sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Marebito (Marebito) 2004



"Um cameraman obcecado pelo medo (Shinya Tsukamoto) investiga uma lenda urbana que envolve misteriosos espíritos que assombram os longos e sinuosos túneis subterrâneos em Tokyo…
O resumo apresentado na sinopse abre um pouco o apetite cinéfilo para visualizar o filme de Takashi Shimizu, Marebito, criador da aclamada obra de terror Ju-Hon. Embora, na minha opinião, Ju.Hon seja um filme sofrível enquadrado no âmbito do género J-Horror, Marebito pauta-se como uma agradável surpresa, um filme de terror psicológico na sua verdadeira essência.
Tendo como protagonista principal o realizador de culto Shinya Tsukamoto (Masuoka), Marebito é uma viagem progressiva ao subconsciente de um homem perturbado e obcecado pela natureza do medo, viagem essa apresentada sempre pelo ponto de vista do protagonista, quer pela sua voz-off, (a voz do pensamento) quer através da sua câmara, instrumento que utiliza para captar a essência do medo, capaz de transmitir uma atmosfera claustrofóbica, principalmente nos túneis subterrâneos.
Após o suicídio de um homem registado pela sua câmara, Masuoko decide deambular pelos túneis subterrâneos de Tokyo, tentando encontrar as respostas ao porquê de o homem ter o medo estampado no olhar, momentos antes do suicídio. Lá encontra um ser feminino, jovem, bonita e completamente nua, que se alimenta de… sangue. Masuoko leva-a de volta ao seu apartamento e cuida dela... E mais não conto, pois estaria a estragar a visualização de Marebito, uma vez que os ambientes Lynchianos e de Cronemberg que existem implicam interpretações diferentes de pessoa para pessoa.
Com uma narrativa bastante segura, Takashi Shimizu constrói um pequeno filme de terror psicológico que se consegue afastar um pouco dos estereótipos do J-Horror, trazendo um pouco de frescura ao género. Filmado em apenas 8 dias (!) e apesar de algumas limitações a nível de efeitos especiais, Marebito pauta-se como um excelente estudo sobre a alienação num meio urbano e uma das melhores propostas do cinema alternativo asiático. Perturbante e bizarro, Marebito vale bem a pena para quem estiver disponível em encontrar a natureza do medo…", por Sérgio Lopes, daqui.

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Suicide Club (Jisatsu Sâkuru) 2001



54 jovens estudantes atiram-se em frente a uma estação de metro. Este parece ser o início de uma série de suicídios à volta do país. Será que o novo grupo Desert tem alguma coisa a ver com isso? O detective Kurada tenta encontrar a resposta, que não é tão simples como se podia esperar.
Abrindo com uma sequência de suicidio em massa de 54 estudantes, o filme tem sido muito comentado, analisado e discutido, não apenas como uma peça eficaz de terror, mas também como um comentário profundamente mordaz e assustador sobre a sociedade contemporânea japonesa. Não é um filme imediatamente acessível para qualquer imaginação, a complexidade dos temas pesados apenas aparecem através de visões repetidas. "Suicide Club" é um filme genuinamente assustador com alguns momentos verdadeiramente assustadores.
Realizado e escrito por Sion Sono, um homem cujo campo de trabalho era a indústria homossexual, e que contava com dois pesos pesados como protagonistas ((Ryo Ishibashi e Masatoshi Nagase), "Suicide Club" era um filme estranho, totalmente original e imperdível. Estranhamente estava avaliado para maiores de 15, apesar das suas representações sangrentas dos tipos mais desagradáveis de suicídio possível. Com influências tanto do trabalho de Kiyoshi Kurosawa como dos grandes clássicos do terror moderno, como "Kairo" e "Cure", Sion Sono criou uma visão aterrorizante e francamente apocalíptica onde o futuro parece muito instável. A fotografia é igualmente única, mudando radicalmente de tom para servir algumas cenas totalmente surreais ou imaginadas artisticamente.  
Seria o filme revelação de Sono para o Ocidente, e nos anos seguintes viria a tornar-se um dos realizadores mais originais do Oriente.

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quinta-feira, 30 de outubro de 2014

House (Hausu) 1977



Oshare está excitada em passar as férias do Verão com pai, até descobrir que a sua bela e estranha namorada também vai. E assim prefere antes ir para a casa da tia, no campo, e leva com ela as suas colegas da escola: Fanta (que gosta de tirar fotos e sonha muito), KunFuu (que tem muito bons reflexos), Gari/Prof (que é uma grande nerd), Sweet (que gosta de limpezas), Mac (que come muito), Melody (que faz musica).As jovens não sabem que a tia de Oshare está na realidade morta, e que a casa é assombrada. Quando chegam a esta casa estranhos eventos começam a acontecer, e as jovens começam a desaparecer uma a uma, à medida que vão descobrindo o segredo por detrás de toda esta loucura.
Para apreciarmos verdadeiramente este bizarro trabalho experimental de Nobuhiko Obayashi temos de saber que fronteiras é que ele derrubou no cinema japonês da altura. Os lendários Toho Studios, que, como os outros grandes estúdios japoneses, estavam num período de transição económica e de muitas incertezas, tinha comprado os direitos do filme dois anos antes, na esperança de poder criar um blockbuster do cinema japonês, mas permaneceu no limbo porque não conseguiam encontrar um realizador à altura para o realizar. Entretanto apareceu Obayashi, que foi apresentando uma série de produtos relacionados com o filme (uma banda sonora, um livro, histórias aos quadradinhos, e uma adaptação para a rádio), para alimentar o desejo público e fazer pressão sobre o estúdio.
Obayashi foi convidado a realizar o filme, apesar de nunca ter realizado um filme de ficção antes (a sua experiência vinha de curtas-metragens experimentais, e de comerciais da televisão, que ele tinha feito ás centenas na década de 70, inclusive alguns com Charles Bronson), e assim que lhe foram entregue as rédeas nunca mais olhou para trás. Ao contrário de outros jovens realizadores, ele foi contra a corrente, recusando-se a seguir os passos de mestres como Akira Kurosawa ou Yasojiro Ozu. A sua abordagem era perguntar-se a si próprio o que estes realizadores iriam fazer, e depois fazer ao contrário, o que o tornava ainda mais radical do que os realizadores da nova vaga japonesa que tinham aparecido na década de sessenta. A aproximação não convencional de Obayashi estende-se tanto à parte visual do filme, um estilo muito artificial, como à banda sonora, da autoria do grupo pop Godiego. Ainda teve a ousadia de dar um nome inglês ao filme, algo que nunca tinha sido feito no cinema japonês.
Obayashi teve o benefício de trabalhar num periodo de muita agitação na indústria de cinema japonesa, onde um grande fluxo de jovens cineastas pretendia mudar o rumo do cinema, no país. Mesmo deste ponto de vista, "House" é uma obra muito bizarra, e em muitos aspectos era um filme muito à frente do seu tempo, levando a narrativa a extremos. Não havia nada que Obayashi não estivesse disposta a tentar, e o resultado final é um compêndio de técnicas cinematográficas excêntricas, projectadas para chamar a nossa atenção para o artifício total, sem sacrificar o nosso envolvimento. É um filme irreverente, ousado na forma como se recusa a tomar qualquer coisa a sério, ao mesmo tempo que impressiona com a sua aura visual assombrosa. Filme de culto.

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Horrors of Malformed Men (Kyôfu kikei ningen: Edogawa Rampo zenshû) 1969



Depois de fugir de um asilo de loucos, um jovem estudante de medicina assume a identidade de um homem morto para descobrir a verdadeira identidade de um homem cuja foto ele viu no jornal, e é exactamente o seu duplo. A investigação leva-o a uma ilha isolada, onde ele descobre um estranho laboratório, onde um cientista louco faz experiências horríveis com seres humanos vivos, e a sua própria familia tem uma ligação ao cientista.
Mentes originais fazem filmes originais, esse é o caso do japonês Teruo Ishii, que realizou mais de 80 filmes desde a sua estreia em 1957 até à sua morte em 2005. Embora seja mais conhecido pela sua série de denuncias sobre práticas desprezíveis, o seu catálogo contém alguns filmes de uma ousadia completamente diferente. "The Horror of Malformed Men" é uma das experiências mais singulares, não só do realizador, mas de toda a cinematografia japonesa, combinando um conjunto de influências que vão desde o "Rampo to butoh" a traumas pós-nucleares, que algumas pessoas sofreram depois dos rebentamento das bombas na Segunda Guerra Mundial.
Contar a história deste filme é fútil. Apesar de ter uma natureza narrativa, esta não tem nenhuma lógica aparente. Ishii e o seu co-argumentista, Masahiro Kakefuda, juntaram no mesmo caldeirão variados elementos do escritor Edogawa Rampo, incluindo The Human Chair (Ningen Isu), The Stroller in the Attic (Yaneura no Sanposha), The Twins (Soseiji) e o do título da história, e embrulhou-os à volta de um jovem médico, com amnésia que procurava o seu pai. Rampo era um escritor muito popular no Japão, uma espécie de Edgar Allen Poe para a cultura daquele país, e por isso uma honra para Ishii poder adaptar a sua obra ao cinema.
O filme parece-se muito com um livro passado para o grande ecrã, repleto de estranhos detalhes e reviravoltas peculiares. "Horrors of Malformed Men" é provavelmente um dos filmes mais estranhos que vão ver, mas é precisamente a natureza imprevisível da história que é tão envolvente. Tem algumas alusões (óbvias) para a obra de H.G. Wells, "The Island of Dr. Moreau", mas consegue ter a originalidade de seguir por outro caminho. No momento em que a história atinge o seu climax, o espectador é bombardeado com tantas revelações bizarras, tantas histórias paralelas, que é difícil não aplaudir a audácia do realizador.
Na altura da sua estreia foi banido, e durante várias décadas foi impossível ser visto. Até aparecer em DVD, em 2007.

