sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

2016 - Um ano em ciclos

Termina assim mais um ano de cinema nos Thousand Movies, o oitavo a partilhar filmes.
Estes foram os 17 ciclos realizados durante 2016, mesmo tendo em conta que o de Fassbinder começou ainda em 2015.

- Fassbinder Integral: I Don´t Just Want Me to Love Me
- Solidão
- Raoul Walsh - Parte 3
- Novo Cinema Português
- Richard Harris
- Dostoiévski no Cinema
- New Wave Russa
- Coppola - O Início
- O Film Noir Japonês
- Reviver Cannes 1982
- Resnais - de Fio a Pavio
- Tennessee Williams no Cinema
- Valerio Zurlini
- A Primeira Divisão dos Spaghetti Westerns
- Play it Again, Nicholas Ray
- O Tempo do VHS
- Jerzy Kawalerowicz 

Aqui não houve melhores nem piores do ano. Todos foram partilhados com o mesmo carinho e atenção. Para o ano haverá muito mais, esperemos nós.

E eu espero que este 2016 no M2TM tenha valido a pena. Boas entradas em 2017.

Quo Vadis? (Quo Vadis?) 2001

Marcus Vinicius (Pawel Delag), um alto oficial militar romano, apaixona-se pela filha do rei, Lygia (Magdalena Mielcarz). Ela foi feita refém por Nero, mas goza da protecção do tio de Marcus, Petronius (Boguslaw Linda), que representa a epítome da civilização romana (ele foi o autor de "Satyricon"), e é habilidoso o suficiente para ser o único homem de confiança do cada vez mais perturbado Nero. Marcus comete o erro de exigir Lygia como sua concubina, apesar da sua atração mútua, mas ela não pode aceitá-lo nestes termos...
O veterano Jerzy Kawalerowicz, aos 79 anos, faz uma versão extremamente elaborada do famoso livro de Sienkiewicz, "Quo Vadis?", que já tinha visto várias versões, sendo este considerado o filme mais caro de sempre do cinema polaco. Teve um orçamento de 18 milhões de dólares, que era superior a muitas produções de Hollywood da altura. Por exemplo, "The Silence of the Lambs", de Jonathan Demme, teve apenas mais um milhão de budget.
A história conheceu diversas versões cinematográficas, com a mais famosa a ser a de Hollywood, realizada por  Mervin LeRoy em 1951, e com Robert Taylor e Deborah Kerr nos principais papéis. Esta seria a quinta versão da história, e Kawalerowicz sonhava realizá-la há 35 anos, porque sentia que as versões anteriores não feito justiça suficiente ao estilo e conteúdo do livro. Figurinos, cenários, e efeitos especiais muito realistas, transformam o filme numa tentativa credível de permanecer fiel aos eventos históricos e pessoas em que se baseia.  

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Austeria (Austeria) 1982

Verão de 1914. Primeiro dia e noite da grande guerra. Um grupo de refugiados judeus encontra-se preso numa pousada fronteiriça: representantes da rica burguesia e dos camponeses pobres, radicais políticos e radicais religiosos...Um confronto das atitudes das pessoas numa situação de incerteza e perigo. Apenas Tag, o velho e sensato porteiro, mantém uma calma estoica. Com os seus dons para o drama psicológico íntimo Jerzy Kawalerowicz pinta um retrato vivo de um mundo desaparecido, os judeus polacos com as suas crenças, tradições, e humor original...
Debaixo do regime Comunista na Polónia (1944-1989) não havia uma livre discussão sobre etnias ou minorias: não só sobre os Judeus e o Holocausto, mas também sobre as minorias ucranianas, bielorussas ou alemãs. O partido comunista polaco fabricou uma visão de propaganda de uma nação homogénea, "unida sob a sábia liderança do Partido dos Trabalhadores". Isto criou uma visão distorcida e falsificada da história, porque a Polónia sempre foi multiétnica e multicultural, desde o inicio. "Austeria", de Kawalerowicz, era tão importante para a cultura polaca do pós-guerra porque era uma das poucas excepções, quando durante um curto período de liberalização, os artistas foram autorizados a dizer a verdade. 
A história por trás de "Austeria" está cheia de dificuldades e drama. O filme não é apenas um tributo a um mundo que foi irrevogavelmente destruído mais tarde pelo Holocausto, mas também é um testemunho da tenacidade do realizador, que lutou 15 anos para conseguir fazer o filme.
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Faraó (Faraon) 1966

O estado egípcio enfrenta dificuldades, os assírios pressionam por fora, o estado está à beira da bancarrota, profundamente endividados aos mercadores fenícios, e as pessoas não podem ajudar, porque estão pobres. Ramses XII morre, e o seu filho Ramses XIII é proclamado faraó. Para acabar com o rápido declínio do Egipto, o jovem Ramses XIII decide aproveitar os tesouros armazenados por gerações nos templos, para gasta-los em reformas sociais e travar a guerra contra a Assíria. Mas o Clero opõe-se, e começa uma guerra política e religiosa entre os sacerdotes e o jovem faraó. 
"Faraó" traz-nos uma mistura inebriante de visuais deslumbrantes e cenários que trazem o mundo antigo de areias e superstições vividamente para a vida, ao mesmo tempo concentrando-se no drama humano íntimo com um estilo de exposição que tem muito a ver com as obras de Shakespeare. Contrastando com "The Ten Commandments" (1956), de Cecil B. DeMille é um exercício útil, porque confunde a sua história com a história da Páscoa, fazendo referências óbvias ao Holocausto nazi para formar um continuo sofrimento judaico, que apesar de subestimado, funciona como um valente soco. Onde DeMille criava um mundo tão fantástico que o seu filme se tornava uma lenda por direito próprio, Kawalerowicz criava um mundo primitivo em que o poder do mito e do ritual é realmente aterrorizante. 
O filme é adaptado de um romance do século 19 do escritor polaco Bolesław Prus, com o mesmo nome. A produção demorou três anos, começando no Outono de 1962 com a criação de um estúdio em Lodz. As filmagens tiveram lugar na Europa, Asia e Africa, com a maioria das cenas dos interiores a serem filmadas num estúdio em Lodz. As cenas de massas foram filmadas, em maioria, no deserto de Kyzyl-Kum, no Uzbequistão. O exército soviético forneceu 2000 soldados para trabalharem como figurantes, e o exército Egípcio mais 2000. O filme seria nomeado para o Óscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira, assim como participou em Cannes, no festival de 1966.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Curso Livre O Ensaio Audiovisual e a Escrita sobre Cinema

No próximo ano, entre 30 de Janeiro e 17 de Fevereiro, o My Two Thousand Movies vai associar-se ao Luís Mendonça e ao Luis Miguel Correia na organização de um curso intitulado "Curso Livre O Ensaio Audiovisual e a Escrita sobre Cinema" O curso será realizado na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas – Universidade Nova de Lisboa (FCSH/NOVA) e ao mesmo tempo será realizado um ciclo do mesmo tema no blog. Podem ler tudo aqui. Evento no facebook, aqui.
Link para a inscrição, aqui.


Madre Joana dos Anjos (Matka Joanna od Aniolów) 1961

Passado no século XVII. Um convento numa pequena cidade está a ser visitado por altos oficiais católicos que tentam exorcizar a freira supostamente possuída por demónios. Um sacerdote foi queimado por se ter deixado tentar pelas freiras, principalmente a Madre Superiora que traz a histeria colectiva ao grupo. Entretanto chega ao local um jovem sacerdote que vem ajudar no exorcismo. O seu primeiro encontro com a líder do Convento, a Madre Joana dos Anjos, deixa-lhe marcas, e demonstra que não vai ser uma trabalho fácil...
Baseado em acontecimentos reais reportados em Loudon, França, "Madre Joana dos Anjos" funciona como uma sequela histórica ao filme de Ken Russell sobre o mesmo assunto, "The Devils", contudo feito 10 anos antes. A igreja desencadeou uma investigação ao padre anterior de Loudon, o padre Urbain Grandier, e suspeitou que ele dormia com as freiras. O convento inteiro, sob um notável feitiço de possessão, também o acusou de bruxaria, acabando por ser queimado na fogueira.
O filme precede "The Exorcist", de William Friedkin, em dois temas, tanto na virgen inocente transformada em objecto do demónio, como no seu tratamento a assuntos relacionados com demónios. Contudo, Jerzy Kawalerowicz, um estudante da Escola de Cinema Polaca, utiliza muito bem a frenética Lucyna Winnicka, interpretando de forma quase sobrenatural, como uma rebelde contra as tendências realistas do passado cinematográfico do seu país. O país estava sob o regime comunista, e os filmes eram feitos sob estritas directrizes, para poderem ser exibidos na União Soviética.
"Madre Joana dos Anjos" é um filme pesado, visualmente vigoroso, e profundamente perturbador da fé, da repressão e do fanatismo. Trouxe problemas inultrapassáveis para o realizador, que teve problemas com a igreja durante muitos anos. Exibido em Cannes em 1961, ganhou o prémio especial do júri. É o filme mais famoso do realizador internacionalmente.
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terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Comboio Correio (Pociag) 1959

