terça-feira, 31 de maio de 2016

Pale Flower (Kawaita Hana) 1964

Muraki, um gangster da Yakuza, acaba de ser libertado da prisão depois de cumprir uma pena por assassinato. Revisitando o seu velho vício do jogo ele conhece Saeko, uma mulher notável da classe alta que procura emoções, e cuja presença apimenta os antiquados rituais do antiquado submundo masculino. Muraki torna-se o seu mentor, e simultaneamente envolve-se com ela, levando-o a envolver-se mais com o mundo do crime.
"Pale Flower", de Masahiro Shinoda, abre com uma sequência quase perfeita que diz praticamente tudo o que o filme tem a dizer sobre as personagens principais. Centrado à volta de uma casa de apostas, a câmara move-se à volta de muitas pessoas que tentam a sua sorte, onde se encontram a mulher bonita e o presidiário. É uma sequência virtuosa, mas o que a torna tão inebriante é a fantástica música de Toru Takemitsu, um dos maiores compositores japoneses de todos os tempos.
"Pale Flower" é um dos filmes mais poderosos sobre o mundo da Yakuza, com Masahiro Shinoda a homenagear o film noir americano, embora com algum desespero. Passado na década de 40, vamos encontrar um protagonista solitário com um carácter obsessivo. Shinoda vai buscar muita influência ao Film Noir Americano e à Nouvelle Vague, com uma história sombria, niilista, que não oferece redenção ou qualquer recompensa emocional para os moralmente corruptos protagonistas.
O preço para a liberdade criativa por vezes é elevado, e este filme esteve arquivado durante meses, depois do co-argumentista Masaru Baba acusar o próprio realizador de anarquista, considerando o filme mais preocupado com a parte visual do que com a história. Shinoda acabou por conseguir lançar o seu filme, mas os estragos já tinham sido feitos. O realizador, com outros realizadores que trabalhavam para o Shochiku, acabaram por deixar o estúdio para sempre.

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segunda-feira, 30 de maio de 2016

Cruel Gun Story ( Kenjû Zankoku Monogatari) 1964

Um empresário consegue providenciar a libertação antecipada de  Togawa da prisão, dando-lhe hipótese de em troca conseguir uma pequena vingança pessoal contra o homem que tratou mal a sua irmã. Togawa é necessário para um assalto a um camião blindado carregado com 120 milhões de yenes, e assim conseguir dinheiro para uma cirurgia à irmã. O plano parece simples, mas há traições e duplas traições em todo o lado. Será que Togawa consegue dinheiro suficiente para ajudar a irmã e abandonar o Japão?
"Cruel Gun Story" foi realizado em 1964 por Takumi Furukawa, e segue a premissa de "The Killing" de Stanley Kubrick. Quatro gangsters que trabalham para a máfia japonesa são contratados para roubar um carro blindado que transporta o recheio dos lucros de uma pista de corridas. Claro que tudo vai correr mal, e acabam por raptar dois guardas. Pelo caminho irá haver várias traições não só dentro do grupo, como também fora. Desde o advogado desonesto que os contratou, ao chefe dá máfia que não tinha intenção de dividir o produto do roubo com o grupo, com o advogado a ter idéias de formar o seu próprio gang. Irá haver bastantes tiroteios maciços pelo caminho.
A acção é emocionante, e a narrativa mantém-se a um ritmo bastante rápido, impedindo o filme de se acomodar. O último tiroteio fica a dever muito ao último tiroteio de "The Killing", mas não antes do último do último twist, que deixa mais uma preocupação a Togawa. O protagonista é Jô Shishido, o mesmo de vários outros "noirs" deste ciclo.
Legendas em Inglês.

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domingo, 29 de maio de 2016

A Força do Atrito (A Força do Atrito) 1993

Portugal 1997. Um acidente nuclear deixara o país sem energia e dividido em Zonas, algumas das quais estão interditas por causa da contaminação. A crise económica é grave e o desemprego quase total. Afonso, Vítor e Diniz, na véspera da transferência de Afonso para uma Zona onde iria trabalhar, aproveitam um automóvel abandonado na sequência de um assalto a umas bombas de gasolina para fazerem uma festa de despedida. A viagem é acidentada. Perdem o automóvel e quando querem regressar os problemas surgem...
"Com argumento de Luís Alvarães e Pedro Ruivo a partir de uma ideia deste e de Edgar Pêra, de 1993, "A Força do Atrito", ficção do início dos anos noventa, projeta a história de um acidente nuclear no Portugal de 1997, que deixa o país sem energia e com zonas interditas por contaminação. Para além da catástrofe, a situação do país é descrita como a de uma grave crise económica e desemprego profundo." Cinemateca.
Uma das grandes pérolas desconhecidas do cinema português, a estrear aqui publicamente. Uma excelente equipa de produção, que além da realização de Pedro M. Ruivo (única longa metragem), e argumento de Luis Alvarães e do próprio ruivo, conta com fotografia de Daniel Del Negro e montagem de José Nascimento e Luis Sobral. Uma autêntica dream team.

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Céu e Inferno (Tengoku to Jigoku) 1963

.Um grande executivo está numa situação crítica. Ele reservou uma verba para resolver problemas da fábrica de sapatos, quando descobre que o seu filho foi raptado. O resgate pedido pelos raptores aproxima-se do dinheiro separado para a empresa e será crucial para os seus negócios. Contudo, quando resolve salvar a vida do filho, acontece algo muito inesperado.
Depois do enorme sucesso de "Rashomon" em 1950, o filme que literalmente abriu os olhos do mundo para o cinema japonês, Akira Kurosawa passou a maior parte do tempo a fazer jida-geki, ou filmes dramáticos passados no passado, que incluía uma longa série de filmes de samurais, como "Os Sete Samurais" (1954) ou "Yojimbo" (1961). No entanto, durante este tempo ele também fez um punhado de gendai-geki, filmes dramáticos passados no Japão contemporâneo. Em cada um deles Kurosawa explorava questões pertinentes, morais e sociais, como o significado de viver (Ikiru), o medo da aniquilação nuclear (I Live in Fear), ou a prevaricação corporativa (The Bad Sleep Well).
Enquanto "Céu e Inferno" se encaixa perfeitamente neste segundo grupo de filmes, também se destaca como um thriller de mistério habilmente trabalhado, cuja história de um rapto e as suas consequências é tecida através de um retrato particularmente agudo da decadência do Japão Moderno. A idéia da moralidade e da honra debaixo de fogo, eram uma constante nos filmes de Kurosawa, mas nunca tinham sido tão vis e caóticas como aqui, principalmente no último terço do filme, passado nas favelas de Yokohama. Kurosawa tinha feito algo semelhante em "Cão Danado" (1949), um procedimento policial que era tanto sobre a natureza sórdida do submundo do crime como era sobre o seu mistério central, mas aqui assume uma febre ainda mais apertada do que anteriormente.
Foi nomeado para o Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro em 1964.

