segunda-feira, 29 de julho de 2013

Férias forçadas

Caros amigos, aconteceu-me um problema inesperado nestes últimos dias. A minha conta premium no Putlocker chegou ao fim, e não estou a conseguir renová-la. Como resultado disso, nas próximas semanas vou começar a perder links atrás de links, porque numa conta normal os links são automaticamente apagados após 14 dias sem serem usados.
Contudo, já tenho uma solução para isto: mudar de host. O próximo host que irei utilizar irá ser o Mega, antigo Megaupload. Pelo menos este site, permite que os links não sejam apagados se não forem utilizados.
Neste momento, já me encontro a recuperar todos os links antigos. Estou a recuperar uma média de 10 a 12 links por dia, pelo que em pouco tempo consigo recuperar a grande maioria. Podem experimentar já os links do ciclo do "fim do mundo", e nos próximos dias recuperarei todos os outros, pela ordem do inicio deste blog.
O My Two Thousand Movies ficará assim parado durante 3 semanas, para actualizações de links, embora o ciclo Jess Franco continuará aos Domingos.
Peço desculpa por este contratempo, mas faz de conta que são umas férias. Espero que se dêm bem com o Mega, e se tiverem alguma questão, basta perguntarem.

Fiquem lá com uma músiquita, e até breve.


domingo, 28 de julho de 2013

The Diabolical Dr.Z (Miss Muerte) 1965



Dr. Zimmer, um cientista brilhante mas excêntrico, desenvolve uma técnica de controlar as pessoas através de impulsos eletrónicos. Quando revela as suas descobertas à comunidade científica, declaram-no um charlatão e pedem a sua resignação. Decepcionado, o Dr. Zimmer morre de um ataque cardíaco, mas implora à sua adorável filha Irma para continuar o seu trabalho. Ela jura vingar o pai, e para isso coloca os olhos numa bela dançarina exótica, Nadja, com a intenção de controlar a sua vontade, usando-a como instrumento de vingança...
  "Miss Muerte" é um dos melhores filmes do espanhol Jess Franco. Co-escrito pelo colaborador de Buñuel, Jean-Claude Carriere (O Charme Discreto da Burguesia) e o próprio Franco, é um conto fascinante de obsessão e vingança que ensaia muitos dos favorecidos temas e imaginário do mundo de Franco.

Pode-se argumentar que os principais realizadores de terror europeus aperfeiçoaram alguns dos cenários do cinema de terror - Argento fez assassinatos melhor do que ninguém, Mario Bava dominou os ângulos dos protagonistas pelos corredores e câmeras mal iluminados, e ninguém adicionava o efeito do gore melhor do que Lucio Fulci - e este filme mostra-nos uma das especialidades de Franco: o acto do nightclub estilizado. Dos stripteases estilizados de Soledad Miranda e Rosalba Neri em Vampyros Lesbos (1970) e 99 Mulheres (1969), respectivamente, até ao balanço animado de Kiss Me Monster (1967) e o desempenho lânguido de Barbara McNair, cantando uma canção enquanto se contorcia no chão, em Venus in Furs (1969), tem-se a impressão de que o céu para Franco seria nada mais do que um clube nocturno com jazz a definir a batida. Doctor Z continua essa tradição, oferecendo um número maravilhosamente estilizado em que a dançarina exótica, usando um collant bordado com uma tarântula gigante na virilha, parece descansar sobre em um projecto de teia de aranha no chão e faz amor com um manequim masculino antes de colocar literalmente uma máscara da morte. Material imaginativo, e ferozmente erótico para 1965 - Franco nunca foi um realizador de rodeios.
Pitadas de erotismo para o lado, o filme oferece abundância de uma atmosfera silenciosa. Os espectadores habituados à natureza áspera, dos filmes posteriores de Franco apanham uma surpresa com um presente - a fotografia a preto e branco é artisticamente perfeita, lembrando os filmes de suspense de um Fritz Lang. Um filme como este é suficiente para determinar que Franco é capaz de de produzir um produto mais suave - embora na maioria das vezes, ele não esteja interessado em fazê-lo. O elenco, na sua maior parte desconhecido para o público norte-americano, faz um bom trabalho. Howard Vernon tem um papel menor do que se poderia esperar depois de The Awful Dr. Orlof (1961), mas absolve-se bem e começa a ser um dos destaques do filme - a sua sedução/morte nas mãos de Miss Death. Franco aparece num papel de apoio considerável, como um inspector de óculos reclamando de insónias. Um óptimo actor no seu próprio direito, ele facilmente rouba muitas das suas cenas e adiciona um pouco de humor ao processo. Daniel J. White, que escreveu a excelente música do filme e de muitos outros filmes de Franco, desempenha um colega do inspector de Franco. A melhor interpretação, no entanto, é feita por Estella Blain, a loira deslumbrante que impregna o caráter de "Miss Death", com uma pungente emoção e uma sensação de profundidade, que por vezes faz falta em filmes deste tipo. Ela é tão eficaz como Soledad Miranda no semi-remake do filme de Franco.
Legendado em inglês.

Critica do theresomethingouthere aqui.

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quinta-feira, 25 de julho de 2013