Um homem, Jerzy, entra num comboio para a costa do Mar Báltico. Ele parece estar em fuga de alguma coisa, tal como parece a estranha mulher com quem ele tem de compartilhar o compartimento. Entretanto, a polícia anda atrás de um assassino, que pode estar a bordo do comboio.
"Night Train" de Jerzy Kawalerowicz, possui todas as características de um clássico "filme de comboio". Um assassino em fuga, um encontro casual entre dois viajantes atraentes forçados pelas circunstâncias a partilhar uma cabine durante a noite, uma mise-en-scène restrita. No entanto, Kawalerowicz, procura outra coisa, e por detrás da relação entre os dois passageiros espreita um vazio profundo. no final do filme muitas questões do enredo permanecem sem resposta, algumas das relações centrais não são cumpridas, e o seu objectivo inescrutável. E isso não acontece por acaso. Para um filme ostensivamente preocupado com a sexualidade, há um sentido latente de solidão e perda, nas acções e palavras das personagens. O filme também é sobre a falta de coração na cultura polaca, assombrada pelo seu passado recente, relacionado com a guerra. 
"Night Train" é um retrato psicológico tenso, convincente e perspicaz da necessidade emocional, da histeria e do comportamento das pessoas. Utilizando ângulos agudos, iluminação de alto contraste, e enquadramentos estreitos e claustrofóbicos, Jerzy Kawalerowicz cria um sentido de ambiente elevado, que reflecte a consciência dos passageiros e as emoções sublimadas.
O filme foi feito na época pós-estalinista na Polónia, quando os artistas podiam produzir arte que não fosse partidária, e este filme é uma examinação subtil tanto do persistente trauma da guerra, como do facto que o comunismo não ofereceu ser uma alternativa redentora ou significativa. Assim, as falhas da passada ordem social, e a ruptura violenta do antigo regime no pós-guerra são inseparáveis da cultura sexual e social representada pelos passageiros do comboio. 

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segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Shadow (Cien) 1956

O filme consiste em três histórias de suspense. Começamos no presente, em 1956, quando um jovem casal passeia no seu carro, por uma estrada rural ladeada de terras planas, e acabam por ver um homem cair de um comboio expresso a alta velocidade. O oficial encarregue da investigação tem a certeza que a sua identidade será descoberta, já o médico legista não tem tanta certeza, dado o estado em que o cadáver foi encontrado. Ele começa a relatar uma história passada em 1943, durante a ocupação Nazi da Polónia, quando um traidor da resistência causou um incidente mortal, e nunca foi descoberto. 
O segundo conto é relatado por outro detective. Em 1946 há instabilidade e luta contra o governo provisório. Existe um grupo de terroristas activos, e o detective e outro homem conseguem infiltrar-se, mas a ajuda desse outro homem vai ser ineficaz.
De volta ao presente, um jovem trabalhador das minas de carvão é preso quando sai do comboio. É suspeito da morte do homem que caíu do comboio no inicio do filme, e começa a contar a sua história à volta de todo este mistério. 
Estas três histórias negras estão enraizadas na realidade polaca, que tem a ver com temas e acções políticos, ao contrário das histórias americanas do período do cinema Noir, que têm mais a ver com o comportamento criminoso do homem. Mas em comum com o Film Noir americano, as histórias em "Cien" geram um ambiente de suspeita, medo, traição e incerteza, com os exteriores escolhidos a acrescentarem um enorme realismo. Há sequências no comboio que são reais, nas quais os actores perigosamente perseguem alguém com apenas um corrimão estreito a separá-los de caírem para a rua. Nesta, e noutras sequências o filme situa-se perfeitamente entre o "film noir" e o neo-realismo", alcançando o elemento documental que marca o neo-realismo  italiano. 
Um dos primeiros filmes de Jerzy Kawalerowicz, que lhe valeu a sua primeira participação em Cannes. Legendas em Inglês.

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domingo, 25 de dezembro de 2016

Jerzy Kawalerowicz

Durante a Segunda Guerra Mundial era permitido filmar em todos os países debaixo da ocupação alemã, excepto na Polónia, pelo medo do uso subtil de referências patrióticas. Os filmes polacos que emergiam dos escombros da guerra, tendiam a lidar com temas como a ocupação nazi, os horrores da guerra, e os heróis da resistência, mas os filmes dirigidos por Jerzy Kawalerowicz eram uma excepção.
O seu mais famoso filme, "Mãe Joana dos Anjos" (1961), passado num convento do Século XVII, foi o primeiro filme polaco do pós-guerra a não lidar com a guerra: era a história de um padre que investigava possessões demoníacas entre freiras, para se tornar objecto do desejo da Madre Superiora. O tema, supostamente baseado em factos verídicos, também inspirou um livro de Aldous Huxley, um filme de Ken Russell, e uma opera de Krzysztof Penderecki, era uma poderosa alegoria do bem versus o mal, a castidade versus o erotismo.
De acordo com Kawalerowicz, de quem era de conhecimento público que era ateu, é tomada uma posição clara contra o dogma humano. Não seria de estranhar que a igreja se colocaria contra o filme desde o início, colocando panfletos nas igrejas avisando as pessoas que era pecado mortal ver o filme. Seriam precisos muitos anos até à reconciliação de Kawalerowicz com a igreja, até ao ano de 2001, quando o Papa polaco João Paulo II assistiu à estreia do último filme do realizador "Quo Vadis".
Kawalerowicz nasceu na cidade de Gwozdziec, que em breve se tornaria parte da rússia ucraniana. Nesta cidade 60% da população era composta por judeus, 30% ucranianos, 10% polacos, e era uma cidade muito típica da segunda guerra, destruída pelo holocausto. Este cenário serviria de base para um dos melhores filmes do realizador, "Austeria" (1982), passado no primeiro dia da Primeira Guerra Mundial, quando um grupo de judeus foge do exército cossaco do Czar, ficando encurralado numa estalagem. Com a sua inclinação habitual para o drama psicológico íntimo, e a sua inclinação para a história, Kawalerowicz pinta um retrato vívido, de um mundo recentemente desaparecido.
Kawalerowicz estou arte em Cracóvia, antes de entrar no instituto cinematográfico. Tornou-se assistem de realização com 20 e poucos anos, e começou a realizar em 1952. Em 1955 tornou-se líder da prestigiada unidade de produção KADR. Durante o seu mandato sempre resistiu a pressões do regime comunista para produzir abertamente filmes de propaganda. No entanto, ficou mal visto aos olhos de muitos, quando em 1983, assinou um documento que criticava alguns realizadores, como Andrzej Wajda, que antes apoiava solidariamente.
Os filmes que realizava, muitas vezes com alguns anos de diferença, mudavam muito de estilo e de assunto, de um para o outro. "Night Train" (1959), está algo entre o estudo psicológico e um thriller. Conta a história de uma mulher que sofre uma crise interna, compra um bilhete para um comboio de férias lotado, e se vê a dividir o compartimento com um médico infeliz. A policia embarca no comboio em busca de um assassino.
O último filme de Kawalerowicz foi feito com a idade de 79 anos, e era o impressionante "Quo Vadis?" (2001), quinta e talvez melhor adaptação para o cinema da famosa obra de Henryk Sienkiewicz, romance do século XIX sobre Roma e o domínio de Nero. Kawalerowicz sonhava realizá-la há 35 anos, porque sentia que as versões anteriores não feito justiça suficiente ao estilo e conteúdo do livro. Com um orçamento de 7,5 milhões de libras, o mais alto de sempre para um filme polaco, foi-lhe dada a hipótese de tornar o conto épico mais fiel à história original possível.
O realizador falecia seis anos depois, com a idade de 85 anos.