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quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Internato de Raparigas (La Residencia) 1969



Lili Palmer possui e dirige uma escola para meninas rebeldes em França. A sua absoluta disciplina promoveu uma ordem social entre as habitantes da escola, com sexo, lesbianismo e tortura. Palmer também tem um filho jovem, que tenta manter afastado das jovens para não ter relações sexuais, explicando-lhe que ele tem de esperar por uma rapariga tal e qual a sua mãe. Entretanto, as jovens começam a ser assassinadas uma a uma...
Repressão é a ordem do dia em "The House That Screamed", também conhecido como "La Residência" na língua original, um filme de terror do espanhol Narciso Ibáñez Serrador, que influenciou as obras posteriores de Dario Argento, como "Suspiria". No entanto, esta é uma obra-chave bem menor do que esses filmes de Argento, com as paixões ardentes das personagens a deflagrarem intensamente, entrando em erupção em sequências intensas, algumas das quais incluem assassinato. Serrador também foi o autor do argumento.
Narciso Ibañez Serrador já era um realizador muito respeitado no seu país antes do lançamento deste filme, a sua primeira obra para o cinema, sendo ele realizador da popular série para TV “Historias Para No Dormir”, que durou 18 anos na televisão espanhola, e teve um grande impacto na indústria de terror deste país. Embora fosse considerado um dos melhores "auteurs" no seu país, era praticamente desconhecido fora de Espanha, facto que mudou depois do lançamento deste filme.
Era um projecto muito ousado para a sua época, já que era um filme com muita violência gráfica e muitas conotações sexuais. Na altura o país estava sobre a ditadura de Francisco Franco, que manteve uma rigorosa censura durante o seu governo, que já vinha desde 1936 e que se prolongar-ía até 1975. A sexualidade também estaria muito presente, principalmente em insinuações lésbicas, que eram um tabu para aquele tempo.
Controvérsias e importância histórica à parte, "La Residência" é um filme muito bom tecnicamente, talvez dos melhores filmes de terror espanhol de sempre, e uma obra perdida no tempo, pronta a ser descoberta.
 As legendas em português não estão grande coisa, então como alternativa têm uma versão falada em espanhol com legendas em inglês.

Versão legendada em português .
Versão legendada em inglês
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terça-feira, 28 de outubro de 2014

Pacto com o Diabo (Witchcraft) 1964



Desde o século 17, quando um Lanier enterrou viva uma mulher da família Whitlock, que estes andam desejosos de vingança. Contra a vontade das duas familias, Amy Whitlock e Bill Lanier planeiam casar-se. Os Laniers enviaram bulldozers para o terreno dos Whitlock para nivelar a terra e iniciar um projecto de construção. Morgan Whitlock e a sua filha Amy fazem o possível para impedir as máquinas no território do cemitério da familia. Certa noite um caixão abre-se, e de lá sai Vanessa Whitlock, a bruxa falecida séculos atrás. Um por um, os Laniers vão sofrer uma terrível vingança...
Modesto e emocionante pequeno filme de terror, a partir de um argumento de Harry Spalding. Realizado por Don Sharp, veterano realizador no cinema de terror de baixo orçamento, evoca uma atmosfera sinistra a preto e branco, com a ajuda de uma bela fotografia da autoria de Arthur Lavis, que colaborou em i´numeros filmes de terror na década de sessenta. Contando nos principais papéis com um estrela decadente, dos velhos tempos de Hollywood, Lon Chaney Jr, na altura a lutar contra problemas de alcoolismo e já em fase final da sua carreira. Rezam as más linguas que todas as suas cenas e diálogos tinham de ser gravadas antes de almoço, porque depois o actor estava fora de si.
A casa muito antiga em que os Lanier vivem, cheia de passagens secretas e caves subterrâneas, fornecem o aroma gótico necessário para a construção do ambiente. Embora a história não seja original, o filme é muito bem levado a bom porto,
"Witchcraft" foi feito um ano depois de "Kiss of the Vampire", um dos melhores filmes de Don Sharp.

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segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Kronos (Captain Kronus - Vampire Hunter) 1974



Captain Kronos (Horst Janson) precorre o século 19 da Europa, acompanhado pelo seu sócio Professor Grost (John Cater), procurando combater o mal. As suas viagens levam-nos para a aldeia de um outro amigo, Marcus (John Carson) que lhe conta que as jovens locais estão a ser misteriosamente encontradas, drenadas, não de sangue, mas de vida. Kronos e Grost imediatamente suspeitam de um vampiro, mas como destruí-lo, e quem será ele?
Para injectar uma vida nova nos filmes da Hammer, foram recrutados o argumentista Brian Clemens e o produtor Albert Fennell, e esta foi a obra em que os dois colaboraram para revitalizar o género "vampiro". Foi planeado para ser o primeiro de uma série, de Kronos, o caçador de vampiros, mas infelizmente este não foi um sucesso de bilheteira, e nunca mais se ouviu falar na personagem. Adicionando um herói de capa e espada a um ambiente familiar parecia ser uma boa idéia, mas mesmo assim tal não resultou.
Kronos era uma personagem muito nova, muito longe do velho Van Helsing dos filmes do Drácula. A personagem equivalente a Van Helsing é a de Grost, um corcunda com muita experiência, para combinar com as habilidades de Kronos. Clemens sabia que tinha uma história banal para trabalhar, mas consegue ultrapassar os clichés com um toque bastante inteligente. O vampiro não tem medo da cruz, e na verdade aparece como uma sombra em forma de cruz, pouco antes de atacar uma vítima na igreja. As flores murcham e morrem quando o vilão passa, e Kronos e Grost vão descobrindo que é muito difícil destruir esta personagem, ao qual estacas, fogo e o enforcamento parecem não ter efeito.
Todas as evidencias apontam para os Durwards, uma familia de nobres que exploram os aldeões. Mas há um twist em cima da mesa, que não é particularmente chocante, mas que nos dará um duelo de espadas que estávamos à espera, e logo um duelo muito bom.
Poderia ter sido uma série de sucesso da Hammer, mas o tema vampiro já estava por demais explorado.

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A Mulher-Serpente (The Reptile) 1966



Harry Spalding e a sua esposa Valerie herdam uma casa de campo numa pequena vila, depois do irmão dele morrer misteriosamente. Os habitantes locais são hostis e o seu vizinho Dr. Franklyn (doutor de teologia), sugere que eles se vão embora. Eles decidem ficar, para descobrir que um mal misterioso assola esta comunidade.
O género de terror transborda com monstros masculinos, e demónios machistas, porque monstros no feminino sempre foram uma raridade. A produtora deste filme, a Hammer, sempre tentou contrariar esta tendência com inúmeros filmes de terror gótico, como The Brides of Dracula (1960), The Gorgon (1964), Frankenstein Created Woman (1967), Countess Dracula (1970) and Dr. Jekyll and Sister Hyde (1971). Um dos mais negligenciados e subestimados filmes da Hammer, que contava com uma mulher monstro foi este "The Reptile". Foi filmado ao mesmo tempo que outro filme de John Gilling, usando os mesmos cenários em Cornwall, o clássico The Plague of the Zombies, mas na altura do lançamento acabou por estrear com "Rasputin, the Mad Monk", de Don Sharp, um filme de pequeno orçamento, acabando assim por ficar enterrado no box-office. Merecia melhor sorte este "The Reptile", que hoje é visto como um clássico menor. De certa forma, "The Reptile" faz lembrar os filmes de terror atmosférico de Val Lewton (como I Wlaked With a Zombie ou Cat People), e os clássicos de terror da Universal, pelo menos no que diz respeito a atmosfera.
Jacqueline Pearce foi a única actriz da Hammer a interpretar dois monstros no cinema (em "The Reptile" e o cadáver ressuscitado em "The Plague of Zombies"), era mais conhecida entre os fãs de Sci-fi, pelo seu papel de Servalan na série de TV, "Blake's 7". Em "The Reptile", o seu lado negro, e a beleza sensual são usados para efeitos de arrefecimento, especialmente na sequência em que ela se contorce na cama, em resposta a um estranho cântico de Malay.
"The Reptile" tem uma elegância visual, e uma sensação de morte eminente que o colocam numa posição de destaque em relação a muitos outros filmes de série b. Há ecos de tragédia negra na obscura relação entre o Dr. Franklyn e a sua filha (a terrível maldição é fruto da curiosidade científica do seu pai).Ken Russell presta uma homenagem a este "The Reptile" com "The Lair of the White Worm" (1988).

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domingo, 26 de outubro de 2014

O Palácio Maldito (The Haunted Palace) 1963



No centro do filme temos a presença familiar de Vincent Price, aqui a ter um duplo papel: no prólogo do filme ele é Joseph Curwen, um suposto feiticeiro, condenado a ser queimado na fogueira pelos assustados habitantes de Arkham, uma povoação de New England afectada pela paranóia da bruxaria. Antes da sua carne ser consumida pelas chamas, ele promete voltar para assombrar a cidade. 110 anos depois, o descendente de Curwen, Dexter Ward, chega à cidade, ele que tem uma estranha semelhança com o seu antepassado, facto que não vai passar despercebido pelo habitantes locais que vivem no terror da ressuscitação de Curwen para os assombrar.
Talvez sem surpresa, "The Haunted Palace" é uma adaptação livre de um conto original de Lovecraft, em grande parte por causa do confronto de um homem com o seu antepassado feiticeiro. Mas onde o Ward de Lovecraft é substituido pelo seu antepassado, Roger Corman e Price preferem seguir por um caminho muito mais metafísico, com o espírito de Curwen a exercer a sua vontade através de uma pintura, e dos seus assistentes, Lon Chaney, Jr. e Milton Parsons. O que se segue, deve muito mais a Poe do que a Lovecraft, com toda a gente em volta de Ward - incluindo a sua pobre e confusa esposa (Debra Paget) - sem saber se ele está possuído pelo seu antepassado, que voltou para cumprir a vingança.
Este cenário permite a Price assumir a posição de um trágico conflito interior, uma dupla personalidade que ajudou a construir o lugar do actor no panteão dos ícones do cinema. Como Ward ele é calmo e educado, com a marca da tristeza do actor, quase sentimos que ele já sente o peso do legado da família antes de Curwen ressurgir. Como Curwen ele transforma-se num maníaco sádico, tanto pela sua voz como pelas expressões faciais, tornado-se mais nítidas e mais agressivas.
Um dos melhores filmes de Roger Corman na década de 60, e uma das suas melhores colaborações com Vincent Price.