The Big Racket (Il Grande Racket) 1974



The Big Racket era o terceiro poliziotteschi de suspense do realizador Enzo G. Castellari, depois do sucesso comercial tremendo de High Crime (1973) e Street Law (1974). Estes dois filmes foram marcados por grandes perseguições e sequências de acção, acrobacias notáveis, e tinham imperiosamente carismáticas performances de Franco Nero. Em muitos aspectos, estes filmes eram uma celebração fascista de machismo desenfreado e da masculinidade desmarcada. Um estudo de caso perfeito para o feminismo concomitante. Basta dizer que The Big Racket é um dos filmes mais machistas de Castellari. As únicas personagens do sexo feminino são uma bandida masculinizada, e uma adolescente que comete suicídio depois de ser violada. Sim, estamos mais uma vez no firmamento social, polarizado que marca a escrita de Massimo De Rita e Arduino Maluri. Em vez de bigode eriçado de Nero e penetrantes olhos azuis, temos a descontração de Fabio Testi. Testi não tem o carisma de Nero, e parece lutar com o fardo de ser o centro moral do filme. Ele está muito mais firme a interpretar o descontraído policia undercover no quarto poliziotteschi de Castellari The Heroin Busters (1977). Neste filme Testi é magnífico, mas parece pouco à vontade com o personagem do Inspector Nico Palmieri, e, por vezes, o seu desempenho é artificial e não convincente.
O filme começa com uma técnica familiar a Castellari, uma montagem que estabelece o cenário da acção. Neste caso, ilustrando a brutalidade e a crueldade da extorsão de dinheiro pelo meio de esquemas de proteção. A outra coisa que a montagem de abertura faz é estabelecer a monstruosidade dos vilões. Na melhor tradição dos filmes de vigilantes, os vilões são apresentados de tal forma, que é quase impossível para o público não aplaudir sua morte violenta. O reinado de terror administrado por estes vândalos covardes e imaturos é apoiado por um sindicato do crime, cujos membros escapam sempre da justiça. Palmieri está determinado a dar um fim a todo este terrorismo. Num momento surpreendente em que ele e o seu carro são empurrado para o lado de um enorme aterro. Uma câmera colocada dentro do carro dá à cena uma intensidade e rapidez impressionante. Infelizmente, o filme não chega a viver este momento brilhante. Ma dá a Palmieri o motivo da vingança pessoal.
Uma das surpresas é a própria proximidade do Palmieri à criminalidade. Com o objetivo de expulsar os criminosos ele recorre a violar a lei. Oferece dinheiro a um bandido cavalheiro, Pepe (Vincent Gardenia), a fim de obter informações. Este evento acaba por conduzir à sua demissão, e é neste ponto que The Big Racket realmente descola e lidera de forma inesperada no terreno do filme do vigilante. O modelo para o terço final é o de "The Dirty Dozen" (1967) como Palmieri a recrutar todos aqueles que sofreram dificuldades nas mãos do sindicato.
The Big Racket é uma visão ácida, indignada e amargurada de instituições falhadas. A sua moeda é a desconfiança e a paranóia e o quadro final congelado do desespero de um Palmieri enfurecido, é a nota perfeita em que para terminar o filme. 
Não tem legendas, é dobrado em inglês.

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quarta-feira, 24 de julho de 2013

Almost Human (Milano Odia: la Polizia non Può Sparare) 1974



Depois de um assalto a um banco frustrado, o ladrão desequilibrado e motorista de fuga Giulio Sacchi (Tomas Milian) é espancado e pontapeado pelo seu bando, e encontra consolo apenas nos braços da namorada, Iona (Strindberg). Uma tarde, ele elabora um plano de resgate para ganhar algum dinheiro fácil quando Mary Lou (Belli), filha de um milionário, e pede ajuda a dois dos criminosos (Santercole e Lovelock) para o ajudarem a executar um rapto. No entanto, o persistente Inspector Grandi (Henry Silva) alcança o rasto de Giulio e, frustrado pelos obstáculos burocráticos da polícia milanesa, recorre a táticas brutais de vigilancia para levar este psicopata louco para a cadeia.
Segunda incursão no cinema do crime italiano do realizador Umberto Lenzi, depois de um sólido "Gang War in Milan", é sem dúvida o seu melhor, oferecendo muita acção e emoção desprezivel, com Milian e Silva a competirem para ver quem consegue ter o papel maior. Tal como na posterior colaboração entre Lenzi e Milian, "Rome: Armed to the Teeth", qualquer hipótese para este divertido e degenerado filme de encontrar o seu público foi impedida nos EUA, por distribuidores míopes que tentaram cortá-lo ás tiras, e vários anos mais tarde, tentaram passar o produto como um filme de terror. Felizmente o renascimento do Eurocult subsequente ajudou consideravelmente a sua reputação, com os fãs a serem capazes de apreciá-lo nos seus próprios termos e saborearem os prazeres incidentais, como a banda sonora funky de Ennio Morricone (com a ajuda de Bruno Nicolai). Numa interpretação destemida, Milian rouba a maior parte do filme, mas toda a gente faz um bom trabalho, com Ray Lovelock e Anita Strindberg tão interessantes, que mereciam um pouco mais de tempo na tela. 
Lenzi é mais conhecido, principalmente pelos seus filmes de canibais e terror, mas também fez alguns grandes filmes do mundo do crime (Violent Nápoles e Sadists Syndicate são outros dois belos exemplos). Aqui ele fez um filme tão violento, rápido e desprezível que depois até foi promovido com um filme de terror na América, se é que isso se pode chamar promoção.
Legendado em inglês.

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Rabid Dogs (Cani Arrabbiati) 1974



Quando Mario Bava terminava o seu penúltimo filme, um dos seus apoiantes morreu, e todas as filmagens ficaram trancadas numa batalha jurídica complexa. Bava, que morreu em 1980, nunca vi este filme pronto. Os direitos acabaram por ser resgatados muitos anos depois, durante os anos 90, e foi então que o filme foi montado. Mas o filho de Bava, Lamberto Bava, que tinha visto a produção original, e não estava contente com esta montagem, e fez a sua própria, que teve uma estreia teatral em 2002. E assim, como acontece com alguns dos filmes de Orson Welles, não há uma montagem defintiva do filme.
O filme em si tem um início explosivo: um gang de criminosos entra em cena, mata algumas pessoas, e rouba um saco de dinheiro. Durante a fuga, os policias matam o motorista e fazem um buraco no tanque de gasolina. A pé, um dos bandidos dispara sobre uma mulher e rapta a sua amiga. Os três homens e a refém, de seguida, apanham o transporte mais próximo disponível, conduzido por um homem de meia-idade de cabeça fria, acompanhado por um menino doente. Como uma peça de teatro perturbadora, a maior parte do filme passa-se dentro do carro, entre este pequeno grupo de pessoas, jogando jogos psicológicos uns com os outros, cada um a tentar escapar ileso. 
O filme tem sido comparado ao de Wes Craven, The Last House on the Left (1972), pela sua violência psicológica perante a mulher e a criança, mas esses elementos são bastante menores no esquema geral do filme (é mais uma ameaça do que uma violência real); para não falar que era foi a actriz principal, Lea Lander, que lutou para resgatar o filme do limbo. 
"Rabid Dogs" é definitivamente um dos filmes mais pessimistas de Bava, mas mostra o quão longe o mestre era capaz de chegar para alcançar um pantamar mais realista, e menos expressionista.