 Esta semana vamos homenagear este realizador polaco. Não veremos todos os seus filmes, mas veremos as suas obras mais importantes:

- Shadow (Cien) 1956

- Night Train (Pociag) 1959

- Madre Joana dos Anjos (Matka Joanna od Aniolów) 1961

- Faraó (Faraon) 1966

- Austeria (Austeria) 1982

- Quo Vadis? (Quo Vadis?) 2001

sábado, 24 de dezembro de 2016

A Lei da Terra (A Lei da Terra) 1977

"Após o 25 de Abril de 1974, e durante cerca de dois anos, o cinema português defrontou-se com uma larga solicitação pelo real imediato, pelas lutas e questões do quotidiano político-social, originando um "cinema de intervenção" que se queria arma e companheiro do período revolucionário que então se vivia. 
Tal cinema tem o interesse do documento mas tem frequentes vícios, simplismos, imaturidades. No caso da Reforma Agrária, processo quente e decisivo das alterações políticas em curso em Portugal, muitos quilómetros de película se gastaram, mas poucos souberam organizar-se com a coerência ideológica, o apuro técnico, ea lucidez bastante para merecerem atenção.
Um filme que soube fazê-lo, já no reflexo das movimentações revolucionárias, foi "A Lei da Terra", historial e reflexão (de 1974 a 1976) da Reforma Agrária.
Assinado colectivamente (mas atribuído, em algumas fontes filmográficas, a Alberto Seixas Santos), "A Lei da Terra" tem o condão de analisar, com uma certa distância (não des-solidarizada), as contradições, avanços, bloqueios, e dúvidas geradas no interior do vasto processo da Reforma Agrária, constituindo uma abordagem bastante atenta, lúcida, informada e reflectida, um dos melhores momentos do "cinema de intervenção" que aqui se produziu."
Texto de Jorge Leitão Ramos.
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Gestos e Fragmentos (Gestos e Fragmentos) 1983

Os acontecimentos que, entre Abril de 1974 e Novembro de 1975, puseram os militares no centro do Poder. Com os testemunhos de Otelo, que fala de si, Eduardo Lourenço, que lê textos seus de análise das relações entre os militares e o Poder e Robert Kramer, um jornalista que tenta perceber o 25 de Novembro.
Três variações sobre o tema das relações entre os militares e o poder, em Portugal. Otelo Saraiva de Carvalho narra o percurso que o levou, com os seus camaradas do Movimento dos Capitães, da Guerra Colonial ao golpe de estado de 25 de Abril de 1974, e as sucessivas crises que, destruindo a mítica unidade das Forças Armadas, conduziram ao 25 de Novembro de 1975 e ao fim da Revolução. Um professor universitário, Eduardo Lourenço, analisa a descida brusca dos militares do seu "céu político", à política mais revolucionária. Como num romance policial, um jornalista americano - Robert Kramer - procura os culpados do fracasso da Revolução de Abril. Do cruzamento destes discursos, fragmentários, nasce - como num «puzzle», que as várias peças vão completando - a imagem contraditória, fugidia e lacunar dos militares portugueses.
Podem ler mais sobre o filme, aqui
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quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

António, Um Rapaz de Lisboa (António, Um Rapaz de Lisboa) 2002

Um rapaz em Lisboa, nesta Lisboa em obras. As paragens de autocarro, as entrevistas para emprego, os cafés sujos, o metro de uma noite, os centros comerciais de bairro, as lojas de fotocópias, os arrumadores de automóveis, os hospitais, um encontro à chuva, as creches onde se colocam os filhos, a dura ressaca, o Corte Inglês, as cervejarias onde se mata o tempo.
"Em 1995 foi um espectáculo estreado nos Encontros ACARTE que fez história no Teatro Português. Cinco anos volvidos, o filme abre, também ele, novas portas para o cinema português. Imersão no quotidiano, crónica deste tempo de uma certa gente jovem, pobre gente que sem rumo sobrevive e que o filme olha com energia e desencanto, escrito em diálogos rápidos que decantam um linguarejar quotidiano, filmado em elaborados planos-sequência que esmeram o virtuosismo do conjunto, "António, Um Rapaz de Lisboa" é obra a colocar, finalmente, Jorge Silva Melo no quadro dianteiro da cinematografia europeia. Vale a pena notar a excelência e a diversidade de registo dos actores, magicamente coesos - com Lia Gama em destaque, se é permitido dar tribuna a alguém no seio de um elenco tão vasto e onde se encontram praticamente todos os jovens actores que valem a pena nestes dias (e alguns outros, de diversas gerações e tocados pela excelência, como Glicínia Quartin, Maria João Abreu, Teresa Roby, ou Carlos Gonçalves). Vale a pena aplaudir o complicadíssimo trabalho de câmara - Rui Poças é o responsável. Vale a pena constatar o imenso calor humano que exala desta fita e a paleta de emoções que produz. Há momentos de puro êxtase - o doravante célebre plano de Sylvie Rocha na montra, com chuva e Donizzetti. "António, Um Rapaz de Lisboa" é um acontecimento cinematográfico maior a fechar os anos 90." Texto do Expresso, 19-01-2002
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terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Feliz Natal

Termina assim o ciclo "O Tempo do VHS". Vamos entrar agora no período do Natal, e, antes do próximo ciclo, a realizar na próxima semana, vamos ter aqui uma série de presentinhos de Natal, à semelhança de anos anteriores. Filmes portugueses bastante raros, dois deles com estreia absoluta na internet.
Para todos um bom Natal.

Capítulo 14 - O Capítulo dos Ninjas

O “ninja” é um guerreiro medieval japonês encarregue de matar samurais. Enquanto que o samurai se orienta por um complexo e vinculativo código de ética, os ninjas eram carteiros, peixeiros, pescadores, correctores da bolsa, amoladores de tesouras, decoradores de interiores, etc que se dedicavam a matar sem escrúpulos, escondidos pelo negrume da noite. Ora, nos anos 80 Menahem Golan terá lido meia página na diagonal de um livro de História e decidiu fazer um filme de ninjas. Não o normal ninja japonês, muito desinteressante. Golan criou um ninja mágico, místico, indestrutível, demoníaco, metafísico… Esse filme, Enter the Ninja (1981) haveria de moldar a imagem do ninja na moderna cultura popular, criando um símbolo de guerreiro perfeito, invisível e imbatível. Os que vestem de preto e branco, porque os vermelhos e amarelos são o equivalente às camisolas vermelhas do Star Trek. Só lá estão para fazer “blarghhhh” depois de 3 segundos de tempo de ecrã. 

Enter the Ninja, protagonizado por um um improvável Franco Nero, seria o primeiro de uma trilogia. Uma trilogia conceptual, sem continuidade. Ligada apenas pelos tais ninjas pós-modernos, metafísicos, sobrenaturais. O segundo seria Revenge of the Ninja e terminaria com o melhor filme de ninjas de todos os tempos, Ninja III: The Domination. A Golan / Globus, pelas mãos de Sam Firstenberg, criava aqui um híbrido que para sempre ira mudar o cinema de série B, um fenomenal crossover protagonizado por uma senhora ninja que seria um misto de ninjas, flashdance e Exorcist. Demónios possuem uma atraente noviça para a tornar na mais perfeita máquina de matar… e amar! O elemento mais importante desta renascer do ninja moderno foi Sho Kosugi, mestre ninja que interpreta praticamente todos os papeis de ninja. Seja como protagonista ou duplo de cara tapada. 

Depois disso a Golan/Globus misturou mais uma vez os elementos no seu shacker cinematográfico em em 1985 criou American Ninja, o primeiro de 5 filmes que retratava as desventuras de ninjas militarizados, motas, perseguições, guerra, perseguições, lança granadas, decapitações, todo um manancial de carnificina. Sucesso absoluto. E eram estes os nossos ninjas, aqueles pelos quais nos apaixonámos. 

O efeito secundário e abundantemente nefasto desta gloriosa vaga foram os clones. De repente os clubes de vídeo viram-se invadidos de filmes de ninja de qualidade nula. Alguns eram até filmes relançados com novas cenas de ninjas. Imaginem um drama familiar que não foi lançado ou teve pouco sucesso aquando da estreia. Sem problemas, tudo se revolve! Rodam-se 20 minutos de cenas de ninja no meio de uma mata, com fumos, saltos mortais, shurikens no pescoço, sangue a esguichar e intercalam-se com o filme. Afinal o casal separou-se porque o marido era dark ninja e morreu numa mata perto de casa, não ficou desempregado por ter errado como vendedor de seguros nem se atirou para baixo de um comboio. Mesmo que more em Manhattan e a mata seja do outro lado da estrada. E o marido original seja um sueco de 1,72m de cabelos louros pelos ombros e a sua versão ninja seja um oriental careca de 1,52m. 