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Homem Mau Dorme Bem (Warui Yatsu Hodo Yoku Nemuru) 1960

Um jovem tenta utilizar-se da sua posição no coração de uma empresa corrupta para expor os homens responsáveis pela morte do seu pai. No dia do seu casamento, vários rumores e comentários circulam entre os presentes, que cinco anos antes, o pai de Nishi morrera após cair de uma janela do andar do edifício da empresa. Muitos duvidam de um suicídio. Nishi, tentará investigar sobre um possível assassinato de seu pai.
O título deste filme de Akira Kurosawa, "Homem Mau Dorme Bem" (Warui yatsu hodo yoku nemuru), evoca com perfeita clareza a visão cínica do filme, e do mal que corre no mundo moderno. Enquanto os bons lutam e sofrem para fazer o que é certo, os maus dormem em conforto, sabendo que não só a sua ganância e fraudes não pagarão dividendos, como estarão seguros na sua teia de corrupção. É aqui que o filme revela o seu sentido mais agudo de amargura, cumprindo a tarefa de mostrar que no mundo corporativo moderno o fim justifica os meios, principalmente se os poderosos permanecerem no poder. Apesar de ter sido feito à tantos anos, e no ambiente japonês do pós-guerra, pode ser mais relevante do que nunca.
Kurosawa tenta recriar um Hamlet contemporâneo, segundo o estilo assumido do noir americano dos anos 40, mas tem outras coisas em mente para poder ser considerado 100% noir. Era a primeira produção independente para a companhia do realizador, que infelizmente não durou muito tempo. O argumento era escrito segundo um livro de Ed McBain, e manipulado por um grupo de argumentistas que incluía o próprio Kurosawa e uma equipa formada por Shinobu Hashimoto, Eijirô Hisaita, Ryuzo Kikushima e Hideo Oguni.

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sábado, 28 de maio de 2016

Cão Danado (Nora Inu) 1949

Murukami (Toshirô Mifune), um jovem detetive de homicídios, é roubado nos transportes públicos e perde a sua pistola. Atordoado e envergonhado tenta recuperar a arma, mas não obtem sucesso até ter a ajuda de um detetive mais velho e mais sábio, Sato (Takashi Shimura). Juntos, irão rastreiam o culpado.
"Com mesclas do noir americano e uma bela referência a um filme de King Vidor, Cão Danado (1949) aparece como a provável primeira grande obra de Akira Kurosawa, um penúltimo passo (se excluirmos Escândalo, seu filme seguinte) antes de sua obra-prima primeva, Rashomon.
A construção relativa acima certamente se aplica a muitos leitores e fãs do “Luminoso”, mas no meu caso, ela é menos nebulosa, pois contemplo Cão Danado como um verdadeiro filme-trampolim para o Kurosawa Master dos anos 1950, e entendo-o realmente como a primeira grande obra do cineasta japonês.
 Em Cão Danado, já é possível perceber um amadurecimento patente das nuances mais recorrentes de Kurosawa, como o trabalho com a matéria natural (em especial, a chuva), a disposição em múltiplos ângulos no mesmo cenário, e o lado sentimental e humano que se faz presente em qualquer situação. Neste caso, a postura passional de um jovem investigador de polícia é quase toda a matéria do filme, e o drama policial gira em torno de um tormento particular e da criminalidade na periferia de Tóquio.
Duas das primeiras coisas que se destacam no filme são a fotografia e a direção de arte, que logram transmitir uma forte sensação de calor ao espectador (o filme se passa durante dias terrivelmente quentes), bem como de uma “poluição visual” do cenário, sempre com takes em ambientes abarrotados de coisas, e em sua maior parte, muito pequenos, intensificando ainda mais a sensação de calor e dando espaço para uma interpretação claustrofóbica da história que está sendo contada. Ambos os setores técnicos foram premiados no Mainichi Film Concours de 1949, que também deu a Fumio Hayasaka o prêmio de melhor trilha sonora e a Takashi Shimura o de melhor atuação (também por seu papel em Duelo Silencioso)."
Texto de Luiz Santiago, podem ler mais aqui.

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O Anjo Embriagado (Yoidore Tenshi) 1948

Depois de uma batalha com um gang rival, um pequeno gangster é tratado por um jovem médico alcoólico no Japão do pós-guerra. O médico diagnostica tuberculose ao jovem gangster e convence-o a iniciar o tratamento. Os dois começam a desfrutar de uma amizade inquieta, até que o antigo chefe do gangster é libertado da prisão e volta para o seu gang mais uma vez. O jovem doente perde o estatuto de líder e torna-se condenado ao ostracismo, envolvendo-se numa luta com o ex-líder até à morte.
Se não for por outras razões, "O Anjo Embriagado" é um marco na história do cinema, por ter sido a primeira colaboração entre Akira Kurosawa e Toshiro Mifune, uma colaboração que se prolongaria por mais 15 filmes, ao longo de duas décadas. Kurosawa reconheceu imediatamente o poder da volatilidade  de Mifune em acção, e lança-o como um jovem bandido chamado Matsunaga. Curiosamente, a última colaboração dos dois seria em 1964, no filme "O Barba Ruiva", no qual Mifune interpreta um médico que guia um jovem protegido na busca da maturidade espiritual.
O filme tem lugar nas favelas de Tóquio do pós-guerra, e foca-se na escória da sociedade - tanto nos pobres como nos criminosos que se alimentam deles. Kurosawa literaliza a corrupção social, centrando a maior parte da acção em volta de um esgoto no meio de uma praça do mercado negro. A fossa, que se torna um personagem importante, constantemente em ebulição, é a primeira coisa que vemos no filme. Kurosawa usa-a frequentemente como objecto de transição, e mesmo quando não é um objecto principal, está sempre lá no fundo, lembrando-nos em termos puramente visuais, de tudo o que é venenoso e destrutivo.
"O Anjo Embriagado" também é um filme importante na carreira de Kurosawa. Foi feito com os seus próprios meios, e mesmo que tenha sido obrigado a ceder em alguns elementos para se desviar dos censores dos americanos ocupantes, ainda é uma visão singular da corrupção da sociedade japonesa no pós guerra da Segunda Guerra Mundial. Kurosawa já tinha explorado este terreno antes, e vai continuar a fazê-lo por mais alguns anos, usando a luta dos bons personagens por entre as ruínas de Tóquio e os seus crescentes mercados negros, como uma forma de enfrentar as memórias remanescentes da derrota, e os desafios que se impõem da reconstrução.