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terça-feira, 23 de julho de 2013

Revolver (Revolver) 1973



Em "Revolver" Oliver Reed interpreta Vito Caprini, um ex-policia que agora é o diretor de uma grande prisão no norte da Itália. Bem casado e muito bom no seu trabalho, Caprini é o modelo de um cidadão no lado certo da lei. Fabio Testi interpreta Milo Ruiz, um ladrão francês cujo primeiro roubo em Itália lhe corre muito mal e termina com ele a enterrar o melhor amigo e cúmplice criminoso numa cova anónima. Depois de ser preso, Milo é colocado na prisão de Caprini, e entre estes dois homens, sem nada em comum, são forçados a ficar juntos por razões misteriosas. A bela esposa de Caprini (Agostina Belli) é raptada, e Vito se a quer de volta, deve manter-se em silêncio e ajudar Milo a fugir da prisão.Acontece é que Milo não sabe de ninguém que o queira ajudar a fugir da prisão...
Revolver não é tão cheio de acção como se vê noutros filmes policiais italianos, embora tenha a sua parte de brigas, tiroteios e perseguições. Este filme tem várias coisas em mente, a principal delas é como a sociedade valoriza uma pessoa sobre a outra, e por quê. O filme apresenta-nos uma resposta, mas ao mesmo tempo pergunta que os espectadores concordam ou não. Revolver tenha o mistério central em sabermos quem quer Milo Ruiz fora da prisão e por isso, é principalmente uma história de personagens, focalizada na relação entre o policia e o criminoso. Como os dois são lentamente forçados a trabalhar em conjunto, para se manterem vivos, o argumento mostra uma mão firme retratando-nos pessoas muito diferentes, com objetivos diferentes. A confiança relutante que eles formam é crível e comovente. Muita desta eficácia pode ser atribuída aos excelentes desempenhos de Reed e Testi.
Também contribuem para a força de Revolver a habitual excelente banda-sonora de Ennio Morricone, e uma realização muito segura de Sergio Sollima, que já tinha feito um óptimo trabalho em "Violent City". 
Filme sem legendas, dobrado em inglês.

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segunda-feira, 22 de julho de 2013

The Violent Four (Banditi a Milano) 1968



Excelente docu-drama da década de 60, sobre um notável assalto a um banco, em Milão, não é bem um poliziottescho mas um sólido filme sobre o crime, que funciona como um soco político. A sua montagem irregular e a emocionante realização de Carlo Lizzani, ajudada pelo excelente o desempenho de Gian Maria Volonté como o sociopata líder de um gang. É quase tão surpreendente como ver Tomas Milian interpretar o comissário da polícia de Milão. A montagem do roubo insano, a perseguição e as mortes sem sentido que se seguem, são tão emocionantes como a acção quando ela explode.
Antecipando o boom dos filmes policiais italianos, "Banditi a Milano" tem uma aparência diferente dos típicos poliziotto dos anos 70, com Lizzani a tomar o filme como um documentário para a abordagem do tema - uma reconstrução de um assalto real, que tornou o centro de Milão numa pista de corrida.
Ao mesmo tempo, Lizzani é cuidadoso para não nos deixar esquecer que estamos a assistir a um filme, e vemos isso logo no quadro de congelamento de abertura, que mostra um dos bandidos em fuga e, de seguida, apresenta a sua captura por uma multidão enfurecida, ou o mais tarde -, mas cronologicamente antes - numa cena em que os assaltantes tentam convencer um transeunte curioso que um comercial está a ser filmado no interior do banco, que não está a ser roubado de verdade. 

O filme tem uma estrutura curiosa, começando com 10 minutos de pequenas vinhetas que, além de introduzir o chefe de polícia interpretado por Tomas Milian, dão um retrato caleidoscópico do crime e da cidade. 
O cérebro por trás da quadrilha, que fez cerca de 17 assaltos a bancos nos anos anteriores é Cavallero, interpretado por Gian Maria Volonté. Um estrategista afiado que não deixa nada ao acaso e beneficia da emoção do roubo, tanto como o dinheiro que ele trás, é carismático, megalomaníaco e tem um gosto pela literatura existencialista e a história militar. 
Legendas em inglês. 