Filme após filme, lá se ia empilhando a nossa angústia. Cheguei a alugar três num fim de semana. Mesmo sabendo que eram merdosos, havia sempre aquela ínfima esperança de que o acaso se tivesse encarregue de criar um bom filme, por mestria do realizador ou pelo aglomerado de improbabilidades estatísticas. Ou pelo menos um que não fosse horrível. Foram tempos miseráveis, meus amigos. Até que aos poucos fomos desistindo, e os filmes deixaram de ser distribuídos.
 * Texto por Pedro Cinemaxunga, daqui

Enter the Ninja (1981)

Revenge of the Ninja (1983)

Ninja III: the Domination (1984)

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Capitulo 13 - Ficção Científica

 Howard e o Destino do Mundo (Howard the Duck) 1986
Howard é um simpático pato de temperamento sarcástico que chega à Terra depois de uma estranha experiência científica. Além de estar num planeta desconhecido, Howard terá de enfrentar outra criatura extraterrestre, que sofreu a mesma experiência que ele, e é bem menos amigável. Embora cercado de problemas, algumas pessoas tentam afastá-lo de cientistas maldosos, oferecendo-lhe ajuda para ele voltar ao seu planeta.
Lendária produção da Lucasfilm, Ltd, foi um dos maiores fracassos de sempre, tendo custado 30 milhões de dólares (que era uma grande quantia para aquele tempo), e rendido apenas 16 milhões, além de ser uma idéia tão ridícula, e tão mal concebida que só trouxe vergonha a toda a gente envolvida, principalmente o produtor George Lucas, que não estava habituado a tamanha má recepção. Um filme com tamanho orçamento nas mãos era um prémio para Willard Huyck, argumentista de "American Graffiti" e "Indiana Jones e o Tempo Perdido", mas depois deste fracasso ele nunca mais pegaria nas rédeas de outra longa metragem.
Aparece muitas vezes em listas dos piores filmes de sempre, mas com o passar dos anos atingiu um certo estatuto de culto, que cresce de dia para dia.

Os Ladrões do Tempo (Time Bandits) 1981
Na companhia de anões caçadores de tesouros, um rapaz parte numa aventura diferente: dotados de um mapa que pertence ao Ser Supremo, eles viajam pelo tempo participando em eventos históricos e encontrando personagens famosos (Robin Hood, Napoleão, Rei Agamemnon). Mas um poderoso vilão cobiça o mesmo mapa, e segue no seu encalce.
Ao fazer "Time Bandits" Terry Gilliam disse que queria fazer um filme que fosse inteligente o suficiente para crianças, e ao mesmo tempo, excitante para adultos, uma inteligente inversão dos padrões normais de Hollywood, que pretende exactamente o oposto (excitante para as crianças e inteligente para os adultos). Gilliam mantém a câmara sempre baixa, e filma tudo do ponto de vista da criança, o que dá substância visual e emocional à essência do filme, que nunca cai no erro de se tornar demasiado infantil. Gilliam recrutou vários dos seus colegas dos Monty Phyton para contribuírem no filme (Michael Palin como co-argumentista e um pequeno papel no filme, e John Cleese que aparece no papel de Robin Hood).
O design do filme é das coisas mais perfeitas desta longa metragem, cheio de detalhes e imaginação, mas não esquecer que foi produzido independentemente do filme, tendo custado um total de 5 milhões de dólares.

Nas Asas da Imaginação (The Boy Who Could Fly) 1986
Depois da morte dos pais, num acidente de avião, um jovem fecha-se sobre si mesmo  e não conversa com ninguém. Ele vive com o tio alcoólico e é tratado como um autista. Na escola, contudo, torna-se amigo de uma bela jovem, que conquista a sua confiança e o faz "voar" sobre a cidade.
Terceiro filme de Nick Castle, um colega de escola de John Carpenter que interpretou o assassino no primeiro "Halloween", sempre a navegar pelo campo do fantástico. "The Boy Who Could Fly" é um filme encantador. O ritmo é lento, principalmente no inicio, mas nunca funcionaria se assim não o fosse. A ligação entre Eric e Milly (interpretados pelos jovens Jay Underwood e Lucy Deakins) cresce lentamente mas desenvolve-se de uma forma bastante credível. 
Embora o filme tenha uma grande parte de sentimentalismo fácil, também tem alguns complexos subtextos: os ajustes emocionais depois das morte dos pais, fazendo novos amigos numa nova vizinhança, crianças assumindo responsabilidades parentais, mas de um modo geral é um filme para toda a familia.

domingo, 18 de dezembro de 2016

Capitulo 13 - Ficção Científica

O Micro-Herói (Innerspace) 1987
Jack Putter sente-se muito bem hoje, pelo menos para um hipocondríaco. Mas algo de novo está a acontecer, ele começa a ouvir vozes. A voz que Jack (Martin Short) ouve é do piloto da Marinha Tuck Pendleton (Dennis Quaid) que foi submetido a uma miniaturização, para um projecto secreto, e acidentalmente injectado em Jack. Antes que possa dizer alguma coisa o seu improvável companheiro realizará a mais incrível fuga da sua vida.
" Innerspace", inspirado por "Fantastic Voyage" (1966), de Richard Fleischer, começa com uma excelente premissa, e enquanto ficamos a saber como tudo funciona, Joe Dante constrói o climax muito bem. Uma ficção científica muito boa, combinada com efeitos de especiais de última geração, pelo menos para o ano de 1987, como seria aliás, de esperar, de um filme com produção de Steven Spielberg.
Joe Dante era um dos nomes mais fortes do cinema fantástico, que nesta década já nos tinha dado obras tão interessantes como "The Howling", "Gremlins", "Explorers", tudo grandes êxitos no tempo do VHS. "Innerspace" seria mais um filme nesta sequência, vencedor do Óscar para Melhores Efeitos Especiais, batendo "Predator".

As Aventuras de Buckaroo Banzai (The Adventures of Buckaroo Banzai Across the 8th Dimension) 1984
Buckaroo Banzai, um cientista de renome, neurocirurgião, piloto de carros de corrida, estrela do rock e herói das história aos quadrinhos, numa de suas pesquisas abre uma porta para outra dimensão. O problema é que essa dimensão está a ser usada como uma prisão por uma raça alienígena, e a Terra está ameaçada de ser invadida e destruída pela polícia alienígena. Buckaroo, com a ajuda do seu guarda-costas, os seus colegas cientistas, a banda de rock, alguns dos seus fãs, um embaixador estrangeiro e um cantor country texano vão conter esta ameaça.
W.D. Richter e o argumentista Earl Mac Rauch tiveram esta idéia excêntrica de um filme de ficção científica de assalto para se tornar rapidamente num filme de culto, mas quando estreou nas salas foi um grande flop, levando anos para alcançar o público para o qual era destinado. Os seus fãs reconheceram o facto que valia a pena preservá-lo, mas qualquer promessa de sequela ou franquia estava fora de questão quando a produtora do filme entrou em bancarrota, e a história entrou num espiral de disputas pelos direitos.
W.D. Richter estreava-se atrás das câmaras, mas já tinha um nome importante como argumentista, de filmes como "Invasion of the Boddy Snatchers" de Philip Kaufman, "Dracula" de John Badham, "Brubaker" de Stuart Rosenberg, e, futuramente, "Big Trouble in Little China". O elenco também era de respeito, Peter Weller (futuro Robocop), John Lightgow, Ellen Barkin, Christopher Loyd, e Clancy Brown. Tinha tudo para ter resultado.