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quinta-feira, 26 de maio de 2016

Kurosawa e o Noir

Akira Kurosawa uma vez disse: "Gosto muito de Georges Simenon, e queria fazer alguma coisa ao seu jeito". Simenon era um autor francês da década de 30, famoso pelas suas novelas de crime e ficção fortemente influenciadas pelo film noir francês. A influência de Simenon podia ser vista através da sua escrita, que minimizava a violência e a acção em troca de uma atmosfera visual escura. Ao afirmar a sua admiração por Simenon, Kurosawa identificava a sua influência no film noir.
Os filmes de Akira Kurosawa onde se pode aplicar o termo "noir" são os que têm as mesmas fontes literárias que os clássicos de Hollywood, misturados com o estilo do expressionismo alemão. Kurosawa gostava dos dois, então os filmes que conhecemos dentro deste estilo talvez sejam mais uma evolução paralela do que propriamente uma homenagem ou tributo.
 Dentro do ciclo do "Film Noir Japonês" vamos criar uma nova caixa, e nos próximos dias poderão seguir mais um ciclo dentro deste ciclo, onde poderão ser vistos os quatro "Noirs" realizados pelo famoso realizador japonês. Quatro filmes, todos de superior qualidade.

- "Drunken Angel" (1948)
- "Cão Danado" (1949)
- "Homem Mau Dorme Bem" (1960)
- "Entre o Céu e o Inferno" (1963)
Poderão ver tudo no fim de semana.

Gate of Flesh (Nikutai no Mon) 1964

A história, tirada de uma novela de Taijiro Tamura, centra-se à volta de um grupo de prostitutas, que se uniram por entre as ruínas da cidade de Tóquio, para sobreviverem. Trabalham sem chulos aderindo a um rigoroso conjunto de regras, a mais importante das quais é que nunca podem dormir com um homem de graça. No mundo delas o amor e o sexo são rigorosamente separados, e na verdade, é mais do que isso: o amor não é uma possibilidade, e se alguma delas quebrar essa regra será brutalmente espancada, humilhada, e expulsa do grupo para sempre.
O dia a dia destas mulheres é interrompido com a chegada de duas personagens. Primeiro chega Maya, uma jovem de 18 anos (interpretada pela estreante Yumiko Nogawa), uma jovem desesperada e obrigada a roubar para sobreviver. Ela não é como as outras, tem um ar muito inocente, mesmo quanto sentimos que ela esconde algo muito mais obscuro. A segunda chegada é a de Shintaro Ibuki (interpretado pelo habitual de Suzuki, Jo Shishido), um ex-soldado japonês, possivelmente psicopata, que se esconde no meio das prostitutas, porque é procurado por esfaquear um soldado americano. Também é procurado pela ligação a um assalto, do qual pode ou não estar a esconder o produto do roubo...
Tal como o título sugere, há abundância de elementos chocantes e de exploitation em "Gate of Flesh". Na verdade, para um filme japonês feito em meados da década de sessenta, é surpreendentemente explícito na sua mistura entre sexo e violência, embora Seijun Suzuki tenha uma grande habilidade em sugerir muita nudez, sem, na verdade, mostrar muito. No entanto, apesar de parecer ser um filme simplista, transmite um olhar bastante agudo sobre as dificuldades enfrentadas pelo Japão na esteira da Segunda Guerra Mundial, e sobre a essência melodramática do amor proibido.
"Gate of Flesh" também beneficiava do estilo visual único de Seijun Suzuki, como era habitual nas obras deste autor. Não é dos seus filmes mais conhecidos, mas é dos melhores deste período.

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Intenção de Matar (Akai Satsui) 1964

Sadako foi criada como uma empregada doméstica em casa do seu marido, que continua a tratá-la como uma serva. Enquanto o marido está fora, Sadako é repetidamente violada por um estranho, que lhe faz nascer um instinto indomável para a sobrevivência. Uma relação bizarra desenvolve-se entre o violador, que continua a perseguir a mulher assustada, algures entre a violência e o amor, e Sadako, cujas intenções de matá-lo levam a um desfecho impressionante.
Antecipando "Cerimónia" de Nagisa Oshima, na sua representação metafórica da morte da classe samurai através de linhas de sangue contaminadas, ligações místicas, relações incestuosas, fragilidade e impotência, "Intenção de Matar" tem a marca característica das preocupações recorrentes de Shohei Imamura: a sensualidade e a resistência das mulheres, a manifestação do individualismo numa sociedade codificada, as idiossincrasias e instintividade primitiva que definem o comportamento humano. Voltamos ao imaginário animal como um substituto para o comportamento humano que Imamura tinha incorporado em "Porcos e Couraçados" e "A Mulher Insecto".
 Enquanto que o título faz lembrar um thriller noir, "Intenção de Matar" é mais apropriadamente descrito como um melodrama perversamente nacional sobre como a sociedade japonesa permite que os homens patéticos manipulem e controlem as mulheres nas suas vidas. Imamura também utliliza várias sequências de sonhos surreais para exprimir algumas partes mais emocionais do filme, que, juntamente com o retrato contundente da hipocrisia social, ganhou muitas comparações com os filmes de Buñuel.

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terça-feira, 24 de maio de 2016