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The White Reindeer (Valkoinen Peura) 1952



Passado na Lapónia finlandesa, esta estranha mistura de conto popular, fantasia antropológica e história de terror, recebeu tanto um Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro, como um prémio especial em Cannes por "best mythical film".
Num prólogo mudo uma mulher grávida atravessa o vento e a neve para uma aldeia isolada, e morre logo após dar à luz uma filha. Os descendentes da criança serão todos contemplados pela "maldição do sol da meia-noite".
Na actualidade, Pirita (a co-argumentista Mirjami Kousmamen, esposa do realizador Erik Blomberg), mostra as suas habilidades numa corrida de trenós, ganhando o coração de Aslak (Kalervo Nissila). Aslak pede e recebe a sua mão em casamento, mas Pirita logo se cansa da indiferença do seu novo marido, e longas ausências enquanto ele cuida de um rebanho de renas num local distante. Ela apela para um feitiço do shaman Tsalkku-Nilla, para que mantenha Aslak perto, nada que ele não tenha feito anteriormente a dezenas de noivas abandonadas. Ele aconselha-a a sacrificar a corça que Aslak lhe deu como animal de estimação, e misturar o seu sangue com terra do cemitério das renas. Mas Pirita transporta consigo a maldição do Sol da Meia-Noite, e o feitiço vai correr terrivelmente mal.
Passado numa área desolada da Lapónia, o filme pinta um quadro fascinante do que as pessoas fazem para sobreviver num clima extremamente severo. Os residentes desta região dependem severamente da população de renas, para satisfazer as suas necessidades. As renas não só são a sua principal fonte de alimento, como também são usadas para o transporte e o entretimento.Tal como noutras culturas pelo mundo fora, os animais são mantidos em grande conta, porque são essenciais para a vida. Tão importantes que até foram integrados em crenças espirituais das aldeias. Há um santuário construido em sua honra, em frente a um cemitério onde esqueletos e chifres de renas do passado descansam. 
Erik Blomberg, um veterano director de fotografia faz a sua estreia na realização neste filme fora do vulgar, que se desenrola num cenário de neve brilhante, e de árvores carregadas de neve. Embora muitas vezes de forma estranha, o filme inclui uma mão cheia de imagens tão assombrosas que nos continuam na memória muito tempo depois de terminar o filme, em especial o misterioso cemitério de renas, ou o momento em que Pirita se olha ao espelho, e vê os seus dentes transformados. 
Um filme obrigatório para os completistas de cinema de terror, e um dos poucos a explorar as tradições folclóricas do povo Sami.
Legendado em inglês.

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Especial Halloween

Vem aí o Halloween, que, como devem imaginar, é sempre um pretexto para mais um ciclo de terror. Cinema de terror que sempre teve muita preferência por estas bandas, tanto neste como no blog anterior, tendo sido partilhadas algumas dezenas de filmes deste popular género, dos quatro cantos do mundo.
Para a selecção desta semana não usei nenhum critério em especial. Peguei numa série de filmes que nunca tinha partilhado antes, e outros que talvez tenham passado despercebidos nos dois blogues, e organizei uma seleção para esta semana, com especial enfoque no cinema asiático.
Tenho preparados mais do que os cinco filmes da praxe, que vou postando ao longo da semana, conforme as minhas possibilidades. Eis a lista da semana:

- Valkoinen Peura (1952), de Erik Blomberg
- The Reptile (1966), de John Gilling
- The Haunted Palace (1963), de Roger Corman
- Horrors of Malformed Men (1969), de Teruo Ishii
- Let´s Scare Jessica to Death (1971), de John Hancock
- The House that Screamed (1969), de Narciso Ibáñez Serrador
- Witchcraft (1964), de Don Sharp
- Captain Kronos - Vampire Hunter (1974), de Brian Clemens
- House (1977), de Nobuhiko Obayashi
- Nang Nak (1999), de Nonzee Nimibutr
- Suicide Club (2002), de Shion Sono
- Marebito (2004), de Takashi Shimizu

Alguns filmes de culto, como podem ver. Vou tentar publicar isto tudo até ao dia de Halloween, a começar já mais logo. 
Bom ciclo, e até breve.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Resumo do 5x5

Está assim terminado o primeiro 5x5 deste blog. Espero fazer mais rubricas destas em breve. Vamos ao resumo dos filmes escolhidos:

5 filmes do Rui Alves de Sousa
- Bom dia, de Yasojiro Ozu
- A Oitava Mulher do Barba Azul, de Ernst Lubitsch
- Hana-Bi, de Takeshi Kitano
- O Vento Será a tua Herança, de Stanley Kramer
- O Clã dos Sicilianos, de Henri Verneuil

5 filmes do Nuno Fonseca
- Doze Homens em Fúria, de Sidney Lumet
- Blade Runner, de Ridley Scott
- O Homem Que Matou Liberty Valence, de John Ford
- O Estranho Mundo de Jack, de Henry Selick
- Shane, de George Stevens

 Como veem, é fácil de fazer uma lista destas. Segue-se a "discussão" amigável, no nosso grupo do facebook.
Amanhã ou sábado teremos novidades. Mais um filme português.

Bom Dia (Ohayo) 1957



Uma casa na vizinhança, pertencente a um jovem casal, possui um aparelho de TV. Todas as crianças do bairro se reúnem lá diariamente para assistir ao wrestling. O jovem casal veste o pijama todo o dia, ouve música jazz, tem cartazes de filmes de Hollywood (The Defiant Ones), nas suas paredes. Vivemos no Japão dos anos 50, e escusado será dizer que eles são os excluídos da sociedade.
Durante muitos anos os filmes de Yasujiro Ozu raramente eram vistos fora do Japão. A narrativa mínima, e o estilo idiossincrático assemelhavam-se a poucos filmes, e os distribuidores temiam que eles fossem "demasiado japoneses" para um público internacional. Durante os anos 50 e 60, o seu trabalho era centrado em volta do mesmo motivo: a tentativa de um pai envelhecido de casar a filha obediente, para que ela pudesse viver a sua própria vida. Alguém caracterizou este ponto de vista como "uma tristeza simpática". 
Mas com "Bom Dia", Ozu visitava os subúrbios e regressava uma pessoa mais alegre. Ele leva-nos para um lugar diferente, um novo Japão, mais brilhante, onde a cultura popular americana se infiltra na vida quotidiana do povo local. A história gira à volta dos altos e baixos da vida suburbana da classe média, num pequeno bairro onde as casas estão rodeadas por cercas brancas, e cheias de mobilia colorida e eletrodomésticos. Donas de casa saltando de casa em casa, trocando comida, bebida, bisbilhotices, por vezes cruéis. As crianças entram e saem da casa dos vizinhos, principalmente para verem TV. O senhor Hayashi não quer comprar uma televisão, porque segundo ele, esta já produziu "100 milhões de idiotas. Desesperadamente querendo uma, os seus filhos primeiro praticam uma resistência passiva, mas acabam por fazer uma greve de silêncio. 
Apesar de ser considerado um remake do filme mudo de Ozu, "Nasci, mas...", "Bom Dia" é muito parecido com as Sitcoms americanas do mesmo período. Está cheio de personagens de acção, Mr. Hayashi, o velho e distraído pai (interpretado por Chishu Ryu, quem é dito ser o alter ego de Ozu, presente na maioria dos seus filmes), vizinhos bisbilhoteiros, que causam grande dor para a senhora Hayashi, uma avó corajosa, que não se deixa intimidar nem por parentes nem por vendedores porta a porta. Mas o melhor de tudo são os vizinhos da Boémia.
A critica mais aguda de Ozu, vai directamente para a cultura japonesa. Embora a maior parte dos seus filmes sejam feitos em volta do diálogo banal e comum da vida diária, aqui ele critica a propensão do povo japonês pela vida sem sentido, pelas conversas para preencher o vazio. É o vazio das conversas dos adultos que revolta os jovens que todos dias assistem TV em casa dos vizinhos, e que os transforma em críticos sociais. Não querem crescer num mundo de rituais sem sentido, um mundo onde a conversa de dois jovens apaixonados não pode ir para além do estado do tempo. 
Os filmes de Ozu são meditativos e relaxantes. Revelam-se lentamente e obliquamente, através dos diálogos, de um trabalho de câmera mínimo. A câmera coloca-nos em contacto com os seus personagens, e quando começamos a entender as suas vidas somos convidados a tomar a nossa própria opinião.
Filme escolhido pelo Rui Alves de Sousa.