O Navegador (The Navigator: A Medieval Odyssey) 1988
Século 14 – Cumbria, Inglaterra. Uma pequena aldeia de mineiros ameaçada pela “peste negra” é o ponto de partida para esta fantasia medieval. Por vezes repetidamente, um rapaz tem o mesmo sonho. Neste, sonha com uma cidade distante que poderá ser a salvação do seu povo. Se os mineiros fundirem uma cruz de cobre e colocarem na ponta da torre da catedral dessa cidade, todos estarão a salvo da praga. Partem então para uma jornada pelo tempo, para o ano de 1980, numa odisseia em busca da redenção.
Épico de ficção científica Neo-Zelandês, tornou-se num grande êxito entre os festivais de cinema pelo mundo fora. Fez parte da selecção oficial de Cannes, ganhou o prémio da audiência no Fantasporto, e ganhou o prémio de Melhor Filme em Sitgés (1988). Como uma parábola religiosa "The Navigator" lembra-nos, tanto tematicamente como estruturalmente o último filme de Tarkovsky: "O Sacrifício". A mensagem de necessidade de espiritualidade está, no entanto, pouco explícita no filme, e apenas nos vem à mente depois de um visionamento completo.
O filme colocava Vincent Ward no mapa, levando-o para Hollywood onde realizaria um punhado de filmes, um deles "What Dreams May Come", e trataria do argumento de "Alien 3".  Não confundir este filme com "The Flight of the Navigator", um filme para crianças que já passou neste ciclo.
Imdb

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Capitulo 13 - Ficção Científica

Os Novos Invasores (Alien Nation) 1988
Num certo dia no deserto do Mojave, California, uma gigante nave espacial aparece no céu. Ela traz 300000 seres de outro planeta, seres modificados geneticamente para fazerem os trabalhos pesados. A nave sofreu uma avaria, e foi obrigada a aterrar na Terra. Os "visitantes" são recebidos e acolhidos na cidade de Los Angeles, onde começa a integrar lugares na sociedade. Inicia-se aqui uma vaga de hostilidade para com os visitantes, e uma dupla de detectives diferentes - um terráqueo, e outro vindo do espaço - precisam de superar as diferenças e investigar um crime.
Ficção científica no seu melhor quando se olha para a humanidade e para a sociedade humana através da metáfora, e "Alien Nation" cria uma grande dose de introspecção social. Os recém-chegados representam os imigrantes para os Estados Unidos, estão orgulhosos por poder ajudar e estão desejosos de manter a sua herança étnica, mas também querem o sonho americano e liberdade.São odiados por muitos, mantidos por outros, e desprezados por quase todos. Os trabalhadores temem perder os seus empregos para estes estrangeiros, ninguém entende os seus costumes, e as tensões raciais são cada vez maiores. Querem uma coisa mais actual?
Realizado por Graham Baker, originou uma série de televisão, e uma série de filmes que passaram muito ao lado. Os protagonistas são James Caan, Mandy Patinkin e Terence Stamp.

Os Invasores de Marte (Invaders from Mars) 1986
David Gardner (Hunter Carson) é um jovem que durante uma tempestade testemunha um disco voador pousar num campo, atrás de uma colina próxima à sua residência. O pai, pensando tratar-se de um sonho, vai verificar o que aconteceu e só volta na manhã seguinte, apresentando um estranho comportamento. Pouco a pouco os outros moradores da cidade caem na armadilha dos invasores e são controlados por um dispositivo que é implantado nos seus pescoços. David procura ajuda de Linda Magnusson para impedir o domínio dos marcianos.
Remake do clássico de William Cameron Menzies com o mesmo nome, realizado em 1953. A realização estava a cargo de Tobe Hooper, um homem que já tinha atrás de si um bom historial no terreno do fantástico. Pois veja-se: "Massacre no Texas", "Poltergeist", e no ano anterior "Lifeforce - As Forças do Universo", mas este filme ficava muito aquém do original. Em parte por causa dos períodos em que foram lançados. O primeiro era um filme trash que funcionava como uma metáfora ao comunismo, e ao medo de uma guerra nuclear que supostamente estaria perto perto de começar. Mais de trinta anos depois já se conhecia muito do espaço, já se sabia que não havia marcianos, e o impacto já não foi o mesmo. E poucos anos antes, já John Carpenter havia feito um remake de um outro clássico dos anos 50, e tinha elevado muito os standards.
Mesmo assim era um filme curioso.

Anjo Negro (Dark Angel) 1990
Jack Caine (Lundgren) é um policia de Houston, durão e instintivo. Perde o seu parceiro numa operação contra o tráfico. O FBI encarrega-se do caso e arranja-lhe um novo parceiro, Smith (Benben). Quando fazem a análise do local do crime, descobrem a arma do massacre. Mas esta arma não é nada de conhecido na terra, e depressa descobrem que estão a lidar com alguém de outro mundo.
Um dos muitos filmes que gozava de um enorme culto, principalmente através dos VHS caseiros, "Dark Angel" era o típico filme de ficção científica policial que estava muito em voga em meados dos anos 80 e inicio dos anos 90,  muito similar a títulos como "The Terminator", "The Hidden" ou "Predator 2". Interpretado por um actor que era mais barato do que Arnold Schwarzenegger, Dolph Lundgren, tem todas as características do que era um filme de acção na altura.
A realização estava a cargo de Craig R. Baxley, um ex-duplo de cinema e televisão, que tinha participado em filmes como "Predator", ou séries como "Os Três Duques". Vale pela curiosidade.

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Capítulo 13 - Ficção Científica

Deixamos para o fim este capítulo, talvez por ser o mais esperado, o mais desejado. Isto porque os anos 80 foram a década da ficção científica, dos efeitos especiais, dos blckbusters de efeitos especiais. Houve muita coisa nesta década: saga Star Wars, "Terminator", "Blade Runner", "Robocop", James Cameron,  saga "Regresso ao Futuro", "Predador", "saga "Mad Max"... Já sabem que se era isto que esperavam para este capítulo, estão bem enganados. A minha selecção foi dos seguintes 12 filmes...

Mark 13, o Exterminador (Hardware) 1990
Moses "Hard Mo" Baxter (Dylan McDermott) é um ex-soldado que passa grande parte do tempo a vaguear pelo deserto pós-apocalíptico cheio de detritos radioativos de guerras anteriores. Ele recolhe partes de um android para que a sua namorada Jill (Stacy Travis), que é escultora, possa utilizar como matéria prima na sua arte. O que eles não sabem é que o robot desmontado é um controverso protótipo de um droid de batalha chamado M.A.R.K. 13 cuja função é remontar-se a si próprio com materiais disponíveis caso fosse danificado em combate. Em pouco tempo, ele conserta-se usando as peças das esculturas de Jill e volta a cumprir a sua missão inicial: matar todos os seres humanos.
Não há forma de negar que "Hardware", de Richard Stanley, vai buscar inspiração ao franchise de "Terminator", e a toda uma vaga de "thrillers" pós-apocalipticos onde o mundo tinha sido enviado para o inferno, e os que sobreviveram viviam sob um cobertor de poeira e lixo, mas o económico filme de Stanley, sobre um robot assassino revivido numa fúria destruidora no interior de um apartamento, tem decididamente uma atmosfera Orwelliana.
Um certo sabor britânico emerge no filme, apesar de ter dois protagonistas americanos para satisfazer os produtores americanos Bob e Harvey Weinstein, que mandaram que o cenário fosse num lugar sombrio no submundo americano. E embora não se encontre efeitos digitais nesta realização de Stanley, é um "thriller" muito bem feito, com alguns efeitos especiais bem chocantes e um certo nível de nudez que fizeram que o filme fosse feito para um público X-Rated.

O Flagelo do Século (Threads) 1984
A União Soviética avança sobre o Irão para transformá-lo num país soviético. Os EUA, o Reino Unido e outros membros da Nato condenam o acto de agressão e várias acções militares começam a acontecer. A União Soviética então faz um ataque nuclear contra a Inglaterra sem aviso destruindo parte do país. O pior vem depois: o caos, a falta de água, comida, eletricidade são os maiores desafios dos sobreviventes.
De todos os filmes sobre o holocausto nuclear este emerge não só como dos melhores, como também o mais brutal, incansavelmente e impiedosamente realista. Na verdade, é mais um documentário do que um filme de ficção, e essa talvez seja uma das suas falhas, mas o terror e os horrores tão indiscritivelmente intensos e perturbadores. É uma descrição britânica sistemática sobre o que acontecerá se uma guerra nuclear explodir, focalizando-se nos moradores de Sheffield desde os dias antes do ataque, até uma década depois, quando a humanidade está reduzida a sobreviventes animalistas, com quase nenhuma esperança. O ataque em si é fascinante, no seu intenso terror, apoiado pela ciência e uma narrativa educacional, concentrando-se masoquistamente apenas nos piores cenários, saltando de uma cena pesadelo para outra, sem nos dar muito a conhecer as personagens e sem desenvolver muito a história.
Realizado para televisão por Mick Jackson, teve lançamento em Portugal no formato VHS.