Youth of the Beast (Yajû no Seishun) 1963

Joe Shishido interpreta um durão com uma agenda secreta. O seu comportamento violento chama a atenção de um duro chefe da Yakuza, que imediatamente o recruta. Depressa ele tenta fazer um acordo com um gang rival, e começa uma guerra de gangs. As suas reais motivações são gradualmente reveladas à medida que vamos descobrindo que tudo está relacionado com o assassinato de um polícia que é mostrado logo no inicio do filme.
Nas últimas décadas, desde que os seus filmes começaram a cruzar o oceano, Seijun Suzuki tornou-se numa figura de culto nos Estados Unidos, um génio impetuoso e original, habituado a quebrar as regras da desconexão lógica e da estética. Os seus estranhos filmes eram muitas vezes comparados com os de Samuel Fuller ou David Lynch, sendo ele próprio um fã fervoroso de Jim Jarmusch, que lhe agradeceu nos créditos finais de "Ghost Dog: Way of the Samurai" (1999). Na altura do lançamento deste filme, que muitos consideram o seu "breakthrough", já tinha realizado quase 30 filmes, no espaço de uma década. A maior parte eram filmes baratos, rápidos e simples, considerados "program pictures", uma expressão idêntica aos filmes de série B nos Estados Unidos.
"Youth of the Beast" era um "film noir" maravilhosamente distorcido pelos padrões de Suzuki. Começa a preto e branco, com dois policias a investigarem um aparente duplo suicídio de uma "call girl", e um homem casado com quem ela tinha um caso. Suzuki deixa logo caír a primeira pista de que este não é um crime normal. Tal como acontece na maioria dos filmes de Suzuki, a história não é central. À medida que a sua carreira evoluía as suas narrativas tornavam-se cada vez mais confusas e implausíveis, a tal ponto que ele acabou por ser demitido da Nikkatsu no final dos anos sessenta. "Youth of the Beast" não é um filme tão fragmentado narrativamente, mas o seu estilo visual ultrapassa a história.
Sexo e violência são admiravelmente misturados, e existe aqui um certo sadismo, ao desviar a atenção para as personagens mais bizarras. um dos personagens centrais é gay, e usa uma pequena navalha para cortar quem ousar lembrá-lo de que a sua mãe era prostituta. Uma das marcas de Suzuki é o tratamento do crime organizado como se fosse um estilo de vida absurdo.
Legendas em Inglês.

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segunda-feira, 23 de maio de 2016

Zero Focus (Zero no Shôten) 1961

Um viagem de negócios desde Tóquio até à área isolada de Kanazawa, nas províncias ocidentais, conhecidas como os Alpes Japoneses, leva Kenichi Uhara (Koji Nanbara) um executivo e recém casado com Teiko (Yoshiko Kuga). Kenichi vai finalizar alguns negócios na sua antiga filial, onde trabalhou para o rico dono de uma fábrica chamado Murota (Yoshi Kato). Kenichi acaba por desaparecer passados poucos dias, e Teiko viaja de comboio na companhia de um executivo (Takanobu Hozumi) para tentar descobrir o que aconteceu ao marido, para perceber que existem coisas sobre o passado dele que ela não tinha conhecimento.
Realizado por Yoshitaro Nomura, filho do grande realizador do cinema mudo japonês Hotei Nomura, que realizou cerca de 70 filmes antes do cinema sonoro chegar ao Japão, é baseado num livro de Seicho Matsumoto. É reminiscente dos filmes noirs americanos dos anos quarenta, e coberto de grandes twists e uma atmosfera sinistra, com paisagens muito negras, tal como o ambiente da história e o território montanhoso onde a acção é filmada. É também um filme desafiante para espectadores estrangeiros, com algumas reviravoltas e pistas a poderem ser mal interpretadas, por terem a ver com os costumes locais.
Existe aqui uma grande crítica às mulheres Japonesas, e a forma como elas são vistas na sociedade. Teiko é recém casada com a idade de 36 anos, um pouco tarde para os velhos padrões japoneses, e mesmo para os actuais, sendo contrastada com mulheres que se tornaram prostitutas para sobreviver no pós-guerra do Japão. De certa forma o filme é sobre a perda da virgindade moral de Teiko. Enquanto ela não é corrompida por outros, é forçada a confrontar realidades da vida longe da sua calma existência em Tóquio.
Uma grande interpretação de Yoshiko Kuga, que tinha recentemente interpretado dois grandes filmes de Ozu: "A Flor do Equinócio" (1958) e "Bom Dia" (1959).

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domingo, 22 de maio de 2016

Porcos e Couraçados (Buta to Gunkan) 1961

Originalmente lançado em 1961, "Porcos e Couraçados" é um belo filme que captura maravilhosamente um período único na história japonesa. Depois da derrota do país na Segunda Guerra Mundial o Japão foi alvo de uma significativa presença americana, e com o país a recuperar dos efeitos muito graves da guerra isto teve um impacto significativo sobre a população. Afastando-se das crenças do tempo da guerra, lidavam com a desconfiança das gerações mais velhas e, lutando para sobreviver em circunstâncias difíceis, a população mais jovem japonesa foi lutando contra uma espécie de crise de identidade.
Paralelismos entre o Japão como país, e as vidas dos personagens deste filme, constantemente percorrem Porcos e Couraçados, impregnando as decisões com um maior significado e profundidade. Os dois protagonistas principais, um pequeno yakuza, Kinta (Hiroyuki Nagato), e a sua namorada Haruko (Jitsuko Yoshimura), estão num ponto importante de inflexão e há um sentido ao longo do filme em que as decisões que eles tomam vão definir as suas vidas.
Kinta esforça-se para alcançar sucesso como gangster, através de esquemas para obter dinheiro dos ricos e tentativas de favores de gangues mais poderosos, para levar a cabo assassinatos. Está desesperado para conquistar reputação como um gangster. Haruko por outro lado, quer sair da cidade portuária de Yokosuka em que vivem, vendo para lá da vida tradicional dos seus pais.
Baseado num argumento de Hisashi Yamauchi, o filme é uma obra um pouco complexa, com as acções das personagens secundários muitas vezes a terem mais importância do que aparentam. Um retrato impressionante do pós-guerra, a vida no Japão, selvagem e caótica contada por Shohei Imamura, "Porcos e Couraçados" é um documento que define não apenas o estilo singular Imamura - uma agressão deliberada à serenidade de Yasujiro Ozu -, mas também define profundamente a sua visão humana do mundo, muitas vezes apresentada através dos sonhos, desejos e desespero das pessoas que compõem os estratos mais baixos da sociedade do seu país. Tal como muitos outros filmes de Imamura, "Porcos e Couraçados" é preenchido com criminosos, chulos e prostitutas, mas o que liga muitos dos personagens simpáticos dos seus filmes não é tanto as suas profissões ou mesmo a realidade sombria económico e social que os rodeia , mas a vitalidade e o desafio que eles apresentam nesse meio. A visão do mundo Imamura é escura e profundamente cínica, é uma qualidade que fez dele, na minha opinião, o maior cineasta do cinema novo japonês.

