso, e eles preferem morrer com honra do que serem aprisionados. Mizushima fica profundamente afectado pelo que acontece a seguir…
Adaptação de um célebre livro de Takeyama Michio, de 1948, um escritor que se opôs abertamente à aliança que o Japão fez com a Itália e a Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial. Foi um filme muito importante por uma série de razões: tornou-se um grande sucesso em território japonês; ganhou vários prémios no Festival de Veneza de 1956, onde também foi nomeado para o Leão de Ouro, o prémio mais importante do festival (o festival nesse ano não teve vencedor); foi nomeado para o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1957 (perdeu para "A Estrada", de Fellini), trazendo o nome de Ichikawa, então um desconhecido internacionalmente, para a ribalta. Também humanizou o soldado japonês comum para um público internacional, que então os via como uns fanáticos pela "vitória ou morte", a serem mortos. Para o público caseiro este retrato foi bem aceite pelos japoneses, aceitando a derrota, enfrentando as suas perdas, sem ousarem sugerir que, em situações extremas, lutar até ao ultimo homem não era uma boa alternativa para a rendição.
"The Burmese Harp" é um retrato humanista do pós-guerra no seu melhor, examinando as consequências da guerra e o processo de ultrapassar a derrota sem se sentir algum preconceito ou sendo excessivamente sentimental, apensar de sentirmos que poderá mergulhar em ambos os pontos. O foco no carácter e na universalidade dos principais elementos da história faz com que o seu sucesso internacional seja menos surpreendente, mas há muito mais no filme do que a sinopse possa antever, desde o simbolismo, alegoria religiosa, e continua a ser uma das grandes obras pacificas do período pós guerra.
Japão: 1912. Nobuchi é casado com Shizu, e aparentemente são um casal normal e feliz. No entanto, por baixo desta máscara de felicidade aparente há uma infelicidade reprimida que está de alguma forma relacionada com a morte, quinze anos atrás, do amigo de Nobuchi, Kaji. Desde então, Nobuchi estudou extensivamente mas nunca encontrou emprego, e sente que não tem mais nada a dar ao mundo do trabalho. Enquanto se prepara para visitar o túmulo do amigo mais uma vez, a sua esposa pergunta-lhe porque não pode acompanhá-lo, ao que ele responde agressivamente. Desta vez ele vai contar a um jovem de 23 anos chamado Hioki, que lhe chama de "sensei", sobre o segredo da sua vida, uma história sobre cíumes, traição, vergonha e culpa.
Vamos apanhar Kon Ichikawa já no nono ano da sua carreira, mas vamos mesmo ter de começar por aqui porque os seus filmes anteriores não têm legendas. Um ano depois ele viria a realizar duas das suas obras primas, "Punishment Room" e "A Harpa Birmanesa". Na verdade, "Kokoro" tem algumas semelhanças com este segundo filme. Ambos apresentam um mistério psicológico e gradualmente vão revelando o que trouxe a personagem principal ao seu estado actual. As pistas são nos atiradas, mas abertas a diferentes interpretações. Falar mais sobre o que é dito sobre o passado de Nobuchi roubaria a experiência de tê-lo descoberto de forma tão elegante. Através de flashbacks vamos ficar a saber a natureza de como Nobuchi conheceu Hioki, e depois vamos explorar o passado do protagonista.
Os personagens são sempre o foco da câmara de Ichikawa (aqui com dois directores de fotografia: Fujioka Kumenobu e Ito Takeo), para examinar as expressões faciais das emoções reprimidas. Quando a câmara se move, ela faz isso com propósito, viajando com os personagens enquanto eles se movem para que possamos continuar a observar as suas expressões enquanto falam.
O filme é baseado no livro de um famoso autor japonês chamado Natsume Soseki e explora os temas do isolamento individual e a alienação social, principalmente no protagonista central, atingido por demónios existenciais e preso pelas mudanças dos tempos.
A gama ousada de temas abordados e a versatilidade estilística de Kon Ichikawa seriam uma importante fonte de influência para qualquer realizador nascido no Japão do século XX. Ao longo da sua longa carreira, que se espalhou desde os anos 40 do século vinte até ao novo milénio, abordou várias temáticas dentro dos seus filmes: a juventude em fúria ("Punishment Room", 1956), filmes de guerra brutais ("The Burmese Harp", 1956, e "Fires on the Plain", 1959), thrillers ("The Pit", 1957, e, "The Inugamis", 1976), sátiras domésticas negras ("Odd Obsession", 1959, e "The Makioka Sisters", 1983), dramas de período ("An Actor´s Revenge", 1962), o documentário ("Tokyo Olympiad", 1965, dramas de samurais ("The Wanderers" 1973), e muito mais. O seu elevado ecletismo, contudo, talvez tenha abrandado a sua entrada na lista dos grandes autores de cinema japoneses, e por isso, foi feita uma retrospectiva dos seus filmes em 2001, na Cinemateca de Ontário por James Quandt, de forma a dar a conhecer a sua filmografia. Até então era pouco reconhecido fora do Japão.
Ichikawa foi treinado como animador. A sua obra de estreia, em 1946, era um filme de marionetas, e as storyboards eram uma das componentes principais na produção dos seus filmes em acção real. Mas ele preferia filmar em exteriores, as suas imagens em widescreen muitas vezes mostram uma enorme sintonia entre as paisagens e as estações do tempo.
A sua esposa, Natto Wada, escreveu a adaptação cinematográfica que viria a catapultar a sua carreira, "Punishment Room", baseado num livro do autor de culto Shintarô Ishihara, e que viria a ser uma das obras mais importantes mais importantes dos anos 50 e 60, da cultura japonesa.
Dos realizadores japoneses que gozam de uma reputação internacional, Ichikawa é talvez o menos conhecido e o menos compreendido. Muitos rejeitaram-no como se ele fosse apenas um ilustrador, mas os seus filmes embora não tivessem uma integridade óbvia, como nos casos de Ozu, Mizoguchi ou Kurosawa, a sua variedade extensa desmente os mais cépticos.
Na verdade, Ichikawa trabalhou sempre sob pressões diferentes dos outros mestres japoneses. As pressões comerciais que ele enfrentou eram mais fortes do que a dos seus contemporâneos, está registado que alguns dos seus filmes foram-lhe impostos pelo estúdio em vingança pelos fracassos dos seus filmes mais pessoais. No entanto, ele conseguia sempre impor o seu estilo, mesmo nos filmes mais comerciais.
Durante este mês de Agosto, vamos então conhecer a carreira deste realizador. Não iremos ver os seus quase noventa filmes, mas tenho para vós uma selecção das suas obras mais essenciais. Serão 22 obras, incluindo o documentário que poderão ver já hoje. Infelizmente a maioria dos filmes terão legendas em inglês, porque foi, de todo, impossível arranjá-los com legendas em português. Mas sempre que possível terão legendas em português.
Começamos então pelo documentário "Ichikawa Kon Monogatari" 2006, com legendas em inglês.