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Tributo a Jess Franco

domingo, 21 de julho de 2013

The Awful Dr. Arlof (Gritos en la Noche) 1962



A obra revelação de Franco, "The Awful Dr. Orloff", é um filme de período gótico que muito pede emprestado ao maravilhoso "Les Yeaux Sans Visage", de George Franju - um dos mais belos de todos os filmes de terror. Dr. Orloff (Vernon) é um cirurgião perturbado que está obcecado com a tarefa de encontrar mulheres cuja carne possa substituir o rosto cheio de cicatrizes da sua anteriormente linda filha Melissa, que ficou gravemente queimada num incêndio. Envolve encontrar jovens prostitutas/cantores de bares/jovens mulheres solteiras sem qualquer ocupação fixa, raptá-las, matá-las, tirar-lhes a pele e, de seguida, fazer-lhes um enxerto no rosto de Ms.Orloff. Ele não gosta do que faz, embora diga - "Só mais algumas mulheres ... e eu vou encontrar uma cura para a minha amada Melissa." Infelizmente, ela continua a rejeitar os transplantes e por isso o trabalho deve começar de novo a partir do zero. Para ajudá-lo neste trabalho tem o demente Morpho, um monstro cego, salvo por Orloff de uma execução frustrada, cujo ódio sádico às mulheres permite-lhe horas intermináveis ​​de prazer a aterrorizá-las. O rapto e o assassinato de uma jovem mulher em Hartog leva o lendário detetive Tanner (Conrado San Martin) a ser colocado na caso. Ao longo da investigação ele encontra testemunhas para produzir um retrato falado do suspeito...
Não há nada surpreendente no argumento e o ritmo é propenso a fazer sonolência até mesmo aos maiores fãs do cinema de terror. No entanto, o que é significativo é o aspecto revolucionário e a franqueza sexual em exibição. Os ataques de Morpho são verdadeiramente inquietantes como se estivessem a ser dirigidos por uma emoção sexual, o que é muito desconfortável de se ver. O gosto de Franco por jovens a despirem-se, e, posteriormente, a serem abusadas para o nosso entretenimento, não é algo que se ache atraente - mesmo em Orloff, onde tudo que é relativamente inofensivo pelas suas normas posteriores, todo o sexo e a violência tem um efeito desagradável.  
A base para o filme é o romance de Edgar Wallace "The Dead Eyes of London", filmado em 1939, com Bela Lugosi, que apresentava um médico (chamado Orloff) que usava um cego para fazer o seu trabalho sujo. A sequência de abertura de The Awful Dr. Orloff é fortemente reminiscente do clássico thriller de 1946 de Robert Siodmak, The Spiral Staircase: num quarto de um apartamento por cima da rua, uma mulher é atacada por um assaltante, que se esconde dentro do armário. Considerando a câmera objetiva de Siodmak fechada no olho do assassino, Franco dá-nos um assassino cego cujo rosto é uma máscara grotesca. As semelhanças e as diferenças entre The Awful Dr. Orloff e The Spiral Staircase dão-nos pistas sobre as fontes de Franco. O que se segue é construído sobre uma estrutura de fontes: o poderoso brutamontes e confuso assassino recorda-nos o monstro de Frankenstein nos filmes da Hammer. Da mesma forma, o cientista obcecado do Dr. Orloff recorda-nos Peter Cushing como o imoral Dr. Frankenstein.
 A fotografia de George Pacheco é impressionantemente atmosférica, adicionando alguns momentos realmente assustadores num filme onde faltam os sustos genuínos.
Filme sem legendas, com audio em espanhol. 
  
Critica do theresomethingouthere aqui

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O Cinema de Jess Franco


Estella Bain em Miss Muerte (Jess Franco, 1965)
O desaparecimento de Jess Franco, em Abril deste ano, passou quase despercebido nos meios de comunicação social de todo o mundo e as menções feitas insistiram quase sempre na redundância caricatural. É verdade que nas cerca de duas centenas de produções em que participou como realizador, actor, argumentista ou compositor, há muitas que se esquecem com facilidade, mas isso não pode desconsiderar um universo autoral singular que vai para além da lista de curiosidades da história do cinema da segunda metade do século XX. Houve tempos em que a sua abordagem à matéria filmica seduzia aventureiros, como Fritz Lang e Orson Welles. Gritos en la noche (The Awful Dr. Orlof, 1961), Necronomicon - Geträumte Sünden (Succubus, 1967), Paroxismus (Venus in Furs, 1968), Eugénie (1970), Vampyros Lesbos (1970), Les possédées du diable (Lorna The Exorcist, 1974) ou Gemidos de placer (1982) apontam para um autor desafiador, que circula com o mesmo à vontade entre o mainstream, o softcore e o hardcore. O terror, a espionagem, a comédia, o noir, o drama sentimental, o musical ou mesmo o género "women in prison", que ajudou a inventar. Em busca de liberdade criativa e para escapar às malhas da censura, mudou de país e escondeu-se debaixo de pseudónimos, muitos deles roubados a músicos de jazz, estilo musical que amava e que usou na banda sonora de muitos filmes.
Jess Franco nasceu com o nome de Jesús Franco Manera, a 12 de Maio de 1930, em Madrid, no seio de uma família de intelectuais e músicos. O interesse pelo cinema, levou-o a frequentar o Instituto de Investigaciones y Experiencias Cinematográficas de Madrid, de onde foi expulso durante o segundo ano de frequência. As razões da expulsão não são claras, mas mais tarde referiu que o facto de ser expulso da escola de cinema resultava num bom método para começar a fazer filmes. Seguiu-se uma passagem pelo Institut des Hautes Études Cinématographiques, em Paris, conjugado com um trabalho de dobragem de filmes franceses para a língua castelhana. Um dos filmes em que coordenou a dobragem foi La môme vert de gris (Poison Ivy, 1953) de Bernard Borderie. Howard Vernon é um dos actores que protagonizam o filme e que mais tarde se tornaria num dos seus actores fetiche. Presume-se que este tenha sido o primeiro contacto que o futuro realizador teria com o trabalho do actor. Em 1954 regressa a Madrid, para se dedicar à direcção de produção ou assistência de realização com Juan Antonio Bardem, León Klimovsky, Luis García Berlanga e Pedro Lazaga, entre outros. Para Joaquín Luis Romero Marchent foi assistente de realização e coescreveu o argumento de El Coyote (1955) - um dos primeiros westerns europeus, ao qual se atribui influência na trilogia dos dólares de Sergio Leone - e de La Justicia del Coyote (1956). Em 1958, deu assistência à segunda equipa de filmagens de uma grande produção de Hollywood, que estava a ser filmada em Espanha: o épico religioso Solomon and Sheba (1959) dirigido por King Vidor e com Yul Brynner, Gina Lollobrigida e George Sanders. Antes de se estrear na direcção de longas metragens com Tenemos 18 años (1959), assina um conjunto de documentários que resultam de encomendas ou homenagens. El Árbol de España (1957), El Destierro del Cid (1958) e Estampas guipuzcoanas nº 2: Pío Baroja (1958) estão entre as conhecidas. Tenemos 18 años é uma comédia, com sugestões surrealistas, em torno da adolescencia, para a qual escreveu também o argumento e compôs a música. Seguese outra comédia Labios Rojos (1960) e dois musicais pouco robustos: La reina del Tabarín (1960) e Vampiresas 1930 (1960).