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sábado, 21 de maio de 2016

O Inútil (Rokudenashi) 1960

A secretária Ikuko Makino é alvo de brincadeiras de mau gosto por parte do filho do chefe e dos seus amigos, um grupo de jovens rebeldes que fazem de tudo para matar o tédio. Apesar dessa relação conflituosa, Makino apaixona-se por Jun, um dos rapazes do grupo, a quem chama de “imprestável”.
Yoshishige Yoshida a demonstrar o seu talento logo no seu primeiro filme, mostrando, por exemplo, grande domínio na iluminação e na composição. "Rokudenashi" era fortemente influenciado pela Nouvelle Vague (de certa forma poderia ser considerado uma versão japonesa de "O Acossado", talvez com algumas piscadelas para "Cruel Story of Youth", realizado por Oshima pouco tempo antes. A fotografia dinâmica a preto e branco anuncia a mise en scène não convencional e os movimentos de câmara fluidos estão aqui presentes, tornando-se a assinatura de filmes posteriores de Oshida. 
É um filme que analisa o tema dos jovens sem rumo, a base da história é um grupo de quatro estudantes, dois dos quais de famílias ricas. Um dos mais pobres apaixona-se pela secretária de um dos mais ricos que tenta levá-lo para o caminho certo, mas como um filme socialmente sensível como este é, sabemos que não vai correr bem. 
 Yoshida ficaria mais tarde conhecido por obras como "Eros + Massacre" ou "Akitsu Springs".
Legendas em inglês.

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terça-feira, 17 de maio de 2016

Take Aim at the Police Van (Jûsangô Taihisen' Yori: Sono Gosôsha o Nerae) 1960

Uma van da polícia é assaltada, e os dois prisioneiros que viajavam lá dentro são mortos. O guarda da prisão que se encontrava de serviço é suspenso, e não vê outra solução senão procurar ele mesmo os criminosos. Quem eram as vítimas, quem eram os seus familiares e namoradas, e quem mais estava na Van nessa noite? À medida que a investigação avança outros morrem, coincidências ocorrem, enquanto o polícia se aproxima da verdade.
Desde o final dos anos cinquenta e através dos anos sessenta, os filmes de gangsters selvagens eram o principal negócio da Nikkatsu, o mais antigo estúdio do Japão. Numa tentativa de fazer aproximar o público mais jovem que crescia habituado às importações que chegavam dos Estados Unidos e França, a Nikkatsu começou a produzir filmes de acção que incluíam elementos dos westerns, comédias, e filmes sobre a rebeldia juvenil. Seijun Suzuki era um dos nomes mais importantes nesta altura, ao lado de Toshio Masuda, e Takashi Nomura,e não será por acaso que este filme terá vários filmes seus.
"Take Aim at the Police Van" é brilhantemente fotografado por Shigeyoshi Min, que usa algumas cenas clássicas dos filmes americanos, tal como a utilização da câmara no pára-choques dianteiro, que compunha muitas vezes as sequências de abertura. Os locais utilizados para as filmagens ajudam a manter o filme fresco, e ajudam a capturar o ambiente do pós-guerra das cidades japonesas. Koichi Kawabe foi encarregado de fazer a banda sonora do filme, e faz um magnifico trabalho, adicionando o suspense necessário, além de serem notadas muitas familariedades com os film noir americanos.
A história é o clássico "whodunit". Os argumentistas Shinichi Sekizawa e Kazuo Shimada vão deixando muitas pistas para nos deixarem ocupados a pensar até ao final em quem é o principal criminoso, que vai mantendo o filme interessante.
Legendas em inglês.

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segunda-feira, 16 de maio de 2016

Dragnet Girl (Hijôsen no Onna) 1933

Tokiko é uma dactilógrafa que esta mais interessada em chamar a atenção do filho do chefe do que cumprir o seu dever. Isto porque o seu verdadeiro namorado é Joji, um boxeur que se tornou gangster, e vê nesta situação uma boa oportunidade para fazer dinheiro. Contudo, quando Kazuko, a inocente irmã de Hiroshi, um possível novo membro da quadrilha, pede a Joji para não aceitar o irmão, o gangster fica apaixonado pela jovem. Tokiko fica com ciúmes, e está determinada a reconquistar Joji, mas este já tomou a decisão de obter a redenção.
 "Dragnet Girl" é descrito como um dos filmes mudos mais populares e aclamados de Ozu, e é fácil perceber porquê. O filme está cheio de momentos maravilhosamente construidos, além de ser um dos seus filmes mais impressionantes visualmente, do período mudo. Faz um grande uso da profundidade de campo, enchendo o frame com as suas maravilhosas composições, acrescentando numerosas camadas por cada "shot". É a perfeita demonstração da força do filme, em adicionar dimensões visuais sem utilizar a tecnologia 3D, enigmática e desconfortável.
Tal como os outros filmes neste mini-ciclo, tem um núcleo moralista e sentimental, mas não se sente que seja encaminhado para este ponto, tal como os outros são. A mudança de foco dramático entre as personagens, embora contribuindo para uma história mais rica, pode fazer o filme mais difícil de se seguir, com o meio a ser um pouco lento. Ainda assim é o filme mais forte desta série.
Intertitles em português.

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quinta-feira, 12 de maio de 2016

That Night's Wife (Sono yo no Tsuma) 1930

Shuji (Tokihiko Okada) volta-se para o mundo do crime depois de não encontrar outra forma de pagar as contas da filha seriamente doente (Mitsuko Ichimura). Depois de um assalto alerta as autoridades da sua presença, mas deve esconder-se para a noite. Acontece que a filha está numa fase crítica da sua doença, e ele resolve arriscar e voltar para casa. O detective Kagawa (Togo Yamamoto) segue no seu rasto....
"Sono yo no Tsuma" é notavelmente diferente no sentido estético de obras como "Viagem a Tóquio", mas esta ênfase nas diferenças desvaloriza a progressão de Ozu como realizador durante os primeiros anos. Temos um filme que é o reflexo das preocupações sociais globais do cineasta. A maior diferença para os filmes posteriores, do seu período de ouro, é que essas preocupações são mais evidentes aqui, o que o torna em algo mais sentimental do que seria de esperar de Ozu.
O argumento é uma adaptação de Kogo Noda de um livro escrito pelo historiador Oscar Schisgall, mas podia ter passado pelas mãos de Ozu, principalmente por causa da natureza da consciência social. O ponto mais importante é que os personagens de Ozu evoluem cada vez mais em termos de classe social a cada novo filme. Nesta fase inicial da sua carreira os seus filmes podem ser categorizados como shomin-geki, porque temos sempre uma família da classe trabalhadora a lutar.
Foi o único filme de Ozu filmado inteiramente de noite, e um dos seus dois filmes que envolvia armas (o outro era o seu terceiro filme de gangsters, "Dragnet Girl"). Para prestar homenagem aos filmes americanos que o influenciaram Ozu coloca no apartamento do protagonista cartazes de filmes como "Broadway Babies" (1929) ou "Gentleman of the Press" (1929).
Intertitles em inglês.