A Setenta Minutos do Fim (Miracle Mile) 1988
Anthony Edwards atende um telefonema numa cabine telefónica, no qual um homem lhe diz que a Guerra Nuclear acabou de começar e que uma bomba atómica chegará à sua cidade dentro de 70 minutos. Uma onda de pânico invade a cidade, devido ao rumor sobre este perigo nuclear, e Anthony tem pouco tempo para procurar salvar a sua namorada e fugir da cidade.
Estreitamente falando este não é um filme surreal. Por outro lado até é, porque haverá algo mais surreal do que o fim do mundo? Este é daqueles filmes, tal como "Cloverfield", que é melhor ver sem saber muito acerca dele em avanço. Mas também é um filme de culto, no sentido que polariza o público, obringando-o a odiá-lo ou a amá-lo. 
Seria o segundo filme de Steve de Jarnatt no território da ficção ciêntifica, depois de se estrear com "Cherry 2000" no ano anterior, um dos filmes que revelou Melanie Griffith. Angustiante esta pequena produção, que foi exibida em diversos festivais, como Sitges, Sundance ou os Independent Spirit Awards.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Capítulo 12 - Erótico

Esta era a secção mais sexual de todas, e era formada por duas sub-secções: a pornográfica, para maiores de 18, e que era das mais procuradas nos video clubes. Não iremos falar dela neste ciclo. E depois havia a secção erótica. Fugindo à exposição do sexo e dos actos sexuais, a arte erótica prefere os meios tens da penumbra, prefere a sugestão à revelação, as roupas em desalinho à nudez total. Não era assim das secções mais procuradas, mas que albergava escondidos alguns filmes interessantes.

Emmanuelle (Emmanuelle) 1974
A exótica Tailândia. É lá que Emmanuelle (Sylvia Kristel), uma linda e sensual modelo viaja para encontrar o marido diplomata, Jean (Daniel Sarky), bem mais velho do que ela. Ambos são bem tolerantes com os casos extraconjugais do outro. Embora Emmanuelle tenha aprendido muitas coisas sobre o amor com o marido, Jean acredita que ela se deva aventurar em novas experiências eróticas. Seguindo o conselho, Emmanuelle faz sexo com a filha da sua vizinha, mas é pela fotógrafa loira, Bee (Marika Green), por quem ela se apaixona.
"Emmanuelle" causou bastante agitação quando foi lançado em 1974, apesar de ser muito soft para os padrões de hoje em dia. É uma espécie de clássico de culto para quebrar muitos tabus, como o lesbianismo, os trios e o sexo duro. Normalmente recebe criticas favoráveis por ser considerado inovador, mas se for observado com um olhar crítico é um filme bastante pobre. Realizado pelo francês Justin Jaeckin, e protagonizado por Sylvia Kristel, que depressa se tornaria uma estrela, foi seguido por seis sequelas, todas de um nivel de qualidade pouco elevado.

O Império dos Sentidos (Ai No Korida) 1976
Japão, 1936. Sada (Eiko Matsuda), uma ex-prostituta, inicia um tórrido caso com Kichizo (Tatsuya Fuji), o seu actual patrão. O que parecia uma diversão inconsequente logo se transforma numa intensa relação regida pela obsessão do prazer. Para os amantes não existem fronteiras na busca do mais completo êxtase. É o amor louco.
Nagisa Oshima nunca foi um estranho para a controvérsia. Desde que começou a realizar filmes no final da década de cinquenta, que a sua inclinação esquerdista, política e filosófica, além de basear os seus filmes em eventos escandalosos da vida real, o colocavam em perigo, na rota de colisão com os censores. Um dos seus primeiros filmes, "Night and Fog  in Japan", foi retirado dos cinemas por razões políticas. No entanto, o seu filme mais famoso, apensar de nem estar entre os seus melhores, é este "O Império dos Sentidos", que juntamente com "O Último Tango em Paris", de Bernardo Bertolucci, e alguns filmes de Pier Paolo Pasolini, ajudaram a redefinir os limites da sexualidade, dentro de um certo "cinema de arte". Ao contrários dos filmes de Pasolini e Bertolucci, "O Império dos Sentidos" foi particularmente controverso por causa das suas representações gráficas da sexualidade, que ultrapassavam os limites das restrições legais sobre a "obscenidade" no Japão, razão pela qual parte do filme teve de ser filmado e montado em França.
Na altura colocava-se a questão: erótico ou pornográfico? Esse factor já foi ultrapassado passados tantos anos, mas continua a ser um filme actual.

Vícios Privados, Públicas Virtudes (Vizi Privati, Pubbliche Virtù) 1976
Os irmãos Sofia e Franz fazem parte da vida de escândalos de um jovem príncipe. Os três mantêm um relacionamento sob suspeita: Sofia pode ser meia-irmã do príncipe. Diz-se que a sua mãe, quando jovem, era amante do imperador. Um dia, eles inventam que é aniversário do príncipe e organizam uma grande festa, transformando o castelo no palco de uma orgia, com todos os jovens ricos do império. O resultado revela-se muito comprometedor.
Uma interpretação do histórico incidente de  Mayerling envolvendo um assassinato-suicidio escandaloso, do Príncipe da Áustria, herdeiro do trono do império Austro-Húngaro. Este filme de arte de Miklós Jancsó decide ir pelo mesmo caminho de uma histórica orgia de Ken Russell, ou pelo desfile de carne de Borowczyk.O príncipe e os seus convidados têm "threesomes", "foursomes" com um hermafrodita, violam o general, têm orgias selvagens, dançam nús todo o dia, enquanto conspiram para derrotar ou humilhar o imperador. A idéia artística é contrastar a juventude permissiva, sexualmente liberta com o antigo regime repressivo.
Passou no festival de Cannes em 1976.

Contos Imorais (Contes Immoraux) 1974
O filme conta 4 histórias, que por muitos são consideradas imorais:
- La Marée: Rapaz induz a prima adolescente ao sexo, numa praia deserta, durante a maré alta. 
Thérèse Philosophe: Em 1890, uma menina é trancada num quarto de castigo, e tem alucinações sexuais com santos.
Erzébet Báthory: Em 1610, uma condessa húngara usa as suas jovens súbditas para estranhos prazeres sensuais. 
Lucrezia Bórgia: em 1498, Lucrecia Bórgia visita o pai, o Papa Alexandre VI, e o seu irmão; o Cardeal Cesare e com eles mantém relações sexuais, enquanto o dominicano Savonarola é preso por denunciar a imoralidade dos religiosos, que também era pregada por São Jeronimo.
Walerian Borowczyk começou a sua carreira profissional como animador, mas assim que se formou começou a fazer o que eram chamados de "blue movies", mas, ao contrário de outros, ele não se considerava um pornógrafo, que os filmes que ele fazia se debruçavam sobre o território erótico. Era dificil de explicar a diferença entre os dois, sobretudo nesta louca década de setenta, tanto dava a perversões sexuais, mas, sobretudo, os filmes de Borowczyk, eram regados por uma certa classe e sofisticação, que o afastavam dos filmes então denominados de pornográficos.

sábado, 10 de dezembro de 2016

Capítulo 11 - Western

O Pistoleiro do Diabo (High Plains Drifter) 1973
Um homem chega à pequena cidade de Lago, no Arizona. Provocado, mata três pistoleiros e fica a saber que um dos homens que matou tinha sido contratado pelos moradores para defender a cidade dos bandidos violentos que vão chegar em breve. O estranho aceita assumir a tarefa, mas impõe as suas condições. Entre elas, que a cidade seja toda pintada de vermelho e que o seu nome seja mudado para Hell (inferno).
A última grande vaga de westerns, conhecida evocativamente como os "anti-westerns", e exemplificada pelos filmes de Sam Peckinpah ou Monte Hellman, chegou durante a época do Vietname, quando os mitos americanos sobre o bem e o mal foram universalmente chamados à razão. Os velhos estereótipos do western, good guy bad guy, duelos, cidades trabalhadoras da fronteira, foram interrogados até à sua hipocrisia amoral, um processo que nenhum outro filme sofreu tão explicitamente, como "High Plains Drifter", de Clint Eastwood.
Eastwood interpreta um personagem que voltaria várias vezes ao longo da sua carreira, o "homem sem nome", que aqui é um robusto pistoleiro saído da névoa do deserto, e tropeça na pequena cidade de Lago, onde pode ou não pode ter negócios inacabados, trazidos de outra vida.
Seria a segunda realização de Clint Eastwood, a primeira tinha sido "Play Misty for Me" (1971).