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Doze Homens em Fúria (12 Angry Men) 1957



A defesa e a acusação estão a descansar, e o júri reuniu-se na sala para decidir se um jovem hispano-americano é culpado ou inocente de ter assassinado o seu pai. O que começa como um caso aberto de assassinato, logo se torna um mini-drama para cada um dos juris despirem os preconceitos acerca da culpa ou não culpa do réu.
Entre 1955 e 1962 mais de meia dúzia de episódios de várias antologias de dramas de televisão foram adaptados para o grande ecrã, que representava um dos primeiros esforços da indústria cinematográfica americana em criar "filmes de arte" nos moldes europeus. O primeiro destes filmes, "Marty", que era adaptado de um drama de Paddy Chayefsky, e que foi realizado tanto para o grande como para o pequeno ecrã por Delbert Mann, foi apenas o segundo filme americano a ganhar em Cannes, foi um êxito tanto de crítica como comercial entre portas, como também ganhou quatro Óscares. Não admirava então, que outros o sucedessem.
 Entre os argumentistas de antologias que estavam neste grupo, encontrávamos Reginald Rose. Os dramas de Rose destacavam-se, porque em vez de seguir uma trama solta e se focarem na psicologia individual do cinema de arte europeu, escrevia dramas tensos, estruturados em torno do sistema jurídico e o seu papel crucial no apoio à justiça social.
A este respeito, Rose escrevia o argumento de 12 Angry Men, um filme incisivo e emocionante, realizado pelo estreante Sidney Lumet, e que era um exemplo perfeito da arte de Rose. Passado quase inteiramente dentro dos limites de uma pequena sala de júri, num dia quente de verão e contado em tempo real, "12 Angry Men" usa a deliberação dos jurados de um caso de assassinato, como meio de explorar tanto um olhar crítico sobre os preconceitos do ser humano, como na busca da verdade de um sistema judicial, que pode ser falível. Em "12 Angry Men" Rose mostra que o sistema judicial funciona quando as pessoas envolvidas tomam os seus papéis da forma mais humana possivel, mas deixa no ar que isso também pode não acontecer.
A resistência dos outros jurados para discutir um caso aparentemente fechado é um meio convincente para mostrar que o sistema funciona apenas quando os envolvidos aceitam o peso moral do seu papel, como acontece no caso de Henry Fonda, e que assim continuamente flexiona os outros, que começam a reavaliar o que eles achavam que sabiam, e chegam à conclusão de que a prova não é tão convincente como eles pensavam.
Elenco brilhante, além de Fonda contava com Martin Balsam, Lee J. Cobb, Jack Warden, Ed Begley, Robert Webber, entre outros. Ganhou o Leão de Ouro no Festival de Berlim.
Filme escolhido pelo Nuno Fonseca.

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quarta-feira, 22 de outubro de 2014

A Oitava Mulher do Barba Azul (Bluebeard's Eighth Wife) 1938



Michel Brandon (Gary Cooper) é um milionário norte-americano que gosta de casar, mas que não consegue permanecer casado. Teve já sete mulheres e está à procura da número oito. Na Riviera Francesa, conhece Nicole de Loiselle (Claudette Colbert), filha de um marquês francês falido que vê no casamento da filha uma oportunidade de negócio. Mas ao perceber que vai ser a 8ª mulher de Michael, Nicole engendra um plano para que não venha a ser apenas mais um número na lista das ex-mulheres de Michael.
Com um argumento escrito por Charles Brackett e Billy Wilder, e realização de Ernst Lubitsch, esta comédia romântica só poderia resultar em pleno. O filme era uma releitura do romance "The Taming of the Shrew", mas tem a distinção de ser uma das mais originais screwball comedies. Colbert a demonstrar que tem muito talento cómico, talvez até mais do que Cooper, com destaques ainda no campo das interpretações para Edward Everett Horton, no papel do pobre pai, e o britânico David Niven como outro pretendente.
O argumento era o primeiro de uma série de colaborações de sucesso entre Billy Wilder e Charles Brackett ((Ball of Fire, Ninotchka, Sunset Boulevard), e está cheio de grandes tiradas (”I only have to look at your pants to know everything”). Não é tão cruel como as obras posteriores dos dois, em especial de Wilder, mas ainda assim é um grande argumento. Também é um filme de Ernst Lubitsch, ele que é famoso pelo seu toque especial no campo da comédia, assim como aproveita da melhor maneira os cenários luxuosos da velha Europa, e da classe rica de Nova Iorque, repleta de maravilhosos hotéis, vestidos, jóias, e uma divertida série de empregados de hotel, tudo temperado com a fria batalha dos sexos, que era normal nas comédias da altura.
Não foi um sucesso de crítica na altura da sua estreia, mas com o tempo tornou-se num dos filmes mais importantes do realizador.
Foi uma escolha do Rui Alves de Sousa.

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Blade Runner - Perigo Eminente (Blade Runner) 1982



Numa visão cyberpunk do futuro, o homem desenvolveu tecnologia para criar replicants, clones humanos usados para servir as colónias fora da Terra, mas com expectativas de vida curta... Na Los Angeles de 2019,  Deckard (Harrison Ford) é um Blade Runner, um policia que se especializa em destruir replicants... Já depois de reformado, é obrigado a voltar ao activo, para apanhar quatro replicants que estão em fuga.
Muito vagamente baseado numa novela de Philip K. Dick, "Do Androids Dream of Electric Sheep", é um "filho" de Ridley Scott a todos os níveis. Apesar de ter sido um fracasso na altura da sua estreia, transformou-se num filme de culto a todos os níveis.
Com efeitos especiais deslumbrantes, este belo e instigante conto futurista contava também com uma grande banda-sonora de Vangelis. Muito mais do que uma simples história de detectives, era uma obra que tinha vários significados, e que tratava de assuntos de peso para a humanidade, como memórias, sonhos, e uma visão do futuro que mudaria a face da ficção científica para sempre.
Os argumentistas Hampton Fancher e David Peoples estavam mais interessados em criar um clima específico e levantar uma série de questões sobre o que significava ser humano. Será os replicants menos importantes porque foram criados? As emoções de Rachael (Sean Young) foram criadas, e as suas memórias são falsas, mas ainda assim ela interage com os humanos como uma pessoa.  Deckard mas demonstra qualquer emoção, enquanto Batty (Rutger Hauer) e Pris (Daryl Hannah) são barris de pólvora e de amor, raiva e arrependimento. Por outro lado, Bryant e Gaff são figuras cínicas que se parecem preocupar pouco com os outros. Parecem manipular Deckard enquanto Batty tenta salvar a vida. Estas complexidades são o que eleva o filme acima do nível da sci-fi. A versão do realizador implica fortemente que Deckard seja um replicant, o que apenas solidifica o tema questionado se os andróides são realmente dispensáveis. Os humanos destruíram a sociedade e deslizam pelas ruas chuvosas, cheias de néon e artificialidade transformando o personagem principal numa máquina, o que apenas solidifica os sentimentos negativos da sociedade. Se o personagem que seguimos a maior parte do filme pode ser uma criação (nunca fica claro), diminui seriamente as esperanças para um futuro.  
Esta versão aqui postada é a do realizador (final cut).
Filme escolhido pelo Nuno Fonseca.

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terça-feira, 21 de outubro de 2014

Fogo de Artifício (Hana-Bi) 1997



Hana-bi, de Takeshi Kitano, é um filme muito peculiar, ocupado por inúmeros silêncios, olhares vazios, e mudanças de velocidade entre a reflexão e a ultra violência. Kitano (que também escreveu o argumento e fez a montagem) interpreta Nishi, um polícia conhecido pela sua natureza impulsiva e violenta, mas que normalmente cumpre o seu trabalho, mesmo que por cima de algum sangue derramado. No entanto, Nishi já teve melhores dias. A sua esposa está a morrer lentamente de leucemia, e o seu parceiro de confiança, Horibe (Ren Osugi) é abatido e paralisado em serviço. Nishi, sentido-se culpado pela lesão do companheiro e subsequente degradação do estado mental deste, e querendo passar mais tempo com a esposa, é obrigado a retirar-se da policia, e ao fazê-lo é obrigado a recorrer a alguns meios um pouco sujos para financiar o seu tempo de inatividade e desespero. Mas as coisas ficam um pouco complicadas...
Kitano quase nunca fala, mas a sua presença em frente à câmera é extremamente eficaz. No seu silêncio, a personagem de Nishi torna-se um paradoxo completo, mas também se torna na segunda metade da sua esposa (que também quase nunca fala), e ambos fazem um grande contraste com os outros personagens do filme, que exibem abertamente os seus sentimentos em cada momento do filme.
Horibe, por causa da sua lesão, e da consequente partida da sua esposa e filha, tornou-se suicida, preso a uma cadeira de rodas e aborrecido com a vida em geral. Passa a vida a pintar (os quadros na verdade foram pintados por Kitano, depois de uma tentativa de suicídio em 1994), e está a ser monitorado pelos ex-parceiros que temem pela sua sanidade. De certa forma, a situação de Horibe não é tão dramática como a de Nishi. Enquanto os outros personagens são movidos pela necessidade de estar sempre a fazer alguma coisa, Nishi e a esposa são caracterizados por raramente mostrarem as suas emoções ou movimentos, e expressões apenas quando são necessárias. Parece que num mundo com falta de sinceridade, a sua esparsa interacção não é um sinal de uma ligação quebrada, mas uma necessidade de dar espaço ao outro, quer juntos ou separados.
O tom minimalista do filme é o que faz a violência trabalhar de forma tão eficaz, para transmitir a loucura de Nishi. A estática do filme serve para trabalhar com o ritmo lento, enquanto assistimos à descida de Nishi rumo ao desespero. Kitano infecta a beleza lírica e meditativa do cinema clássico japonês, e o que emerge é uma declaração profunda e original sobre a mortalidade, o quanto rica a vida humana pode ser, e quanto rápida ela pode ser tirada...
Ganhou vários prémios por esse mundo fora, incluindo o Leão de Ouro em Veneza.
Filme escolhido pelo Rui Alves de Sousa. 