Janine Reynaud em Necronomicon - Geträumte Sünden (Jess Franco, 1967)
O ano de 1961 marca o ponto de viragem na carreira, com a entrada em pleno no género do terror. Depois de um visionamento de The Brides of Dracula (Terence Fisher, 1960) da Hammer, propõe aos produtores franceses Marius e Daniel Lesoeur, do estúdio Eurocine, a realização de uma nova obra que, sob a máscara do terror e da fantasia, evitasse contornos políticos problemáticos para a censura espanhola. Franco escreveu o argumento e o resultado foi Gritos en la noche, uma das suas obras mais aclamadas e a primeira que teve distribuição significativa fora de Espanha. Howard Vernon protagoniza, no papel de um médico que, com a ajuda de um assistente cego, recolhe a pele de jovens cantoras para restaurar a beleza da irmã desfigurada. As pinceladas expressionistas, a fabulosa fotografia e a banda sonora  experimental compõem um ambiente onírico que se tornaria uma das marcas do futuro cinema de Franco. A preto e branco, Gritos en la noche olha para o passado, evocando o período áureo dos filmes de monstros da Universal - numa altura em que o estúdio americano findava esta linhagem nobre - e para o futuro, abrindo caminho para novos tons de sexualidade e perversidade. Franco inaugura um processo de trabalho que se tornaria recorrente. São produzidas várias versões, adequadas às imposições das censuras dos países onde seria lançado, e que divergem no tipo de abordagem ao material erótico.
Para uma das versões, a actriz principal negou-se a ultrapassar determinados limites na exposição do corpo, pelo que foi substituída por um duplo. No que toca ao Dr. Orloff não ficaria por aqui e esteve presente ou foi sugerido em outras obras: El secreto del Dr. Orloff (1964), Miss Muerte (1965), Los ojos siniestros del doctor Orloff (1973), El siniestro doctor Orloff (1982) ou Faceless (Les prédateurs de la nuit, 1987). No inspirado Miss Muerte, escrito por Jean-Claude Carrière, colaborador habitual de Luis Buñuel, Estella Bain encarna uma bailarina que, por um tratamento cientifico, é transformada em assassina. Enrolado ao corpo, a partir da zona vaginal, exibe um adereço em forma de aranha, numa das imagens indissociáveis do universo de Franco. Em 1964, Gritos en la noche seria lançado nos Estados Unidos, com o nome de The Awful Dr. Orloff e em conjunto com L'Orribile segreto del Dr. Hichcock (1962) de Riccardo Freda, mas foi um insucesso critico e Jess Franco ganhou o título de Jess The Awful Dr. Orlof Franco.
Com La muerte silba un blues (1962) impressiona Orson Welles que o contacta para ser director da segunda equipa de filmagens de Campanadas a medianoche (Falstaff - Chimes at Midnight, 1965), uma co-produção entre Espanha e Suiça que o realizador americano dirigia na Europa. O produtor Emiliano Piedra bem tentou demover Welles de contratar Franco, chegando-lhe a mostrar  Rififí en la ciudad (1963) como prova de que deveria voltar atrás na decisão. Tal não aconteceu pois Welles ficou bastante satisfeito com a atmosfera do filme. Certamente que algo poderia unir dois marginalizados pelos sistemas de produção, persistentes na procura das condições mais propícias ao controlo do processo criativo. Também Necronomicon - Geträumte Sünden, exibido no Festival de Cinema de Berlim, impressionou Fritz Lang que afirmou ter sido o primeiro filme erótico que teria visto por inteiro, por tratar-se de uma bela peça de cinema. A abertura de Necronomicon dá-se num clube nocturno onde uma performance erótica  - com variações, encontramo-la em muitos dos seus filmes - simula uma cena de tortura e morte, pontuada por música com toques de jazz. Nada o faria adivinhar, mas é mesmo em Lisboa que começamos, entre a decadência dos palácios e das casas senhoriais que, mais para o final, contrastam com o modernismo e a sofisticação de Berlim. Necronomicon talvez seja a obra maior de Franco nesta década, onde se destacam também um conjunto de paródias aos filmes de espionagem, estilo James Bond, mas com orçamentos tão limitados que obrigam a recorrer a soluções verdadeiramente engenhosas. Tratam-se de caleidoscópios pop, transformados em grandes divertimentos, com mulheres vamp destinadas a morrer, agentes trapalhões e alusões à ficção cientifica. Sendo parte deles protagonizados por Eddie Constantine, para além de  Cartes sur table (1966), Residencia para espías (1967) e Bésame monstruo (1967), destaca-se o hilariante Lucky, el intrépido (1967).