Soldado Azul (Soldier Blue) 1970
Quando atravessavam o território Cheyenne transportando um cofre e levando Cresta Marybelle Le (Candice Bergen) uma mulher branca que viveu com os Cheyennes, vinte e dois soldados da cavalaria são atacados por índios. Apenas Cresta e o ingénuo, idealista e desajeitado recruta Honus Gent (Peter Strauss) sobrevivem. Juntos, caminham até ao Forte Reunion, onde Cresta deverá encontrar-se com o noivo e durante esta viagem, Honus protege Cresta contra os índios Kiowa, destrói o carregamento de um traficante de armas e apaixona-se por Cresta, mas não acredita nas suas palavras quando ela o tenta convencer que os Cheyennes são pacíficos.
Com um tom antibelicista, em defesa dos índios mas, na verdade, dirigido à guerra do Vietname, que por esta altura estava no seu auge, tenta chocar o público com imagens do massacre dos índios, fazendo ligação com o incidente do massacre da aldeia vietnamita de My Lai, na qual também foram mortas mulheres e crianças pelas tropas americanas.
Realizado por Ralph Nelson, "Soldier Blue" foi um filme cercado por uma enorme controvérsia devido à brutalidade e ao sadismo documentado pelas suas imagens. A influência era de "The Wild Bunch" (1969), de Sam Peckinpah, um filme que marcou uma vaga invisível de violência, abrindo o caminho a uma série de realizadores ansiosos por empurrar os limites do gosto e da decência dentro dos limites comerciais. Tanto nos Estados Unidos como no Reino Unido foi fortemente cortado, só sendo possível ser visto a sua versão integral quando o filme foi lançado em DVD.

 Monty Walsh - Um Homem Difícil de Morrer (Monte Walsh) 1970
O triste olhar de dois velhos cowboys sobre o fim do Velho Oeste. Bebedeiras, rodeios, brigas e tiroteios começam a sair da rotina e Monte e Chet (Lee Marvin e Jack Palance) pensam em como dar um sentido às suas vidas, antes que se tornem peças de museu.
"The Wild Bunch" (1969), de Sam Peckinpah é muitas vezes considerado o último suspiro no território do western, mas o certo é que o território do velho oeste continuou a ser explorado com relativa afluência durante alguns anos. O caso de "Monte Walsh", obra de estreia de William A. Fraker, um pequeno western relativamente pouco conhecido, situa-se algures entre a fúria de "The Wild Bunch" e a calmaria de "McCabe & Mrs. Miller" (1971) de Robert Altman, mas ainda assim é um filme impressionante que beneficia muito da experiência de Fraker como fotógrafo, principalmente por ter fotografado filmes como "Rosemary´s Baby", "Bullit" ou "Paint Your Wagon".
Fraker pinta um retrato do velho Oeste que é ao mesmo tempo romantizado e surpreendentemente decrépito. Como era costume nos westerns da época, a fronteira parece sempre bonita, mas os personagens não parecem entender a sua beleza, apenas tentam sobreviver num ambiente implacável.
Contracenando com as duas estrelas principais, Lee Marvin e Jack Palance, vamos encontrar Jeanne Moreau,numa das suas primeiras incursões pelo cinema americano.

Nevada Smith (Nevada Smith) 1966
Velho Oeste, final do século XIX. Sam Sand (Gene Evans) e a sua mulher, uma índia, são torturados e mortos por três pistoleiros, que acreditam que Sam escondia uma boa quantidade de ouro. O filho do casal, Max Sand (Steve McQueen), ficou tão chocado ao ver os corpos dos pais que decidiu que não queria que ninguém mais os visse assim, queimando a casa com os corpos lá dentro. Max decide vingar-se custe o que custar, mas não sabe disparar e nem sequer escrever ou ler. Além disso não sabe o nome dos assassinos, que viu apenas uma vez por breves instantes.
Embora as prequelas sejam consideradas uma idéia moderna, apenas o nome é uma invenção recente. "Nevada Smith", estreado em 1966, conta a história de um dos personagens do filme "The Carpetbaggers", lançado em 1964, com realização de Edward Dmytryk. Ambos os filmes são baseados nos eventos do livro de Harold Robbins, mas se no primeiro a personagem de Nevada Smith é interpretada por Alan Ladd, no segundo é Steve McQueen quem salta para o papel. Apesar da ligação, não é necessário nenhum conhecimento prévio para ver qualquer um dos filmes.
McQueen era um actor carismático e talentoso, aqui em fase claramente ascendente. "Nevada Smith" funciona mais como um filme veículo do talento do actor, com uma realização segura de Henry Hathaway. O elenco de apoio também era de muito valor: Karl Malden, Brian Keith, Arthur Kennedy, Janet Margolin, Martin Landau, entre outros.

Os Comancheros (The Comancheros) 1961
Em 1843 um capitão dos Texas Rangers, Jake Cutter (John Wayne), captura o jogador Paul Regret (Stuart Whitman), que teve o azar de matar em duelo o filho de um juiz. Jake encaminha Paul para a sua cidade e durante a viagem os dois unem-se para acabar com os comancheros, brancos que vendem armas e bebidas para os índios.
"The Comancheros" foi o último filme do realizador Michael Curtiz, que faleceu no ano seguinte. Supostamente Curtiz estava constantemente doente durante a produção do filme, e Wayne teve de substitui-lo em algumas cenas, embora não apareça creditado como tal. O filme é basicamente um veículo para John Wayne, com um argumento pouco inspirado. Mas tem um ponto forte muito interessante: a introdução do cowboy bêbado de Lee Marvin, que teve continuação em filmes como "The Man Who Shoot Liberty Valance", "Cat Ballou" ou "Paint Your Wagon". Quando chegada a altura de "Cat Ballou" Marvin já era muito bom neste papel, ao ponto de ter ganho um Óscar por interpretar esta personagem.
como entretenimento funciona bastante bem.
Imdb

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Capítulo 11 - Western

Estávamos muito reduzidos no que tocava a Westerns lançados durante os anos 80. Não mais do que uma dezena (ou nem tantos), dignos de nota, de um género que nunca se recompôs do desastre financeiro que foi o seu último épico, "As Portas do Céu", de Michael Cimino. Mas o Western não estava esquecido, enquanto era comum passar na televisão, agora tinha outra fonte de divulgação, o mercado de VHS, principalmente a venda directa, que aos poucos lançava todos os seus grandes sucessos.

As Portas do Céu (Heaven's Gate) 1980
1890, Estado de Wyoming, EUA. Um xerife (Kris Kristofferson) faz o possível para proteger fazendeiros imigrantes dos ricos criadores de gado, em guerra por mais terras. Ao mesmo tempo, ele luta pelo coração de uma jovem (Isabelle Huppert) contra um pistoleiro (Christopher Walken).
Tal como as colunas de fumo e as nuvens de poeira que sopram em qualquer épico com mais de 200 minutos, o desastre incial crítico e comercial deste filme de Michael Cimino perdurará para sempre, obscurecendo as suas maiores qualidades artísticas, que digamos que eram muito boas, levando o filme hoje a ser muito mais apreciado do que era na altura.
"Heaven’s Gate" marcava o fim de uma época. Produzido e distribuído pela Unites Artists, o estúdio fundado pelo realizador D.W. Griffith, e pelos actores Charles Chaplin, Douglas Fairbanks, e Mary Pickford, como forma de escapar ao controle dos grandes estúdios sobre a sua arte, este filme era suposto ser o ponto mais alto da chamada “New Hollywood”, que tinha tomado conta do cinema nos anos 70, formada por jovens realizadores como Martin Scorsese, Francis Ford Coppola, o próprio Cimino, entre outros, e que eram um cruzamento entre o cinema de arte europeu, e o cinema clássico de Hollywood. Se este filme tivesse vingado, a história do cinema seria muito diferente hoje em dia.