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O Homem Que Matou Liberty Valence (The Man Who Shot Liberty Valance) 1962



Quando o Senador  Ransom Stoddard regressa para casa em Shinbone, para o funeral de Tom Doniphon, conta a um editor do jornal local a história por detrás da sua vida. Ele tinha chegado à cidade muitos anos antes, um advogado por profissão. A diligência tinha sido roubada pelo rufia local, Liberty Valance, que tinha deixado Stoddard sem nada, a não ser uns livros de direito. Consegue um trabalho na cozinha de um restaurante, onde conhece a sua futura mulher, Hallie. Em flachback vamos ficar a saber como é que a vida destas quatro pessoas se cruzou.
A mudança da guarda, a perseverança de um homem, e a necessidade de um herói são temas recorrentes neste grande clássico de John Ford, The Man Who Shot Liberty Valance. Mais elegante do que a maioria dos westerns de Ford, resultou na única vez que contracenaram dois dos mais míticos actores da história do cinema, John Wayne, o cowboy maior do que a vida, e James Stewart, o bom rapaz que toda a gente gostava em Hollywood. O resultado seria um dos maiores westerns jamais feitos.
De certa forma, Wayne nunca esteve tão bem como aqui, nem mesmo em "The Searchers", e Stewart, que costuma estar sempre bem, mantém-se firme num papel oposto ao de Wayne, e mantém um contraste interessante com a dureza do outro actor. O personagem de Stewart é o mais efeminado dos dois, e usa mesmo avental a maior parte do filme, incluindo no duelo com o vilão. A fotografia de William H. Clothier dá ao filme uma atmosfera quase noirish, e Ford, como é habitual faz um grande uso do seu naipe de actores secundários, em especial Woody Stroode, e Lee Marvin como vilão. 
É evidente que Ford ficou cada vez mais desiludido com a sociedade, que é visível principalmente a partir da Segunda Guerra Mundial, e quanto mais profundo se tornou o seu desespero, mais visível isso ficou nos seus westerns. Mesmo nos filmes menores do final da sua carreira, como Cheyenne Autumn, a sua fé deu lugar ao pessimismo, tal como se vê nos filmes da cavalaria onde ele mostra os seus soldados a derrubarem os índios desarmados.
Foi o último filme que Ford fez com Wayne como protagonista. Os dois morreriam na década seguinte, Ford em 1973 e Wayne em 1979.
Filme escolhido pelo Nuno Fonseca.

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segunda-feira, 20 de outubro de 2014

O Vento Será a Tua Herança (Inherit the Wind) 1960



Todos os nomes foram alterados, mas os eventos descritos em Inherit the Wind, de Stanley Kramer, baseavam-se numa das mais espectaculares batalhas judiciais da primeira metade do século 20. O nome do julgamento é normalmente conhecido como "Scopes Monkey Trial" que numa única frase combinava o nome do réu (o professor do Tennessee John T. Scopes), o principal ponto de discórdia (a teoria da evolução de Darwin), e a natureza do caso em geral, uma farsa de todo o tamanho. Aconteceu no calor sufocante de Julho de 1925, e marcou uma das batalhas mais quentes e públicas entre as forças do cristianismo fundamentalista, e o progresso científico.
O que fez este julgamento ter sido tão notável não foi apenas o que estava em jogo (particularmente a intromissão de uma religião dominante no campo da educação financiada pelo estado), mas também as pessoas que estavam em jogo. Na defesa estava o advogado agnóstico Clarence Darrow, que era bem conhecido por trabalhar com sindicatos, e um grande opositor à pena capital. A acusação era chefiada pelo grande orador William Jennings Bryan, um senador fundamentalista que já tinha concorrido à presidência três vezes.
"Inherit the Wind" debruça-se sobre os factos mais gerais do caso, desde a prisão do professor na pequena cidade de Hillsboro, no Tennessee (a verdadeira cidade foi Dayton), seguindo-se do julgamento no tribunal. É sobretudo um filme de actores, por completo, desde o advogado da defesa interpretado por Spencer Tracy, que lhe valeu uma nomeação para o Óscar, aos grandes papéis de Fredric March, como advogado de acusação, Gene Kelly, mostrando todas as qualidades dramáticas como um repórter cínico, e um elenco de apoio cheio de nomes conhecidos. O  Hornbeck de Gene Kelly é o infiel numa sala cheia de partidários, e proporciona um alívio cómico consistente.
Adaptado de uma peça da Broadway por Jerome Lawrence e Robert E. Lee, capta o calor e o clamor deste julgamento, embora perca a oportunidade de fazer entender os dois lados do caso. Por ser adaptado por Nedrick Young e Harold Jacob Smith, "Inherit the Wind jogo com um discurso virulento após o outro, em que o discurso científico choca  violentamente com o zelo religioso profundo.
O produtor e realizador Stanley Kramer, habilmente manipula o material incendiário visual, fazendo um bom uso do foco profundo e composições cuidadosas que enfatizam as oposições na sala. Algumas das melhores cenas no filme, são, na verdade, as menos controversas, em que Drummond e Harris, que antes eram velhos amigos, se sentam a conversar, em vez de gritarem um com o outro.
Nomeado para quatro Óscares, foi um filme escolhido pelo Rui Alves de Sousa.

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O Estranho Mundo de Jack (The Nightmare Before Christmas) 1993



Uma fantasia que nos conta a história de Jack Skellington, o cabeça de abóbora, rei de Halloween Town. Jack está um bocado aborrecido com o que se tornou um trabalho redundante de coordenar os sustos de Halloween todos os anos, e ambiciona algo melhor. Uma caminhada leva-o até Christmas Town, que lhe dá uma idéia genial, ele deseja desesperadamente ser o rei deste feriado, mas este já tem um dono, o Pai Natal. Com a ajuda de alguns dos seus amigos mais macabros, o Pai Natal é raptado, e Jack toma as rédeas deste novo lugar...
Sem dúvida, que o aspecto mais forte de "The Nightmare Before Christmas" vem da sua arte, animação e do design de produção. Os visuais são impressionantes, a profundidade do detalhe é bastante rica, e os personagens são bastante realistas nos seus movimentos. O design da arquitetura e os cenários mostram que existe um coração a bater debaixo de cada frame do filme. Apesar do filme estar ligado a Tim Burton, este não o dirigiu, mas não há dúvida que toda a parte visual teve a sua influência, e a inclusão do seu colaborador musical desde há muito, Danny Elfman, mostra que eles são um encontro no céu quando se trata de virar a mesma página artística.
"The Nightmare Before Christmas" é um filme perfeito, tanto para o dia das Bruxas, como para o Natal, e as crianças provavelmente vão adorar, desde que não sejam tão jovens que se assustem com fantasmas ou cabeças cortadas, ainda que em desenhos animados. A música flui, para dentro e para fora da narrativa, de tal forma que é praticamente perfeita. Desde o início que estava destinado a ser um clássico destas quadras festivas que retrata. Já passaram 20 anos.
Foi escolhido pelo Nuno Fonseca.

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domingo, 19 de outubro de 2014

O Clã dos Sicilianos (Le Clan des Siciliens) 1969



Um jovem e ambicioso mafioso planeia um elaborado roubo de diamantes, enquanto seduz a filha de um implacável patriarca de uma família da mafia siciliana, com um comissário da polícia no encalce de todos eles.
"O Clã dos Sicilianos" é um filme sobre o mundo do crime, interpretado por três dos maiores nomes do cinema francês, Alain Delon, Lino Ventura, e Jean Gabin, dirigido por um grande especialista no género, Henri Verneuil, e baseado numa história de Auguste Le Breton, que também escreveu "Rififi", e "Bob le Flambeur". Com tanto talento por trás deste projecto, era impossível algum falhanço.
É um filme elegante, compulsivo, extremamente acessível para os olhos de qualquer espectador, poderia ser acusado como um filme superficial, porque de facto não tem a angustia existencial dos filmes de Melville, por exemplo, mas ganha pontos a construir um ritmo bastante elevado, e com algumas cenas de acção muito bem executadas. Neste aspecto, parece-se mais com um filme italiano do que um filme francês, impressão que é reforçada pela excelente banda-sonora de Ennio Morricone, que inclui algumas notas que normalmente seriam mais esperadas nos western spaghetti.
De facto, o filme deve muito a outro regular colaborador de Morricone, Sérgio Leone. A história tem muitas semelhanças com Por Alguns Dólares Mais (onde um gangster descobre como abrir um cofre enquanto está preso), e em alguns cenários é sentido o ambiente de um spaghetti (como no climax, quando Gabin, Delon e Irina Demick se enfrentam).
O filme é um prodígio para os padrões do cinema francês da altura, com cenários enormes, interiores muito interessantes e bem construidos. A direcção de arte de Jacques Saulnier é fantástica.
É um filme escolhido pelo Rui Alves de Sousa.

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Shane (Shane) 1953



Shane envolve-se num conflito entre o vaqueiro Ryker e um grupo de colonos, os Starretts, cuja terra Ryker quer. Quando Shane vence um dos homens de confiança de Ryker, Chris, Ryker tenta comprá-lo, sem sucesso. Depois de Shane e Joe, o pai do clã Starrett terem derrotado os homens de Ryker, este contrata um famoso pistoleiro, para derrotar os nossos heróis.
Seria tão fácil descartar "Shane" como um dos westerns mais bem filmados de sempre. A sua história já foi feita tantas vezes, que se tornou um cliché. Um pistoleiro solitário tentando deixar o passado para trás, chega a uma cidade onde tem de usar as armas novamente em nome do bom povo da cidade, contra os assassinos do barão do gado local. Apesar do enredo ser bastante simples superficialmente, há muito mais a acontecer do que parece.
Desde os primeiros momentos em que o pequeno Joey grita, "Somebody's comin', Pa!", e vemos pela primeira vez Alan Ladd como Shane, cavalgando para a herdade dos Starrett, que percebemos que há algo misterioso nesta personagem solitária. Que ele é um pistoleiro com um passado negro é óbvio, mas os detalhes do seu passado nunca são revelados, assim como de onde ele vem, nem para onde ele vai. É através dos olhos do pequeno Joey que vemos quase todo o filme, para ele Shane é o herói ideal, e aos seus olhos qualquer pecado lhe é perdoado, embora ele sinta que existem acções obscuras no passado de Shane.
Realizado por George Stevens, e ao contrário de muitos outros westerns, este é um filme de actores. A personagem de Ladd ficou mítica, assim como o jovem Joey interpretado por Brandon de Wilde, um actor bastante prometedor falecido muito cedo. Jean Arthur tinha o seu último papel no cinema, mas o grande destaque vai para o vilão de Jack Palance, um dos seus primeiros papéis do cinema, e um dos melhores vilões alguma vez trazidos ao grande ecrã. Valeu-lhe logo uma nomeação ao Óscar.
Foi uma forte inspiração para o homem sem nome de Clint Eastwood na trilogia dos dólares, e em muitos filmes posteriores.
Foi uma escolha do Nuno Fonseca.