Maria Rohm em Paroxismus (Venus in Furs, Jess Franco, 1969)
  A entrada em cena do produtor inglês Allan Towers, traz para o cinema de Franco estrelas respeitadas internacionalmente, entre elas Christopher Lee - Fu-Manchu and the Kiss of Death (1967), Castle of Fu-Manchu (1968), Il trono di fuoco (The Bloody Judge, 1969), Eugenie... the Story of Her Journey Into Perversion (1970), Nachts, wenn Dracula erwacht (Count Dracula, 1969) ou Operación cocaína (1988) - e Klaus Kinski - Paroxismus, Marquis de Sade: Justine (1968), Nachts, wenn Dracula erwacht ou Jack the Ripper (1976). São conhecidos os conflitos entre Kinski e os realizadores, mas no caso de Franco consta que as relações de trabalho foram sempre de respeito mútuo. Quanto a Christopher Lee, quando caminhava por Londres, percebeu que Eugenie... the Story of Her Journey Into Perversion era exibido num cinema dedicado a filmes de exploração sexual. Surpreendido, comentou que lhe parecia que, depois de ter abandonado o local das filmagens, toda a gente se tinha despido. Acrescentou que teria sido a única vez que pediu para retirarem o seu nome dos créditos. Exagero, dizemos nós, pois o filme é uma óptima entrada nas adaptações de La Philosophie dans le boudoir de Sade. Franco ainda aí voltaria mais vezes: Eugénie (1970), Plaisir à trois (1973), Cocktail spécial (1978) e Eugenie (Historia de una perversión) (1980).
Para além dos dois Eugénie mencionados, Paroxismus é outro dos filmes fundamentais desta época. Numa evocação da novela de Leopold von Sacher-Masoch com o mesmo nome, Maria Rohm é uma morta que regressa à vida para dormir com o homem que a desejara e se vingar dos seus assassinos, Klaus Kinski, Dennis Price e Barbara McNair. De Istambul para o Rio de Janeiro: as imagens saturadas de vermelho e azul (até os olhos de Kinski), mortos revelados pelo movimento das águas, louras transformadas em morenas e música hipnótica com interlúdios de jazz são elementos com poder suficiente para seduzir um fã de David Lynch. Também é com Allan Towers que Franco se estreia em filmes ambientados em prisões de mulheres, sujeitas a violência física e sexual extrema, e com grandes doses de lesbianismo - habitualmente nomeados WiP (Women in Prison) films. Não foi ele que criou o género, mas deu uma grande ajuda para o seu estabelecimento, em 1969 com o grande sucesso público de 99 Women e uns anos depois com uma série de revisitações: Frauengefängnis (Barbed Wire Dolls, 1975), Greta - Haus ohne Männer (Wanda, the Wicked Warden, 1977), Frauen für Zellenblock 9 (Women in Cellblock 9, 1977), Frauen im Liebeslager (Love Camp, 1977) e Sadomania - Hölle der Lust (1980).
Durante a primeira metade da década de 1970, Franco realiza os seus filmes mais populares. Entre eles está Vampyros Lesbos, exemplar de uma forma de mise en scene que o realizador tinha vindo a experimentar ao longo dos anos e que vai indicar o seu trabalho futuro. As performances eróticas que antes aconteciam em clubes nocturnos e que apareciam pontualmente na primeira década da carreira, parecem agora contaminar por inteiro os filmes. Com a narrativa reduzida ao mínimo - surpreendente quando se trata de uma longa metragem -, a música é o mote para uma sucessão de longos actos performativos que os actores dirigem em frente à câmara, à qual cabe o papel de activar o olhar do espectador, ora mostrando, ora escondendo, numa sucessão interminável de zooms e de manipulações do foco. O resultado são atmosferas em fuga para a abstracção, que tanto seduzem os fãs, como afastam irremediavelmente os detractores. O apuramento deste método pode ser encontrado, já em plena década de 1980, no assombroso tour de force Gemidos de placer. Entre o fim de tarde e a madrugada, em cerca de quatro dezenas de planos de forma a induzir uma sensação de tempo real, cinco personagens deambulam por uma casa em repetidos encontros sexuais, sob o desígnio de Sade. Esta nova forma de organização dos filmes tornou-se possível com a ajuda de Soledad Miranda e de Rosa María Almirall Martínez que, não só tomam o lugar de Estella Bain, Janine Reynaud e Maria Rohm, como aceitam o olhar fascinado de Franco, de uma forma sem precedentes. É a declaração obsessiva de Franco pelos seus corpos que se tornará o motor de cada filme.

Soledad Miranda (e Christopher Lee) em Nachts, wenn Dracula erwacht (Count Dracula, Jess Franco, 1970)