Silverado (Silverado) 1985
Kevin Kline, Scott Glenn, Kevin Costner e Danny Glover são quatro heróis involuntários que têm no seu caminho a esquecida Silverado, a cidade em que os seus pais vivem e que foi tomada por um xerife corrupto e por um cruel ladrão de terras. Está nas suas habilidades com as armas a salvação da cidade. Mas primeiro eles têm que tirar uns aos outros da cadeia e aprender quem são os seus verdadeiros amigos.
"Silverado" era um retrocesso do Western que não se incomodava de  tentar reinventar o género numa nova fórmula. Abrange todos os velhos clichés e fórmulas dos velhos tempos, actualizando-os com uma nova geração de estrelas que não cresceu a vê-los. Na altura do seu lançamento foi considerada uma grande revisão, mas com o passar dos anos, e a quantidade de tempo entre o seu lançamento e o declínio do western, já não parece um filme tão importante.
Mesmo assim merece ser visto ou revisto, não só pelo realizador, Lawrence Kasdan, como pelo fantástico elenco, que para além dos nomes mencionados em cima, contava ainda com John Cleese, Rosanna Arquette, Brian Dennehy, Jeff Goldblum, Linda Hunt, Jeff Fahey,  entre outros.

O Bando de Jesse James (The Long Riders) 1980
"The Long Riders" era mais uma entrada (entre muitas) nos westerns sobre o bando dos irmãos James-Younger, os famosos assaltantes de bancos, mas também um dos esforços mais interessantes para cobrir o território. O realizador Walter Hill tem um dos seus melhores trabalhos por trás das câmeras, o seu primeiro filme directamente no território do Western, com um certo pendor Peckinpah-esque (talvez um pouco demais, até) capturando a brutalidade e a violência sangrenta do pistoleiro ocidental. Hill tem fama de ser o verdadeiro sucessor de Peckinpah, a até chegaram a trabalhar juntos, e, definitivamente, este foi dos filmes que mais ajudou para o mito. 
Grande parte do filme conta a história da queda do bando dos irmãos James-Younger, como a agência de detetives Pinkerton conseguiria apanhá-los nas suas casas das famílias do Missouri, enquanto os cofres tornavam-se cada vez mais difíceis de arrombar. Para dar maior realismo, o elenco de irmãos na tela é interpretado por irmãos na vida real - os três Carradines (David, Keith e Robert) como os Youngers, os dois Quaids (Dennis e Randy) como o Millers, e dois Keaches (Stacy e James) como os irmãos James. Mesmo o elenco de apoio tem irmãos na forma de Christopher Guest e Nicholas Guest como os irmãos Ford. Curiosamente, os irmãos não são pintados nem como bons, nem como maus, eles têm respeito uns pelos outros, mas irão cometer alguns atos hediondos, incluindo assassinatos, que só pode ser visto como repreensível. 
Alugar
Imdb

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Capítulo 10 - Musical

O filme Musical tinha entrado em decadência já desde o inicio dos anos 70. Os poucos que se faziam ainda começaram a reflectir a realidade social, afastando-se, em grande medida da atmosfera de sonho e de fantasia que sempre tinham caracterizado o género.
Os anos 80 praticamente não deixaram musicais dignos de referência, embora tenha havido, finalmente, lugar para a dignificação dos filmes que se consagraram como clássicos.
Ainda assim fiz uma selecção de quatro filmes musicais dignos de nota, que nunca passaram pelo My One/Two Thousand Movies.

Absolutamente Principiantes (Absolute Begginers) 1986
Durante os agitados anos 50, Colin (Eddie O'Connell), é um jovem londrino de 19 anos que anda à procura do seu lugar no mundo. Tentando uma carreira como um fotógrafo, e apaixona-se perdidamente por Crepe Suzette (Patsy Kensit), uma linda modelo. No entanto, a relação dos dois está estritamente ligada ao mundo da moda e ao seu crescente sucesso. Então, Colin conhece um promotor de música pop e tenta assim, novamente aproximar-se de Crepe Suzette. Enquanto os dois decidem entre viver os seus princípios idealistas ou vender-se ao sucesso, a tensão racial fermenta à volta de ambos...
Julian Temple sempre foi um realizador muito virado para a música, já desde os anos 80. Desde videoclipes, documentários, a filmes de ficção musical, como este "Absolute Begginers". Neste filme ele adapta para o grande ecrã um livro de Colin MacInnes, uma relação passada em 1958 em Londres, com uma enorme tensão racial como pano de fundo.
Os principais pontos de referência do filme são o design é o enorme elenco de apoio, de onde se destacam actores e músicos, como David Bowie, Sade e James Fox. Foi pela primeira vez mostrado no festival de Cannes de 1986, fora de competição, mas recebeu críticas arrasadoras, que tornaram o filme num fracasso comercial, que em conjunto com o fracasso comercial de "The Mission", provocaram o colapso financeiro da editora britânica Goldcrest. Mesmo assim, a música de David Bowie que deu nome ao filme, e serviu de apresentação ao filme foi um sucesso, e ainda hoje é considerada das melhores músicas do cantor.

O Passageiro da Lua (Moonwalker) 1988
O filme começa com o vídeo de “Man in the Mirror” e depois parte para uma montagem de videoclipes da careira de Michael Jackson. Depois vem uma paródia de “Bad” interpretada por crianças e uma sequência onde Michael é perseguido por fãs. Mais dois vídeos são mostrados e o filme mostra Michael como um herói com poderes mágicos, que é perseguido por Mr. Big (Joe Pesci), um traficante de drogas, mas mesmo assim Michael salva três crianças.
"Moonwalker" é um filme estranho de se ver hoje em dia, mas na altura do seu lançamento comercial Michael Jackson era a maior estrela do mundo, o album "Bad" estava no topo das vendas, e o cantor fazia uma tournée fabulosa onde o cantor mostrava os seus dotes de cantor e dançarino. "Moonwalker" era um prémio de consolação para aqueles que não podiam ir aos concertos, sendo uma forma de poderem ver o seu ídolo num formato diferente.
O lançamento do filme era para ter coincidido com o lançamento do album "Bad" em 1987, mas acabou por ter estreia nos cinemas apenas na Europa. Nos Estados Unidos saíu apenas em VHS, tendo vendido 800 mil cópias só no primeiro dia.

Viva a Música (Purple Rain) 1984
The Kid (Prince), um jovem músico, vive uma situação difícil em sua casa, onde tem de enfrentar um contexto desfavorável. Além disso, a sua carreira no mundo da música não anda nada bem: para Kid, The Time, a banda que o acompanha não se esforça o suficiente. Então, determinado a mudar o jogo, Kid faz de tudo para dar a volta por cima tanto em sua vida pessoal como na sua carreira.
Bandas-sonoras normalmente são feitas para promover os filmes. "Purple Rain", o filme, foi um dos raros casos em que o filme foi feito para promover a banda-sonora. Poucos viram o filme na altura do seu lançamento, mas todos ouviram as músicas do album que foram passando nas rádios.
O filme em si, é semi autobiográfico, e a maioria das personagens usam o seu nome verdadeiro, com Prince a ser conhecido apenas como "The Kid", o cantor e compositor de uma banda de clubes noturnos de Minneapolis chamada The Revolution. A sua música é quente, mas começa a ser cada vez mais esotérica para os seus patrões, que apenas querem diversão para os seus clubes. Ganhou um Óscar para melhor banda sonora.

Flashdance (Flashdance) 1983
Flashdance conta a história de Alex Owens (Jennifer Beals), uma jovem de 18 anos, bonita e altamente determinada. Owens trabalha como metalúrgica durante o dia e à noite é uma exótica dançarina numa casa nocturna. 
Um sucesso surpresa de 1983, e uma obra influente nos chamados "filmes de dança" da altura, "Flashdance" chegou na altura certa, com o estilo de montagem da MTV a tornar-se uma norma para os êxitos de bilheteira. Grande parte do sucesso do filme deve ser atribuído ao tema musical "Flashdance...What a Feeling", de Irene Cara, vencedor de vários prémios, como um Óscar de Melhor Canção Original, um Globo de Ouro na mesma categoria, e um Grammy. Apesar da classificação "R", o filme foi um êxito para as audiências juvenis, que foram atraídas pelas melodias pop e a montagem rápida, para não falar do componente strip tease.
Era o segundo filme que Adrian Lyne, ainda em inicio de carreira, retratava o tema da adolescência. A estreia tinha sido com "Foxes", interpretado por Jodie Foster, mas de futuro iria dedicar-se a filmes mais sérios, sempre carregados com uma enorme carga erótica. "Flashdance" propagou ainda a moda de blusas rasgadas, numa combinação com meias de lã.