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sábado, 18 de outubro de 2014

5x5: Nuno Fonseca x Rui Alves de Sousa

Os seguidores mais antigos dos "Thousand Movies" devem lembrar-se certamente da rubrica "5x5". No blog anterior esta rubrica consistia em convidar dois leitores que escolhessem cinco filmes, que por nunca tivessem por lá passado. O critério era livre, apenas se pedia que não escolhessem filmes demasiado recentes e mainstream. Durou alguns anos no "My One Thousand Movies", e teve mais de 40 participações de todos os cantos do Globo.
Resolvi reatar esta rubrica, no M2TM, que sempre nos trouxe óptimas listas de filmes, de toda a espécie e feitio. Já temos algumas listas para esta nova série, a ideia de fazer ressurgir estar rubrica veio do grupo My Two Thousand Movies, no facebook, onde se quiserem podem aderir, e discutir as escolhas dos nossos participantes.
Os dois participantes desta série vêm de Portugal, ambos bloggers. O Nuno Fonseca, autor do blog Espaço Cinzento, e o Rui Alves de Sousa, autor do blog Companhia das Amêndoas. Vou convidá-los para fazer uma pequena introdução das suas escolhas no final da semana, e entretanto ficaremos a conhecer as escolhas nos próximos dias, já a partir de amanhã. Um filme de cada lista por dia.

Quanto a novos participantes, se quiserem participar, mandem a vossa lista para myonethousandmovies@gmail.com. Deve conter 5 filmes que nunca tenham passado por ESTE blog, mais três suplentes. Só não podem escolher filmes mainstream, porque o blog corre o risco de ser apagado, mas de resto a lista fica ao vosso inteiro critério. Lembrem-se de que quando os filmes forem publicados estarão a ser observados e avaliados por personalidades altamente cinéfilas (estou a brincar).

Na próxima semana vamos ter um Especial Halloween, com filmes de terror bastante raros.

Até amanhã.

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Paraíso Perdido (Paraíso Perdido) 1995



Degrada-se, dia a dia, o casamento de Cristóvão, 48 anos, docente universitário atormentado pelos fantasmas de uma pesada herança familiar - loucura e homicídio.
Quando Cristóvão encontra Cristina, 20 anos de espontaneidade e sem assomo de medos, mas com um passado lacunar, algures perdido entre Angola e Portugal, é absorvido pela idéia de a ajudar a encontrar as raízes da sua vida. À medida que o "puzzle" se vai compondo a paixão arrebata-os; ao que a impossibilidade dela gerar (Cristina não pode ter filhos porque pode morrer de parto) acrescenta um elemento redentor: como se não houvesse possibilidade de futuro e o presente fosse o único sentido. No desvelamento do passado de Cristina, Cristóvão, omitindo o seu passado, sente a esperança de o reinventar.
Há filmes malfadados. No berço, um encantamento perverso condenou-os a uma existência pária, "zombies" num universo de espectáculo de que eles são, por assim dizer, o avesso. Assim terá ocorrido com este "Paraíso Perdido", filme de Alberto Seixas Santos, longos anos vagueando no limbo dos mortos-vivos. Faz-se, não se faz, completa-se, não se completa, é visível, não é visível, estreia ou não estreia nunca? Estas - e outras - perguntas e um nunca acabar de rumores acompanharam a génese, o crescimento, o parto e a clausura da fita, numa sucessão de feitiços meléficos que pareceram ser fatais.
Tudo começou em 1977. No plano de produção para o IPC para esse ano consta uma atribuição de subsidio à Cooperativa Grupo Zero, para o filme "Rosa", de Alberto Seixas Santos, orçamentado em 3.041.684$00. Mais tarde, muda o projecto (passou a designar-se "Paraíso Perdido") muda o produtor (que passou a ser o Animatógrafo, de António da Cunha Telles) - e, em 1986, iniciam-se, enfim, as filmagens. Atribuladas, diga-se (a poucos dias de se iniciarem o actor protagonista teve de ser mudado, e foi apenas um dos episódios..). Finda-se estas, entra-se na fase de pós-produção. Interminável, o filme arrasta-se durante anos. Corre, por esses dias, em Lisboa, que "Paraíso Perdido" seria pavoroso, que nada ligava com coisa nenhuma, que Seixas Santos não completava o filme por pânico de dar a ver horrores de desfazer a mais sólida das reputações.
10 de Novembro de 1995 foi o momento de rasgar todos os véus. "Paraíso Perdido" - talvez o mais difícil parto do cinema português das últimas décadas - confronta-se com o público, com a crítica, com a luz do dia. Só que passou tantos anos na sombra que é de temer que a luz o ofusque - e, sobretudo, que o mundo em que foi pensado se tenha ido embora.
Que mundo é esse? Um mundo de fim-de-império, de gente que voltou das colónias, mas guarda uma espécie de mito guardado no fundo da alma. (os grandes espaços de África, um tempo idealizadamente feliz - por contraponto à pequenez deste "cochico" plantado no fundo da Europa). Um mundo onde os cinéfilos ainda tinham o Quarteto como catedral, um mundo que ainda não atravessara os anos laranja, que ainda não vira esta nossa gente armar-se em nova-rica, apinocar-se, jogar na bolsa, auto-estradar-se. O Portugal de Paraíso Perdido é pré-cavaquista, está desorientado, anda à procura de raízes, não é capaz de procriar por cobardia, tem muito medo - e quando encontra a verdade plantada do passado, não está lá coisa nenhuma a que seja possível uma pessoa arrimar-se, muito pelo contrário. A realidade é um desatino triste, uma loucura sem grandeza, um desacerto prolongado, um sarcasmo de demência visionária, apenas uma maluquice.
Por Jorge Leitão Ramos, em "Dicionário do Cinema Português 1989-2003".

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quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Greetings (1968) / Hi, Mom! (1970)



Depois da estreia de "Murder a la Mod", Brian de Palma começou a fazer filmes underground bastante baratos. Os dois filmes mais notáveis do seu inicio de carreira são "Greetings" (1968), e "Hi, Mom!" (1970), que mostravam De Palma como um talentoso realizador, com um enorme sentido de tempo e lugar, e como sendo um brincalhão espiritual. Estreado apenas oito meses depois de "Murder a la Mod", "Greetings" não parecia um filme para ir muito longe, feito com apenas $39,000, não estava particularmente interessado em seguir uma trama tradicional, e foi o primeiro filme a receber a polémica classificação "X". Mas enquanto não era um sucesso de público, conseguiu acumular um milhão de dólares no box-office, estabelecendo de Palma como um talento emergente.
A trama do filme seguia três amigos Paul (Jonathan Warden), um jovem obcecado por mulheres, Lloyd (Gerrit Graham), um jovem obcecado com o assassinato de Kennedy, e Jon Rubin (Robert De Niro), um realizador que deseja transformar uma espécie de arte, com voyeurismo e pornografia, em algo que chama de “Peep Art”. Os três perseguem jovens meninas, tentam fugir à guerra do Vietname, e não ser apanhados nas suas próprias obsessões.
De Palma não esconde as suas influências, nomeadamente a influência de Hitchcock, alguns jump cuts da Nouvelle Vague, a abordagem com um sentimento verité, referências constantes a "Blow-Up", de Michelangelo Antonioni, mas a sua relização é muito mais segura do que no filme anterior. Há sempre algo a acontecer, tanto no plano geral como em fundo, que dá a De Palma a hipótese de mostrar o que está a acontecer a várias personagens ao mesmo tempo.




A sequela de "Greetings" chamava-se "Hi, Mom", e era ainda melhor. Enquanto "Greetings" colocava de Palma e De Niro, no estatuto de pessoas a seguir, "Hi Mom" elevava-os ainda mais, e deu-lhes mais hipóteses de mostrarem os seus talentos. Deixamos de seguir as co-estrelas de De Niro no filme anterior, e concentramo-nos no seu Jon Rubin, que segue o sonho de "peep artist", apanhado no mundo underground da arte, e tornando-se numa figura revolucionária da América. A primeira parte do filme é um cruzamento entre o estilo irreverente de Godard, e uma comédia. Homenagem desprezível a "Janela Indiscreta" de Hitchcock com o personagem de De Niro a tentar filmar os prédios à sua volta, para captar imagens de "momentos privados", e de jovens a despirem-se. A segunda parte do filme satiriza o cinema verité, com jovens revolucionários em Nova Iorque.
A Nova Iorque de De Palma é ainda mais bem definida aqui. O cinema verité mostra o choque entre a burguesia da cidade e os radicais de esquerda de Greenwich Village/Panteras Negras. É um mundo completamento formado, e com um mestre a explorá-lo.
"Hi, Mom!" é ainda mais episódico do que "Greeting", mas também mais engraçado e cheio de momentos de bravura. A exploração do cruzamento entre a pornografia e a mais pretensiosa arte é grande: De Niro tem uma reunião com um produtor de pornografia, que se queixa que demasiados filmes para adultos têm actrizes a quem não foi dito que tipo de personagem iam interpretar, e assim não conseguem atingir toda a sua potencialidade. O filme também reconhece todo o seu voyeurismo e artificialidade de formas diferentes: shots longos de De Niro a espiar personagens, convidando o espectador a tornar-se ele próprio um espião.
Charles Durning é outro dos protagonistas, ele que viria a tornar-se um habitual dos filmes de De Palma.