Nascida em Sevilha, descendente de portugueses, Soledad Miranda vivia na zona de Lisboa, casada com um piloto de automóveis. Para proteger a vida familiar, nos filmes mais ousados adoptou a identidade de Susann Korda. Vampyros Lesbos é sua participação mais famosa no cinema, onde interpreta uma herdeira do conde Dracula, com uma predilecção especial por sangue de mulheres. Vampiros e amores entre mulheres eram temas explorados pela produtora inglesa Hammer nos filmes da Karnstein Trilogy, inspirados na personagem Carmilla, criada em 1872 por Joseph Thomas Sheridan Le Fanu. Em Vampyros Lesbos, o gótico da Hammer dá lugar a paisagens ensolaradas, casas de recorte modernista, aves exóticas, escorpiões e borboletas. À volta, o mar, mais uma vez, e a música de Manfred Hübler e Siegfried Schwab, que Quentin Tarantino homenagearia na banda sonora de Jackie Brown (1997). O ar enigmático de Soledad Miranda, com os olhos escuros impenetráveis e uma figura pálida, são a força do filme, levando um produtor alemão a mostrar vontade de celebrar com ela um contrato para vários filmes. Quando o documento está a ser preparado, Jess Franco recebe a noticia de que Soledad Miranda tinha falecido, em Portugal, num acidente de automóvel. Tinha vinte e sete anos e, premonitoriamente, no último filme em que trabalhou, Sie tötete in Ekstase (She Killed in Ecstasy, Jess Franco, 1970), morreria também num acidente de automóvel.
A ligação de Franco a Portugal não se resumia a Soledad Miranda e é aqui que arranja produtores e realiza filmes, muitos deles na ilha da Madeira: Il trono di fuoco (The Bloody Judge, 1970), Drácula contra Frankenstein (1971), Christina, princesse de l'érotisme (A Virgin Among the Living Dead, 1971), La maldición de Frankenstein (Erotic Rites of Frankenstein, 1972), Quartier de femmes (1972), Les Glutonnes (1973), Al otro lado del espejo (1973), Les démons (1973), La Comtesse Noire (Female Vampire, 1973), Maciste contre la reine des Amazones (1974), Un capitán de quince años (1974), Die Marquise von Sade (Doriana Gray, 1976) e Linda (1980), para além do já mencionado Necronomicon, entre muitos outros. Neste campo, um destaque para a polémica criada por Die Liebesbriefe einer portugiesischen Nonne (Cartas de Amor de Uma Freira Portuguesa, 1976), rodado em monumentos e com a participação de futuras vedetas nacionais. Os adjectivos, mau e pornográfico, utilizados para o descrever fazem parte de um mito que uma reportagem recente da SIC pouco fez por esclarecer. Não é um dos melhores filmes de Franco, mas foi penoso ver os jornalistas e as ditas estrelas a questionarem a qualidade do filme e mal agradecidos, sem terem em conta o culto internacional que lhe é dirigido. Jess Franco ficara bastante abalado com o desaparecimento de Soledad Miranda e inicia um período intenso de trabalho que se prolonga até à sua morte, parecendo querer levar à pratica a expressão "living for filming", atribuída a Orson Welles. Incomodado com a vigia da ditadura fascista, refugia-se fora de Espanha e chega a realizar cerca de dez títulos por ano, filmando três filmes ao mesmo tempo, com a mesma equipa de técnicos e actores e sem o conhecimento do produtor. Os próprios actores surpreendiam-se com a existência de cenas desligadas do resto da narrativa. Por esta altura, surge uma jovem actriz, Rosa María Almirall Martínez, que assinava os trabalhos com o nome de Lina Romay e se tornaria na nova musa. Para além de carnalidade, Lina Romay traz para o cinema de Franco uma boa dose de versatilidade, capaz de segurar o filme apenas com a sua presença - como em  La Comtesse Noire, que protagoniza e onde não fala -, como de brilhar em situações cómicas. É também com Romay que Franco se instala no hardcore, nem sempre por vontade própria, mas por imposição dos produtores, respondendo assim a uma abertura e curiosidade da sociedade por matérias relacionadas com o sexo. Dos filmes que assinou neste período efervescente destacam-se: La Comtesse Noire, Christina, princesse de l'érotisme, Mais Qui Donc A Viole Linda? (1973), Al Otro Lado Del Espejo, La comtesse perverse (1973) e Les possédées du diable. 
Em vários dos filmes da década de 1970, conforme o mercado onde é lançado, são criadas versões diferentes: comercial, softcore ou hardcore. Os inserts hadcore, tanto podem ser filmados por Jess Franco, como por técnicos indicados pelos produtores. Daí que, hoje, ver um filme seu implica sempre um bom trabalho de pesquisa e cruzamento de informação, pois existem muitas contradições, para perceber qual a versão mais adequada. Uma conclusão parece emergir depois do visionamento de tantas obras: quando os títulos não foram filmados nessa língua, as versões em inglês são sempre as dispensáveis, pois a dobragem chega a ser risível. Outra alternativa tentadora é visionar as várias versões, pois se há algumas onde os inserts, criados pelo produtor, estrangulam por completo o ritmo, em outros casos o novo material, filmado por Franco, adiciona novas camadas e cria resultados inesperados. De resto, há cortes e acrescentos em quantidades generosas, que não implicam apenas mudanças de âmbito sexual: em La comtesse perverse manteve-se o sexo e foram inseridas cenas cómicas para atenuar o canibalismo, considerado avançado para a época; na versão espanhola de Vampyros Lesbos foi substituida parte da música e cortada a performance picante de Soledad Miranda que abre o filme; de Mais Qui Donc A Viole Linda? foi produzida a nova versão Les Nuits Brulante de Linda com inserts hardcore filmados mais tarde por Franco, menos duas personagens e um dos eixo narrativos, e acrescentado um novo final; para Al Otro Lado Del Espejo foi criada uma versão italiana com novas cenas eróticas protagonizadas por outros actores, que estrangulam por completo a atmosfera; e, entre os casos mais célebres, a sequência de zombies a sairem da terra, que o talentoso Jean Rollin filmou para uma nova versão francesa de Christina, princesse de l'érotisme. Esta é também a época em que Franco passa a usar pseudónimos, para se proteger relativamente ao conteúdo erótico. Clifford Brown, James Lee Johnson, C. Plaut, A.M. Frank, James P. Johnson, David Khune, Jack Griffin, Dave Tough, Anton Martin Frank, Dan L. Simon, Roland Marceignac, James Gardner, Adolf M. Frank, Wolfgang Frank, J.P. Johnson, Frank Hollmann, Franco Manera,  Frank Manera e  J. Franco foram alguns dos alter egos que o acompanharam até ao fim da carreira.

Lina Romay em Die Marquise von Sade (Doriana Gray, Jess Franco, 1976)
A morte do General Franco traz a queda da censura e promove mudanças de costumes na sociedade, o que leva Jess Franco a regressar a Espanha para aí continuar a sua produção. É nesta altura que dirige uma avalanche de abordagens eróticas claramente causticas, algumas em tom de comédia, e revisitações a algumas das personagens que lhe deram fama, como Al Pereira, Eugénie e Orloff. Exceptuando grandes produções, como Operación cocaína ou Faceless, apenas conseguidas com a popularidade que ganhou com a distribuição internacional de títulos antigos em formato VHS, os filmes que dirige a partir de inícios dos anos 80 são de orçamento baixo e de equipas pequenas, em que a parte técnica chega a ser assegurada pelos actores. Anos depois, a utilização da câmara de vídeo viria completar o processo. Desta forma,  Franco sente-se livre dos produtores - Allan Towers, Daniel e Marius Lesoeur, Robert de Nesle, Erwin C. Dietrich e Kevin Collins - para se dedicar aos filmes que sempre quis fazer. Como antigo colaborador de Orson Welles, aceita o convite para finalizar Don Quijote (1992), projecto que o americano deixara incompleto. Envolto numa disputa legal sobre os direitos do filme, a Franco apenas é entregue parte do material de produção, pelo que tem de recorrer a excertos de um documentário antigo que Welles fizera para a cadeia televisiva italiana RAI. Don Quijote acaba por ter uma recepção muito fria quando estreia no Festival de Cannes, em 1992. O regresso de Jess Franco a Espanha é também um dos periodos menos estudados da sua cinematografia, uma vez que muitos títulos existem apenas em língua castelhana, sem a possibilidade de aceder a dobragem ou a legendagem, o que limita o acesso dos especialistas na sua obra - muitos deles de origem anglo-saxónica. Daqui resulta um grande desconhecimento ou a elaboração de visões parciais de um período com um volume de trabalho bastante significativo. Entre os títulos mais apreciados desta fase, encontram-se Eugenie (Historia de una perversión), El sexo esta loco (1980), Gemidos de placer, Macumba Sexual (1981), Sola ante el terror (1983), Faceless e Snakewoman (2005).
Com Al Pereira vs. the Alligator Ladies (2012), Jess Franco assina o seu ultimo filme. Estreia no Festival de Cinema de Sitges, na sequência de uma consagração institucional tardia. Em 2008, a Academia de Cine de España entrega-lhe o prestigiado Goya de Honor, justificando o prémio com a referência criativa que se tornara para as novas gerações de cineastas, dentro e fora de Espanha. Também nesse ano, a Cinemateca Francesa realiza uma grande mostra com cerca de sete dezenas de títulos. Quem assistiu, lamentou o estado de degradação das cópias, a contrastar com a qualidade superior das versões restauradas das edições de luxo em formato DVD e Blu-ray, que companhias americanas e europeias têm lançado nos últimos anos. Depois da fase de reconhecimento internacional durante o boom analógico do VHS, é pelo formato digital que se manifesta actualmente o investimento na recuperação da memória e uma nova vaga de interesse do público pelo trabalho deste criador incansável, que a Cinemateca Francesa classificou de poeta erotómano, experimentador louco e inspirado.