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quarta-feira, 11 de maio de 2016

Walk Cheerfully (Hogaraka ni Ayume) 1930

Koyama Kenji, apelidado de "the Knife" é um pequeno gangster, ajudado pelos seus comparsas Senko, Gunpei e a namorada Chieko. Um dia ele cruza com uma jovem chamada Yasue a sair de uma loja de jóias e corteja-a.Entretanto Chieko entrega Yasue nas garras do seu chefe Ono, mas Kenji resgata-a a resolve endireitar a sua vida. Os seus comparsas tentam trazê-lo de volta para o mundo do crime, e ele recusa. Só que não vai ser assim tão fácil livrar-se do seu passado...
Filme mudo de Yasujiro Ozu, foi considerado um filme de gangsters influenciado por "Underworld", de Josef  von Sternberg, embora seja preenchido com algumas situações de comédia e drama doméstico, o que o coloca mais no campo da comédia romântica, apesar da elevada velocidade a que ocorrem as situações. Tem gangsters vestidos com roupas ocidentais, percorrendo salões de bilhar e ringues de boxe, algo que não era muito comum num filme japonês desta altura, numa Tóquio em mudança, que rapidamente se vai tornando mais Ocidental, largando cada vez mais as tradições familiares ancestrais.
Ozu conta-nos esta aventura a partir da história de Hiroshi Shimizu, e argumento de Tadao Ikeda, que todos no Japão se devem comprometer se a mudança na sociedade urbanizada permanecer estável, deixando claro que isto tanto vale para os tradicionalistas como para os ocidentalistas. É um filme menor na carreira de Ozu, mas mesmo assim é muito interessante, sobretudo na forma como partilha elementos do film noir.
Intertitles em inglês.

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Yasujiro Ozu – The Gangster Films

Hoje em dia Yasujiro Ozu já não é um nome desconhecido para os países ocidentais, mas durante muito tempo, este que hoje é considerado o "mais japonês dos realizadores japoneses", foi ofuscado internacionalmente pelos épicos de Akira Kurosawa, cujo cinema era mais orientado para a acção.
Por contraste, Ozu era quase desconhecido fora do país até à década de cinquenta, altura em que lançou filmes sublimes como "Viagem a Tóquio", que eram impossíveis de passar despercebidos. O estilo de Ozu era calmo, contemplativo, e filmado com shots sem movimento, que acabaria por influenciar muitos realizadores na posterioridade.
Nos anos 30 Ozu não era assim. Antes do som chegar ao Japão (por volta de 1936), Ozu fazia filmes com ritmos furiosos. Durante este período ele fez três filmes de gangsters, que foram o mais próximo que se podia chegar dos filmes negros: "Walk Cheerfully",  "That Night’s Wife" (ambos de 1930) e "Dragnet Girl" (1933). Estes três filmes foram lançados em 2013 pelo British Film Institute, e deixaram o mundo boquiaberto, por serem exactamente o oposto ao que se conhecia do realizador. Em "Dragnet Girl", por exemplo, os actores vestem roupas ocidentais, falam na gíria habitual do submundo americano, as poses de durões são reminiscentes dos durões de Hollywood, como James Cagney e Edward G. Robinson, e parecem quase típicos filmes de gangsters americanos.
Todos estes filmes eram mudos, claro, embora haja partituras musicais compostas para cada um dos filmes por Ed Hughes, todas elas bastante eficazes na sua intenção e execução. Nos próximos dias faremos aqui uma pequena viagem por estes filmes, um pequeno ciclo dentro do ciclo do Film Noir Japonês, em que serão introduzidas estas três obras. Fiquem atentos, portanto.

 

- "Walk Cheerfully" (1930)

- "That Night’s Wife" (1930)

- "Dragnet Girl" (1933)

segunda-feira, 9 de maio de 2016

Afraid to Die (Karakkaze Yarô) 1960

Quando Takeo é libertado da cadeia por atacar Handa, um lord rival da Yakuza, a última coisa que tem em mente é assumir a posição do pai, recentemente falecido, fã do clã Asahina. Ele e o irmão mais velho Aikawa consideram todas as opções, incluindo deixar a vida de gangsters completamente. Mas a saída é mais difícil do que o previsto porque entra em cena um clã rival, exigindo uma pequena vingança.
O primeiro aspecto digno de nota, é que o tema do filme está explicitamente expresso no título, "medo de morrer". A história de um herdeiro de um clã da Yakuza que tem literalmente medo de morrer. Este medo surge de várias formas, e é facilmente reconhecível para todas as personagens. Um dos argumentistas do filme é um nome facilmente reconhecido, Kikushima Ryuzo, que ficou famoso a escrever argumentos para Akira Kurosawa, em obras como "Throne of Blood" (1957), "The Hidden Fortress" (1958), "The Bad Sleep Well" (1960), "Yojimbo" (1961), "Sanjuro" (1962), entre outros. Assim, falta alguma coisa na narrativa que poderia ter sido um pouco mais substancial.
Outro aspecto interessante é o papel principal ser interpretado por Yukio Mishima, numa das suas poucas intrepretações como protagonista de um filme já que ele era mais conhecido como escritor e novelista. Mishima tornou-se uma personagem quase lendária pelas suas excentricidades, tanto na vida como na morte. Para o público ocidental, a sua vida ficou dramaticamente retratada num filme de 1985 realizado por Paul Schrader, chamado "Mishima: A Life in Four Chapters". Ficou conhecido pela sua obsessão pela austeridade física, e a sua morte foi por "sepukku", em protesto contra o enfraquecimento do imperador no pós-guerra.
A realização era de Yasuzo Masumura, um realizador da nova vaga do cinema japonês, então em inicio de carreira, que manda aqui um olhar pouco sentimental para a vida no submundo e para as suas fantasias machistas. Produzido pelos estúdios Daiei, foi concebido para ser um veículo para Mishima, mas a atmosfera negra do filme distingue-o de um mero filme de propaganda.