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sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Pixote – A Lei do Mais Fraco (Pixote – A Lei do Mais Fraco) 1981



 “Pixote – A Lei do Mais Fraco”, além de ser o motor que foi na carreira do diretor argentino Hector Babenco, é também um dos maiores marcos do cinema nacional. A história gira em torno de Pixote (Fernando Ramos da Silva), um garoto que nunca conheceu os pais e vive nas ruas de São Paulo. Numa apreensão de menores infratores suspeitos pelo latrocínio de um homem importante, ele vai parar em um reformatório (a antiga FEBEM e suas paredes de sangue). Depois de um tempo, Pixote consegue fugir com Dito (Gilberto Moura) e Lilica (Jorge Julião), homossexual que estimula a fuga após seu companheiro ser assassinado em meio à corrupção policial existente ali. Fora da FEBEM, Pixote e seus amigos entram na criminalidade para conseguir sobreviver à deriva da sociedade. Trata-se de um filme pesado, às vezes claustrofóbico, cru em maior parte e que beira a melancolia solitária. Tudo isso foi calculado pelo próprio Hector Babenco, que se utilizou do neo-realismo italiano para adaptar o livro de José Louzeiro (“Pixote – A Infância dos Mortos”).
Para endossar ainda mais toda a naturalidade vista em cena, Babenco decidiu formar o elenco principal de garotos que vivenciavam a mesma realidade dos personagens. Para isso, escalou atores residentes de comunidades carentes de São Paulo. Fernando Ramos da Silva, o garoto que dá vida à Pixote, protagonizou também a informação mais trágica que norteia “Pixote – A Lei do Mais Fraco”. O ator, que também era oriundo de uma família carente, ganhou apoio para seguir a carreira. Chegou a conseguir papéis na Rede Globo e em outras produções, mas como era analfabeto, empacava na dificuldade em trabalhar com textos. Sua família nunca saiu da favela, e foi pra lá que voltou quando não teve mais perspectivas na arte. Envolveu-se com a criminalidade e, no ano de 1987, foi assassinado em uma batida policial, num crime que demorou a ser desvendado. Daqui

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quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Em memória da Tânia

Hoje é um dia muito triste. Deixou-nos, na flor da idade, a Tânia Pereira, uma antiga seguidora ainda do My One Thousand Movies. Ela chegou, inclusivé a participar num 5x5, e por isso não podia deixar passar sem homenageá-la aqui.
Um minutos de silêncio em sua memória, e fiquem com imagens de um dos filmes escolhidos por ela: "Pierrot Le Fou".


Os Selvagens da Noite (The Warriors) 1979



Cyrus, o líder do gang mais poderoso de Nova Iorque, os Gramercy Riffs, convoca todos os gangs de Nova Iorque, que são convidados a enviar 9 membros desarmados para uma reunião. É assassinado durante o discurso, e um gang chamado "The Warriors" é considerado culpado da morte de Cyrus. Agora eles têm de atravessar o território dos rivais para alcançar o seu próprio bairro. Lentamente eles atravessam bairros como os do Bronx ou Manhatthan, fugindo da polícia e dos outros gangs rivais que os querem capturar.
Durante o final dos anos 60 e a década de 70 o cinema popular ficou repleto de visões sombrias do futuro, e de uma raça humana cínica e auto-destrutiva. A visão do futuro incluía destinos tão cruéis como a humanidade ser conquistada por macacos muito evoluídos e bem preparados militarmente. O medo do futuro chegou ao auge entre 1978 e 1982, quando a era do "disco" abriu caminho para a década da ganância, com o ciclo pós-apocalíptico, e cinco filmes monumentais a serem lançados neste período. "Dawn of the Dead", "The Road Warrior" (ambos sequelas sobre a sobrevivência do lado mais negro da mente humana), "Blade Runner", "Escape from New York" (feitos com a premissa que um dia as maiores cidades americanas seriam tão perdidas com o crime e a corrupção que a humanidade estaria perdida para sempre). O quinto chamava-se "The Warriors", realizado por Walter Hill, e que era um misto destes dois temas.
Baseado numa banda-desenhada, antecipava, em muito, filmes como "Sin City" ou "300", e desenhava uma analogia entre os protagonistas e aquele grupo de valentes soldados na Grécia antiga, e relatava a história dos 300 como se fosse uma banda desenhada passada para o cinema. Superficialmente é um épico de acção corajosa, uma variação da fórmula Star Wars onde os heróis são os membros de um gang, e os vilões são caricaturados, paródias sangrentas tão variadas, desde jogadores de Baseball, a mímicos das ruas. É uma parábola inteligente sobre a união, com o fim de ultrapassar as adversidades para alcançar uma vida melhor.
Com um elenco de actores desconhecidos, tornou-se um enorme filme de culto durante os anos 80. 

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quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Juventude sem Freio (Scum) 1979



"Scum" refere-se ao rótulo obtido pelo reformatório para jovens delinquentes, onde está detido o jovem interpretado por Ray Winstone, reformatórios estes chamados de "borstals" pelos britânicos. Quando Winstone não está a ser espancado pelos outros jovens, está a sê-lo pelo sistema. Ele rebela-se contra esta situação, e torna-se mais cruel do que qualquer um dos seus opressores. Scum foi originalmente filmado para televisão, mas foi rejeitado por causa da frieza da sua perspectiva.
"Scum" ainda se mantém como uma poderosa crítica ao sistema penal britânico. Apesar de não ser um filme especialmente brutal na sua violência - uma cena de violação, por exemplo, que é tratada de tal forma que evita o seu erotismo - e por isso não foi especialmente bem recebido pelos censores do seu tempo, tendo apenas estreado alguns anos mais tarde.
Furioso pela decisão da BBC de arquivar o filme, Alan Clarke conseguiu alguns fundos para gravar uma nova versão para estrear nos cinemas.O resultado desta segunda versão não foi tão efectivo como o original, mas tornou-se mais gráfico.O pretexto para Clarke e o argumentista Roy Minton nos trazerem os círculos progressistas dos reformatórios juvenis é a passagem de Carlin (Winstone), um delinquente com uma má reputação para o topo da hierarquia em qualquer grupo de duros onde o sistema o coloque.
É apenas superficialmente, no entanto, que Clarke e Minton se preocupam com a ascenção ao poder do carismático Carlin, o violento rebelde. O verdadeiro propósito da narrativa é dissecar todos os componentes do sistema da justiça juvenil, onde a aura corrosiva da violência e do medo, são o controle de todo o organismo, apesar da afirmação do director (Peter Howell) de que "não há violência aqui".
À medida que o filme ferve, e finalmente explode, o espectador fica com a sensação inevitável de que o sistema não fortalece o carácter nem instala respeito à autoridade, mas brutaliza e destrói, levando os jovens a quebrar regras, transformando-os em criminosos embrutecidos.

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terça-feira, 7 de outubro de 2014

Sementes de Violência (Blackboard Jungle) 1955



Richard Dadier (Glenn Ford) tem uma missão de ensino numa escola difícil, onde os alunos fazem as regras, e os professores aceitam humildemente o facto de terem perdido o controlo da situação. Quando Dadier tenta exercer a sua autoridade, recebe muita hostilidade por parte dos alunos e professores, com a sua esposa grávida a receber mensagens anónimas falsas dele estar romanticamente envolvido com uma professora na escola. Com raiva, Dadier lança uma acusação conta Gregory Miller, um negro muito temido por ele. Miller não nega a acusação, e pelo contrário ainda aumenta a tensão entre os dois, mas será que é realmente o culpado?
Hoje em dia, o principal motivo da fama de "Blackboard Jungle" é porque em 1955 incluía na sua banda sonora o tema de Bill Haley and the Comet's "Rock Around the Clock", a primeira vez que uma canção de rock n´roll era usada num filme, e era um factor importante garantir o sucesso da música como publicidade para este novo tipo de som. Lançado em 1955, o filme destacava uma obsessão da América, e também de alguns países ocidentais, pelos gangues juvenis, um assunto que ainda era muito virgem no cinema.
Escrito e realizado por Richard Brooks, que se baseou numa peça de Evan Hunter, "Blackboard Jungle" virtualmente inventava o sub-género delinquência juvenil no cinema. Foi uma óbvia influência para "Rebel Without a Cause", assim como outras imitações menores. O género floresceu por alguns anos, nos velhos estúdios como a MGM, que produziu o filme de Brooks, e ainda um famoso filme de William Morgan, "The Violent Years". Estreado poucos meses depois de "Blackboard Jungle", e com argumento de Edward Wood Jr, era a antítese do filme de Brooks.
Algumas caras conhecidas no elenco, em papéis menores, como Sidney Poitier, Vic Morrow, Paul Mazursky, e o filme acabaria por conseguir quatro nomeações ao Óscar, de argumento, fotografia, direcção de arte e montagem.   