*Texto de Carlos Alberto Carrilho

A Trilogia do Crime de Fernando di Leo

Durante o boom dos anos 60 e 70, os produtores especializaram-se em filmes de acção que poderiam exportar facilmente, mesmo que isso significasse trabalhar em géneros que não fossem exatamente populares localmente, como os Westerns do cinema italiano. O argumentista e realizador Fernando Di Leo trabalhou com Sergio Leone nos primeirosspaghettis, e então, tentou a sua sorte numa enorme variedade de géneros, tendo os seus maiores sucessos com dramas eróticos e os filmes de crime conhecidos como poliziotteschi. Ao contrário dos westerns, os melhores filmes policiais italianos chegaram repletos de detalhes privilegiados, uma vez que se originavam na casa da máfia. Os filmes de gangster de Di Leo, tinham uma inclinação especial de esquerda, assumindo a corrupção política, e é claro que tinham pesados ​​elementos de exploitation.
A trilogia de Fernando di Leo está ligada pelo tema, e não pelo enredo. Nenhum destes filmes são obras-primas, mas têm um feeling emocionante, sobretudo nas sequências de acção. Luis Bacalov fez a banda sonora para todos, mas The Italian Connection, é o seu trabalho mais inovador, combinando elementos do velho mundo com música rock progressiva. Mas os filmes de Di Leo são principalmente distinguidos pela perspectiva sobre o poder, que critica o facilmente anulado "código de honra" entre os bandidos e a indiferença de uma força policial. No mundo de Di Leo, os homens fazem o seu próprio jogo, aprendendo a confiar apenas nas suas relações de sangue.
Tarantino foi muito influenciado pelo trabalho deste realizador, especialmente em Reservoir Dogs, e Pulp Fiction.



The Boss (Il Boss) 1973



Enquanto os jokesters irreverentes do Mystery Science Theater 3000 consideraram Henry Silva como o mais assustador homem vivo, não há como negar que ele foi um dos vilões mais intimidantes de sempre. Esse facto nunca foi mais evidente do que no filme de acção/crime italiano, The Boss. O veículo perfeito para a marca de Silva, de ter uma cara de pedra.
Ele interpreta Nick Lanzetta, o top dos assassinos/executores da família do crime D'Aniello. Acompanhá-lo num trabalho de sucesso, já em andamento, nos minutos iniciais do filme. Membros de alto escalão do clã rival, Attardi, estão a desfrutar de uma exibição privada de um filme porno quando Lanzetta interrompe a festa, disparando granadas de fuzil da cabine de projecção. (os seus métodos não são exatamente simples) Esta execução não só surpreende a polícia, mas deixa os membros sobreviventes dos Attardis furiosos, com sede de vingança. O executor dos Attardi Cocchi (Pier Paolo Capponi) jura destruir a família D'Aniello e pessoalmente matar Lanzetta peloque ele fez. A guerra entre gangs em larga escala parece inevitável.
The Boss e os outros títulos poliziotteschi são, na sua essência, exploitation movies - a violência e o crime predominam. A contagem de corpos é muito elevada, com a maioria dos personagens a aparecer morto no final, e as mulheres servem para qualquer um curtir. Mas o realizador Fernando Di Leo consegue manter um pé firmemente plantado na realidade. Nunca deixa a acção ir até ao topo, e se os personagens não são particularmente profundos são recortes, pelo menos não de papelão. Di Leo está interessado principalmente nas diversas classes de pessoas dentro da estrutura organizacional da máfia, desde o homem de mão do mais baixo nível, até ao topo do ranking, e como eles interagem. Parece especialmente fascinado com a forma como os homens que colocam como grande importância na honra e a lealdade, no entanto, podem trair-se uns aos outros num piscar de olhos, se o preço for justo ou os seus pescoços estiverem em perigo. Políticas e questões sociais são abordadas, mas é dada muito menos ênfase do que nos filmes de crime de Damiano Damiani, por exemplo, que estão principalmente preocupados com a corrupção do governo e quase completamente desprovidos de acção. Di Leo é mais comercial do que a mente, consciente de que o público que vai ao cinema em geral prefer ver um corajoso tiroteio ou uma bela mulher despida do que ouvir uma discussão prolixa de influências da máfia no Ministério da Justiça.  
O estilo visual de Di Leo é menos chamativo do que muitos dos seus contemporâneos italianos, empregando uma abordagem na realização relativamente simples. Além do ocasional de ângulo de inclinação, mantém as coisas bastante simples. Isso combina em "The Boss" muito bem. O ritmo acelerado vacila sempre que a história muda dos mafiosos para a polícia, representada por um comissário corrupto (Gianno Garko) e o seu administrador superior (Vittorio Caprioli); uma boa parte destas cenas não são realmente necessárias. A interpretação de Henry Silva como Lanzetta é um exemplo clássico de como a presença na tela de um determinado actor pode detalhar um personagem um pouco limitado. Ou friamente calmo ou regiamente chateado (aparentemente sem emoções), e o anti-herói niilista de Silva domina totalmente o filme. É um dos seus melhores e mais memoráveis​ papéis​.
Legendas em inglês.  

Link 
Imdb