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sábado, 7 de maio de 2016

O Enterro do Sol (Taiyô no Hakaba) 1960

Na favela de Osaka a juventude sem futuro envolve-se em assaltos, prostituição, compra e venda de bilhetes de identidade e de sangue. As alianças mudam constantemente.  Tatsu e Takeshi, amigos desde a infância, relutantemente juntam-se ao gang de Shin. Shin muda o seu gang muitas vezes para evitar o grande chefe local. Vão cruzar com Hanoko, uma jovem de grande ambição. Primeiro ela anda no negócio da venda de sangue, mas acaba por se juntar a Shin.
Um dos vários filmes que Nagisa Oshima fez sobre a juventude descontente do início dos anos sessenta, "Enterro do Sol" traça a rivalidade entre vários gangues nas favelas e guettos de Osaka. Fragmentado e elíptico, é passado num mundo de soluções a curto prazo, com gerações a esperarem pela próxima catástrofe, certos de que a terceira guerra mundial surgirá tão repentinamente como a segunda. Tal como os filmes de Pasolini do mesmo período ("Accatone", "Mamma Roma"), há algo de redentor nesta subclasse criminal - usam uma espécie de código de honra feudal - mas é muito mais fugaz e provisório. Talvez porque os adolescentes eram um animal tão raro no cinema japonês até ao momento, os filmes sobre jovens sem futuro deste período sentiam que realmente podiam resgatar estes adolescentes, como se o legado mais vergonhoso da derrota japonesa fosse o aumento da cultura adolescente, regredindo a nação para uma nova era, impulsionada pela ícone de culto Kayoko Hanoo, a actriz principal deste filme.
Oshima oferece-nos aqui um retrato perturbador de um Japão do pós-guerra amoral e arruinado, como ele retrata o caos, com pessimismo e perda de nacionalismo, a perda da identidade japonesa e a perda da cultura no rescaldo da guerra. É um estudo contundente da decadência do Japão no pós-guerra. O Sol enterrado do título do filme é o mesmo da bandeira imperial japonesa, e indicava o estado de desespero do Japão moderno.

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Rusty Knife (Sabita Naifu) 1958

O cenário é a cidade de Udaka, uma cidade do pós-guerra no coração da fase da reconstrução depois da Segunda Guerra Mundial, é o local onde a corrupção já tomou conta de tudo. Este cenário providencia-nos um olhar único para a fase da reconstrução japonesa, acrescentando o imprescindível contexto para o realizador Toshio Masuda produzir mais um "noir" para rivalizar com os filmes franceses e americanos, que dominavam o box-office na altura.
"Rusty Knife" aborda o problema do crime organizado, quando os gangsters criaram um estado perpétuo de medo entre a população. Seiji Katsumata (Naoki Sugiura) é uma pedra no sapato do promotor público Karita (Shoji Yasui). De cada vez que ele consegue meter as mãos em Katsumata, as vítimas desaparecem. Depois do gangster conseguir escapar de mais uma acusação de agressão, a sorte de Karita começa a mudar, quando o autor de uma carta anónima diz ser uma das três testemunhas do assassinato de um político, cinco anos atrás.
Primeira colaboração entre o realizador Toshio Masuda e a estrela  Yujiro Ishihara, foi um sucesso comercial para os estúdio da Nikkatsu em 1958, que os estúdios resolveram fazer desta colaboração um hábito. Ao longo de 25 filmes, esta dupla ajudou a redefinir o cinema de acção para o público japonês, ao longo da década de sessenta. Yujiro Ishihara é excelente como o herói problemático. O seu desempenho começa silencioso, porque o personagem quer passar despercebido. A fervura lenta é eficaz, e o nosso homem vai-se transformando num verdadeiro herói de acção. Ao longo deste ciclo veremos mais alguns filmes deste actor.
Legendas em inglês.

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quinta-feira, 5 de maio de 2016

Desejo Insaciável (Hateshinaki Yokubô) 1958

Na tarde de 15 de Agosto de 1955, no décimo aniversário da rendição do Japão, cinco pessoas encontram-se numa estação de comboios, cada uma usando o emblema do antigo exército imperial no seu peito. No dia da rendição, um general do exército havia escondido uma lata de valor inestimável num abrigo anti-aéreo. Tinha sido acordado que o general e os seus três soldados se encontrariam 10 anos mais tarde para dividir o seu saque, mas no dia acordado aparece uma pessoa a mais. Além disso, um deles é uma mulher, que diz ser irmã do general morto. Começam a cavar o chão onde a lata foi enterrada, mas à medida que o trabalho progride cada um deles torna-se vítima do seu próprio egoísmo, desconfiança e ganância.
Considerando que o filme policial convencional iria delinear claramente os criminosos e os cidadões inocentes cumpridores da lei, Shohei Imamura, conhecido pela sua reputação das suas observações astutas do comportamento humano, nunca iria permitir que tais considerações fossem simplificadas. Assim, Imamura estabelece algumas das suas observações mais cruéis sobre a humanidade, e sobre os habitantes da favela, classificando-os como lascivos, seres gananciosos e irracionais. Na verdade, o tema sobrejacente que melhor resume todo o filme é que o homem não é melhor que os insectos ou os animais que também vagueiam pelo planeta, com a única diferença de que os humanos são apenas muito mais neuróticos.
Para além do conteúdo temático, é interessante notar que visualmente o filme é tão interessante como os filmes posteriores de Imamura. Colaborando pela primeira vez com o parceiro de longa data, Masahisa Imeda, a iluminação do filme e a atmosfera "noir", teriam feito de John Alton um homem orgulhoso. Este era apenas o terceiro filme de Imamura.

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I Am Waiting (Ore wa Matteru Ze) 1957

Para sermos mais específicos, Joji Shimaki (Yujiro Ishihara) espera por notícias do irmão, que trocou o Japão pelo Brasil para comprar uma terra. Uma vez que o irmão finalize a compra, Joji fechará o seu restaurante e irá, igualmente, partir para o Brasil. Entretanto, ele não vê mal nenhum em meter conversa com uma jovem, de pé, na doca, aparentemente contemplando o suicídio. Convida-a para jantar no seu restaurante fora do expediente mas ela diz-lhe que acha que acabou de matar um homem. Esta jovem chama-se Saeko. É uma bailarina de cabaret, e trabalha para um gangster, que a quer de volta.
Koreyoshi Kurahara nasceu no Bornéu, no estado de Sarawak, e cresceu no período da ocupação britânica, que assim se tornava um local bastante diversificado culturalmente, e assim rico para se crescer. A sua família voltou para o Japão no final da Segunda Guerra Mundial, altura em que ele se interessou pelo cinema. Enquanto estudava conheceu  Ishirō Honda (o realizador de "Godzilla", 1954) que o apresentou a Kajiro Yamamoto, realizador, professor, e mentor de Akira Kueosawa. Quando acabou os estudos na universidade, Kurahara começou a trabalhar para os estúdios Nikkatsu, onde se tornou assistente de realização até ter a sua primeira oportunidade de realizar os seus próprios filmes. O primeiro foi este "I Am Waiting".
Facilmente é detectável a influência americana, e do film noir francês. Desde a banda sonora jazzy do brilhante compositor japonês Masaru Sato, assim como a fotografia escura de Kurataro Takamura ou o argumento corajoso de Shintaro Ishihara. Quase todos os vestígios do velho Japão estão ausentes no filme. Os sinais parecem querer gritar as suas informações em inglês "Reef Restaurant! Bar Keel!", e todos os personagens vestem roupas ocidentais e consomem bebidas ocidentais (Cognac! Coffee!). Não existem quimonos, e até a música e os desportos preferidos do personagem principal parecem sugerir que no Japão vive-se num mundo muito mais ocidental, onde os gangsters governam e é fácil adquirir uma arma.
Um dos primeiros filmes de gangsters da Nikkatsu, que dava o mote para o que se sucederia nos anos seguintes.
Legendas em inglês.