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domingo, 5 de outubro de 2014

Os Esquecidos (Los Olvidados) 1950



Um grupo de crianças brinca num terreno baldio, subindo escombros e tentando arranjar algo para passar o tempo. Já aqui sentimos a falta de direcção que a vida destes jovens está a ter, mas eis que chega Jaibo, um jovem recentemente fugido da cadeia, e por isso mesmo visto como um herói pelas outra crianças. Ele anda a recrutar jovens para outro gang, e é aqui que o impressionável Pedro vai iniciar a sua descida em direcção ao Inferno deixando de roubar por necessidade e passando a fazê-lo por prazer, tornando-se num cruel criminoso.
Luis Buñuel mostra-nos a descida de Pedro, primeiro com a sua aceitação do comportamento desnecessariamente cruel perante um velho e cego artista de rua. Testemunhamos a sua relação difícil com a mãe, e os seus sonhos surreais de sexo e morte, bom como algumas das imagens mais chocantes e desesperantes do filme, com um jovem a ser abandonado numa esquina pelo pai. Jaibo eventualmente envolve-se com a mãe de Pedro, completando o trágico círculo da sua existência disfuncional.
Estas imagens de sofrimento teriam sido lugar comum para criar algumas convenções de heróis e vilões de Hollywood, vitórias e derrotas. Mas neste filme ninguém ganha, e não existem soluções, apenas um retrato sombrio da humanidade, e a profundidade de quanto fundo pode ir o futuro destas crianças.
O ponto de vista do realizador Luis Buñuel é único e visionário. Ele foi capaz de projectar os seus ideais de vanguarda mesmo dentro de um "studio system". Apesar de "Los Olvidados" ter sido rejeitado comercialmente dentro do seu país (México), quando da sua estreia, ganhou aclamação da crítica seis meses depois, quando foi exibido em Cannes, ganhando o prémio de Melhor Realizador no festival, e assinalando o seu regresso ao topo do cinema mundial, depois dos gloriosos anos 30.

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sábado, 4 de outubro de 2014

Rebeldes Sem Causa

A partir da década de 50 houve um medo generalizado da delinquência juvenil, focando-se em queixas de que a geração pós segunda guerra mundial era preguiçosa, mimada, irresponsável, com falta de disciplina, desrespeitosa da autoridade, e violenta. Teenagers deste período eram logo à partida condenados pelo desemprego e a falta de estudos.
Tais acusações continuaram a ser feitas por várias dezenas de anos. O que parecia dar força a esta situação foi que na América do pós-guerra as denúncias foram feitas por "especialistas" - psicólogos, profissionais do "comportamento infantil", pesquisadores de universidades, e o grupo maior de professores, que sofreram o comportamento dos adolescentes em sala de aula. O maior exemplo do testemunho de um "expert" foi Fredric Wertham, cujo livro "Seduction of the Innocent", que alegava que a mídia popular, principalmente nos livros aos quadradinhos, corrompia as mentes jovens e causava a delinquência, crime, violação etc.
Assim, o problema da delinquência juvenil estava muitas vezes concentrada nas escolas, principalmente nas classes sociais mais desfavorecidas nas periferias das grandes cidades. Não foram só os adolescentes que foram responsabilizados, também os pais ou os professores foram culpabilizados deste problema, por serem preguiçosos ou terem medo de impor a sua autoridade.
Uma das primeiras vezes que um filme se debruçou directamente sobre este problema foi um 1955, pelas mãos de Richard Brooks, no filme "Blackboard Jungle". Já antes tinhamos visto um jovem Marlon Brando na pele de um rebelde em "The Wild One", ou o próprio Luis Buñuel tinha dado o seu próprio ponto de vista em "Los Olvidados".
Daqui para a frente, foram muitas as vezes que o cinema se debruçou sobre este problema. Talvez os mais conhecidos sejam a dupla de filmes que Coppola realizou, revelando a geração da Brat Pack: "Rumble Fish" e "The Outsiders", filmes esses que já passaram aqui pelo M2TM. Neste ciclo vamos ver cinco pontes de vista, de épocas diferentes, e de países diferentes. Espero que gostem.

Domingo: Los Olvidados (1950), de Luis Buñuel

Terça: Blackboard Jungle (1955), de Richard Brooks

Quarta: Scum (1977), de Alan Clarke

Quinta: The Warriors (1979), de Walter Hill

Sexta: Pixote: A Lei do Mais Fraco (1981), de Hector Babenco

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

O Mundo É Um Manicómio (Arsenic and Old Lace) 1944



"Arsenic and Old Lace" conta-nos a mirabolante história de Mortimer (Cary Grant) que apesar de ser um grande crítico ao casamento, resolve casar no dia das bruxas. De visita à família para celebrar o matrimónio, Mortimer vai descobrir que as suas duas tias têm o estranho hábito de matar idosos... por caridade.
Uma mistura pouco convencional de comédia de humor negro com splastick, esta adaptação de uma peça muito famosa da Broadway é muito diferente da marca habitual dos restantes filmes do seu realizador: Frank Capra. Desde o inicio até ao fim o diálogo reflete perfeitamente a loucura, ainda que o tom seja macabro, e o desenvolvimento seja tudo menos previsível. Cary Grant mais tarde expressou a sua insatisfação sobre o seu papel muito expositivo, mas ele tem uma interpretação brilhante (apesar de ofuscado por alguns actores do magnifico elenco de apoio: Priscilla Lane, Raymond Massey, Jack Carson, Edward Everett Horton, Peter Lorre, James Gleason, Josephine Hull), mas de facto seria difícil de imaginar a escolha original para o papel principal (Ronald Reagan), ter a mesma presença que Grant.
Embora a maior parte do filme seja passada num cenário em particular, a sala de estar dos Brewster, o ritmo dos diálogos e a acção, é dificil manter tudo a direito. O cenário único ajuda a manter os personagens frente a frente, e a histeria a não ficar fora de controlo. Josephine Hull e Jean Adair são brilhantes como as tias loucas, a inocência dos seus olhos arregalados afasta qualquer indício de irregularidade. Elas fazem-nos acreditar que os seus crimes são, na verdade, um serviço de misericórdia, e não crimes a sangue frio.
Filmado em 1941, mas estreado em 1944, ficou fora de qualquer tipo de prémios, ao contrário de outros filmes de Capra, mas tornou-se numa obra muito respeitada com o passar dos anos.

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quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Casamento Escandaloso (The Philadelphia Story) 1940



Tracy Lord (Katharine Hepburn) é uma socialite rica que se divorciou recentemente do playboy C.K. Dexter Haven (Cary Grant). Na véspera do seu novo casamento Haven aparece com um repórter chamado  Macaulay “Mike” Connor (James Stewart), com a intenção de tirar fotos para publicar nos tablóides. Como Tracy tem dúvidas sobre o seu casamento eminente começa a apaixonar-se por Mike, e ao mesmo tempo se deve dar uma nova hipótese a Dexter.
"The Philadelphia Story" é normalmente considerado como um veículo para Katherine Hepburn, o que faz todo o sentido, já que foi ela que organizou a produção do filme. Naquela altura Hepburn era considerada "veneno" nas bilheteiras, e foi este filme que revitalizou a sua carreira. Superficialmente é uma screwball comedy brilhante, mais uma vez sobre o mundo dos ricos, mas na realidade é muito mais do que isso.
O interesse do realizador George Cukor nas classes é complexo, e não é de todo redigido nos termos simplistas habituais. A família de Lord é sem dúvida da classe alta, e aceitam este privilégio com a maior naturalidade, enquanto Connor é quase um mendigo, um escritor muito talentoso a trabalhar abaixo das suas possibilidades apenas para pagar as contas. Connor está compreensivelmente ressentido dos ricos à sua volta, e da casa de Lord, mas o ressentimento diminui à medida que vai conhecendo Lord, embora as discussões entre os dois ainda tenham o toque de guerra de classes.
Ganhou dois Óscares da Academia. Um para James Stewart no papel principal, o único na sua carreira, e outro para o argumento de Donald Ogden Stewart, também o único Óscar de uma brilhante carreira, a trabalhar sobretudo com Cukor.

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quarta-feira, 1 de outubro de 2014

A Loja da Esquina (The Shop Around the Corner) 1940



A acção tem lugar numa loja húngara durante o Natal. Os tempos estão difíceis, e os empregados sentem-se intimidados pelo seu patrão Mr. Matuschek (Frank Morgan). Quando dois empregados da loja, Alfred Kralik (Jimmy Stewart) e Klara Novak (Margaret Sullavan) se tornam "pen-pals" secretamente, sem conhecimento um do outro, têm de lidar com vários obstáculos para encontrar o verdadeiro amor. Um deles, é que se odeiam na loja.
O sub-plot envolvendo a descoberta da infidelidade da esposa de Morgan desempenha um papel importante no enredo em geral, mas no coração do filme está a relação amor/ódio desenvolvida entre Stewart e Sullavan. Sabemos desde início que eles são amantes secretos, mesmo sem saberem, e Stewart descobre a meio do filme, de modo que o ponto crucial da tensão narrativa gira em torno de como, e quando, ele vai decidir revelar o que descobriu.
O que há de mais especial neste filme é o sentimento de tristeza que o atravessa. Há um enorme sentimento de solidão nas personagens de Kralik e Karla, que pensam ter encontrado o amor na forma de alguém que nunca conheceram cara a cara (a internet de hoje em dia), alguém com quem apenas correspondem por cartas. Há mais do que uma ponta de desespero em ambas as personagens, elas investem tanto neste romance irreal que parece que é a última oportunidade que têm de ser felizes. No fim, descobrem que o objecto do seu amor estava mais próximo do que pensava.
Aparte de ser construído em torno de um conceito inteligente e engraçado, também é uma grande montra para o famoso "toque de Lubitsch", misturando inteligência e algumas observações sobre as pessoas nas suas vidas pessoais e profissionais, com comédia docemente romântica. Tudo é mantido por uma excelente perfomance cómica de James Stewart, um actor capaz de dominar uma comédia Lubitschiniana, como viria a fazer mais tarde aos psico-dramas de Hitchcock.
Foi alvo de dois remakes; In the Good Old Summertime (1949), com Judy Garland e Van Johnson, e, mais tarde You've Got Mail (1993), com Tom Hanks e Meg Ryan.

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