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terça-feira, 3 de maio de 2016

O Film Noir Japonês



Nos anos sessenta, a vaga Noir que tinha começado nos Estados Unidos, e tinha sido desconstruída na Europa, chegava ao Japão. Por esta altura a indústria cinematográfica japonesa estava dividida em cinco grandes produtoras. No ensaio "The Modernization of the Japanese Film Industry” Hiroshi Komatsu argumenta que durante este período os estúdios estavam em crise, e uma das produtoras, a Nikkatsu Corporation, fez um esforço para se dedicar ao mercado do cinema sobre a juventude perdida e os filmes de acção.
Também tem que ser lembrado que depois da Segunda Guerra Mundial a indústria cinematográfica japonesa estava muito controlada pelas forças americanas da ocupação, cujos censores se assemelhavam aos próprios censores de Hollywood. Na América, o "film noir" prosperava, e no Japão foi feito um esforço para destruir grande parte do cinema histórico do país, trazendo uma vaga de filmes de detectives, mulheres fatais, que começavam a substituir os habituais filmes de samurais, assim como os filmes familiares que até então preenchiam o cinema daquele país. Com todas estas mudanças, alguns cineastas criaram o seu próprio corpo de trabalho, que se tornou mais progressivo e subversivo quando a ocupação americana terminou.
Esta convergência de acontecimentos deu origem a um novo tipo de Noirs. O néo-noir japonês, particularmente da Nikkatsu, que estava para o cinema asiático como a RKO estava para o cinema americano, e era uma mistura de filmes de gangsters japoneses com o clássico film noir.
Vamos pegar neste movimento a partir de finais da década de 50, na mesma altura que deu início o movimento da Nova Vaga do Cinema Japonês, e lembrando que por vezes estes dois movimentos se confundem, já que realizadores como Oshima, Imamura ou Suzuki caminharam pelos dois lados da fronteira.
Vamos acompanhar esta vaga de néo-noirs japoneses até ao inicio da década de 70, mas pelo meio haverá duas surpresas. Dois ciclos dentro do ciclo maior, a saber:

Os filmes de Gangsters de Ozu
 Na década de trinta, antes de se tornar realmente conhecido, Yasujiro Ozu realizou uma série de filmes de gangsters, hoje em dia quase desconhecidos, mas considerados os primeiros filmes negros japoneses. São filmes mudos

Os Noirs de Kurosawa
De todos os filmes noirs japoneses, são os quatro de Akira Kurosawa que mais se assemelham com os filmes negros americanos, e vamos aproveitar para fazer um "flashback" neste ciclo para os conhecer a todos.

Ao todo serão perto de 30 filmes, que serão postados ao longo de todo o mês de Maio. Espero que gostem, e até amanhã.

segunda-feira, 2 de maio de 2016

Chove no Meu Coração (The Rain People) 1969

Depois de descobrir que está grávida, Natalie Ravenna (Shirley Knight), uma doméstica de Long Island, entra em pânico e foge de casa com o pensamento que poderia ter feito algo diferente da sua vida. se conseguisse libertar-se da vida que leva com o marido, que ama. No quarto de um motel, onde pára para descansar durante o dia, senta-se na cama imóvel e experiência a exuberância da completa liberdade. Continua a viagem e dá boleia a um jovem caminhante (James Caan), um atraente jogador de futebol com danos cerebrais. É por causa dele que coloca uma questão mais perturbante, do que a responsabilidade doméstica. 
No final dos anos sessenta  Francis Ford Coppola tinha feito nome como argumentista em filmes de grande orçamento, e tinha dirigido uma série de filmes peculiares. A Warner tinha-lhe entregado em mãos o musical com Fred Astaire "Finian's Rainbow" (1968), e estava satisfeita com a sua evolução e eficiência, apesar do filme ter sido um flop, e o estúdio decidiu financiar-lhe outro projecto. Coppola, por sua vez, não estava satisfeito com a sua falta de controle em "Finian's Rainbow", e decidiu partir para uma obra mais pequena, e mais pessoal, escrita e realizada por ele, e foi assim que nasceu "The Rain People" (1969).
Coppola conheceu Shirley Knight no festival de Cannes de 1967, onde estava na promoção de " You're a Big Boy Now", e a encontrou a chorar, perturbada por um confronto com um jornalista, e disse-lhe para não chorar porque iria escrever um filme para ela. Assim nasceu "The Rain People", um road movie filmado inteiramente em exteriores, viajando com uma caravana de cinco carros e um pequeno autocarro onde levava o equipamento. Entre a equipa estavam George Lucas e Mona Skager, que se tornaram figuras chaves, mais tarde, na sua própria produtora. Partiram para a estrada sem um argumento completo, adicionando eventos com os quais cruzavam no dia a dia, e contando com improvisações dos actores para ajudá-lo a moldar a história. Shirley Knight era uma actriz de créditos já firmados, nesta altura já nomeada para dois Óscares, e teve dificuldades em trabalhar num ambiente tão desorganizado, o que a levou a ter algumas discussões com o realizador, mas mesmo assim arrancando uma prestação soberba.
Depois desta experiência, Coppola decidiu começar a fazer os seus filmes longe de Hollywood, e fundou a sua própria produtora, a American Zoetrope, em São Francisco no final de 1969, com George Lucas a vice-presidente.
Tudo isto aconteceu três anos antes do monumental sucesso de "The Godfather", com Lucas a aproveitar dois dos protagonistas deste filme, James Caan e Robert Duvall.

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